Monday, October 28, 2013

What are the signs of what?
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Quando a realidade de uma coisa se confunde inteiramente com a sua representação, fica muito difícil falar, a sério, exatamente, de verdade e mentira. Caetano Veloso estaciona carro no leblon não é, a princípio, falso, e só é ligeiramente mais ridículo, no fundo, do que qualquer outra notícia envolvendo celebridades (por escancarar o absurdo da estrutura de pseudoevento em si). A linguagem de manchete (assim como, digamos, a continuidade narrativa da novela e do brasileirão) produz realidade em massa, e menos atenção devia se prestar ao suposto conteúdo ideológico de um programa televisivo em comparação com o mero fato bruto estrutural dele ser todo sanduichado por vídeos bem produzidos de produtos e corpos a serem acoplados a uma auto-performance individual de consumidor (o que faz com que os programas em si sejam compreendidos da quase exata mesma forma, como corpos a serem desejados e esquadros cênicos a serem potencialmente consumidos, os dramas morais, assuntos polêmicos e peripécias dramáticas se desenrolando em cima como que no mudo, quase abstratos). Mitos são histórias que movem corpos e maquinário ao ficarem quietas nas suas estruturas de enunciação, metáforas visuais que viram assertivas de identidade, deuses que morrem todo dia, à tardinha. Isto é espaço público, isto é um vândalo. Esta é uma modulação social de corpo passível de violência estatal arbitrária, esta não. Realidades midiáticas cumprem a si mesmas (realizam a si mesmas). Distorted reality now a necessity to be freeUm império é um império é um império. A gente se vê por aqui.

Wednesday, August 14, 2013

Cambaxirra
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O Deus às vezes voltava pra casa onde nasceu para descansar. Pau Grande era uma cidade pequena, de três mil habitantes, ainda estava lá o campo batido onde ele jogou na sua infância e a fábrica onde ele trabalhou por boa parte da juventude (e da qual ele só não era despedido, toda semana, pelo seu desempenho nos jogos semanais da agremiação deles, que juntava os trabalhadores e alguns membros mais soltos da chefia). 

O povo sempre se reunia em torno da sua casa, quando ele estava lá, rapidamente se formando grupos de peregrinos, de comerciantes, de políticos locais tentando tirar fotos com Deus (embora ele não fosse capturável por nenhum aparato fotográfico conhecido, as distorções causadas por sua aura eram valorizadas por si mesmas, algumas delas bonitamente arroxeadas, formando padrões espirais; vendiam por muito caro nas feiras).

O Deus subiu a árvore e encontrou várias bananas gordas embarrigadas de várias cores, abertas com zíperes. Quem teria aberto as bananas?, ele se pergunta. Decide esconder as que sobram debaixo da cama, come ao longo da noite, quando não consegue dormir.

Sempre que ele voltava de uma temporada na capital e acordava pela primeira vez de volta ao seu quarto (que era o de infância, ainda, e não o dos pais falecidos), ele ouvia a voz do matia na sua janela, pendido no galho da arvore.

-Olá, divindade.

-Ola, matia, que saudade de você, você tá bem, quer fruta, meu bem.

-Obrigado, divindade, mas não

Eles conversam por horas, Deus conta de suas aventuras pelo mundo, de suas vitórias e das complicações, e o matia faz diversas perguntas que ele havia guardado durante todo esse tempo para lhe perguntar (aparentemente),

(Algumas dessas perguntas são:

-Como os suecos se portaram diante de vossa majestade?
-não sei, não, matia
-Como se lhe afiguraram as potestades da antiga Oirrópa?
-deixa de besteira, matia
-De que forma a vossa divindade pretende transfigurar a sua esfera representativa de modo a alcançar sua plenitude expressiva?
-matia seu bestalhado)


*

O primeiro a reconhecer Deus na sua forma presente foi a Enciclopédia. Eles estavam juntos um dia jogando de forma descompromissada com amigos  quando determinados sinais auspiciosos se fizeram rasgar dentro da Enciclopédia, que soube recuperá-los devidamente, entretê-los em sua matéria simbólico-representativa e trazê-los para as devidas mídias expressivas.

-Aquele ali é um Deus, disse a Enciclopédia, baixinho. Ninguém ouviu.

A Enciclopédia saberia que ninguém acreditaria nele naquele momento, embora todos soubessem das ambiências em que ela habitava e respeitassem a sua extrema e bem-manejada doutice. O relato entusiasmado mas comedido que fez foi o bastante para botarem na divindade uma traja com denominação heráldica adequada e lhe trazerem para a capital jogar em runas devidamente sacramentadas. Foi examinado por uns senhores de chapéu no vestiário, após o primeiro jogo, um deles, com óculos redondos, rindo, disse em voz baixa que Troglodytes musculus era de fato bem adequado. 

Alguns o chamavam de gênio, apenas, e se recusavam a reconhecer a sua divindade, mas isto quase nunca subsistia a uma manifestacao autentica Dele, ao vivo. Nunca se ouviu dizer de alguem que testemunhasse o Deus e nao tivesse apresentada com todos instrumentos intelectivos a sua presença perfeitamente renderizada, sua qualidade divina forçosamente reconhecida.

O Deus dança os sucessos em discos que chegam trazidos como presentes por peregrinos. Gosta de músicas de ritmo arrojado e dança por tantas horas que causa comentários por parte de Dona Herminda, que diz que "tão dançando tanto que é um deus nos acuda". O Deus não sabe o que significa "acuda", mas em resposta decide, de brincadeira, copular com alguns dos presentes, o que é recebido com muito alarde.

O Presidente chamou o Deus para conversar algumas semanas atrás, no Palácio do Governo, numa sala com várias rendas cobrindo o que pareciam ser docinhos ou bolos de queijo, e quadros escondidos com panos mudos empoeirados. O Deus suspeita que algumas das imagens cobertas devem ser de índios bravos ou marechais cruentos. Ele não distingue muito bem entre a braveza de soldados ou de índios, entende que são todos selvagens que atiram e comem gente. Ele gostava dos cangaceiros e dos bombeiros. O presidente vinha do sul, terra que o Deus não respeitava, e era careca. Ele falou de forma muito comprida das responsabilidades havidas diante da nação, de como era importante para o povo o prestígio e o orgulho cívico diante da nossa escrete. O Deus gosta de bandeiras, vê uma quieta no canto que o deixou muito constrangido. Prometeu que ia parar de comer doces e talvez até treinar direitinho.

O Deus não conseguia ver o seu reflexo no espelho (a não ser de vez em quando, quando ele tava bebado e sonolento, que a sua presenca fraquejava, piscando em luz capturável por alguns instantes). Ele queria poder confrontar a sua propria figura inteira,  de uma só vez, como conseguia ver dos outros. A sua figura inteira oferecida daquele jeito provavelmente seria desagradável, meio troncha, e o motivaria a comer menos doces e emagrecer.

O membro do Deus era muito grande, correndo por suas pernas como algo terrível. Dizem os eruditos que quando perfeitamente ereto ele se tornava uma visão tão formidável e extraordinária que poucas mentes eram capaz de compreendê-la ou sequer inteirá-la enquanto mera rudeza sensorial, em toda sua intentio avassaladora. 

Não conseguir inteligir o membro devidamente, ao que diziam, significava o começo de uma crise de suas faculdades imaginativas da qual dificilmente se sairia ileso. Num jogo com o Vasco onde um jogador novo e muito matreiro (Dindo, o "Diabo Loiro") puxou o calção do Deus, revelando o seu membro ali enrodilhado, conta-se que diversas senhoras pularam imediatamente da marquise do Maracanã.

-Não é que ele chegasse a ser prêensil, mas era quase.
-Não chegava por pouco.
-Muito pouco, mesmo. 

Um dia, treinando, o Deus conheceu um menino que, como ele, parecia habitar mais de um plano ao mesmo tempo. Foi a Enciclopédia que cuidou para que eles se encontrassem, o Deus descobriu. Eles conversaram daquela maneira com que o Deus conversava às vezes com árvores e com o matias, com cores e formas que se antojavam de forma muito engraçada, dentro de tudo, antes que ele as entendesse. Ele gostou do menino, mas o menino não parecia gostar dele, ficava olhando de longe meio invejoso. Ele parecia ter conquistado à força aqueles manejos todos que o Deus tinha por direito, como alguém tem um dedo ou uma orelha. O Deus deu uma banda nele, durante o treino, de brincadeira, pra que ele ficasse tranquilo. Ele não ficou tranquilo.

O Deus é levado de terno para um concerto na televisão onde ele encontra Gilberto Gil e Caetano Veloso. Um deles está vestido como um general da pá virada e o outro o Deus nem saberia como descrever, parecendo uma moça boba e engraçada. Os dois falam de coisas confusas, abraçam o Deus, riem muito e dão para o Deus um cigarro que faz com que ele converse com muitas coisas. Ele fica com saudade, por um instante, do Matia, e logo que ele tem essa saudade o Matia se apresenta.

-Oh. Olá, divindade.
-matia, eu nao sabia que voce tava aqui!
-Eu nao estava, divindade. Você me invocou.
-que alegria, matia
-não rime, divindade, eu já lhe falei o que acontece quando vossa divindade rima.
-desculpa, matia.

O Deus não entendeu o que isso queria dizer, e por muito tempo olhou para a cara do Matia enquanto ele falava de varias coisas, de planos e instâncias e participações e coisas muitíssimo engraçadas de tão pouco sentido que faziam (quase nenhum, mesmo). O Deus se distraiu por um instante, conversando com outras coisas que lhe apareciam, moças e cidades e pianos e casinos que ele via em filmes e revistas ilustradas, ursos brancos empalhados e carros vermelhos onde o Deus fala inglês muito bem e todos riem de tudo que ele fala. Lutou com vários homens de macacão cinzento enquanto subia uma torre de aço e vidro enorme cheia de luzes. 

Desdobrou seus ombros em vários homens cinzentos sem querer num campo comprido, infinito, de grama rareada mas muito verde, como que pintada, e ele driblava todos eles por um tempo enorme, que não parecia terminar, e varava eles em figuras e padrões nunca antes imagináveis, mas de algum jeito sempre fazendo quase que a mesma coisa, um mesmo gesto perfeitamente executado, até que finalmente ele achou que havia encontrado o Gol. Mas era um gol diferente. O Deus não conseguia entender como que essa diferença funcionava. Ele parecia ser um gol normal, talvez um pouco mais largo, apenas, mas a atenção do Deus estava carregada dele de um jeito que era novo e estranho, as bordas de tudo acendidas. O goleiro era uma aranha soviética (que prestando atenção revelava-se estar de bonezinho).

O Deus nao tinha nem mais nem certeza se fazer aquele gol era bom ou mau.

Ele parou no canto do que parecia ser a área, ou um equivalente da área num outro plano qualquer de individuação, tinham vários quadrados sobrepostos, os esquadros tremiam, instáveis em suas molduras. O mundo. O Deus se viu jogando pelo Alecrim, triste, velho e barrigudo, puxado pra baixo, saindo de suas costas, bem quando os homens cinzentos estavam se aproximando de novo, um senhor numa sala refrigerada apontando um ponto vermelho numa tela e dizendo que A carcaça do telefone encapsula todas essas funções em suas teclas . Ele driblou mais uns vinte deles da exata mesma maneira e correu para o outro canto.

-Forma das formas
-simplesmente inesquecível
-literalmente show de bola

O Deus então lembrou de uma música que tinha ouvido naquele dia várias vezes com seis de seus filhos, uma da qual ele tinha gostado muito por ser ao mesmo tempo animada e bonita (as músicas, para o Deus, se distinguiam principalmente entre animadas e bonitas, sendo raríssimo, e muito formidável, quando acontecia de uma única música ser as duas coisas ao mesmo tempo).

Porque a bagunça que eu fiz, ma-chuca-do, bagunça que eu fiz tão calado, foi dentro do meu co-ração

O Deus não conseguia entender muito bem o que dizia, mas a frase lhe veio inteira perfeitamente recuperada, como uma moeda encontrada num bolso, um brócolis entre dentes. E assim que percebeu que conseguia recuperar a frase toda em sua sucessividade melodiosa, acontece que não só a musica inteira mas todos seus executores de repente se apresentavam ali na sua frente, inclusive o general preto. O Deus ficou muito contente, e dançou com varias moças que logo apareceram para se juntar a eles, bandeiras de várias cores drapejando em torno. 

Alguns dias depois, o Deus se lembrou do gol. A bola ainda estava nos seus pés, o seu couro amassado ali imóvel enquanto seus pés mexiam em volta dele. O Presidente apareceu mais uma vez do seu lado, com um espelho enorme carregado por índios pelados. Ele se envergonhou, pensou no matia, mas pensou errado, e apareceu algo que não era o matia, que era muito parecido mas que era de algum jeito o contrário do matia. O Deus pegou o matia errado nas mãos e o esmagou, com calma, sem olhar para o estrago, a cara virada pro outro lado, sentindo uma estrutura cedendo, esfregando os dedos na massa logo disforme, molhada, dizendo

-falso, filho da puta, falso, sai daqui, sai, filho da puta

Monday, August 05, 2013

O Balão,
Donald Barthelme
(vo: The Balloon, em: Unspeakable Practices, Unnatural Acts, 1968)

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O Balão, começando num ponto na rua Quatorze, cuja exata locação eu não posso revelar, expandiu todo em direção ao norte uma noite, enquanto as pessoas estavam dormindo, até alcançar o Parque. Ali, eu o parei; de manhã cedo as bordas mais ao norte pendiam sobre o Plaza; o movimento pendendo livre era frívolo e gentil. Mas experimentando uma irritação leve ao parar, mesmo que para proteger as árvores, e vendo nenhuma razão para que o balão não pudesse expandir pra cima, sobre as partes da cidade que ele já estava cobrindo, até o “espaço aéreo” a ser encontrado lá, eu pedi aos engenheiros que cuidassem disso. Essa expansão ocorreu ao longo da manhã, um suspirar leve imperceptível de gás através das válvulas. O balão então cobriu quarenta e cinco blocos norte-sul e uma área irregular leste-oeste, chegando a seis blocos atravessando a cidade em qualquer dos lados da avenida, em alguns lugares. Essa era a situação, então.
Mas é errado falar de “situações”, implicando conjuntos de circunstâncias levando a alguma resolução, algum escape de tensão; não haviam situações, apenas o balão pendurado lá - cinzas e marrons pesados mudos na sua maior parte, contrastando com amarelos leves e avelã. Uma falta deliberada de acabamento, melhorado por instalação habilidosa, dava aa superfície uma qualidade rude, esquecida; pesos deslizando por dentro, cuidadosamente ajustados, ancoravam a massa grande, multiforme em vários pontos. Agora nós tivemos uma enchente de ideias originais em todas mídias, trabalhos de beleza singular tanto quanto marcas significativas na história da inflação, mas naquele momento tinha apenas aquele balão, concreto particular, pendurado lá.
Tiveram reações. Algumas pessoas acharam o balão “interessante”. Como resposta isso parecia inadequado aa imensidade do balão, a brusquidão de sua aparência sobre a cidade; por outro lado, na ausência de histeria ou outra ansiedade socialmente induzida, deve ser julgada como calma, “madura”. Havia uma certa quantidade de argumentação inicial sobre o “sentido” do balão, isso arrefeceu, porque aprendemos a não insistir em significados, e eles são hoje até raramente procurados , exceto em casos envolvendo os fenômenos mais simples, mais seguros. Havia-se concordado que já que o sentido do balão não podia jamais ser sabido absolutamente, discussões extensas seriam a troco de nada, ou menos propositadas que as atividades daqueles que, por exemplo, penduravam lanternas de papel verdes e azuis do lado quente e cinza de baixo, em algumas ruas, ou aproveitavam a ocasião para escrever mensagens na sua superfície, anunciando a sua disponibilidade para a performance de atos inaturais, ou a disponibilidade de conhecidos.
Crianças ousadas pulavam, especialmente naqueles pontos onde o balão flutuava perto de um prédio, de modo que o intervalo entre balão e prédio fosse uma questão de poucos centímetros, ou pontos onde o balão de fato fazia contato, exercendo uma pressão bem de leve contra o lado de um prédio, de modo que balão e prédio pareciam uma unidade. A superfície de cima era estruturada de forma a apresentar uma “paisagem”, pequenos vales tanto quanto ligeiros montinhos, ou acúmulos; uma vez em cima do balão, um passeio era possível, ou até uma viagem, de um lugar pra outro. Havia prazer em ser capaz de correr uma inclinação abaixo, daí a inclinação oposta acima, as duas gentilmente seccionadas, ou em dar um pulo de um lado pro outro. Quicar era possível, por causa da pneumaticidade da superfície, e até cair, se esse era o seu desejo. Que todos esses movimentos variados, tanto quanto outros, estivessem dentro de suas possibilidades, ao experimentar o lado de “cima” do balão, era extremamente excitante para crianças, acostumados com a pele plana, dura da cidade. Mas o propósito do balão não era divertir crianças.
Também o número de gente, crianças e adultos, que tiraram vantagem das oportunidades descritas não era tão largo quanto poderia ter sido: uma certa timidez, falta de confiança no balão, era vista. Havia, ainda mais, alguma hostilidade. Porque havíamos escondido as bombas, que alimentavam hélio pro seu interior, e porque a superfície era tão vasta que as autoridades não conseguiam determinar o ponto de entrada - isto é, o ponto no qual o gás era injetado - um grau de frustração era evidenciado por aqueles oficiais da cidade em cujas províncias esse tipo de manifestação geralmente caía. A aparente falta de propósito do balão era envergonhante (assim como era o mero fato dele estar “lá”). Tivéssemos pintado, em letras grandes, “TESTES DE LABORATÓRIOS PROVAM” ou “18% MAIS EFETIVO” nos lados do balão, essa dificuldade teria sido evitada. Mas eu não consegui tolerar fazer isso. No todo, esses oficiais eram notavelmente tolerantes, considerando as dimensões da anomalia, essa tolerância sendo o resultado de, primeiro, testes secretos sendo conduzidos a noite que os convenceram de que pouco ou nada poderia ser feito na direção de remover ou destruir o balão, e, segundo, um calor público que surgiu (não descolorido de toques da hostilidade já mencionada) em direção ao balão, de cidadões normais.
Como um único balão pode representar uma vida inteira de pensar sobre balões, então cada cidadão expressava, na atitude que escolhia, um complexo de atitudes. Um homem podia considerar que o balão tinha a ver com a noção arruinava, como na frase O grande balão arruinava o que de outra forma seria o céu claro e radiante de Manhattan. Isto é, o balão era, na visão desse homem, uma impostura, algo inferior ao céu que estava lá anteriormente, algo interposto entre as pessoas e o seu “céu”. Mas na realidade era janeiro, o céu tava escuro e feio; não era um céu para o qual dava de olhar pra cima, deitado nas suas costas na rua, com prazer, a não ser que prazer, pra você, procedesse de ter sido ameaçado, de ter sido mal utilizado. E o lado de baixo do balão era um prazer de se olhar, tínhamos cuidado disso, cinzas e marrons mudos na maior parte, contrastado com avelã e amarelos leves, esquecidos. Então, enquanto esse homem pensava arruinava, ainda havia uma mistura de cognição prazerosa no seu pensamento, brigando com a percepcão original.
Outro homem, por outro lado, poderia ver o balão como se fosse parte de um sistema de recompensas não esperadas, como quando um empregador entra e diz, “Aqui, Henry, tome esse pacote de dinheiro que eu embrulhei pra você, porque você esteve se saindo tão bem nesse negócio aqui, e eu admiro muito a maneira com a qual você machuca as tulipas, sem cujos machucados o nosso departamento não seria um sucesso, ou pelo menos não o sucesso que ele é.” Para esse homem o balão pode ser uma experiência “músculo e ginga” brilhantemente heróica, mesmo que uma experiência mal compreendida.
Outro homem pode dizer “Sem o exemplo de ------, é duvidoso que ------ existiria hoje na sua forma presente”, e encontrar muitos pra concordar com ele, ou pra discordar dele. Ideias de “inchaço” e “flutuagem” foram introduzidas, assim como conceitos de sonho e responsabilidade. Outros engajaram-se em fatasias marcadamente detalhadas tendo a ver com um desejo ou de se perder no balão, ou de engoli-lo. O caráter privado desses desejos, ou suas origens, profundamente enterradas e desconhecidas, era tal que deles não se falava, no entanto há evidência de que eles eram bem comuns. Era também argumentado que o que era importante era o que você sentia quando ficava de pé debaixo do balão, algumas pessoas diziam que se sentiam protegidas, aquecidas, como nunca antes, enquanto inimigos do balão sentiam, ou reportavam sentir, constrangimento, um sentimento “pesado”.
Opinião crítica se dividia:

“enchentes monstruosas”
“harpa”
XXXXXX “ certos contrastes com porções mais escuras”
“alegria interna”
“cantos largos, quadrados”
“eleticismo conservador que até hoje tem governado
o design de balões”

:::::::::::::::::: “vigor anormal”

“trechos quentes, preguiçosos”
“Terá a unidade sido sacrificada por uma qualidade esparramada?”
“Quelle catastrophe!”
“laricando”

As pessoas começaram, de uma maneira curiosa, a se localizar em relação a aspectos do balão: “Eu estarei naquele lugar onde ele mergulha abaixo na rua Quarenta e Sete quase até a calçada, perto da Casa Alamo Chile,” ou, “Porque não vamos ficar no topo, pegar um ar, e talvez andar um pouco, onde ele forma uma linha apertada, curvando com a façada da Galeria de Arte Moderna-” Intersecções marginais ofereciam entradas dentro de uma certa duração de tempo, assim como “trechos quentes, preguiçosos” nos quais... Mas é errado falar de “intersecções marginais”, cada intersecção era crucial, nenhuma podia ser ignorada (como se, andando lá, você não pudesse encontrar alguém capaz de virar sua atenção, num relance, de velhos exercícios para novos exercícios, riscos e escalações). Cada intersecção era crucial, encontro de balão e prédio, encontro de balão e homem, encontro de balão e balão.
Era sugerido que o que era admirado sobre o balão era finalmente isso: que ele não era limitado, ou definido. As vezes uma protuberância, bolha, ou sub-seção carregava todo pro leste até o rio num mapa, como visto num quartel-general remoto da luta. Então aquela parte seria, como se diz, jogada de volta, ou se retrairia até novas disposições; a manhã seguinte, aquela parte teria feito outra sortie, ou desaparecido de todo. Essa habilidade do balão de trocar sua forma, de mudar, era muito agradável, especialmente para pessoas cujas vidas eram bem rigidamente padronadas, pessoas para quem mudança, embora desejável, não estava disponível. O balão, durante os vinte e dois dias de sua existência, oferecia a possibilidade, em sua randomicidade, de extravio do senso de si, em contradistinção com a grelha de caminhos precisos, retangulares debaixo dos nossos pés. A quantidade de treinamento especializado atualmente necessária, e a consequente desejabilidade de comprometimentos de longo prazo, foram ocasionados pela importância constantemente crescente de maquinaria complexa, em virtualmente todo tipo de operação; enquanto essa tendência cresce, mais e mais gente vai se virar, em inadequação deslumbrada, em direção a soluções para as quais o balão pode ficar como protótipo, ou “rascunho tosco”.
 Eu encontrei você debaixo do balão, em ocasião do seu retorno da Noruega; você perguntou se era meu, eu disse que era. O balão, eu disse, é uma revelação autobiográfica espontânea , tendo a ver com o desconforto que eu senti na sua ausência, e com privação sexual, mas agora que a sua visita ao Bergen foi terminada, não é mais necessário ou apropriado. Remoção do balão era fácil, caminhões trailer carregaram pra longe a fábrica esvaziada, que agora é armazenada em West Virginia, esperando algum outro tempo de infelicidade, algum tempo, talvez, em que estivermos bravos um com o outro.

Tuesday, May 14, 2013

Esse blog finalmente
-
mor-
reu!*

*Mas já correm rumores que Capn` Kirk logo voltará em outra mídia e artefatos holográficos (cortesia da ****, SEGUROS E INDENIZAǘOES SANTOS B**T0F*G*)

Para quem sempre leu, foi bróder e não trollou excessivamente (ou se trollou excessivamente, o fez com os falcões lisura e candor devidamente enovelados) um 1,2,3 salve todos,

pro outro lado só digo com as pedras da sua inveja construo meus catelo

Descoberta que vira tique que vira tremelique desajeitado e desnecessário, as água sempre acabam, vlw mãe.

&todomundoagora

epelo menos, as pontes que etc

*clvnkleinsigh*


Sunday, May 05, 2013

POLSKA APPREZIATTIONI!



maio é mês da cultura polonesa! 
Malinowski!
Conrad!
Lelesk Kolakowski!
Bruno Schulz!
Aaaah, Polônia!
assim como
o etnólogo, 
egiptólogo,
(quando aparece
`egiptólogo`
você já sabe
que a lista 
vai ser ótima)
linguista, aventureiro
e autor popular
do Manuscrito Encontrado em Saragoça
conde Potocki comédia dos mais comédia


encontrável
até hoje,
pelas terras brasileiras,
nos seus melhor sebo sem-vergonha,
valeu Polônia,
assim como valeu
por várias outras pessoas
que ou não conheço
ou por quem não nutro
sentimentos
tão particulares 
(e que mereçam,
portanto, menção
públicamente
verificável)
mas principalmente
valeu pelo
Zbigniew, 
primo do George
pelo Sr. Cogito
que são os dois muito fera 



Sunday, April 21, 2013

TEMOR Y TEMBLOR
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Let us try another method of differentiation. A voluntary action can be commanded. If someone says `Tremble` and I tremble I am not obeying him - even if it tremble because he said it in a terrible voice. To play it as obedience would be a kind of sophisticated joke (characteristic of the Marx Brothers) which might be called playing `language-games wrong`.
(G.M. Anscombe)

Tuesday, February 19, 2013


  • O SEU MUNDO AGORA



  • Ele acompanhava as notícias do mundo diariamente, suas peripécias formidáveis como as de uma novela, dramas sustentados e resolvidos em linhas narrativas tão bonitas e bem montadas, com personagens carismáticos recorrentes, temas e padrões reconhecíveis. Os países se envolviam nas mais diversas confusões, se enamoravam e traíam uns aos outros, sofriam ataques do terrorismo internacional, se endividavam, entravam em guerra, irrompiam em insurreições nas suas comunidades étnicas. Tudo ele acompanhava e discernia com extremo gosto e interesse, comendo na frente da televisão um penne feito só na manteiga e bebendo guaraná quase congelado, com as cristalizações quebradiças sentidas na sua língua e garganta.
  •         Além dos quatro telejornais que ele assistia todo dia, tudo isso era observável nos dois jornais que ele recebia na sua porta todo dia (A Folha e O Globo) e ainda na internet, que ele acessava com dificuldade, a cabeça reclinada ligeiramente pra trás para que seus óculos de leitura melhor antojassem ali a tela em todas suas agitações coloridas.
  • A multitude desgovernada da internet era confusa, muito facilmente dispersa em janelas estranhas com promoções de viagem e moças peladas, em gente pedindo que você concordasse com os termos de um contrato e preenchesse um formulário, mas ele quase sempre conseguia se ater a determinados caminhos conhecidos da página do seu provedor, roteiros aprendidos que já continham todo um mundo de notícias e vídeos relevantes provenientes do mundo todo, parecia já quase inesgotável. Ele recebia ainda de alguns netos de vez em quando emails com apresentações de slide do Powerpoint mostrando ilusões de ótica, frases inspiradores, fotos de Paris, prodígios da engenharia oriental, animais fazendo caras engraçadas.
  •         O problema da internet era nunca parar, ao contrário dos telejornais e dos jornais impressos, cujas assertivas tinham toda uma circunstância, uma gravidade confortável que acontecia em momentos específicos ou em seções espacialmente delimitadas. Eles pareciam encerrar contidos mundinhos apreensíveis todo o dia, apresentar os desenvolvimentos diários do Mundo de maneira absoluta e breve, deixando você tranqüilo e suspenso até o dia seguinte. A internet não. Na internet era só você entrar de novo no mesmo site quinze minutos depois e já apareciam ali umas vinte coisas novas, que por sua vez estabeleciam novas relações a eventos anteriores, abrindo sistemas de relação que nunca se fechavam, nunca terminavam, com notícias antigas sugeridas no pé da página. Polícia impede explosão de bomba em escola na Flórida, Contratos de futuros de cacau fecham em alta, Autoridades inglesas tentam domar o poder das redes sociais. Ele tenta imaginar todas essas coisas como eventos, como cenas cinematográficas montadas por algumas poucas pessoas trocando frases dramáticas e fazendo cara de sério. Segurança de Obama é preso por dirigir supostamente bêbado.
  • Com as paredes da sua cabeça progressivamente porosas - as coisas quase como que derretendo gentilmente, com contornos mais simples e amigáveis como os traços de um desenho animado - ele começava a entender o mundo como uma extensão sua. Se tudo que ele enxergava parecia estar dentro da sua cabeça, aparecendo-se-lhe através dos seus olhos e de suas ferramentas intelectivas de recriação, tudo narrado pela sua voz em primeira ou terceira pessoa, isso devia significar que o mundo acontecia ali dentro.
  • Essa impressão – que ele sempre teve com muita força desde criança – agora ganhava corpo literal, endurecia como um fato público e verificável, até trivial. O mundo acontecia ali na sua cabeça. E era prodigioso e formidável que tudo aquilo acontecesse dentro dele, através dele. Ele sentia um enorme orgulho por tudo que as gentes do mundo conseguiam realizar, como se todos fossem seus filhinhos queridos, todos engendrados e realizados através de seus instrumentos, acessando elementos seus distantes e recombinando-os em maravilhosas formações que ele acessava o dia quase todo. Americana quer se tornar mulher mais gorda do mundo. Chile quer dobrar vítimas do regime de Pinochet.
  • Isso eventualmente transbordou para além dos momentos em que ele acessava as notícias, eventualmente transbordou para todas outras esferas de sua vida, agora imbuídas de analogias globais extraordinárias, de relações macrocósmicas imprevisíveis. Derrubando leite em si mesmo, no seu suéter bege e no carpete (o cheiro progredindo com os dias em estágios cada vez mais grosseiros e maleducados), cortando o canto do seu queixo ao se barbear, ele podia enxergar as populações dizimadas, a destruição, as colheitas perdidas. Todo cuidado era necessário com o seu próprio corpo e com o seu apartamento, com os seus pensamentos e sonhos, que eles não causassem desastres naturais e conflitos étnicos ao redor do mundo.
  • E ao mesmo tempo que tantas responsabilidades extraordinárias se instalavam na sua vida, o mundo ficava mais misterioso, cheio de lacunas inexplicadas, de saltos. Ele acordava de repente e já era quase cinco horas da tarde, ele de camisa sem cueca no sofá, com farelos inexplicáveis de biscoito depostos nos pelos das pernas. Ou ele se percebia de repente sentado no ônibus chegando no Setor Bancário Norte, um papel na mão escrito ‘Cristovão 17h’.
  • A crise financeira mundial de 2008 ele entende como inextricável à uma série de dores de cabeça pontiagudas e incisivas que ele teve durante duas semanas, e que ele não soube compreender da maneira adequada, integrar dentro de um sentido maior (não conseguindo, portanto, desdobrar-se em ações eficientes e agéis em pontos globais estratégicos que podiam muito bem ter evitado aquela confusão toda!).
  • Mas todos os dias havia também aspectos positivos a serem ressaltados, é claro. Iniciativas populares de coleta seletiva de lixo no México, escolas públicas excepcionais no Ceará capitaneadas por duas professoras fervorosamente dedicadas, um novo aeroporto no Japão projetado de maneira inteiramente amigável ao meio-ambiente, um povoado na Rússia todo empreendido em fazer a maior colcha de retalhos da história. O mundo se desdobrava em atualidades válidas e esforçadas, gentes tumultuando dentro dele com ímpetos renovados e incansáveis, querendo criar empregos e lhe mostrar suas danças típicas, suas broas de milho, suas indecorosamente bem-fornidas filhas solteiras. Ele podia senti-los formigando como membros fantasmas vários, múltiplos, tentáculos se agitando em extensões desprendidas, levantando torres com cordas e roldanas, mudando o curso de rios, escrevendo manuais sobre pós-estruturalismo, alfabetizando idosos.
  • Ele se multiplicava nessa quantidade irisada de gentes até se esgarçar, quase deixando de existir, sua própria voz no meio das outras deixando de ser especial, indistinta, substituída pelas tantas sobrepostas, por crianças mongóis brincando com cabras numa planície, homens turcos terminando um xingamento desnecessariamente comprido numa arquibancada de futebol, publicitárias francesas provando um pouco da salada uma da outra. Ele acordava desses longos, quase intermináveis transes, que pareciam às vezes durar semanas, dessas habitações distantemente figuradas e tão específicas, com sua casa escura e o jornal acumulado na porta, a garganta dolorosamente seca, sua própria voz irreconhecível. Ele tentava reunir suas forças, agrupar suas extensões esparramadas, instrumentalizar ali aquele braço pesado pra preparar alguma coisa pra comer na cozinha, abrindo gavetas a esmo, mas urgiam tantas outras coisas mais importantes, tantas responsabilidades, tantos outros lugares. Rebeldes ampliando o cerco a Tripoli e isolando Khadafi, ativista indiano fazendo jejum em protesto, o ator Gerard Depardieu fazendo xixi no meio de um avião. Tudo isso ao mesmo tempo, estourando em clímaces sucessivos ritmados por uma formidável trilha sonora, ganhando coesão, estrutura, se resolvendo num único padrão total, um sistema que a qualquer momento agora incluiria todos os outros sistemas. A data de validade do guaraná não fazia muito sentido e lá fora guinchavam crianças ou carros ou bichos.


Wednesday, January 02, 2013

Um post muito legal com vários pequenos assuntos que devem, no seu conjunto, entreter a toda família brasileira
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Tem pelo menos uns cinco anos que o utube me recomenda na barrinha ali à direita um vídeo chamado "o melhor imitador no programa do jô". No quadradinho, dá pra ver a imagem de um bróder qualquer sentado do lado do Jô Soares. Nunca que o vídeo que eu estou vendo tem qualquer relação apreciável com a nuvem de tags imediatamente retraçável a partir desse título. E no entanto o Googole continua tendo certeza que o vídeo me cabe, continua insistindo. 


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O Barba Ensopada de Sangue rendeu uma ou outra comparação com o Cormac Mccarthy pelos diálogos diretamente metidos no texto, mas ninguém apontou o tanto que o livro parece querer ser influenciado por Suttree

 O livro tem alguns defeitos chatos, principalmente quando tenta sair da crueza material e direta do personagem principal e traficar estofo temático-intelectual em personagens secundários (uma mulher conversando do nada sobre mitos com um completo estranho, discursos budistas esparramados e insistentes). Mas o estilo do Galera melhorou uns litros, e nos seus melhores momentos, aqui, consegue ser a melhor prosa realista  escrita no Brasil em algum tempo, acho*. 

prosopagnosia do protagonista, aliás, é o único caso de disfunção neurológica em ficção que eu conheço que não desanda pra alegoria facinha. 

Não sei o que achar do final. Tava gostando mais do livro antes dele querer se amarrar (ainda que ele não chegue a se amarrar muito firme).

É uma pena que ele tenha sido recebido com resenhas tão imbecis (e com aquela matéria retardada do Conti na Piauí, que não sabe se quer ser um release ou um perfil mais ou menos sério). Muita gente recebe só a reverberação, os ecos falsos e retardados em volta, e acham que estão julgando o troço-em-si.


*O que, infelizmente, não é nenhum feito assim de outro mundo, considerando que nenhum dos nossos bons escritores vivos é grande estilista. Impressionante como somos humilhados pelos portugueses nisso. Lobo Antunes, Saramago, mesmo um Gonçalo Tavares dá surra de pau mole estilística em qualquer Bernardo Carvalho, Serjão Sant'anna e etc. O Soares Silva é melhor estilista do que o Galera, por ex., mas não dá vontade de chamá-lo de realista (sei lá o que ele é). 


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O novo disco do Caetano é bem legal. Principalmente a primeira música, onde ele diz que o João Gilberto transformou as tristes raças brasileiras no Anderson Silva e no Minotauro. E o comédia me tem setenta anos. 



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NW é o melhor romance da Zadie Smith até hoje. Mas é, estranhamente, um livro menor que a soma de suas partes. Querendo pagar de romanção-que-tudo-narra, ele aponta para uma unidade formal e uma tapeçaria de interrelações entre seus personagens que nunca chega a se adensar de verdade. 



A melhor coisa do livro, quase todo mundo parece concordar, é o trecho que acompanha Natalie/Keisha, a menina esforçada que sai do seu bairro problemático pra virar adevogada. É um dos poucos exemplos de ficcionista se metendo com mundo-real (QUESTÕES DE RAÇA e coisas) com esperteza e distanciamento retórico adequados. U go, fia. 

Essa parte do livro toda acontece com pequenas seções encabeçadas por títulos semi-crípticos. Há graça com enciclopedismo e com organização de informação, a Zadie Smith sempre gostando de encaixar seu realismo em moldes espertos. Mas não há exatamente histeria aqui, o excesso maníaco por detalhes e caracterizações. A voz é mais elíptica, deixando detritos acumularem, mas é também muito humana e muito engraçada. 

 Cada um de seus elementos é vívido e interessante, mas o todo nunca chega a se desenhar como um todo. Acho muito bacana gente tentando manter vivo o samba do romanção-que-tudo-narra, mas talvez seria bacana vê-la brincando de outra coisa. Fica a dica (no caso dela ser muito doida e sair googlando a si mesma, passando tudo pelo tradutor)


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A coisa mais bonita (dentre várias) deste vídeo aqui é a naturalidade maior triunfante da menina, que fala da sua nóia extremamente (extremamente) maluca pra Eliana como se fosse a coisa mais natural do mundo. E isso porque - dá pra sociologar aqui no fistaile rapidinho - hoje dá pra viver de corpo&alma dentro de qualquer desses nichos com muito mais facilidade do que há quinze anos atrás. 

Ser nerd antes envolvia um esforço constrangedor, um ímpeto e um envolvimento desmedido.  Exigia mandar cartinha, receber catálogo pelo correio, assinar Dragão, ir pra convenção internacional em São Paulo, inventar seu próprio Cosplay (ao invés de escolher dentre quinze tutoriais). E durante o tempo todo sentir a cabulosa desconexão entre a tua quebrada e os teus interesses.

 Não é só que nem a menina e nem o bróder pareçam envergonhados, mas que eles nem pareçam reconhecer a possível envergonhadice da situação. 

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Nussbaum num ensaio PWNeiro sobre Butler:

Try teaching Foucault at a contemporary law school, as I have, and you will quickly find that subversion takes many forms, not all of them congenial to Butler and her allies. As a perceptive libertarian student said to me, Why can't I use these ideas to resist the tax structure, or the antidiscrimination laws, or perhaps even to join the militias? Others, less fond of liberty, might engage in the subversive performances of making fun of feminist remarks in class, or ripping down the posters of the lesbian and gay law students' association. These things happen. They are parodic and subversive. Why, then, aren't they daring and good?

Podia facilmente estar falando de um certo carequinha retardado nosso (que eu não pretendo nomear pra não trazer maus agoiros).