Saturday, September 24, 2016

Protocolos controlados 
*
(por mais que
pareça, isso 
não é um poema;
é prosa onde
apertou-se
'entre'
antes da frase 
terminar)

I
Numa festa, ouço pessoas mais espertas que eu
discutirem, rindo,
a vulnerabilidade
das redes 

Pego nem metade do que falam,
mas queria. F
ico só encafifado
sabendo nada
e mexendo no celular
durante boa parte do tempo,
alternando entre aplicativos, fechando-os todos 
de vez em quando
A paranoia específica de estar todo metido
em algoritmos alheios
que nem se começa a entender como funcionam
(como um corpo
metido num império
metido num império)
além de que são caixas
com ações executáveis
Com suas próprias ações dentro;

termos, funções,
recursão; 
e vamo nessa

Resultando
em superfícies brilhosa
  e responsivas ao toque 
um olho de vidro
com pele
com as quais nos montamos agora - a nós mesmos e uns aos outros -
quase que querendo
ou não


II

mitos
também
vertem e revertem,
trocam termo por função,
e podem mudar as máquinas
(que se mudam, por sua vez,
em novos mitos

Zuckerberg lendo Virgílio
Jobs achando que entende o Tao;
Corso, ricorso, 
deuses há muito mortos
ainda doendo em nós
na contrição discreta
e contínua
dos seus gestos)

Peço a um dos espertos
que me explique algo,

uma criptóloga
sorri,
atém-se 
a ser críptica
(não à toa)

Tudo vaza, nada fica quieto nas bordas. 
Teu ruído é meu sinal,
ela diz
(e vice
versa, 
suponho)


III

enquanto a rede
prodigiosa, enorme, selva selvaggia 
com vários infinitos de tamanhos diferentes dentro
se desdobra em abas e abas, 
janelas em mise en abyme 
(postas 
em abismos
que se comunicam,
gritam um pro outro
como em lençóis
freáticos ou de tecido)
o mundo saturado
numa ampola,
pétalas e folhas da cebola

IV
E continuamos aê
e continuaremos, ao que parece
pelo futuro imediato, pelo menos,
a enfiar nossas cabeças
odiosa e odientamente
nas mandíbulas do inferno
em seus protocolos controlados