Tuesday, May 14, 2013

Esse blog finalmente
-
mor-
reu!*

*Mas já correm rumores que Capn` Kirk logo voltará em outra mídia e artefatos holográficos (cortesia da ****, SEGUROS E INDENIZAǘOES SANTOS B**T0F*G*)

Para quem sempre leu, foi bróder e não trollou excessivamente (ou se trollou excessivamente, o fez com os falcões lisura e candor devidamente enovelados) um 1,2,3 salve todos,

pro outro lado só digo com as pedras da sua inveja construo meus catelo

Descoberta que vira tique que vira tremelique desajeitado e desnecessário, as água sempre acabam, vlw mãe.

&todomundoagora

epelo menos, as pontes que etc

*clvnkleinsigh*


Sunday, May 05, 2013

POLSKA APPREZIATTIONI!



maio é mês da cultura polonesa! 
Malinowski!
Conrad!
Lelesk Kolakowski!
Bruno Schulz!
Aaaah, Polônia!
assim como
o etnólogo, 
egiptólogo,
(quando aparece
`egiptólogo`
você já sabe
que a lista 
vai ser ótima)
linguista, aventureiro
e autor popular
do Manuscrito Encontrado em Saragoça
conde Potocki comédia dos mais comédia


encontrável
até hoje,
pelas terras brasileiras,
nos seus melhor sebo sem-vergonha,
valeu Polônia,
assim como valeu
por várias outras pessoas
que ou não conheço
ou por quem não nutro
sentimentos
tão particulares 
(e que mereçam,
portanto, menção
públicamente
verificável)
mas principalmente
valeu pelo
Zbigniew, 
primo do George
pelo Sr. Cogito
que são os dois muito fera 



Sunday, April 21, 2013

TEMOR Y TEMBLOR
-
Let us try another method of differentiation. A voluntary action can be commanded. If someone says `Tremble` and I tremble I am not obeying him - even if it tremble because he said it in a terrible voice. To play it as obedience would be a kind of sophisticated joke (characteristic of the Marx Brothers) which might be called playing `language-games wrong`.
(G.M. Anscombe)

Tuesday, February 19, 2013


  • O SEU MUNDO AGORA



  • Ele acompanhava as notícias do mundo diariamente, suas peripécias formidáveis como as de uma novela, dramas sustentados e resolvidos em linhas narrativas tão bonitas e bem montadas, com personagens carismáticos recorrentes, temas e padrões reconhecíveis. Os países se envolviam nas mais diversas confusões, se enamoravam e traíam uns aos outros, sofriam ataques do terrorismo internacional, se endividavam, entravam em guerra, irrompiam em insurreições nas suas comunidades étnicas. Tudo ele acompanhava e discernia com extremo gosto e interesse, comendo na frente da televisão um penne feito só na manteiga e bebendo guaraná quase congelado, com as cristalizações quebradiças sentidas na sua língua e garganta.
  •         Além dos quatro telejornais que ele assistia todo dia, tudo isso era observável nos dois jornais que ele recebia na sua porta todo dia (A Folha e O Globo) e ainda na internet, que ele acessava com dificuldade, a cabeça reclinada ligeiramente pra trás para que seus óculos de leitura melhor antojassem ali a tela em todas suas agitações coloridas.
  • A multitude desgovernada da internet era confusa, muito facilmente dispersa em janelas estranhas com promoções de viagem e moças peladas, em gente pedindo que você concordasse com os termos de um contrato e preenchesse um formulário, mas ele quase sempre conseguia se ater a determinados caminhos conhecidos da página do seu provedor, roteiros aprendidos que já continham todo um mundo de notícias e vídeos relevantes provenientes do mundo todo, parecia já quase inesgotável. Ele recebia ainda de alguns netos de vez em quando emails com apresentações de slide do Powerpoint mostrando ilusões de ótica, frases inspiradores, fotos de Paris, prodígios da engenharia oriental, animais fazendo caras engraçadas.
  •         O problema da internet era nunca parar, ao contrário dos telejornais e dos jornais impressos, cujas assertivas tinham toda uma circunstância, uma gravidade confortável que acontecia em momentos específicos ou em seções espacialmente delimitadas. Eles pareciam encerrar contidos mundinhos apreensíveis todo o dia, apresentar os desenvolvimentos diários do Mundo de maneira absoluta e breve, deixando você tranqüilo e suspenso até o dia seguinte. A internet não. Na internet era só você entrar de novo no mesmo site quinze minutos depois e já apareciam ali umas vinte coisas novas, que por sua vez estabeleciam novas relações a eventos anteriores, abrindo sistemas de relação que nunca se fechavam, nunca terminavam, com notícias antigas sugeridas no pé da página. Polícia impede explosão de bomba em escola na Flórida, Contratos de futuros de cacau fecham em alta, Autoridades inglesas tentam domar o poder das redes sociais. Ele tenta imaginar todas essas coisas como eventos, como cenas cinematográficas montadas por algumas poucas pessoas trocando frases dramáticas e fazendo cara de sério. Segurança de Obama é preso por dirigir supostamente bêbado.
  • Com as paredes da sua cabeça progressivamente porosas - as coisas quase como que derretendo gentilmente, com contornos mais simples e amigáveis como os traços de um desenho animado - ele começava a entender o mundo como uma extensão sua. Se tudo que ele enxergava parecia estar dentro da sua cabeça, aparecendo-se-lhe através dos seus olhos e de suas ferramentas intelectivas de recriação, tudo narrado pela sua voz em primeira ou terceira pessoa, isso devia significar que o mundo acontecia ali dentro.
  • Essa impressão – que ele sempre teve com muita força desde criança – agora ganhava corpo literal, endurecia como um fato público e verificável, até trivial. O mundo acontecia ali na sua cabeça. E era prodigioso e formidável que tudo aquilo acontecesse dentro dele, através dele. Ele sentia um enorme orgulho por tudo que as gentes do mundo conseguiam realizar, como se todos fossem seus filhinhos queridos, todos engendrados e realizados através de seus instrumentos, acessando elementos seus distantes e recombinando-os em maravilhosas formações que ele acessava o dia quase todo. Americana quer se tornar mulher mais gorda do mundo. Chile quer dobrar vítimas do regime de Pinochet.
  • Isso eventualmente transbordou para além dos momentos em que ele acessava as notícias, eventualmente transbordou para todas outras esferas de sua vida, agora imbuídas de analogias globais extraordinárias, de relações macrocósmicas imprevisíveis. Derrubando leite em si mesmo, no seu suéter bege e no carpete (o cheiro progredindo com os dias em estágios cada vez mais grosseiros e maleducados), cortando o canto do seu queixo ao se barbear, ele podia enxergar as populações dizimadas, a destruição, as colheitas perdidas. Todo cuidado era necessário com o seu próprio corpo e com o seu apartamento, com os seus pensamentos e sonhos, que eles não causassem desastres naturais e conflitos étnicos ao redor do mundo.
  • E ao mesmo tempo que tantas responsabilidades extraordinárias se instalavam na sua vida, o mundo ficava mais misterioso, cheio de lacunas inexplicadas, de saltos. Ele acordava de repente e já era quase cinco horas da tarde, ele de camisa sem cueca no sofá, com farelos inexplicáveis de biscoito depostos nos pelos das pernas. Ou ele se percebia de repente sentado no ônibus chegando no Setor Bancário Norte, um papel na mão escrito ‘Cristovão 17h’.
  • A crise financeira mundial de 2008 ele entende como inextricável à uma série de dores de cabeça pontiagudas e incisivas que ele teve durante duas semanas, e que ele não soube compreender da maneira adequada, integrar dentro de um sentido maior (não conseguindo, portanto, desdobrar-se em ações eficientes e agéis em pontos globais estratégicos que podiam muito bem ter evitado aquela confusão toda!).
  • Mas todos os dias havia também aspectos positivos a serem ressaltados, é claro. Iniciativas populares de coleta seletiva de lixo no México, escolas públicas excepcionais no Ceará capitaneadas por duas professoras fervorosamente dedicadas, um novo aeroporto no Japão projetado de maneira inteiramente amigável ao meio-ambiente, um povoado na Rússia todo empreendido em fazer a maior colcha de retalhos da história. O mundo se desdobrava em atualidades válidas e esforçadas, gentes tumultuando dentro dele com ímpetos renovados e incansáveis, querendo criar empregos e lhe mostrar suas danças típicas, suas broas de milho, suas indecorosamente bem-fornidas filhas solteiras. Ele podia senti-los formigando como membros fantasmas vários, múltiplos, tentáculos se agitando em extensões desprendidas, levantando torres com cordas e roldanas, mudando o curso de rios, escrevendo manuais sobre pós-estruturalismo, alfabetizando idosos.
  • Ele se multiplicava nessa quantidade irisada de gentes até se esgarçar, quase deixando de existir, sua própria voz no meio das outras deixando de ser especial, indistinta, substituída pelas tantas sobrepostas, por crianças mongóis brincando com cabras numa planície, homens turcos terminando um xingamento desnecessariamente comprido numa arquibancada de futebol, publicitárias francesas provando um pouco da salada uma da outra. Ele acordava desses longos, quase intermináveis transes, que pareciam às vezes durar semanas, dessas habitações distantemente figuradas e tão específicas, com sua casa escura e o jornal acumulado na porta, a garganta dolorosamente seca, sua própria voz irreconhecível. Ele tentava reunir suas forças, agrupar suas extensões esparramadas, instrumentalizar ali aquele braço pesado pra preparar alguma coisa pra comer na cozinha, abrindo gavetas a esmo, mas urgiam tantas outras coisas mais importantes, tantas responsabilidades, tantos outros lugares. Rebeldes ampliando o cerco a Tripoli e isolando Khadafi, ativista indiano fazendo jejum em protesto, o ator Gerard Depardieu fazendo xixi no meio de um avião. Tudo isso ao mesmo tempo, estourando em clímaces sucessivos ritmados por uma formidável trilha sonora, ganhando coesão, estrutura, se resolvendo num único padrão total, um sistema que a qualquer momento agora incluiria todos os outros sistemas. A data de validade do guaraná não fazia muito sentido e lá fora guinchavam crianças ou carros ou bichos.


Wednesday, January 02, 2013

Um post muito legal com vários pequenos assuntos que devem, no seu conjunto, entreter a toda família brasileira
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Tem pelo menos uns cinco anos que o utube me recomenda na barrinha ali à direita um vídeo chamado "o melhor imitador no programa do jô". No quadradinho, dá pra ver a imagem de um bróder qualquer sentado do lado do Jô Soares. Nunca que o vídeo que eu estou vendo tem qualquer relação apreciável com a nuvem de tags imediatamente retraçável a partir desse título. E no entanto o Googole continua tendo certeza que o vídeo me cabe, continua insistindo. 


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O Barba Ensopada de Sangue rendeu uma ou outra comparação com o Cormac Mccarthy pelos diálogos diretamente metidos no texto, mas ninguém apontou o tanto que o livro parece querer ser influenciado por Suttree

 O livro tem alguns defeitos chatos, principalmente quando tenta sair da crueza material e direta do personagem principal e traficar estofo temático-intelectual em personagens secundários (uma mulher conversando do nada sobre mitos com um completo estranho, discursos budistas esparramados e insistentes). Mas o estilo do Galera melhorou uns litros, e nos seus melhores momentos, aqui, consegue ser a melhor prosa realista  escrita no Brasil em algum tempo, acho*. 

prosopagnosia do protagonista, aliás, é o único caso de disfunção neurológica em ficção que eu conheço que não desanda pra alegoria facinha. 

Não sei o que achar do final. Tava gostando mais do livro antes dele querer se amarrar (ainda que ele não chegue a se amarrar muito firme).

É uma pena que ele tenha sido recebido com resenhas tão imbecis (e com aquela matéria retardada do Conti na Piauí, que não sabe se quer ser um release ou um perfil mais ou menos sério). Muita gente recebe só a reverberação, os ecos falsos e retardados em volta, e acham que estão julgando o troço-em-si.


*O que, infelizmente, não é nenhum feito assim de outro mundo, considerando que nenhum dos nossos bons escritores vivos é grande estilista. Impressionante como somos humilhados pelos portugueses nisso. Lobo Antunes, Saramago, mesmo um Gonçalo Tavares dá surra de pau mole estilística em qualquer Bernardo Carvalho, Serjão Sant'anna e etc. O Soares Silva é melhor estilista do que o Galera, por ex., mas não dá vontade de chamá-lo de realista (sei lá o que ele é). 


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O novo disco do Caetano é bem legal. Principalmente a primeira música, onde ele diz que o João Gilberto transformou as tristes raças brasileiras no Anderson Silva e no Minotauro. E o comédia me tem setenta anos. 



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NW é o melhor romance da Zadie Smith até hoje. Mas é, estranhamente, um livro menor que a soma de suas partes. Querendo pagar de romanção-que-tudo-narra, ele aponta para uma unidade formal e uma tapeçaria de interrelações entre seus personagens que nunca chega a se adensar de verdade. 



A melhor coisa do livro, quase todo mundo parece concordar, é o trecho que acompanha Natalie/Keisha, a menina esforçada que sai do seu bairro problemático pra virar adevogada. É um dos poucos exemplos de ficcionista se metendo com mundo-real (QUESTÕES DE RAÇA e coisas) com esperteza e distanciamento retórico adequados. U go, fia. 

Essa parte do livro toda acontece com pequenas seções encabeçadas por títulos semi-crípticos. Há graça com enciclopedismo e com organização de informação, a Zadie Smith sempre gostando de encaixar seu realismo em moldes espertos. Mas não há exatamente histeria aqui, o excesso maníaco por detalhes e caracterizações. A voz é mais elíptica, deixando detritos acumularem, mas é também muito humana e muito engraçada. 

 Cada um de seus elementos é vívido e interessante, mas o todo nunca chega a se desenhar como um todo. Acho muito bacana gente tentando manter vivo o samba do romanção-que-tudo-narra, mas talvez seria bacana vê-la brincando de outra coisa. Fica a dica (no caso dela ser muito doida e sair googlando a si mesma, passando tudo pelo tradutor)


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A coisa mais bonita (dentre várias) deste vídeo aqui é a naturalidade maior triunfante da menina, que fala da sua nóia extremamente (extremamente) maluca pra Eliana como se fosse a coisa mais natural do mundo. E isso porque - dá pra sociologar aqui no fistaile rapidinho - hoje dá pra viver de corpo&alma dentro de qualquer desses nichos com muito mais facilidade do que há quinze anos atrás. 

Ser nerd antes envolvia um esforço constrangedor, um ímpeto e um envolvimento desmedido.  Exigia mandar cartinha, receber catálogo pelo correio, assinar Dragão, ir pra convenção internacional em São Paulo, inventar seu próprio Cosplay (ao invés de escolher dentre quinze tutoriais). E durante o tempo todo sentir a cabulosa desconexão entre a tua quebrada e os teus interesses.

 Não é só que nem a menina e nem o bróder pareçam envergonhados, mas que eles nem pareçam reconhecer a possível envergonhadice da situação. 

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Nussbaum num ensaio PWNeiro sobre Butler:

Try teaching Foucault at a contemporary law school, as I have, and you will quickly find that subversion takes many forms, not all of them congenial to Butler and her allies. As a perceptive libertarian student said to me, Why can't I use these ideas to resist the tax structure, or the antidiscrimination laws, or perhaps even to join the militias? Others, less fond of liberty, might engage in the subversive performances of making fun of feminist remarks in class, or ripping down the posters of the lesbian and gay law students' association. These things happen. They are parodic and subversive. Why, then, aren't they daring and good?

Podia facilmente estar falando de um certo carequinha retardado nosso (que eu não pretendo nomear pra não trazer maus agoiros).







Sunday, November 25, 2012

SIMULATION OF THE MOST BEAUTIFUL GOAL OF PELÉ
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Barthes chama de de "efeito de realidade" o enquadramento realista como quem dissipa uma ilusão. Uma denúncia. Srry burguesia, Flaubert não representa a realidade, Barthes diz. Aquilo é só um efeito! Acidentes banais listados como sinais de uma suposta acidentalidade e banalidade, um índex procedural de verossimilhança. 

O RLY, fio? Claro que o efeito realista é uma ilusão. True poetry is the most feigning, o poeta é um fingidor, e tudo mais. A literatura ocidental, esse vasto megazord organizado em torno dos clássicos, sempre foi autoconsciente a respeito de representação. Pense na segunda parte do Quixote, Sterne, Donne, (Kierkegaard, plmdd).

É muito comum na teoria crítica recente esse gesto de denunciar a contingência histórica e a convencionalidade do realismo como quem esvazia um balão, acaba com a festa. O comédia que se acha vendo através da Matrix e joga a real pra gente. 

E muita gente os lê dessa forma até hoje. Entendem que perdemos uma inocência qualquer a respeito da literatura como algo mais do que ilusão. Agora a gente sabe que são tudo uns tropos enganchados e nada mais, os tentáculos de um Behemoth enorme e malvado. Todos nós agora carregamos essa terrível consciência, agora, essa fardorosa luz gnóstisca, então a representação quebrou

O engraçado é que falar desse jeito dá a entender que a fissura de representação tivesse sido um evento. Como se a representação de uma ausência (de uma falta) não fosse tão artificiosa quanto a representação de uma presença. A tendência de artes sofisticadas para formas irônicas, distorcidas, narradores não confiáveis, fragmentos, é exatamente tão convencional quanto a tendência de um realismo comportado e que-se-entende-como-direto (cujo avatar aqui hoje vai ser o Franzen!). A voz de um Beckett, com sua extraordinária afetação de um esvaziamento retórico, sua representação mediada tentando virar outra coisa, depende total do engajamento com algumas estilizações convencionais (assim como da deliberada frustração de outras). 

(não dá pra figurar uma árvore sem figurar o seu fundo, como diz o Valery, e uma voz que não fosse convencional não seria compreensível, não seria nem humana, exatamente, e essa agitação toda do Vazio e do Neutro acaba parecendo místico mandando via negativa no freestyle)

Qualquer gesto crítico é exatamente tão ilusório (se a galera quer usar esses termos) quanto qualquer ficção. Barthes, apesar dessas cagalhaladas que fez mais novo, aceitava isso lindamente na maior parte de sua carreira, e acolhia pra dentro da sua imaginação crítica. Barthes nos seus melhores momentos cresce pra fora da voz limitada que lhe entregam  (e que ele fez por merecer), vira um dos maiores críticos que tivemos sobre ficção.*

Se tudo é retórica, como muita gente diz e sugere (ecoando mais obviamente o Nietzsche, Truth is a mobile army of metaphors, metonyms, anthropomorfisms, etc), então é claro que não há autoconsciência mais profunda do que o Quixote, ou Hamlet. Gender Trouble está longe de ser mais sofisticado do que As You Like It. E nunca que Les Mots et Les Choses ganharia de Ficciones em qualquer critério de qualquer supertrunfo decente.  

Isso o De Man fazia questão de entender mais do que a maioria dos colegas. Tudo que o povo aponta agora e faz-congressos-sobre sempre esteve aqui, sempre fez parte da representação. Autoconsciência, mediação, a sensação de ter chegado tarde demais pra festa, do discurso estar quebrado, vazio, de não fazer parte de nada, de todas as vozes serem alheias, das manifestações atuais de engajamento com as formas culturais que você mais curte não serem mais autênticas, desprovidas de alguma essência qualquer que elas já tiveram e que agora está extinta ou ameaçada. Tudo isso sempre esteve conosco (como cotovelos, ou esse nariz fantasmático que a gente tem embaixo dos olhos e que dói se você tenta focar).

O povo achando que tinham descoberto desconstrução e os textos lá se desmontando e remontando sozinhos**, é o que eu quero dizer.

It is one of the peculiarities of the imagination that it is always at the end of an era. A representação sempre conteve sua negação, sempre se relacionou com a sua própria negação. Só a encenação que é diferente agora. A cena, os adereços, o tipo de caçada. 

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* Leia os cadernos tardios dele, as notas para aula. Falando de Proust, principalmente. Das melhores coisas que tem no How Fiction Works sobre detalhes em ficção o Wood pegou dali. É lindo o que ele fala sobre particularidade dos detalhes expressivos evocando a Haeccitas do Duns Scotus. 

**não sozinhos-sozinhos, claro, mas você entende o que eu quero dizer.

Thursday, November 08, 2012

The fox and its entourage, part of some map of life
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Adventure time é o melhor programa. E é muito menos infantil do que Safran Foer (por exemplo). E a coisa auto-consciente com sensibilidade RPG e awesomeness de maneira geral (VHS, videogames 8 bit, a maneira do Finn falar quase qualquer coisa) é mais deliberada e bem-mantida do que as sofisticações seriamente mantidas quase sempre pouco convincentes do Mad Men e Breaking Bad (ou esses Homeland da vida), por exemplo.

Mas porque tanta coisa infantil sofisticada nos EUA? Wes Anderson fez dois filmes infantis seguidos, Spike Johnzee adaptou Where the Wild things Are, Dave Eggers e suas extensões todas. A explicação mais imediata seria, talvez (de novo!), a pala de autenticidade, essa obsessão dispendiosa da qual neguinho não consegue se livrar. 

As várias culturas que habitam a tenebrosa nuvem de coisas-tidas-como-sendo-de-hipster costumam se digladiar com isso com toda a seriedade do mundo. Parece ser por causa dessa preocupação avassaladora é que um carinho infantilizado tão enorme é deposto em (porexemplo) Coisas 8 bit, cupcakes fantasticamente decorados, enquadramentos miniaturistas do Wes Anderson, suéteres bordados com dinossauros, edições sofisticadas do Mcsweeney's*). Tentando formar uma cultura a partir da fonte mais bonita na qual ela possa ser escrita.

Outra solução pra mesma ansiedade é ser irônico justamente pra conseguir anular as defesas e falar a sério, o que acaba dando numa galera sendo, imaginem só, moralista, defendendo VALORES. South Park, Louis CK (no standup, não no seriado lá quero-fazer-arte dele), o Jon Stewart e o Colbert.

Em livro literário e pretensioso, tipo Indecision, All the Sad Young Literary Men, The Ask, Leaving the Atocha Station**, esse problema tá enorme, também. Eles são tudo preenchidos de um mesmo tipo de autoconsciência tombada pra dentro que não se compreende apenas ironicamente insuficiente pra tudo, mas ainda parece achar o próprio relato (o próprio ato de ficcionalização do autor) ilegítimo (e saber que reclamar dessa ilegitimidade seria, também, chuif chuif, ilegtímo!).

De todos esses, o único que consegue realmente tornar essa tortuosidade introjetada toda em algo expressivo, convincente e minimamente próprio é o Ben Lerner. Esse Leaving the Atocha Station é o único romance americano realmente forte e digno de nota em um bom tempo.

(o livro do Teju Cole é quase tão bom quanto, mas o cheiro de Sebald que tem nele é forte demais)

No livro a gente acompanha um protagonista profundamente desinteressante (eu digo isso tanto no sentido dele ser muito desinteressante quando da sua desinteressância ser profunda) na sua estadia ociosa pela Espanha como poeta fundado por uma bolsa. Ele mal escreve o que se comprometeu a escrever e pesquisar, passando o tempo fumando haxixe sentado por aí e tendo relações bilingues e confusas com os locais. O constante através de sua ociosidade e falta de direção é a dificuldade avassaladora de sentir que tem uma experiência autêntica (com arte, com as mina, com política, etc). 

Lerner parece indicar que reconhece o tanto que a experiência do seu protagonista pode ser generalizada, o tanto que ela responde a um sentimento comum, exemplar da dificuldade-geralmente-observada-entre-as-galeras-de-suas-quebradas de sentir qualquer tipo de autenticidade.


Esse sentimento comum pode ser descrito como a modulação homem-branco-privilegiado-no-capitalismo-tardio do tropo de autenticidade, que aqui vira uma preocupação inautêntica de não ser autêntico, de não só não conseguir ter uma experiência que não seja impressa por um molde inválido, mas de cada uma de suas tentativas de lidar com essa inautenticidade serem, também, inautênticos (poesia, sexo, haxixe, ser-um-poeta-numa-cidade-européia). E Lerner consegue encontrar pra esse sentimento (que é principalmente tolo, como eles mesmos todos sabem) uma expressividade reservada e distante que quase sempre funciona, até quando ele faz o gesto deferente de negar sua originalidade:

"a genius I knew I didn't have; no duende here. I would think to myself, checking my body for sensation, no deep song."


Essa disposição tão particularmente americana quase sempre acaba sendo, como mostra esse texto muito bom aqui, um endereçamento bem direto a Theory e toda a sensibilidade cultural derivada dela. A sensibilidade que os treinou, todos, com suas sofisticadas liberal arts education a tratar cultura como uma instância de má fé, antes de tudo, e que traz consigo uma voz política desarticulada, tombada, que não sabe do que se vestir.

A solução expressiva que o Lerner consegue dar pra essa tortuosa e tombada ficcionalização de inautenticidade é quase tão expressiva quanto a do Wallace em Good Old Neon*** (de longe o melhor conto dele), e o filtro que ele parece ter usado de forma muito deliberada pra conseguir essa solução foi, olha que surpresa, o Ashbery (o maior poeta americano vivo, google se você não conhece).

É dele que vem aquela voz confusa e generosa, perplexa, que consegue se demorar na sua própria disjunção, ganhar força nela, e juntar detritos com carinho, como o Barthelme fazia. O engraçado de tomar Ashbery como voz-oracular é que ele é principalmente um grande poeta de belatedness, de se encontrar tudo em você mesmo feito já de um discurso alheio e não conseguir montar a sua própria voz, constituir sua própria presença não-mediada (aquela fonte-de-cabulosidade-lírica-própria que quase todo poeta ocidental tá sempre querendo constituir, como mostra o tio Bloom).

O título troncho e bobo, aliás, se explica como uma citação de um poema do Ashbery , uma gracinha que pela coincidência divertida até se justifica, mas que acaba soando apenas bobo até você descobrir.

A dependência que Lerner tem de Ashbery parece excessiva, mas ele consegue reverter isso numa auto-consciência de sua mediação (ou belatedness) que quase sempre funciona. Não deixa de ser curioso, no entanto, notar a dificuldade que a ficção americana tem de nos apresentar vozes e figuras novas e expressivas. Depois de décadas nos dando Pynchon, Delillo, Barthelme, Moore, Beattie, Carver, Davis, Mccarthy, Roth, Wallace (e outros), a nova geração parece mais do que pálida. 
Como já foi observado, tem até mais ensaístas interessantes do que ficcionistas (Batuman e JJS sendo os dois mais fortes, talvez).

 Os EUA serviram desse estranhíssimo auto-apontado mito-do-mundo para a segunda parte do século, o que nos deu, entre outras coisas, uma extraordinária sensibilidade ficcional paranóica para lidar com mídia, mediação e história. Mas esse grande momento talvez tenha se exaurido no grotesco hiperconsciente tornado-voz-moral do Wallace. Essa solução enorme e traiçoeira que claramente se coloca como a única resposta expressiva a Pynchon, Barthelme e Delillo, mas cujos imitadores todos se desmontam em sentimentalismo inconvincente.


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*tanto o Clowes quanto o Ware parecem ter uma disposição parecida, mas são artistas genuínos. A vontade do Ware de fazer um livro absurdamente lindo e diferenciado do produto-livro normal pode parecer fetichístico, o equivalente editorial a edições da Criterion. Mas nesse último exemplo, Building Stories, levando o troço ao quase absurdo ele consegue redimensionar o troço todo como um esforço genuíno de criar uma obra a partir do objeto material, e não só fazer um fetiche da sua distinção e sofisticação (que pode, como no caso do Mcsweeney's, claramente superar o discernimento do seu depto. editorial).

**The Art of Fielding, o outro romance-de-gente-da-N+1, tem uma resposta mais esquisitinha, nostálgica e quase mística rolando ali com o Skrimshander. Funciona mais ou menos. Tem também que o livro revolve em torno de Beisebol, e Beisebol é muito zoado. 

***Re: Wallace e Lerner, que não são autores parecidos, há ainda uma equivalência bonita, ainda que talvez mais acidental do que qualquer coisa. os dois usam os mesmos versos do Ashbery no meio da prosa deles, vindo do mais lindo poema do Ashbery, Self-Portrait in a Convex Mirror.

Like a wave breaking on a rockgiving up / its shape in a gesture which expresses that shape


não acho que isso queira dizer nada, exceto que os dois tem bom gosto (o Lerner cita diretamente, faz todo um gesto da coisa, já que o livro inteiro é um beijo de língua no Ashbery), o Wallace não cita, mete o troço no meio da prosa, mas reconhece nas páginas de acknowledgements que faz a citação.


**** Theory é aquele guarda-chuva americano de pensamento crítico-apresentando-como-escola-de-pensamento, um troço que foram montado a partir da pala de Frankfurt + a outra umbrellada que eles fizeram de French Theory (Derrida, Foucault e Edileuza, essas galere), + psicanálise e estudos culturais de identidade de vários gostos e delineações.