Saturday, January 07, 2012

História
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outro divertimento


Eles mal haviam chegado na festa e ele já queria ir embora, obviamente queria ir embora, suas expressões faciais muito mal contorcidas na tentativa pouco convincente de parecer que estava interessado em qualquer elemento daquela situação, qualquer daqueles salgadinhos e pessoas com seus assuntos e arranjos momentâneos dos seus rostos e franjas.
Ela estava claramente irritada com o desinteresse maleducado dele, e redobrava seus já consideráveis esforços em ser simpática com todo mundo e atender à atenção de todos presentes, parecendo quase histérica na sua educação e interesse em tudo que se passava, seus braços com pulseiras balançando audivelmente, rindo de piadas ditas do outro lado da sala e arregalando os olhos com seu interesse onívoro e levemente perturbador numa opinião tão casual e descompromissada sobre algo bem tolo (a Martha Suplicy, digamos).
No elevador indo embora ela tornou a sua irritação muito óbvia para ele, mas ele mesmo assim não notou, ainda imerso num jogo no seu celular onde ele tinha que coordenar ondas de pássaros migradores de forma a arranjar desenhos complexos em pleno voo. Era uma atividade bastante demandante, que frequentemente envolvia o risco de mais de um dedo na tela e deixava seu rosto quase tragicamente preocupado.
Ela decidiu (não da forma racional e sistemática que eu sugiro com o verbo ‘decidiu’) tomar um curso mais drástico e dramático, e disse - com uma dicção que lhe pareceu falsa, de novela - que não aguentava mais aquela merda de inadequação e grosseria dele, não aguentava mais o tanto que ele não se esforçava minimamente pra ter um convívio decente com as pessoas, que não aguentaria aquilo por mais nenhum segundo.
Mas ela aguentou, sim, por mais quatro anos. No quinto, transou com um homem alto de mãos geladas com quem ela tinha aula de desenho numa casa dividida por quatro artistas diversamente carecas no Lago Norte. Esse ato foi compreendido por ela mesma dentro da narrativa redemunhada e tortuosa que ela fazia da própria vida como um ato bombástico, extremo e necessário na direção de uma resolução satisfatória para diversos dramas interminavelmente sustentados da sua relação com Ele. Ela enunciava mentalmente variações pouco sofisticadas dessa percepção enquanto as coxas também geladas do cara alto batiam nas suas próprias coxas e faziam o único barulho ostensivo denunciatório daquele ato que eles estavam, aparentemente, fazendo. Ela durante o negócio conseguindo ainda ouvir o professor falando lá embaixo de como sugerir profundidade sem ter de utilizar truques de perspectiva óbvios demais e ver lá fora uma piscina com água provavelmente tepida e uma mangueira dentro e algumas poucas folhas secas molhadas boiando e se mexendo devagarinho.

Era muito estranho estar traindo seu namorado assim, de tarde, o quarto tão quente, sem nem poder fazer muito barulho, com um cara de mãos tão geladas.
Chegando em casa ela percebeu que nada havia mudado, que ela nem estava tensa e que nenhuma resolução de nada havia se desenhado. Ele estava no computador reclamando porque havia baixado episódios de um seriado que gosta mas o formato do arquivo tava dando problema e ele não conseguia assisti-los. Exceto que justamente essa teimosia do mundo de fingir que nada havia contecido começou a torná-la tensa, e ela finalmente estoura logo depois de ir ao banheiro e lavar as mãos, chora e conta tudo que havia se passado num tom oficioso, como quem faz um anúncio oficialmente delegado numa coletiva de imprensa, como quem fala de um fato público e impessoal.
Ele não reagiu, continuou tentando converter o arquivo, conseguindo só depois de meia hora. Assistiu a três episódios do seriado, cuja nova temporada lhe parecia inferior à primeira. Bebeu um garrafa de dois litros de guaraná diet quase toda.
De madrugada, ele a acordou perguntando qual seria o nome do homem alto de mãos geladas. Ela disse que Rubens Vieira. Ele repetiu o nome quatro vezes como se entre aspas, cada vez mais irônico, a ultima versão soando completamente inaceitável. Ele se levantou e foi ao computador, procurou o seu perfil na internet. Comentou que ele era feio e que ele não sabia construir uma versão aceitável de si mesmo em mídias sociais. Que seu uso de todas as plataformas denunciava uma ingenuidade retórica extraordinária e uma maneira muito banal de se portar diante dos movimentos midiáticos e espirituais do mundo. Ela meio que concordava, mas não falou nada. Os dois (ele no computador e ela deitada na cama com a cabeça apoiada no braço esquerdo) assistiram juntos trinta e cinco fotos de Rubens Vieiras em diversas agremiações sociais. Num churrasco, num show de alguma bandinha, no estacionamento de um supermercado, num festival de teatro.
No dia seguinte, eles viram um filme muito engraçado e comeram um negócio muito gostoso feito com pesto, confundiram aquilo com o bem estar profundo e sedimentado de uma vida viável.
Eles ficam juntos mais quatorze anos, durante os quais eles respondem várias vezes que não, não tem filhos, jantam mais de oitenta vezes num mesmo restaurante italiano perto de casa de que nem gostam muito, trocam de número de celular quatro vezes, participam de maneira numericamente irrelevante na economia e na sociedade como um todo, trocam brevemente de corpo através de uma intervenção mística inexplicável com deliciosas consequências cômicas e ganham um carro zero numa promoção do jornal, até que um dia eles se perdem um do o outro no shopping e acabam retornando pra casa com parceiros diferentes. Ela com uma jornalista muito baixinha e engraçada pernambucana, e ele com uma senhor que narra jogos fictícios do Botafogo enquanto toma banho. O Brasil enfim se livra das amarras da corrupção e se torna uma grande potência mundial.

Thursday, January 05, 2012

TEXTOS QUE ME OCORREM ENQUANTO DIRIJO OU TOMO BANHO OU ASSISTO FUTEBOL E QUE EU NÃO ESCREVO POR PREGUIÇA E POR NÃO TER EXATAMENTE ONDE PUBLICAR

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-Um ensaio muito sugestivo e esperto comparando os filmes Blow Up, Blow out, The Conversation e Profondo Rosso e mostrando de que formas diversas todos eles espelham e figuram uma mesma estrutura narrativa básica (que é essencialmente literária e paranoica).

-Uma exposição brilhante e revolucionária de como a crítica de música pop só vai fazer realmente sentido quando compreender a importância tão negligenciada da sua dimensão retórica.

-Um comentário provavelmente desnecessário comparando Flaubert e Cézanne, o tanto que eram artistas auto-conscientes e absurdamente deliberados, sem muito talento espontâneo, acinzelados num esforço dirigido até as formas difíceis que encontraram e que ajudariam a definir praticamente todos os formalismos do século XX.

-Uma resenha de Pale King que levasse a sério a relação do livro com ciência da informação.

-Uma análise da imagem/pessoa do Nicolas Cage enquanto figura de linguagem narrativa e figura de pensamento fílmico-conceitual (freestylin’ a partir das tradições clássicas e medievais de análise textual).

-Uma besteira sobre o tanto que alguns países de primeiro mundo (principalmente os Estados Unidos) narram a si mesmos de incontáveis maneiras o tempo todo e com isso sedimentam uma estabilidade simbólica e um extenso domínio de referências em comum. O tanto que os demais países e tradições culturais não tem. O que pode significar esse déficit de representação.

-Resenhas amargas, desnecessárias e virulentas de alguns romances brasileiros recentes.

-Algo bastante vago sobre elegância em videogames, uma desculpa pra falar sobre Shadow of The Colossus e Super Mario World.

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Aliás,
tem uma resenha minha dos últimos romances do Tom Mccarthy e do Houllebecq na última edição da Dicta & Contradicta (que também contém a única resenha do Pale King publicada no Brasil, qu'eu saiba). Saiu um textinho bacana que me cita aqui, também. Eu escrevi um romance/novela/conto comprido que está em busca de editora e com esperança deve sair antes da copa 2014. Acho que isso basta de notícias. Ah, sim, tenho um twitter quase desativado no @macacofantasma.

Passo desde hoje a assinar esse blog com o meu nome-de-verdade. É bastante estranho fazer isso, mas o pseudônimo já não fazia sentido há algum tempo e não queria jogaro blog fora e começar outro (sou sentimental). A voz aqui sempre foi a de um semi-bogus, não exatamente a minha mas não artificiosa a ponto de me parecer alheia. Espero não sofrer nenhuma crise agora que tem meu nome ali, e não uma figurinha faceira. Quem quiser continuar me chamando de andreis pode continuar.

Sunday, December 11, 2011

A forma teimosa
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Que o romance continue, meu deus, esse tanto de tempo depois, essas tantas voltas de sensibilidade tornadas, esse tanto de coisa empilhada nas suas costas. Tudo bem que ele não seja mais a forma central de narrativa da nossa cultura (até porque não existem mais formas lá tão centrais, né mesmo), mas que ainda seja relativamente vigorosa dentro de determinadas comunidades, ainda espose algo que só podemos chamar de uma tradição. É verdade que se há uma coisa que podemos dizer sobre o mundo-de-hoje é que tudo sobrevive, nada morre de todo, tudo ecoa indefinidamente tal qual transmissões UHF de filmes do Steven Seagal pelos infinitos do espaço, ou músicas do Lionel Ritchie em rádios libanesas*. Mas a sobrevivência do romance não é apenas a sobrevivência de uma forma pitoresca dentro de uma comunidade insistente e irredutível. Ela é isso também, mas nas suas manifestações mais extraordinárias essa sobrevivência se dá por vontades artísticas tão genuínas e próprias, esforços tão deliberados e precisos de reformulação de certas estruturas dentro de novas circunstâncias, que somos tentados a crer que o romace não sobrevive apenas como uma convenção-de-representação-da-realidade inventado meio acidentalmente por uma dúzia de senhores mortos, e efetivo apenas por circunstâncias mesquinhas e limitadas de apreciação artística e social (uma burguesia ascendente que queria se ver representada e um público leitor feminino que não tinha lá muito o que fazer, etc). Ele sobrevive porque a sua forma de fato encerra um poder de representação enorme e sério, não-trivial, e que chamar esta forma de simplesmente arbitrária e convencional é no mínimo impreciso. Ela pode não ser natural, pode não ter sido encontrada no mundo pronta, mas algumas das soluções que ela encontra pra vontade de representação do mundo são tão bem-sucedidas e flexíveis que chega a parecê-lo, em alguns momentos**. Se toda arte figurativa pode ser compreendida como uma transfiguração de dados ou impressões da realidade dentro de uma mídia expressiva comum, o romance acaba sendo a arte figurativa mais completa ao não só narrar uma versão expressiva do mundo e uma afetação da realidade, mas também remontar o movimento interpretativo do indivíduo diante dessa realidade, tentando compreendê-la, tentando viver nela.

*não só os artefatos culturais permanecem todos quase ridiculamente recuperáveis e disponíveis, não só qualquer forma artística passível de revitalização e pastiche, mas até as próprias mídias sobrevivem relativamente à sua desuetude e relativa superação técnica, as polaroids e os discos de vinil valorizados por uma autenticidade, o calorzinho de que o analógico se investe pra galera que já cresceu com a infinita abstração de tudo digitalizado.

**dá até pra defender isso seriamente, mas claro que (1 ) tenho vergonha (2) não sei do que tou falando.

Wednesday, November 23, 2011

Ficção científica
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Não me parece acidental que tanto Pynchon quanto Delillo, os dois maiores romancistas vivos da língua inglesa*, tenham uma relação tão profunda com tecnologia. E no entanto a crítica parece dedicar pouquíssima atenção a isto, ainda tratando autores que se preocupam um pouco mais com o assunto como pitorescos ou engraçadinhos. Como se o interesse não fosse tão literariamente digno quanto alguns outros. Tanto que o autor do bastante inteligente e igualmente derivativo C, Tom Mccarthy (que é sobre umas quarenta e cinco coisas, mas é principalmente sobre as incipientes tecnologias de informação no começo do século passado) precisou praticamente apresentar sua sensibilidade com um texto que é quase um manifesto (curiosamente, aliás, admitindo mais a sua linhagem com o modernismo hoje meio esquecido dos Marinettis da vida do que com o Pynchon, que é sua influencia mais óbvia)

Alguns dos motivos da crítica não dedicar sua atenção à tecnologia (e ciência como um todo) de maneira mais detida ou organizada parecem decorrer simplesmente da pouca promiscuidade entre as humanas e as exatas, a maior parte dos acadêmicos dos dois lados se enxergando como habitantes de mundos distintos onde linguagens irreconciliáveis operam. Não que não hajam figuras híbridas importantíssimas, como nas duas últimas décadas os notáveis assim-chamados teóricos de mídia, os Flussers, Virilios e Kittlers da vida (este último um leitor dedicado e bastante sofisticado de Pynchon, aliás), mas essas figuras ainda parecem ter sua influencia restrita a academia, sem respingar muito na crítica literária tradicional da mesma maneira que os cultural studies da vida, por exemplo, respingaram tão tremendamente. Algumas vaguidões envolvendo hipertexto e Cyborgs pode dar as caras eventualmente, mas não parece haver uma noção de que existe um corpo literário importante dedicado ao assunto, não parece estar no arsenal imediato dos novos escritores e nem no imaginário crítico geral.

Outro motivo trivial para essa desatenção talvez seja a divisão rígida de gênero que se enrijeceu com a ficção científica, que apesar de ter algumas obras mais ou menos respeitáveis e ser reconhecidamente um tipo de arte (popular, que seja) com influência extraordinária na imaginação comum, é decididamente considerada como fora do escopo da literatura séria**. O papel admitido da ficção científica é um pouco o de apresentador de idéias interessantes e pitorescas a serem absorvidas posteriormente por autores mais sérios ou adaptadas pra filmes de apelo popular (alguns deles genuinamente fortes, como os do Cronenberg), com Philip K Dick da vida sendo um tanto parecido com o Poe na sua vasta e importante influência, na introdução de uma série de figuras expressivas e idéias realmente interessantes transmitidas com uma relativa pobreza de estilo e de sofisticação formal que impedem ambos de galgarem um degrau mais cabuloso de eminência canônica.

Uma exceção bem notável à essa desatenção da crítica é o livro The Mechanical Muse, do Hugh Kenner, reconhecido principalmente pelo seu trabalho sobre os altos modernistas, especialmente Joyce, que são também os alvos ostensivos desse pequeno livro, analisados aqui especificamente pela sua relação com tecnologia. Além das diversas pequenas observações inteligentes pra caramba, o livro de Kenner poderia ser útil justamente pra ajudar a fazer os críticos mais entenderem as diversas maneiras diferentes que transformações tecnológicas operam nas nossas sensibilidades e na imaginação literária como um todo, como a reorganização prática da vida moderna (os escritórios e os metrôs e relógios) está fortemente presente em Eliot, como Ulysses seria inimaginável sem a ordenação da matéria impressa e como Beckett tem ecos bem fortes de uma racionalidade computacional.

Em parte, claro que a tecnologia já influencia bastante a ficção, mesmo que isto não se reconheça diretamente, influencia tanto a confecção de novos romances quanto a sensibilidade dos novos leitores e críticos (a imaginação visual de alguém que cresceu com rádio é diferente de alguém que cresceu com televisão que é diferente da de quem cresceu com internet, etc), então por que a contínua surpresa quando algum autor dedica muito do seu recorte ficcional a tentar narrar a relação das pessoas com tecnologias relativamente recentes?

Proust, o alto modernista mais etéreo, de registro lingüístico e imagético mais enlevado e aparentemente imune às revoluções da cidade moderna, dedica um tantinho do seu tempo a falar com espanto e entusiasmo esteta do telefone, do carro e do avião. O que ele está fazendo não tem nada demais, é o procedimento altamente natural de um escritor de ficção relatando novos objetos no mundo, os usos possíveis deles e os efeitos que eles trazem à nossa imaginação comum. E no entanto alguns críticos acham estranho ou afetado que se queira dar alguma ênfase a internet, a redes sociais, blogs e etcs. Como se a vontade de narrar isso decorresse de um artificialismo, uma impostura, uma vontade superficial de ser contemporâneo. Tratar desses instrumentos é o mínimo que podemos esperar de um escritor de ficção que tente operar com alguma medida de realismo num livro passado nos dias de hoje. Ainda acham mais contemporâneo (no bom sentido, no sentido correto) e urgente focar em invenções modernistas que se acham pós-modernistas, as colagens e as vozes fragmentadas, as faltas de linearidade, as metalinguagens e os hipertextos, ou sugestões já cansadinhas de narrador instável, de que tudo é texto, do fora, do outro, do corpo, de autoficção, de tudo líquido, subjetividades que não deixaram abstratamente de ser interessantes e que obviamente ainda podem dar um caldo, mas que deixaram há muito de urgir com a contemporaneidade que neguinho parece supor, já se prestando a um bom tempinho à versões kitsch e automáticas (do tipo da desorientada da Tatiana Salem-Levy, por exemplo).

Claro que eu não ousaria chegar perto de uma babaquice de manifesto do tipo que prescreve o que deve ser narrado, não acho minimamente que há uma obrigação dos escritores de se interessarem por tecnologia (quem quer que você queira considerar os outros maiores escritores de ficção vivos - Coetzee, Marías, Cormac Mccarthy, Philip Roth, McEwan, Lobo Antunes, Zadie Smith, Franzen, Piglia, Amos Óz, Aira, Marilynne Robinson, Alice Munro, etc - dificilmente é alguém que se importa muito com isso). Mas me parece pouco controverso que a humanidade tenha passado nas últimas décadas por algumas revoluções técnicas sucessivas que redefiniram um sem número de coisas bastante sérias, no mínimo reposicionando a relação cotidiana que temos uns com os outros, a relação que temos com o espaço, a maneira de culturas distintas se comunicarem e a disponibilidade de informação e cultura que cada um tem. No mínimo.

Num período onde a literatura (esse golem, esse megazord) parece tão choramingona com sua crise de identidade, parece meio ansiosa e esquizofrênica com a disponibilidade paralela de quase todos recursos, sensibilidades e movimentos históricos que a ficção já apresentou, todos aparentando ser dispositivos formais igualmente válidos e igualmente emprestados, não-exatamente-nossos, talvez seria interessante buscar algo timidamente próximo de uma identidade ou uma direção naquilo que mais claramente parece nos distinguir de todas gerações literárias anteriores: os instrumentos brilhosos e altamente esquisitos de que nos servimos agora o tempo inteiro, essa rede absurda de informação que parece funcionar como uma autoconsciência do mundo. E que esse esforço sirva pra reconfiguração imaginativa de tudo aquilo que sempre importou, é claro, todos os temas que realmente valem a nossa atenção e fazem sentido (morte, solipsismo, identidade, o mal, ciúme, a acidentalidade aparente das coisas, a possibilidade teimosa de transcendência, etc) mapeados mais uma vez num novo terreno e numa nova sensibilidade.

*e consequentemente do mundo, dá vontade de dizer, mas aí vocês vão chiar.

** Um caso bem curioso é próprio é Ratner’s Star, do Don Delillo, que é o único livro de ficção científica de extrema sofisticação lingüística e formal que eu conheço. Talvez por isso mesmo seja um dos livros mais negligenciados e menos apreciados do Delillo. É fato que ele termina de forma desajeitada e é bastante estranho, mas isso é verdade de metade dos livros dele.

Sunday, October 09, 2011

Blessed rage for order, bro
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Logo depois de algum evento desses que mobilizam por alguns instantes a consciência dispersa da internet nós podemos ver em todas as nossas timelines caudalosas e histéricas um direcionamento, forças brevemente entrando em coerência, como pássaros migratórios em formação súbita.

Algumas respostas imediatas e genuínas (morre um visionário, morre um CEO trancador de tecnologia) seguidas de suas subversões irônicas (nossa gente grandes merda todos shora) e reclamações morais sobre reclamações morais, culminando em esvaziamentos absolutos (foto do jesse eisenberg interpretando o mark zuckerberg escrito rip steve jobs 1956-2011), dando a impressão formal muito curiosa de um evento cultural sendo digerido tão diversamente por estruturas fixas de resposta e se tornando rapidinho um tropo. Isto é, um meme, um elemento convencional e estilizado de uma linguagem vasta e móvel onde as coisas importam principalmente por suas capacidades mínimas de articulação estética imediata.

Essa comunidade vasta e principalmente anônima de fazedores-de-meme impressiona principalmente por sua capacidade de definição de um vocabulário comum, de estruturas estilizadas e gramáticas expressivas. Seria talvez mais fácil imaginar que neguinho se dispersasse em vozes sempre imediatamente realizadas, eu acho um tanto surpreendente que tantas formas expressivas fixas sejam estabelecidas de maneira espontânea.

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Os rage comics são o exemplo mais curioso disso, talvez. Neguinho desenvolveu ali rapidinho uma estrutura figurativa convencional cujos paralelos com formas altamente estilizadas de arte popular são bem óbvios. Os rostos compõe uma gramática básica de sentimentos estilizados e funções narrativas recorrentes, mas tanto a expressividade pictórica específica de cada um deles quanto os sentimentos ambíguos que eles representam são surpreendentes, mais sofisticados do que eu imaginaria provável.

E quase nenhuma das figuras foi desenhada a partir do nada, elas quase sempre derivam de alguma foto ou desenho já existente, apanhado do quase infinito arsenal figurativo disponível na internet. Seria interessante ver uma genealogia dessas figuras estereotipadas e notar de que forma que cada uma foi sendo selecionada como particularmente expressiva e artisticamente fértil. O anônimo brilhante que decidiu retirar de um frame específico do vídeo duma coletiva de imprensa de um jogador de basquete um rosto para expressar uma atitude generalizada de desprezo e superioridade* irônica merece ser valorizado como um artista popular genuíno de uma tradição espontânea tanto quanto um artesão anônimo da idade média responsável por um pequeno demônio notável incrustado na fachada de uma catedral, ou um bróder inca fazedor de urnas funerárias particularmente bonitas.

A seleção que ele fez é particularmente curiosa porque o jogador no vídeo não expressa aquilo que a figura destacada expressa, portanto foi preciso um tanto de sensibilidade pra notar que num vídeo de um homem rindo de maneira bem disposta há um frame que de fato parece conter uma forma essencial e arquetípica de um sentimento tão pouco simples e tão difícil de se expressar sinteticamente quanto ‘bitch please’.

Não há como dizer que a figura só é expressiva por ter sido selecionada e forçada numa forma convencional. Várias outras figuras são forçadas sem ganharem vigência e sem se fixarem dentro do vocabulário comum. Todas as que conseguem se fixar dentro do vocabulário são de fato bastante expressivas na sua especifidade e na sua contribuição pro vocabulário. O fato do artista anônimo ter retirado esse rosto de um lugar tão arbitrário quanto um vídeo de uma coletiva imprensa de um atleta diz bastante sobre a relação que neguinho mantém hoje com imagem, a disponibilidade absoluta de qualquer forma ser transformada em qualquer outra forma a partir de uma mínima equivalência ou sugestividade.

Ou a semelhança apontada entre uma foto do Richard Dawkins e uma da Emma Watson (que beira o literalmente inacreditável e levanta imediatos gritos de 'this looks shopped'). Essas dúcteis e aleatórias equivalências estão aí para serem assinaladas e divulgadas com o mesmo ímpeto com que são feitas as analogias e as relações profundas da poesia, que segundo Baudelaire e Wallace Stevens sugerem sempre a existência possível de um mundo de analogia perfeita ou metáfora total que seria a causa formal da imaginação poética (uma noção que o Northrop Frye remonta ao arquétipo mítico de um cosmos pleno de significado e de autossemelhança)**.

Do mesmo jeito que qualquer cultura lentamente enforma sua tradição pictórica a partir de suas possibilidades técnicas e pressupostos cosmogônicos, neguinho formou rapidinho uma tradição pictórica rudimentar e popular ali a partir da ferramentas mais simples e generalizadas (ms paint) e de um mundo de imagens todas prontamente manipuláveis por seu potencial expressivo imediato.

*matizada com variantes tipo ‘bich please’ ou ‘dumb bitch’ ou ‘fuck that guy’.

**desculpa, mas eu estou falando sério.

Tuesday, September 27, 2011

RESENHA DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORANEA DO LIVRO 'CIDADE LIVRE' DE AUTORIA DO AUTOR-DIPLOMATA-INTELECTUAL JOÃO ALMINO
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resenha que eu escrevi pra outro lugar (por isso meio engessadinha) e que agora jogo aqui pra não desperdiçá-la:

*música-tema de resenha de literatura brasileira*


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O romance de João Almino reconstitui a época da construção de Brasília, no final da década de 1950. O protagonista relembra sua infância nesse período e mistura a narrativa histórica e macroscópica aos focos mais íntimos da sua família e de seu amadurecimento.

A voz em primeira pessoa que organiza a história tenta se tornar mais interessante e complicada através de filtros subjetivos e oscilações ambíguas. Além das previsíveis menções à imprecisão da memória e de uma loucura temporária (que todo mundo sempre faz questão de incluir), o narrador ainda menciona duas complicações: um suposto autor que teria transformado o seu relato objetivo e direto numa obra mais literária e a publicação fictícia da história num blog
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A tentativa de se elaborar um composto retórico complexo com formas e vozes variadas é bem válida, mas os esforços de Almino não trazem praticamente nenhum efeito visível, não conseguem de fato tornar a voz mais interessante e ambígua, são quase só acenos abstratos na direção de uma complexidade narrativa que não chega a existir propriamente. Não sentimos essa suposta tensão entre as vozes do autor primeiro e segundo e os supostos comentários do blog trazendo informações factuais da época são mencionados de maneira bem apressada. No final das contas o registro se mantém sempre o mesmo, curiosamente estável e unívoco.

O livro recebeu diversos elogios entusiasmados da crítica, além de ganhar o prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance. A respeitada Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, disse que no romance de João Almino a cidade de Brasília se torna “microcosmo e metáfora do país, do universo, ou desse torvelinho vertiginoso que é a subjetividade.”

Tudo bem, de fato dá pra dizer que Almino faz um movimento bem evidente no sentido de transformar Brasília em metáfora pra tudo, mas é difícil encontrar algum trecho do livro que realmente encerre uma expressividade do tamanho e do alcance sugeridos por Galvão. O torvelinho mixuruca de subjetividade até existe, mas não causa nada nem remotamente próximo de uma vertigem. Não temos nenhuma metáfora ou descrição original envolvendo a construção absurda, quase fantástica, de uma cidade no meio do nada, não temos nenhuma descrição realmente precisa e interessante dos vários cenários estranhos e situações curiosas que compunham a capital, na época. O material é fértil, e Almino sabe compor alguns momentos de prosa descritiva competente, mas nunca sai do que já sabemos. É um registro pesquisado e mais ou menos meticuloso, é verdade, mas muito mais factual e didático do que imaginativo. Os personagens (o narrador incluso) são remontados com pouco mais do que um nome e uma ou duas qualidades genéricas. Figuras históricas (JK, Elizabeth Bishop, Aldous Huxley) aparecem sem desenhar nada mais interessante do que sua mera presença anedótica, como um ator famoso cuja ponta num filme só tem graça pela sua presença pitoresca ali. Mesmo Bernardo Sayão (o único desses ilustres que Almino efetivamente tenta tornar personagem) parece pálido e esquemático, apesar da facilidade com que sua figura tomaria ares titânicos e curiosos.

O livro é principalmente insosso, e esse problema é generalizado em todos seus níveis. Em parte isso acontece pela aparente incapacidade de Almino de dar voz aos seus personagens, que quase sempre falam pela voz de papagaio do autor, todas niveladas e essencialmente iguais. Da mesma forma, alguns elementos mais interessantes que Almino consegue trazer à história, das profecias místicas absurdas que algumas pessoas tiveram em torno de Brasília e dos vários absurdos de especulação imobiliária e má gestão que acompanharam a construção da cidade, são igualmente nivelados de um jeito raso e finalmente desinteressante, registros mais jornalísticos do que efetivamente imaginativos, sem a organicidade que esperamos de um livro sério de ficção.
No meio de todo o burburinho histórico ainda há uma trama misteriosa envolvendo o pai do narrador e a morte de um homem humilde e simples chamado Valdivino. Mas aqui a indeterminação temporal e espacial do narrador não torna as situações mais instigantes ou férteis, ela só esvazia e dispersa a dramaticidade e o peso dos eventos, que mal acontecem, vão se sucedendo em pipocos distantes de sexo e morte.

A sugestão final, aparentemente, remete a um dos maiores clichês da literatura das últimas décadas: o de um narrador instável tentando dar conta do peso subjetivo da memória dos mortos (um clichê diluído da obra de gente grande como Sebald e o nosso Bernardo Carvalho)
Como nas armações vazias e semiconstruídas de concreto que vemos nas fotos da construção de Brasília, nós temos aqui o desenho e a ossatura, as sugestões formais (até competentes) de um romance histórico subjetivamente informado. Mas não temos nenhum lineamento preciso de verdade, quase nenhum estofo dramático, e nenhuma figura expressiva vivendo lá dentro.

Friday, September 23, 2011

The mouthfeel of a discontinued cola
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Eu ainda assisto televisão, acredita? 2011 correndo, a singularidade logo ali, pessoas implantando guelras e asas de morcego no Japão (presumivelmente), a topografia dos países nórdicos toda renderizada perfeitamente, smartphones transformando a nossa experiência de esperar no dentista. As coisas agora ficam antigas rapidinho, coisa de quatro ou cinco anos. Aqueles celulares da nokia que todo mundo tinha em 2004 já parecem retrô, como se aquela telinha de uns dezoito pixels esverdeados fosse analógica, montada de cubinhos mecânicos rapidamente combinados. E dentro desse cenário a televisão é como vaudeville, como beisebol, como o U2, um negócio cuja valor sempre foi nenhum e cuja capacidade estimulante agora já se vê irrevogavelmente ultrapassada.

Se fossemos levar nossa vida minimamente a sério, claro que não haveria - fora o futebol - nenhum motivo legítimo para ainda se assistir televisão. A internet é superior na sua oferta de entretenimento em absolutamente todos os níveis possíveis (inclusive dignidade), e mesmo essas recentes reinvindicações de relevância de seriados dramáticos sérios são todas acessíveis optimamente pelo computador ou por DVD.

Já parece uma atividade curiosamente linear e comportada, nossa atenção forçada a demorar numa única coisa a cada momento (mesmo que mudando de canal rapidinho), os programas decorrendo nalgo como tempo real, você tendo que sentar numa hora específica pra ver um programa. E comerciais, meu deus do céu, o povo efetivamente querendo que você fique ali sentado esperando por um programa que já não vale nem 30% da sua atenção enquanto você negocia a posição das suas pernas pra cortar as unhas, esperando por aquela bobagem derivativa enquanto alguém grita no seu ouvido horários de programas ainda piores do que aquele e manobra filmes curtos fantasticamente produzidos com premissas estéticas mais sofisticadas do que toda a filmografia do Michael Bay tentando te convencer a comprar - o quê? - detergente, carro, televisão, umas escolhas de consumidor que você jamais efetuou na vida e nem pretende jamais efetuar com muito cuidado (os comerciais na internet ao menos são selecionados carinhosamente por bots aí que não entendo de forma a me mostrar produtos que supostamente me interessam).

Mas é em parte por isso que eu assisto. Além de uma inércia odiosa e de muito gosto pelo sofá azul da sala da minha casa, eu assisto a coitada pelos comerciais odiosos de perfume que eu deixo no mudo, pela incapacidade daqueles programas de te divertirem e a generalizada inadequação de tudo envolvido (como numa enciclopédia antiga, num jornal dos anos trinta). É até difícil imaginar hoje como que nos anos oitenta pra trás essa mídia parecia tão hipnotizadora e rápida e ostensiva.

E claro que existe sempre algum filtro curioso através do qual se enxergar qualquer besteira na televisão. Por mais que o mundo representado naqueles moldes seja tolo e superficial e principalmente medíocre, há sempre caminhos retóricos curiosos a serem depreendidos de algum comercial (monografias imbecis de cultural studies a serem mentalmente escritas em trinta segundos), elementos divertidos de culturas narrando a si mesmas e montando suas auto-imagens em telejornais e sitcoms de homens barrigudos com mulheres bonitinhas. E pro meu gosto tão facinho existe o quase infinito interesse em todos os pequenos acidentes culturais de vinte anos atrás cuja mínima sobrevivência e compreensibilidade até hoje parece quase literalmente impossível, piadas do Frasier envolvendo cappucinos ou um trocadilho rapidíssimo dos Simpsons como inscrições sutis e quase apagadas em artefatos de couro de um povo pré-colombiano resgatados de debaixo de pedras imensas, imensas.