Wednesday, August 14, 2013

Cambaxirra
-
O Deus às vezes voltava pra casa onde nasceu para descansar. Pau Grande era uma cidade pequena, de três mil habitantes, ainda estava lá o campo batido onde ele jogou na sua infância e a fábrica onde ele trabalhou por boa parte da juventude (e da qual ele só não era despedido, toda semana, pelo seu desempenho nos jogos semanais da agremiação deles, que juntava os trabalhadores e alguns membros mais soltos da chefia). 

O povo sempre se reunia em torno da sua casa, quando ele estava lá, rapidamente se formando grupos de peregrinos, de comerciantes, de políticos locais tentando tirar fotos com Deus (embora ele não fosse capturável por nenhum aparato fotográfico conhecido, as distorções causadas por sua aura eram valorizadas por si mesmas, algumas delas bonitamente arroxeadas, formando padrões espirais; vendiam por muito caro nas feiras).

O Deus subiu a árvore e encontrou várias bananas gordas embarrigadas de várias cores, abertas com zíperes. Quem teria aberto as bananas?, ele se pergunta. Decide esconder as que sobram debaixo da cama, come ao longo da noite, quando não consegue dormir.

Sempre que ele voltava de uma temporada na capital e acordava pela primeira vez de volta ao seu quarto (que era o de infância, ainda, e não o dos pais falecidos), ele ouvia a voz do matia na sua janela, pendido no galho da arvore.

-Olá, divindade.

-Ola, matia, que saudade de você, você tá bem, quer fruta, meu bem.

-Obrigado, divindade, mas não

Eles conversam por horas, Deus conta de suas aventuras pelo mundo, de suas vitórias e das complicações, e o matia faz diversas perguntas que ele havia guardado durante todo esse tempo para lhe perguntar (aparentemente),

(Algumas dessas perguntas são:

-Como os suecos se portaram diante de vossa majestade?
-não sei, não, matia
-Como se lhe afiguraram as potestades da antiga Oirrópa?
-deixa de besteira, matia
-De que forma a vossa divindade pretende transfigurar a sua esfera representativa de modo a alcançar sua plenitude expressiva?
-matia seu bestalhado)


*

O primeiro a reconhecer Deus na sua forma presente foi a Enciclopédia. Eles estavam juntos um dia jogando de forma descompromissada com amigos  quando determinados sinais auspiciosos se fizeram rasgar dentro da Enciclopédia, que soube recuperá-los devidamente, entretê-los em sua matéria simbólico-representativa e trazê-los para as devidas mídias expressivas.

-Aquele ali é um Deus, disse a Enciclopédia, baixinho. Ninguém ouviu.

A Enciclopédia saberia que ninguém acreditaria nele naquele momento, embora todos soubessem das ambiências em que ela habitava e respeitassem a sua extrema e bem-manejada doutice. O relato entusiasmado mas comedido que fez foi o bastante para botarem na divindade uma traja com denominação heráldica adequada e lhe trazerem para a capital jogar em runas devidamente sacramentadas. Foi examinado por uns senhores de chapéu no vestiário, após o primeiro jogo, um deles, com óculos redondos, rindo, disse em voz baixa que Troglodytes musculus era de fato bem adequado. 

Alguns o chamavam de gênio, apenas, e se recusavam a reconhecer a sua divindade, mas isto quase nunca subsistia a uma manifestacao autentica Dele, ao vivo. Nunca se ouviu dizer de alguem que testemunhasse o Deus e nao tivesse apresentada com todos instrumentos intelectivos a sua presença perfeitamente renderizada, sua qualidade divina forçosamente reconhecida.

O Deus dança os sucessos em discos que chegam trazidos como presentes por peregrinos. Gosta de músicas de ritmo arrojado e dança por tantas horas que causa comentários por parte de Dona Herminda, que diz que "tão dançando tanto que é um deus nos acuda". O Deus não sabe o que significa "acuda", mas em resposta decide, de brincadeira, copular com alguns dos presentes, o que é recebido com muito alarde.

O Presidente chamou o Deus para conversar algumas semanas atrás, no Palácio do Governo, numa sala com várias rendas cobrindo o que pareciam ser docinhos ou bolos de queijo, e quadros escondidos com panos mudos empoeirados. O Deus suspeita que algumas das imagens cobertas devem ser de índios bravos ou marechais cruentos. Ele não distingue muito bem entre a braveza de soldados ou de índios, entende que são todos selvagens que atiram e comem gente. Ele gostava dos cangaceiros e dos bombeiros. O presidente vinha do sul, terra que o Deus não respeitava, e era careca. Ele falou de forma muito comprida das responsabilidades havidas diante da nação, de como era importante para o povo o prestígio e o orgulho cívico diante da nossa escrete. O Deus gosta de bandeiras, vê uma quieta no canto que o deixou muito constrangido. Prometeu que ia parar de comer doces e talvez até treinar direitinho.

O Deus não conseguia ver o seu reflexo no espelho (a não ser de vez em quando, quando ele tava bebado e sonolento, que a sua presenca fraquejava, piscando em luz capturável por alguns instantes). Ele queria poder confrontar a sua propria figura inteira,  de uma só vez, como conseguia ver dos outros. A sua figura inteira oferecida daquele jeito provavelmente seria desagradável, meio troncha, e o motivaria a comer menos doces e emagrecer.

O membro do Deus era muito grande, correndo por suas pernas como algo terrível. Dizem os eruditos que quando perfeitamente ereto ele se tornava uma visão tão formidável e extraordinária que poucas mentes eram capaz de compreendê-la ou sequer inteirá-la enquanto mera rudeza sensorial, em toda sua intentio avassaladora. 

Não conseguir inteligir o membro devidamente, ao que diziam, significava o começo de uma crise de suas faculdades imaginativas da qual dificilmente se sairia ileso. Num jogo com o Vasco onde um jogador novo e muito matreiro (Dindo, o "Diabo Loiro") puxou o calção do Deus, revelando o seu membro ali enrodilhado, conta-se que diversas senhoras pularam imediatamente da marquise do Maracanã.

-Não é que ele chegasse a ser prêensil, mas era quase.
-Não chegava por pouco.
-Muito pouco, mesmo. 

Um dia, treinando, o Deus conheceu um menino que, como ele, parecia habitar mais de um plano ao mesmo tempo. Foi a Enciclopédia que cuidou para que eles se encontrassem, o Deus descobriu. Eles conversaram daquela maneira com que o Deus conversava às vezes com árvores e com o matias, com cores e formas que se antojavam de forma muito engraçada, dentro de tudo, antes que ele as entendesse. Ele gostou do menino, mas o menino não parecia gostar dele, ficava olhando de longe meio invejoso. Ele parecia ter conquistado à força aqueles manejos todos que o Deus tinha por direito, como alguém tem um dedo ou uma orelha. O Deus deu uma banda nele, durante o treino, de brincadeira, pra que ele ficasse tranquilo. Ele não ficou tranquilo.

O Deus é levado de terno para um concerto na televisão onde ele encontra Gilberto Gil e Caetano Veloso. Um deles está vestido como um general da pá virada e o outro o Deus nem saberia como descrever, parecendo uma moça boba e engraçada. Os dois falam de coisas confusas, abraçam o Deus, riem muito e dão para o Deus um cigarro que faz com que ele converse com muitas coisas. Ele fica com saudade, por um instante, do Matia, e logo que ele tem essa saudade o Matia se apresenta.

-Oh. Olá, divindade.
-matia, eu nao sabia que voce tava aqui!
-Eu nao estava, divindade. Você me invocou.
-que alegria, matia
-não rime, divindade, eu já lhe falei o que acontece quando vossa divindade rima.
-desculpa, matia.

O Deus não entendeu o que isso queria dizer, e por muito tempo olhou para a cara do Matia enquanto ele falava de varias coisas, de planos e instâncias e participações e coisas muitíssimo engraçadas de tão pouco sentido que faziam (quase nenhum, mesmo). O Deus se distraiu por um instante, conversando com outras coisas que lhe apareciam, moças e cidades e pianos e casinos que ele via em filmes e revistas ilustradas, ursos brancos empalhados e carros vermelhos onde o Deus fala inglês muito bem e todos riem de tudo que ele fala. Lutou com vários homens de macacão cinzento enquanto subia uma torre de aço e vidro enorme cheia de luzes. 

Desdobrou seus ombros em vários homens cinzentos sem querer num campo comprido, infinito, de grama rareada mas muito verde, como que pintada, e ele driblava todos eles por um tempo enorme, que não parecia terminar, e varava eles em figuras e padrões nunca antes imagináveis, mas de algum jeito sempre fazendo quase que a mesma coisa, um mesmo gesto perfeitamente executado, até que finalmente ele achou que havia encontrado o Gol. Mas era um gol diferente. O Deus não conseguia entender como que essa diferença funcionava. Ele parecia ser um gol normal, talvez um pouco mais largo, apenas, mas a atenção do Deus estava carregada dele de um jeito que era novo e estranho, as bordas de tudo acendidas. O goleiro era uma aranha soviética (que prestando atenção revelava-se estar de bonezinho).

O Deus nao tinha nem mais nem certeza se fazer aquele gol era bom ou mau.

Ele parou no canto do que parecia ser a área, ou um equivalente da área num outro plano qualquer de individuação, tinham vários quadrados sobrepostos, os esquadros tremiam, instáveis em suas molduras. O mundo. O Deus se viu jogando pelo Alecrim, triste, velho e barrigudo, puxado pra baixo, saindo de suas costas, bem quando os homens cinzentos estavam se aproximando de novo, um senhor numa sala refrigerada apontando um ponto vermelho numa tela e dizendo que A carcaça do telefone encapsula todas essas funções em suas teclas . Ele driblou mais uns vinte deles da exata mesma maneira e correu para o outro canto.

-Forma das formas
-simplesmente inesquecível
-literalmente show de bola

O Deus então lembrou de uma música que tinha ouvido naquele dia várias vezes com seis de seus filhos, uma da qual ele tinha gostado muito por ser ao mesmo tempo animada e bonita (as músicas, para o Deus, se distinguiam principalmente entre animadas e bonitas, sendo raríssimo, e muito formidável, quando acontecia de uma única música ser as duas coisas ao mesmo tempo).

Porque a bagunça que eu fiz, ma-chuca-do, bagunça que eu fiz tão calado, foi dentro do meu co-ração

O Deus não conseguia entender muito bem o que dizia, mas a frase lhe veio inteira perfeitamente recuperada, como uma moeda encontrada num bolso, um brócolis entre dentes. E assim que percebeu que conseguia recuperar a frase toda em sua sucessividade melodiosa, acontece que não só a musica inteira mas todos seus executores de repente se apresentavam ali na sua frente, inclusive o general preto. O Deus ficou muito contente, e dançou com varias moças que logo apareceram para se juntar a eles, bandeiras de várias cores drapejando em torno. 

Alguns dias depois, o Deus se lembrou do gol. A bola ainda estava nos seus pés, o seu couro amassado ali imóvel enquanto seus pés mexiam em volta dele. O Presidente apareceu mais uma vez do seu lado, com um espelho enorme carregado por índios pelados. Ele se envergonhou, pensou no matia, mas pensou errado, e apareceu algo que não era o matia, que era muito parecido mas que era de algum jeito o contrário do matia. O Deus pegou o matia errado nas mãos e o esmagou, com calma, sem olhar para o estrago, a cara virada pro outro lado, sentindo uma estrutura cedendo, esfregando os dedos na massa logo disforme, molhada, dizendo

-falso, filho da puta, falso, sai daqui, sai, filho da puta

Monday, August 05, 2013

O Balão,
Donald Barthelme
(vo: The Balloon, em: Unspeakable Practices, Unnatural Acts, 1968)

-


O Balão, começando num ponto na rua Quatorze, cuja exata locação eu não posso revelar, expandiu todo em direção ao norte uma noite, enquanto as pessoas estavam dormindo, até alcançar o Parque. Ali, eu o parei; de manhã cedo as bordas mais ao norte pendiam sobre o Plaza; o movimento pendendo livre era frívolo e gentil. Mas experimentando uma irritação leve ao parar, mesmo que para proteger as árvores, e vendo nenhuma razão para que o balão não pudesse expandir pra cima, sobre as partes da cidade que ele já estava cobrindo, até o “espaço aéreo” a ser encontrado lá, eu pedi aos engenheiros que cuidassem disso. Essa expansão ocorreu ao longo da manhã, um suspirar leve imperceptível de gás através das válvulas. O balão então cobriu quarenta e cinco blocos norte-sul e uma área irregular leste-oeste, chegando a seis blocos atravessando a cidade em qualquer dos lados da avenida, em alguns lugares. Essa era a situação, então.
Mas é errado falar de “situações”, implicando conjuntos de circunstâncias levando a alguma resolução, algum escape de tensão; não haviam situações, apenas o balão pendurado lá - cinzas e marrons pesados mudos na sua maior parte, contrastando com amarelos leves e avelã. Uma falta deliberada de acabamento, melhorado por instalação habilidosa, dava aa superfície uma qualidade rude, esquecida; pesos deslizando por dentro, cuidadosamente ajustados, ancoravam a massa grande, multiforme em vários pontos. Agora nós tivemos uma enchente de ideias originais em todas mídias, trabalhos de beleza singular tanto quanto marcas significativas na história da inflação, mas naquele momento tinha apenas aquele balão, concreto particular, pendurado lá.
Tiveram reações. Algumas pessoas acharam o balão “interessante”. Como resposta isso parecia inadequado aa imensidade do balão, a brusquidão de sua aparência sobre a cidade; por outro lado, na ausência de histeria ou outra ansiedade socialmente induzida, deve ser julgada como calma, “madura”. Havia uma certa quantidade de argumentação inicial sobre o “sentido” do balão, isso arrefeceu, porque aprendemos a não insistir em significados, e eles são hoje até raramente procurados , exceto em casos envolvendo os fenômenos mais simples, mais seguros. Havia-se concordado que já que o sentido do balão não podia jamais ser sabido absolutamente, discussões extensas seriam a troco de nada, ou menos propositadas que as atividades daqueles que, por exemplo, penduravam lanternas de papel verdes e azuis do lado quente e cinza de baixo, em algumas ruas, ou aproveitavam a ocasião para escrever mensagens na sua superfície, anunciando a sua disponibilidade para a performance de atos inaturais, ou a disponibilidade de conhecidos.
Crianças ousadas pulavam, especialmente naqueles pontos onde o balão flutuava perto de um prédio, de modo que o intervalo entre balão e prédio fosse uma questão de poucos centímetros, ou pontos onde o balão de fato fazia contato, exercendo uma pressão bem de leve contra o lado de um prédio, de modo que balão e prédio pareciam uma unidade. A superfície de cima era estruturada de forma a apresentar uma “paisagem”, pequenos vales tanto quanto ligeiros montinhos, ou acúmulos; uma vez em cima do balão, um passeio era possível, ou até uma viagem, de um lugar pra outro. Havia prazer em ser capaz de correr uma inclinação abaixo, daí a inclinação oposta acima, as duas gentilmente seccionadas, ou em dar um pulo de um lado pro outro. Quicar era possível, por causa da pneumaticidade da superfície, e até cair, se esse era o seu desejo. Que todos esses movimentos variados, tanto quanto outros, estivessem dentro de suas possibilidades, ao experimentar o lado de “cima” do balão, era extremamente excitante para crianças, acostumados com a pele plana, dura da cidade. Mas o propósito do balão não era divertir crianças.
Também o número de gente, crianças e adultos, que tiraram vantagem das oportunidades descritas não era tão largo quanto poderia ter sido: uma certa timidez, falta de confiança no balão, era vista. Havia, ainda mais, alguma hostilidade. Porque havíamos escondido as bombas, que alimentavam hélio pro seu interior, e porque a superfície era tão vasta que as autoridades não conseguiam determinar o ponto de entrada - isto é, o ponto no qual o gás era injetado - um grau de frustração era evidenciado por aqueles oficiais da cidade em cujas províncias esse tipo de manifestação geralmente caía. A aparente falta de propósito do balão era envergonhante (assim como era o mero fato dele estar “lá”). Tivéssemos pintado, em letras grandes, “TESTES DE LABORATÓRIOS PROVAM” ou “18% MAIS EFETIVO” nos lados do balão, essa dificuldade teria sido evitada. Mas eu não consegui tolerar fazer isso. No todo, esses oficiais eram notavelmente tolerantes, considerando as dimensões da anomalia, essa tolerância sendo o resultado de, primeiro, testes secretos sendo conduzidos a noite que os convenceram de que pouco ou nada poderia ser feito na direção de remover ou destruir o balão, e, segundo, um calor público que surgiu (não descolorido de toques da hostilidade já mencionada) em direção ao balão, de cidadões normais.
Como um único balão pode representar uma vida inteira de pensar sobre balões, então cada cidadão expressava, na atitude que escolhia, um complexo de atitudes. Um homem podia considerar que o balão tinha a ver com a noção arruinava, como na frase O grande balão arruinava o que de outra forma seria o céu claro e radiante de Manhattan. Isto é, o balão era, na visão desse homem, uma impostura, algo inferior ao céu que estava lá anteriormente, algo interposto entre as pessoas e o seu “céu”. Mas na realidade era janeiro, o céu tava escuro e feio; não era um céu para o qual dava de olhar pra cima, deitado nas suas costas na rua, com prazer, a não ser que prazer, pra você, procedesse de ter sido ameaçado, de ter sido mal utilizado. E o lado de baixo do balão era um prazer de se olhar, tínhamos cuidado disso, cinzas e marrons mudos na maior parte, contrastado com avelã e amarelos leves, esquecidos. Então, enquanto esse homem pensava arruinava, ainda havia uma mistura de cognição prazerosa no seu pensamento, brigando com a percepcão original.
Outro homem, por outro lado, poderia ver o balão como se fosse parte de um sistema de recompensas não esperadas, como quando um empregador entra e diz, “Aqui, Henry, tome esse pacote de dinheiro que eu embrulhei pra você, porque você esteve se saindo tão bem nesse negócio aqui, e eu admiro muito a maneira com a qual você machuca as tulipas, sem cujos machucados o nosso departamento não seria um sucesso, ou pelo menos não o sucesso que ele é.” Para esse homem o balão pode ser uma experiência “músculo e ginga” brilhantemente heróica, mesmo que uma experiência mal compreendida.
Outro homem pode dizer “Sem o exemplo de ------, é duvidoso que ------ existiria hoje na sua forma presente”, e encontrar muitos pra concordar com ele, ou pra discordar dele. Ideias de “inchaço” e “flutuagem” foram introduzidas, assim como conceitos de sonho e responsabilidade. Outros engajaram-se em fatasias marcadamente detalhadas tendo a ver com um desejo ou de se perder no balão, ou de engoli-lo. O caráter privado desses desejos, ou suas origens, profundamente enterradas e desconhecidas, era tal que deles não se falava, no entanto há evidência de que eles eram bem comuns. Era também argumentado que o que era importante era o que você sentia quando ficava de pé debaixo do balão, algumas pessoas diziam que se sentiam protegidas, aquecidas, como nunca antes, enquanto inimigos do balão sentiam, ou reportavam sentir, constrangimento, um sentimento “pesado”.
Opinião crítica se dividia:

“enchentes monstruosas”
“harpa”
XXXXXX “ certos contrastes com porções mais escuras”
“alegria interna”
“cantos largos, quadrados”
“eleticismo conservador que até hoje tem governado
o design de balões”

:::::::::::::::::: “vigor anormal”

“trechos quentes, preguiçosos”
“Terá a unidade sido sacrificada por uma qualidade esparramada?”
“Quelle catastrophe!”
“laricando”

As pessoas começaram, de uma maneira curiosa, a se localizar em relação a aspectos do balão: “Eu estarei naquele lugar onde ele mergulha abaixo na rua Quarenta e Sete quase até a calçada, perto da Casa Alamo Chile,” ou, “Porque não vamos ficar no topo, pegar um ar, e talvez andar um pouco, onde ele forma uma linha apertada, curvando com a façada da Galeria de Arte Moderna-” Intersecções marginais ofereciam entradas dentro de uma certa duração de tempo, assim como “trechos quentes, preguiçosos” nos quais... Mas é errado falar de “intersecções marginais”, cada intersecção era crucial, nenhuma podia ser ignorada (como se, andando lá, você não pudesse encontrar alguém capaz de virar sua atenção, num relance, de velhos exercícios para novos exercícios, riscos e escalações). Cada intersecção era crucial, encontro de balão e prédio, encontro de balão e homem, encontro de balão e balão.
Era sugerido que o que era admirado sobre o balão era finalmente isso: que ele não era limitado, ou definido. As vezes uma protuberância, bolha, ou sub-seção carregava todo pro leste até o rio num mapa, como visto num quartel-general remoto da luta. Então aquela parte seria, como se diz, jogada de volta, ou se retrairia até novas disposições; a manhã seguinte, aquela parte teria feito outra sortie, ou desaparecido de todo. Essa habilidade do balão de trocar sua forma, de mudar, era muito agradável, especialmente para pessoas cujas vidas eram bem rigidamente padronadas, pessoas para quem mudança, embora desejável, não estava disponível. O balão, durante os vinte e dois dias de sua existência, oferecia a possibilidade, em sua randomicidade, de extravio do senso de si, em contradistinção com a grelha de caminhos precisos, retangulares debaixo dos nossos pés. A quantidade de treinamento especializado atualmente necessária, e a consequente desejabilidade de comprometimentos de longo prazo, foram ocasionados pela importância constantemente crescente de maquinaria complexa, em virtualmente todo tipo de operação; enquanto essa tendência cresce, mais e mais gente vai se virar, em inadequação deslumbrada, em direção a soluções para as quais o balão pode ficar como protótipo, ou “rascunho tosco”.
 Eu encontrei você debaixo do balão, em ocasião do seu retorno da Noruega; você perguntou se era meu, eu disse que era. O balão, eu disse, é uma revelação autobiográfica espontânea , tendo a ver com o desconforto que eu senti na sua ausência, e com privação sexual, mas agora que a sua visita ao Bergen foi terminada, não é mais necessário ou apropriado. Remoção do balão era fácil, caminhões trailer carregaram pra longe a fábrica esvaziada, que agora é armazenada em West Virginia, esperando algum outro tempo de infelicidade, algum tempo, talvez, em que estivermos bravos um com o outro.