Sunday, June 14, 2009
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Todo romance do Bellow parece ter a tão bonita tarefa alquimística de tentar salvar a opacidade das rudes aparências, reconhecê-las em alguma forma significativa confusa. E isso sem nenhuma das soluções habituais, nenhuma geringonça formal de redenção e explicação, buracos de encaixe evidente, ironias oniscientes, sem complicações retóricas que toldem as águas, para que pareçam mais profundas do que são. Sempre um narrador de primeira pessoa de quase nenhuma distância do autor, olhando pra gente nos olhos, (quase) todos os níveis diretamente enunciados. Tentando cumprir um ato significativo a partir de uma dolorosamente verossimilhante realidade, que esperneia de impurezas, que não quer significar nada de tão extraordinário assim, não. Coleridge falou que arte devia nos livrar das ‘disturbing forces of accident’. Bellow colocava seus hominhos agitados atentamente recolhendo tudo, tudo, todos os pontiagudos acidentes irredimidos, que eles se intregrassem e se consagrassem pela sua força expressiva até algo além deles mesmos. O que, claro, nunca se operava de verdade. Mas a tentativa escancarada deixa seus mundos povoados de uma dificuldade e de uma gratidão. Eu gosto tanto dele.
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Música
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Veckatimest muito bacana, como tanta gente irá te dizer. E também, e mais ainda, o Bitte Orca. É engraçado que desde Radiohead nenhuma banda realmente legal faz mais o caminho do mais-acessível pro ruidoso-e-doidinho. Agora é o contrário, você começa fazendo barulho auto-indulgente e arrastado e progride a coisas mais acessíveis e, curiosamente, bem melhores. Música pop tem aptidão presse meio termo, mesmo, parece. Animal Collective, Grizzly Bear, Broken Social Scene, e agora Dirty Projectors. Alguém mais esperto me diga o que isso significa, se alguma coisa.
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Design
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Eu não gosto de design.
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Friday, May 22, 2009
Eu agora estou também aqui, todo multimídia e agitadinho.
Friday, May 15, 2009
OH THESE MASTER TROPES OF OUR TIMES! (gritado pelo Will Ferrell)
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(isso aqui é tipo um rascunho de um texto mais organizado que não escreverei, vlw, basicamente porque não vale o esforço)
(JMS é João Moreira Salles)
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Nos anos 60, um cara chamado Joseph Mitchell escreveu na New Yorker o perfil de um boêmio mendigo do Village, Joe Gould, um excêntrico local que era famoso, entre outras coisas, por uma empreitada absurda de escrever uma história oral dos Estados Unidos, uma obra de pretensões Gibbonianas que já teria milhares de página, na época da reportagem.
No meio do perfil, que é bem longo, Mitchell abandona o tom jornalístico mais objetivo para trazer candidamente uma equivalência bem bonitinha entre ele e o objeto do seu relato, uma volta meio inesperada e trazida bem honestamente, sem grandes volteios retóricos ou estilísticos. O texto é tido como um clássico jornalístico, um exemplo de como dá de se fazer Arte a partir do jornalismo. Quando eu li, pensei imediatamente em Santiago, ainda mais sabendo a importância que o JMS dá para o jornalismo literário (que ele, burramente, tem como tão importante quanto a ficção, pra segunda metade do século XX, sóseforhein).
Santiago também tem um autor que traça equivalências pessoais com o seu objeto documentado, tentando formar (ou encontrar) um discurso em comum, um tema meio pronto ali entre os dois. Mas essa equivalência temática dos dois acaba evidenciando o tanto que o tratamento do JMS é um tanto mais sofisticado do que o do Mitchell, né, o tanto que os pressupostos estéticos atuais resultam numa obra bem completamente diferente. O que não é acidental, e acaba por ser eloqüente sobre um bando de coisa (que tentarei explicar).
Santiago é todo complicadinho, todo repleto de camadas e temas diretamente enunciados, quase didaticamente dispostos. O que é engraçado, e que torna o filme distinto, pra mim, é que os temas sejam todos literários. Não só tradicionalmente literários, mas que estejam mesmo dispostos de maneira literária (isso não deve ser tão raro quanto me parece, com os Chris Marker aí e tudo, filmes-ensaios, mas pra mim é curioso). São poucos os recursos do filme que dependem exclusivamente de linguagem cinematográfica (o que quer que isso seja).
Mas seu eu tivesse que escolher um tema central, por mais chatas que sejam essas tentativas, seria a da terrível dificuldade que espreita por trás de qualquer produção de sentido, um certo constrangimento final (tou numa fase de itálicos). Um constrangimento que compreenderia tudo. De todos os vários tropos e recursos e elementos temáticos da obra, eu reconheço esse fio em comum, esse padrão onde tudo se enreda. Isso está na própria figura (quase trágica) do Santiago, ao tentar se colocar como o personagem do documentário que o JMS-de-93 quer fazer, isso está na sua gigantesca e caseira e inútil empreitada de se capturar e listar a nobreza mundial*(que se equivale maisoumenos ao espírito falho e bonito da empreitada também canhestra e excêntrica do Joe Gould), isso está no lirismo-de-memória do filme**, enviesado e típico, de desconfiança amarga-e-doce dos nossas tão-suspeitas faculdades de produção de sentido , etc. Tá em tudo.
Talvez a principal maneira desse fio em comum se manifestar no filme esteja na sua recursividade metaficcional, que é o seu recurso mais imediatamente notável (e mais imediatamente notado, em resenhas e tal). O filme, principalmente ao tratar direto do primeiro corte do documentário, de 93, fala toda hora dos seus movimentos formais, das premissas retóricas de algumas das convenções que ele abandona, além de um certo constrangimento estético e retórico (e finalmente moral) que existe nas tentativas óbvias e ingênuas do primeiro corte.
De se tentar firmar o Santiago como um personagem numa narrativa prontinha e artificiosa, superficial***. O que está em ação aqui, é bom notar, é um tropo já assente, já familiar, do artista candidamente desvelando-se em honestidades, descascando as premissas formais da sua arte para atingir uma suposta autenticidade final, um apuramento infinitamente confiável.
Isso é tão rotineiro que até publicidade (que é como um deserto pra onde recursos e imagens artísticas vão quando morrem) faz. Po-mos americanos já tentaram fazer o que seria o passo lógico seguinte, submetendo a própria prática metafficonal à mesma tentativa de desvelar seus mecanismos e tentar atingir uma autenticidade retórica final. É evidente que o negócio espirala involutamente num progresso engastado, sem nenhum fim previsível. Há sempre um mecanismo retórico a ser revelado e exposto em honestidade (‘eu estou te falando dos mecanismos da ficção pra você confiar em mim, e admitindo isso para que confie mais ainda, etc’). Barthelme tá cheio disso, mas a tentativa mais exagerada que eu conheço nesse sentido é Octet, do DFW (cujo sucesso é bem discutível). É difícil imaginar uma tentativa séria ainda mais extremada do que aquela, acaba funcionando meio como um Ok, já deu, bora desligar a luzinha dos nosso chapéu de minerador e voltar pra superfície.
E no entanto o negócio funciona em Santiago, eu digo. O filme realmente consegue usar de todas essas ferramentas literárias, já meio cansadas, para trazer uma autenticidade pro seu discurso, para se tingir de uma autoridade retórica que não se costuma conferir a muita coisa hoje em dia (além do Obama, a-yo!). E é curioso que funcione, com o filme se apresentando tão imediato de temas relevantes, de recursos familiares, de um clima Senta-que-lá-vem-uma-arte, piano-feeling, p&b. Eu confesso que a minha reação inicial, meio martelinho-no-joelho, foi de desconfiar, de achar tudo muito encaixadinho, como um pássaro mecânico que tenta demais, ou uma cebola de infinitas camadas descascáveis****. Mas o filme me ganhou, de verdade, de com força, talvez principalmente pelo carisma do Santiago, que é um grande dum bróder, e que parece pronto a sair significando adiante em qualquer romance do século XX.
E talvez esses engenhos literários meio artificiosos todos ganhem legitimidade no filme justamente por ser um documentário, e não um trabalho de ficção. Ficção que se meta a recursos formais ou temáticos muito vistosos e evidentes corre sempre o risco de perder parte de sua força, de nos deixar suspeitos quanto a importância ficcional da realidade que se mostra e se constrói, derrubando a suspensão de descrença à procura das intenções por trás das cortinas. A realidade dos eventos de Santiago não deixam que isso jamais aconteça. Apesar do rastro tão pesado dos recursos e temas, nada jamais se diminui.
*Também esse parece, curiosamente, um elemento literário, embora seja, é claro , algo real. e não trazido pelo JMS. Há muito tempo que se considera especificamente o constrangimento da lista enquanto produtora de sentido. Há o exemplo divertidão de Borges, da enciclopédia chinesa, que Foucault cita e que é, por sua vez, citado pelo Gass (risos). Mas o filme foi bem esperto em se centrar naquilo que só um filme poderia trazer, trazendo o constrangimento material da lista, sua tipografia tosca, suas fitinhas fiapadas. É lindão.
**Que seria, segundo não-lembro-quem-mas-juro-que-existe, o principal tema da literatura no século passado. Eu pessoalmente sou meio engastado com ele, com Sebald e parte da galera, leio sempre com reticências automáticas (“Minha memória me trai” -> “Minha memória me trai...”), mas isso é provavelmente bobajada de quem não leu Proust direito.
***Pode-se dizer que o filme faça a mesma coisa no corte atual, só que de uma maneira mais sofisticada. É estranho que o JMS não pareça admitir isso.
***mal aew.
Saturday, May 02, 2009

UM POST ATUAL
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Gente olha que coisa. O que se traz com a irrupção cabulosa de blogs, de perfil-do-orkut e, agora, do twitter, é a consolidação de toda uma multidão de pessoas cujo, *ahem*, self-fashioning está estritamente conectado com um hábito lingüístico. Acho que ninguém esperava por isso, quinze anos atrás. Já houve tempo onde empreitar uma formação-do-eu a partir da escritura de um texto era vanguarda, era revolução, era coisa tremendamente sofisticada. Montaigne ensaiando a si mesmo, Santo Agostinho se confessando, Rousseau brincando (sei lá como, nunca li) d’o homem moderno. Hypomnemata laboriosa e séria (mesmo no caso tão esguio do Montaigne). As versões atuais são vulgares e pequenas, e principalmente superficiais, mas não se distanciam completamente de uma idéia parecida de uma construção pessoal.
Quem é mais esperto consegue, suponho, se adaptar com mais sofisticação à realidade expressiva do negócio, e presumivelmente deve se criar toda uma cultura agradável e engraçadinha, uma forma de se enxergar as coisas e de se reproduzirem graças e níveis suplentes. Mas os usuários mais clueless (que são, como sempre, quase todos) devem logo deixar essa pequena técnica informar terrivelmente a vida deles. O que é engraçado de qualquer mídia nova e brilhante e pervasiva como essa é que não deve influenciar apenas a capacidade expressiva das pessoas, circunscrevendo a imaginação delas a esse impedimento de 140 caracteres, a um caráter tão específico de publicação, mas - e isso é mais importante - imagino que eventualmente essa forma deve também influenciar o modo de neguinho viver as coisas, tornando a vida delas uma sucessão de oportunidades twittáveis, o mundo averbado em pseudo-eventos reduzíveis a 140 caracteres. *põe dedos nas têmporas* Oooh Shiiit.
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O mundo se reduz a uma antologia ou repertório de pequeníssimas, minúsculas articulações estéticas. Civilizações existiram para completar Age of Empires, Buda existiu pra dar em estatuazinhas gorduchas que nos preenchem de boadisposição genérica e multiculturalismo, vidas ilustres existem para acabar em cinebiografias com estrelas de Hollywood, os anos 50 existiram para que Mad Men, etc.
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A sobrevida laggada de um perfil desativado do Orkut causa um efeito engraçado, com aquele lirismo já empacotado de luz-de-estrelas-mortas. Porque estamos acostumados a enfrentar perfis como extensões da pessoa, uma impressão que se valida não só pelo alto grau de personalização que ocorre em cada elemento do perfil, quanto pelo fato dele poder ser atualizado e modificado a qualquer momento (o que traz um efeito de atualidade, a impressão de uma presença esquisita pairando sobre aquilo). Quando se perde o controle de edição sobre um perfil desativado, ele fica verdadeiramente fora do alcance da pessoa, torna-se uma extensão morta, mas que ainda estamos acostumados a julgar de acordo com os critérios antigos (já bem falsos e confusos). É uma coisa que existe tão pouquinho.
Thursday, April 16, 2009
UM EITO DE CITAÇÕES 4 U / que andei acumulando nos últimos, sei lá dois meses. pedaços curtos cuja graça não depende (pra mim) de contexto, funcionam (pra mim) como pecinhas soltas imediatas de graça. Eu poderia ter um tumblr só dessas coisas, ou um twitter, um equivalente escrito de um bom indexador de imagens. mas não, vou colocar todas aqui misturadas assim mesmo. Mesmo quando sou moderninho, eu sou antiquado, tá vendo que coisa.
Todas as coisas estavam juntas. The process of the breaking day was unknown to them.
(such a world of total metaphor is the formal cause of poetry)
Há um pastar meu e de ovelhas, so all things hobble together for the only possible.
Todos os abutres são fêmeas, fecundados pelo vento. Não resta qualquer dúvida a respeito.
It is a curious tendency in human nature to believe in disillusionment: that is, to think we are nearest the truth when we have established as much falsehood as possible. Sendo considerado um pleonasmo falar em 'liana lenhosa'
The sky takes on content, feeling, an exalted narrative life. Remembering disasters.
This dark alterity, simia dei. Yet this absence of imagination had itself to be imagined (see also pantheistic solipsism).
E há de parir um sapo / metido num guardanapo.
TIGER ROBOCOP NELES, ARQUITETOS DA INFORMAÇÃO
Tuesday, March 31, 2009
A árvore era grande e desorganizada, ela se abria indecentemente em galhos grandalhões que terminavam em folhas pequenininhas poucas, desapontantes, como se desfalecesse. Seria feia, se árvores conseguissem ser feias. O raio da sua copa era delimitado no chão por bolinhas pequenas que haviam todas caído recentemente.
Verde, cinzas e verde-cinzas, e que ainda caíam, de minuto em minuto. Como se a árvore tentasse com esforço manter um ritmo impossível com aquilo, percutindo no chão de pedra.
-É que eu queria ir pra Austrália.
Eu olho pra baixo pra cara dele e ele continua olhando pro céu. Mesmo sabendo, mesmo tendo já uma casca meio dura, eu quase sempre tenho um meio segundo de tentar entender o sentido e o possível contexto do que ele quer dizer. É ainda sempre mais fácil do que acreditar que não há mesmo contexto, que são sinapses qualqueres que decidiram dar a mão e fazer bagunça. Porque sim.
Eu passo a mão no cabelo dele, devagarinho, concordo.
Minhas mãos são pequenas, pequenas o bastante pra eu não me acostumar com a pequenez delas. Pra toda vez eu olhar e pensar Caramba, como minhas mãos são pequenas. Parecem as mãos de uma outra coisa, de uma boneca. Eu ponho a mão no queixo dele, envolvendo a cara pequena e frágil, sentindo o osso debaixo da pele. Ele não se mexe.
O chão é de alguma pedra que eu não sei o nome, uma pedra áspera e pontiaguda, rachada pelas raízes da árvore, que se pegam à terra num esforço tão bonito. A pedra do chão é também a pedra do banco onde eu estou sentada e ele está deitado. A pontiagudeza quase faz com que o banco descumpra seu propósito de coisa sentável. Ele tem que estar desconfortável, mas eu não sou a mãe dele, né. A pedra está meio fria, mas ainda guarda um calor antigo, que nem o meu corpo, ainda meio acalorado nuns fiozinhos irritantes de suor. Cai outra fruta-bolinha. Eu fico atenta achando que ele vai querer comer uma delas, pronta pra tirá-la da mão dele.
Mas se ele nem come frutas comestíveis, cortadas e dispostas pra ele em cima de um prato.
A maior dificuldade de acreditar que as frases não querem dizer nada é que elas não são realmente aleatórias. Não são. Eu faço frases aleatórias na minha cabeça pra testar, e elas costumam soar tipo: Mas o calor não se faz com tijolos, e De tarde o azul tira as botas. Comida boa é comida morta. Elas são só bestas, às vezes engraçadinhas, no máximo. As dele geralmente parecem tentar querer dizer alguma coisa, parecem ao menos fazer referência a alguma expressividade comum, coisas que ele já deve ter ouvido em algum lugar. Ele é quase um artista dentro da doidice dele. É assim que crescem e se multiplicam as produções das águas, eu penso.
Mas nem tem nada a ver.
Ele tá deitado no meu colo, com a camisa meio feia que ganhou de presente (da silhueta um surfista, e escrito SURF IS MY FREEDOM) e o short preto habitual e tênis de futsal, que ele nem joga. A orelha dele pequena e tão perfeitinha, que eu admiro como se só ele fosse capaz de produzir cartilagem no mundo, e como se isso fosse, de alguma forma, algum mérito dele. O cabelo recatado e curtinho dum corte recente e trabalhoso (ele não aceita as mãos do cabeleireiro, tem horas que eu que tenho que segurar a cabeça dele). Eu olho pro cabelo bonito dele na testa, tão melhor que o meu, o que é injusto de umas três maneiras diferentes. A orelha sujinha e os ombros de garoto, ossudos daquele jeito limpo e infantil, fresco. Seu joelho tá machucado de uma queda qualquer inconseqüente, ralado numa casquinha já desaparecendo. Eu não consigo me lembrar da última vez que tive casquinha, é quase como se seu corpo parasse de produzir, parasse de se importar tanto com algo já tão estragado. Cai outra frutinha, perto dele. Ele treme um tremelique desconcentrado através do corpo todo, quase abstrato. Elas caem rapidamente e estacam no chão com um baque surdo baixinho, quase imperceptível, tão rápido, parece que puxadas.
Isso é porque elas são puxadas, né, imbecil.
Ele geralmente come as casquinhas assim que aparecem, o fato dessa ter ficado tempo o bastante até sumir me lembra da última vez que eu o vi comendo e briguei com ele. Eu penso em sair dali por causa das frutinhas, mas só eu tou dentro do raio da árvore, ele tá fora. Parece covarde sair dali só por causa de uma frutinha, com ele tão confortável e sossegando o meu colo.
Mas os olhos dele não estão quietos, nunca estão. Parecem sempre no meio de alguma coisa.
Embora provavelmente não estejam.
Ele põe o dedo no nariz e eu tiro, gentilmente. Ele sabe que não pode, e não resiste. Cai outra fruta, mais perto de mim. Tem um pássaro bonitinho todo igualmente marrom que fica virando de um lado pro outro toda vez que cai uma frutinha, tentando entender o que se passou. A pose dele é marcadamente inquisitiva, o que é muito massa e nem faz sentido. Eu quero tirar foto dele, mas minha câmera tá dentro da mochila e até eu tirar ele não vai mais estar super legal e inquisitivo, eu sei. Eu sei porque o mundo é sempre assim, sempre te mostrando pássaros legais e te negando fotos deles.
E ainda tem que eu tiro foto mal pra caralho.
Ele faz um barulhinho de quem se espreguiça, sem se espreguiçar de verdade. Às vezes ele faz essas coisas, uns elementos normais soltos e descontextualizados. Eu tenho vinte e dois anos e a única pessoa que não me deixa pesadamente solitária e paralisada de auto-consciência é o meu irmão doidinho. Cai outra frutinha, ou bolinha, ou fruta-bolinha, não consigo me decidir. Eu levanto minha cara pra ver onde está a que caiu e todas estão imóveis, como que assustadas. O raio de bolinhas ainda está determinado meio certinho, quase um círculo, o alcance da oferta daquela árvore, a oferta inútil sobre aquele círculo de pedra.
Eu percebo pela décima vez naquela semana, segunda vez naquele dia, que a minha mania de narrar o que acontece toda hora desse jeito deve ser uma maneira meio desesperada de impor forma e sentido nas coisas. E uma meio infantil.
Ele levanta o torso e o gira em minha direção, meio desajeitado, apressado e com uma expressão inquisitiva bem exagerada, como se eu tivesse acabado de fazer algo ultrajante com ele.
-Daqui a pouco a gente vai, daqui a uns cinco minutos.
Ele parece entender, e faz algo com o queixo que pode perfeitamente ser um gesto de concorde. Gesto de concorde, olhem só para mim, presidente da Academia Brasileira de Letras. Não, obrigado, srta. Fagundes Telles, já comi biscoitos demais.
E ainda por cima meus braços são mais peludos do que o dele. Por altos ângulos eu imagino que meu corpo nem pareça nada com o de uma menina, e as roupas nem ajudam. Nem tampouco me escapa que o meu reconhecimento de que eu tou narrando tudo de uma maneira infantil seja também uma forma enviesada de legitimar o que eu estou fazendo, uma também infantil. Para que daí eu possa continuar sem problemas.
Meio isolado, em volta dessa árvore grandalhona e desajeitada, desfalecente, dois bancos que se encaram e um chão redondo que não serve pra nada. Não dá pra entender tão bem o que era pra ser isso. Os dois prédios visíveis daqui tem a mesma altura e a mesma traseira perfeita inteira de pequenos cobogós vazando luz pra dentro de suas cozinhas. Os dois são paralelos e partilham uma pequena rua curvada bonitinha e retocada de uma calçada nova. Meu irmão olha pra tudo isso e parece tranquilo, parece assentir de alguma forma pequena. Parece,embora dificilmente esteja, concordar com aquilo, aquela arrumação, concordar com a cidade transida de ordem (não, Sr. Sarney, ainda não tive chance de ler o novo livro; é romance?).
Uma das vantagens é que ele não se envergonha, e daí que eu possa me reclinar sobre ele e beijá-lo na testa por tanto tempo.
O céu é gigantesco e auto-importante, cheio de nuvens tremendas e formidáveis, tufos acarneirados e bonitinhos, maduros de chuva. Ele parece ocupar quase todo o meu campo de visão, deixando só uma coisinha de nada pros prédios baixos e as árvores modestas. Cai ainda outra bolinha. Mesmo agnóstica, a única palavra que soa apropriada ao falar do seu irmão era milagre, o que ela nunca havia feito em voz alta. E nem sabe tão bem o que quer dizer com isso, se é que alguma coisa. O que não a impede de usar a palavra mentalmente, e com frequência, assim como não se impede de se sentir principalmente grata, grata a ninguém em particular. A parelha estável de duas das maiores nuvens se move integralmente, com uma rapidez deselegante. Isso de não ter a quem se sentir grata era meio chato, tipo quando o vento derrubava uma manga madurinha bem na sua frente e ela pensava ‘Pô, valeu’. Na verdade, ela se via sem querer tomando parte em todo tipo de breguice ao pensar no irmão, todo tipo de coisa que antes não significava nada. Que a maneira dele de entender o mundo só acontecia lá dentro, e em nenhum outro lugar, que era único. Esse tipo de coisa. Dentro dessa caixinha, desse limite que ela determinava agora com as mãos, na dureza das têmporas. Uma palavra pronunciada uma única vez, hapax alguma coisa, hapax legonãoseioquê. Meu irmão continua levantado ao invés de se deitar de novo, um gesto tradicionalmente visto como um gesto de impaciência. Ele olha pras unhas, suspeito (mas ele dificilmente tinha jamais tido algo parecido com uma inocência, pra agora estar suspeito). Passam um esmalte nele que deixa as unhas amargas, pra ele não roer, e eu nunca entendi exatamente quê que tem roer as unhas, qual o problema. Deixa ele roer, ué. Por cima dele as nuvens rodando, apressadas. As produções das águas. Ele guarda o que ouve e vê e imita, e isso é normal, apenas não é normal que ele o faça tão bem, com uma aparente seleção, hierarquia. Ninguém concorda comigo sobre isso. Ele volteia algo que vai dizer, faz que vai desistir e depois que não. Ele parece tentar reaver algo do fundo da cabeça, na ponta da língua. Quando ele finalmente fala ele tá olhando diretamente pra mim.
(nem revisei de verdade, postar rapidamente aqui antes que passe o RAPTO de FALTA DE VERGONHA)
Saturday, March 07, 2009
o universo, hojeTIPO CULTURA, ASSIM
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Vendo COISAS desse tipo, parte de mim se assusta genuinamente com o tipo de sofisticação que se desenvolve tão descaradamente em volta de termos tão tímidos, tão finalmente desimportantes. A coisa já se apresenta com toda a complexidade circunstancial de uma Tradição maiúscula, um cânone, com refrações e ecos de segunda e terceira ordem, etc. Como se apenas o fato de nós termos, necessariamente, esse ponto de contato cultural popular tão avassalador, esse cobertor que-tudo-comprende e que nós remete a algum conforto meio quentinho (atualmente: os anos 80, mas vareia, já quase vira os 90) indicasse para muita gente que a recursão e a utilização devidamente esperta dessas referências e subníveis bestas deveriam configurar uma espécie de ato significativo, a articulação de alguma verdade estética, de alguma totalidade, até. É certo que todo o - err - lixo cultural é nosso, e deve ser tratado como nosso, compreendido como nosso vocabulário e paisagem, mas a interação simples desses elementos, re-arranjar de cartas, não tem como dar em nada que seja mais do que engraçado ou curioso. Parece que as pessoas se sentem nas bordas de algo, ao lidar com isso tudo, mas deve ser só uma hipertrofia esquisita, mesmo. É ainda mais deprimente que esse garimpo e revitalização e ressureição de itens e elementos de vinte anos atrás se dê com uma suposta carga negativa e assim-dita irônica. É como se estivéssemos tão profundamente soterrados nos termos desse tipo de cultura que a única sofisticação possível fosse a afirmação negativa de tudo que conseguimos reconhecer como banal e ineficiente, como brega. Todos os acenos de cabeça incessantes. Aquilo que já se considerou tão seriamente O MAL, NA ARTE, agora é a maior área em comum, o ponto de contato imediato, a referência em comum de toda uma geração. Isso tem que ser assustador.
