Monday, January 30, 2017

Aquilo que dá de se fazer  
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Achar uma hora que deve escrever diante da pilha de merda quando na verdade o que se quer é mais aquela cena abestada que se monta, que quando funciona funciona tanto. Dificilmente sai algo que presta, claro mas tem pelo menos o momento de se encadear um trem noutro, de botar um pedaço duma coisa coisa num pedaço de outra até que resulte numa outra que não é bem uma terceira coisa, mas um espaço, ou uma superfície na qual se roçar. Porque dá pra fazer uma superfície com qualquer coisa, os artistas tão lá gritando tem tempo, teimando. Vocês venceram, gente, calma. Com papel de bala, com papelão, com madeira de demolição, com metal amassado de um carro por um acidente a centenas de quilômetros por hora (eu digo centenas porque fica bom, mas dificilmente são mais de duas). Outra forma de dizer é que perderam, claro, já que isso também quer dizer, na exata mesma hora, que dá também pra fazer lixo com absolutamente qualquer coisa. São como aquelas ilusões de óticas nas quais não se diz direito se o trem tâ côncavo ou tá convexo, e que acabam por te deixar tonto. Um jeito mais comprimido de dizê-lo então seria que todo tipo de lixo cria também suas formas próprias de estese, e portanto de curtição e destruição. Arranjei um exemplo ótimo que alguns de vocês vão adorar (e que talvez faça outros tantos parar de ler; o que é bom, também). O inglês é hoje essa língua amorfa e morna que se espalha por todo canto nas camisas incoerentes que usamos, primeiro por causa da competência rija e austera do império naval britânico, com suas linhas de crédito e suas tripas a vapor, e depois por sua extensão técnica e simbólica possibilitada pelo cinema e pela música norte-americana, depois da segunda grande guerra europeia. Beleza. Também que é uma língua eficiente que foi se contraindo e contraindo até caber em todo canto, e trazer embutido os dutos de desejo mais dúcteis de que se tem notícia. O quanto disso foi aptidão anglo-saxã e protestante e o quanto foi contingência técnico-industrial não temos competência para julgar. Talvez ninguém tenha, nem os japoneses. Mas depois que ela está aí com seus buracos de remessa e demanda já cavados nas nossas têmporas e nas nossas gengivas isso pelo menos ajuda milhões de pessoas de cantos distintos do mundo a terem um território em comum, algo no qual todo mundo tá pisando, ainda que com pantufas, sapatos, tênis (tênises?), chinelos e calos muitíssimos diferentes. Sabe o Tom Hanks? Sei. Sabe Guerra nas Estrelas? Sei. É um ponto de partida. Um ponto de partida péssimo, mas ainda assim um ponto de partida. E se tamos sempre no meio (sempre no meio), às vezes é bom termos pontos de partida. Só não se deve confundir uma gestalt ensinada na infância com uma origem, um rosto que nos imprimiram no córtex com uma matriz a que deveríamos alguma espécie de fidelidade filial, o que é familiar com o que é quente, fértil e nutritivo (um buraco cheio de lixo úmido não é uma boceta, exceto num sentido muitíssimo peculiar para o qual não temos, infelizmente, tempo, ao menos não no momento) Não é porque crescemos junto de algo que lhe devemos, por isso, carinho. E nem origens são essa coca-cola toda. Sabe o lanterna verde? Então vocês olham pra mim com impaciência e eu olho para o relógio e para os produtores da minha palestra motivacional ecumênica e carrego o meu tom como se culminasse numa conclusão (mas claro que não haverá nada do tipo, os espertos já perceberam e já estão cochichando nos ouvidos daqueles que imaginam menos espertos, mas ainda assim espertos o bastante para servirem de cúmplice) Então eu desço o telão e aponto para uma série de pontos concentrados e sequenciais, exaustivos se nunca exaurientes. Risos de ninguém a não ser eu mesmo. Adoto a minha melhor voz de líder empresarial. Conhecer um território para mapeá-lo, mapeá-lo para saber suas quinas, queixos e interstícios, conhecer suas quinas, queixos e interstícios para saber onde ele cede, onde ele é irresistível e onde ele revela câmaras subterrâneas cheias de gás venenoso, tipos inteiramente novos de tubérculos e besouros ainda não nomeados em língua alguma que se registre. Devorar o lixo do império, raspar com o dedo todo o seu resto rançoso, lambê-lo no chão e nos suvacos e nos beiços, só para vomitá-lo de volta na sua própria garganta, com pouquíssimo ódio, todo (todo ele) o respeito. 

Saturday, September 24, 2016

Protocolos controlados 
*
(por mais que
pareça, isso 
não é um poema;
é prosa onde
apertou-se
'entre'
antes da frase 
terminar)

I
Numa festa, ouço pessoas mais espertas que eu
discutirem, rindo,
a vulnerabilidade
das redes 

Pego nem metade do que falam,
mas queria. F
ico só encafifado
sabendo nada
e mexendo no celular
durante boa parte do tempo,
alternando entre aplicativos, fechando-os todos 
de vez em quando
A paranoia específica de estar todo metido
em algoritmos alheios
que nem se começa a entender como funcionam
(como um corpo
metido num império
metido num império)
além de que são caixas
com ações executáveis
Com suas próprias ações dentro;

termos, funções,
recursão; 
e vamo nessa

Resultando
em superfícies brilhosa
  e responsivas ao toque 
um olho de vidro
com pele
com as quais nos montamos agora - a nós mesmos e uns aos outros -
quase que querendo
ou não


II

mitos
também
vertem e revertem,
trocam termo por função,
e podem mudar as máquinas
(que se mudam, por sua vez,
em novos mitos

Zuckerberg lendo Virgílio
Jobs achando que entende o Tao;
Corso, ricorso, 
deuses há muito mortos
ainda doendo em nós
na contrição discreta
e contínua
dos seus gestos)

Peço a um dos espertos
que me explique algo,

uma criptóloga
sorri,
atém-se 
a ser críptica
(não à toa)

Tudo vaza, nada fica quieto nas bordas. 
Teu ruído é meu sinal,
ela diz
(e vice
versa, 
suponho)


III

enquanto a rede
prodigiosa, enorme, selva selvaggia 
com vários infinitos de tamanhos diferentes dentro
se desdobra em abas e abas, 
janelas em mise en abyme 
(postas 
em abismos
que se comunicam,
gritam um pro outro
como em lençóis
freáticos ou de tecido)
o mundo saturado
numa ampola,
pétalas e folhas da cebola

IV
E continuamos aê
e continuaremos, ao que parece
pelo futuro imediato, pelo menos,
a enfiar nossas cabeças
odiosa e odientamente
nas mandíbulas do inferno
em seus protocolos controlados

Tuesday, March 29, 2016

Djesa Cristo, pt.1

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Djesa Cristo, primogênito dos mortos, príncipe guerreiro da paz, não voltava ao seio dos seus tinha um par de milênios (e contando). São João Batista, que tinha por costume precedê-lo, viu por bem ir ressurtando gradualmente num senhor goiano que, como ele, morava como andarilho no deserto (no caso, no cerrado, mas que no sol de savana e na secura se assemelham). Com roupas esfarrapadas, o olho fascinado, sobrevivendo só na base de mel selvagem e gafanhotos. 

Esse senhor já existia por cinquenta e sete anos sem ser forma alguma de São João Batista, sendo inclusive denominado em seu registro geral Rodércio Dutra Dias. Depois de duas décadas de alcoolismo, do desemprego crônico e da mulher que o abandonou em Anápolis pela interação cada vez mais dramática desses dois eventos, Seu Rodércio passou a não responder quando lhe dirigiam a palavra, a vestir sacos plásticos sobrepostos como calça, chapéu e ombreira, a emitir urros alternadamente incrédulos e raivosos contra todos telejornais transmitidos em sua imediação. E o pior: nem beber ele bebia, mais.

A relativa intolerância do bom povo de Anápolis com seus novos hábitos foi forçando-o a viver cada vez mais à margem da sociedade. Até que o seu Rodércio, que sempre gostou muito de caminhar e sempre teve, tanto por genética quanto por hábitos alimentares salutares, excelente resistência física, percebeu que ficava menos triste do que jamais lembrava de estar na vida quando não pensava em absolutamente nada e só ficava andando a esmo pelo cerrado (é verdade que seu Rodércio quase não tinha lembranças da sua juventude, e nenhuma de sua infância) 

Gafanhotos são insetos relativamente abestados e fáceis de serem apanhados, mas mel já era mais difícil de ser obtido assim na tora. Subir nas árvores requeria métodos que Rodércio custou a aprender, esfolando braços e pernas contra a casca dura de algumas, caindo um par de vezes quedas que só não resultaram mortais por intervenção direta sobrenatural (imagina-se). Ele não entendia a vontade tão específica por mel, considerando que nunca foi muito de doce e ainda o custo e o risco consideráveis que sua busca lhe trazia, mas sempre que conseguia meter a mão numa colmeia cheia (antes mesmo de trazê-la besuntada à boca) sentia-se plenamente, misticamente recompensado. 

Mal imaginava o senhor Rodércio que suas práticas levariam, necessariamente, por adligantes imagéticas complexas, à absoluta possessão de seu corpo pelo complexo figural de São João Batista (que por sua vez era a emanação de entidades que não temos a liberdade e nem a disponibilidade tipográfica de denominar, no momento). 

Isto se deu gradualmente, caminhando das extremidades do corpo até o seu centro. Primeiro os pés e as mãos tomaram-se de formigamentos que duraram em cada caso de quinze a vinte horas. Durante essas horas o senhor Rodércio olhava para as suas mãos e pés e conversava com as formigas, entendia tanto o seu frenesi quanto sua complexa e generosa comunicação interna, a necessidade imperiosa de sua subsequente transformação. 

Pelo menos alguns lugares dizem ou já disseram hospedar a cabeça decepada de São João Batista: A San Silvestro in Capite em Roma, o Residenz Museum em Munique, a Mesquita Umayyad em Damasco.
Todos esses, no entanto, mentem (ou, sejamos gentis, talvez se equivoquem). A cabeça de São João Batista, como bem se sabe, encontrava-se enterrada no cerrado goiano, a duzentos e trinta e oito KM de Anápolis,  preservada de maneira tanto inexplicável quanto maravilhosa.

Enrolada num saco de estopa cheio de serragem, a cabeça se encontrava sequíssima, hibernando a baixíssimo regime energético, com os olhos virados pro lado de dentro. Ela se encontrava ali desde que foi enterrada pela segunda encarnação de D. Sebastião, que chegou andando do fundo dos mares no litoral Paraibano lá por volta de 1785, tendo sido, ao que se conta, visitada por Antônio Conselhereiro, Virgulino Ferreira da Silva e Maria Bonita, Padim Padim Cícero, Luiz Gonzaga (sr.), entre outros.

Quando passou por perto de onde a cabeça estava enterrada, Rodércio sentiu uma dor lancinante na sua própria. Ele não tinha enxaqueca desde os seus vinte e poucos anos, quando parou de tomar café, então achou aquilo muito estranho. Foi só depois de algumas horas deitado na sombra incompleta de uma árvore e xingando tudo que havia para ser xingado é que ele começou a perceber que a sua dor diminuía quando ele olhava numa determinada direção, e praticamente sumia quando ele caminhava pra ela. 

Só umas horas depois é que Rodércio entendeu que a resposta para sua enxaqueca estava debaixo do barro do chão. Cavou com as mãos e cavucou a terra com gravetos, encheu de terra as suas unhas até que sangrassem. Já era madrugada quando encontrou o saco de estopa, que ele levantou aos céus urrando como se desafiasse o Deus que tinha escondido dele aquilo com tanto esforço e teimosia. Os céus responderam com trovões e um aguaceiro. Rodércio Batista faz xixi e cocô no buraco que havia cavado, que agora se preenchia rapidamente de água barrenta, cantou em línguas cujos códigos inexistem.

Antes dele abrir o saco, entendeu que ali dentro estava a cabeça dele próprio, apesar dela também se encontrar naquele exato momento ali detrás dos olhos dele, no meio das orelhas. Ele sabia que encarar a sua própria cabeça ao vivo e sem espelho seria um ato desaforado, extremamente perigoso, mas não parecia possível àquela altura do campeonato deixar de fazê-lo. 

Foi só desatar a cordinha que fechava o saco para que sua própria cabeça caísse de onde estava, pendendo dos ombros como a esfera de um bilboquê. A cabeça de dentro do saco pulou pra fora e engatou-se onde estava a sua antiga, quando a sua visão de Rodércio retornou de todo, agora matizada em outras cores, mais velhas, e enxergando do interior de um cérebro de mais de dois mil anos de idade, seco como uva passa.

Foi então que Rodércio entendeu quem ele era, do que eram feitas as dobras amarrotadas do tempo, e que ele devia ir em imediato para Goiânia receber a presença vindoura do filho do Homem, o leão da judiação, Djesa Cristo, que naquele exato momento, a menos de trezentos KM dali, tentava tirar o baixo de "Concrete Jungle" sem muito sucesso. 

II

Djesa, o Cristo, morava em Goiânia e trabalhava com som automotivo no negócio de sua família. Nas horas vagas, discotecava em casamentos e tocava violão ou percussão em barzinhos na madrugada. Apresentava-se com frequência como o melhor DJ ("Dê Jota")do Brasil, depois do Djavan. Não era imediatamente claro se se tratava de uma piada. 

Djesa quando criança já havia feito pequenos pássaros de barro, num sábado, que saíram voando como se existissem. O seu pai se assustou muito com aquilo, deu-lhe uma peia considerável com o cinto e disse que nunca mais o repetisse. Djesa concordou, mas ficou contrariado. 

Na semana seguinte, desafiado por um coleguinha que o dizia burro e incapaz de defender bolas de meia com o pé, Djesa tocou o dedo na testa do moleque com toda a frieza disponível de sua alma e o deixou duro, não só morto de uma vez como já gelado, tombando no chão sem se mexer, os membros enrijecidos de imediato, o mindinho da mão esquerda espatifando-se ao contato com o chão. 

José dessa vez se assustou mais ainda, e deixou Djesa de castigo por duas semanas sem assistir televisão. Dessa vez Djesa reclamou menos, mas ainda assim ficou contrariado de não aceitarem que o moleque é que tinha começado.

Nessas duas semanas, Djesa foi visitado por inúmeras entidades demoníacas e celestiais que disputavam sua atenção e ofereciam visões panorâmicas e diorâmicas dos mundos que ele poderia subjugar e sobre os quais poderia reinar, se assim quisesse. Djesa tinha doze anos, todas aquelas entidades embaralhavam-se na sua cabeça, com seus nomes cheios de consoantes, suas hierarquias rijas e rixas internas. Os demônios quase todos lhe pareciam mais simpáticos que os anjos, aliás, que eram todos uns europeus e usavam roupas muito pomposas, cheias de renda e veludo roxo.

Foi só então que Djesa entendeu que era filho de um deus ciumento, silencioso, traiçoeiro, vingativo, que nem pra aparecer aparecia, e ainda mandava capangas.  Não tinha certeza se podia confiar em qualquer das vozes que lhe disputavam a atenção. Djesa decidiu então viver na roça com sua avó muda e meio índia para melhor decidir o que fazer com seus tão cabulosos poderes (que ainda, é verdade, mal se manifestavam). 

Na roça, tinha que capinar a manhã toda e aguentar nas costas a lapada do sol goiano em toda sua cruência. Em compensação, era quieto e tinha bicho e sua avó fazia a melhor pamonha já feita por mão de gente. Djesa jantava pamonha todo dia olhando para as estrelas e sua luz velha, cantando sucessos de Djavan e Beto Guedes. Sua visão ficava quase o tempo todo voltada pra cima não só porque ele gostasse das luzinhas, seus desenhos e suas distâncias intimadas, mas porque se ela se virasse para o cerrado goiano teria que lidar com a profusão de demônios e anjos engalfinhados à sua espera, cada vez mais numerosos, cada vez mais misturados e cada vez mais impacientes.

Rodércio Batista encontrou a casa onde morava Djesa numa terça-feira, de tarde. Apareceu lá para pedir um copo d'água, mas quando a velha da janela gritou pra alguém lá de dentro (nuns barulhos que a Rodércio pareceram desarticulados) uma água apareceu trazida por um  adolescente com mullets encrespados e camisa do Nirvana. Rodércio não acreditava nos seus olhos. Ajoelhou-se de uma vez e nem mais teve sede.
-Quem é o senhor?
-Luiz Gonzaga, seu filho.
Falou com um sorriso cândido, tirando uma mecha de cabelo da testa. Era aquele o filho do homem. O próprio. Era evidente. Chegava a hora daquela gente bronzeada mostrar seu valor. 
-Meu filho, que mal lhe pergunte, qual é a sua vocação?
-Vocação?
-é, o seu chamado. Você parece um rapaz, assim, sensível, né. Deve ter uma coisa que você gosta. 
-Ah. Música. Eu faço música. Djesa, seu criado, o melhor DJ do Brasil depois do Djavan.
-Então me permita te ajudar a ser o maior músico que você pode ser. Você pode ser muito mais do que isso.
-Melhor que o Djavan?
-Quem sabe o rei dos reis do baião.
-Mas vem cá, você é quem?
-Eu sou são joão batista
-Ah, tá. E eu?
-Você é o cristo.

Wednesday, December 09, 2015

Tradução apressada mas bem-intencionada da Seção X de Notes Toward a Supreme Fiction, 
do Wallace Stevens
-
Menina gorda, terrestre, meu verão, minha noite,
Como é que eu te encontro na diferença, te vejo ali
Num contorno movente, mudança não de todo completada?

Você é familiar e no entanto uma aberração.
Educado, madame, eu sou, mas embaixo
uma árvore, essa sensação não-provocada requer

Que eu deva nomeá-la de cara, desperdiçar palavra nenhuma,
Checar suas evasões, te segurar pra você mesma.
Mesmo assim quando penso em você como forte ou cansada

Debruçada no trabalho, ansiosa, satisfeita, sozinha,
Você continua a figura mais natural. Você
se torna o fantasma de pé leve, a distorção

irracional, fragrante que seja, querida que
seja. É isso: a distorção mais que racional,
A ficção que resulta do sentimento. Sim, isso.

Um dia eles acertam na Sorbonne
Vamos voltar da aula no anoitecer
Agradados que o irracional é racional

Até que triscado por sentimento, numa rua doirada
Eu te chamo pelo nome, meu verde, meu mundo fluente,

Você vai ter parado de revolver exceto em cristal.

Monday, August 17, 2015

Educações Sentimentais
-
However,
education can bring out the potentialities
not just of people
but of things.
You can só bend a stick
that it can learn to break.
Put a lighted match to paper
and you can teach that paper
to burn




Júlio-Emanuel Bruno era nascido de uma família paulista enorme, seis irmãs e dois irmãos gerados em duas ondas reprodutivas diferentes (74-79, 87-92). Os pais provenientes de duas famílias endinheiradas desde sempre, e de um casamento quase indecorosamente bem-sucedido (num sentido afetivo-sexual). Os filhos todos se acostumaram desde cedo a escutar os gemidos, os gritos histéricos, móveis arrastando e demais barulhos inescrutáveis durante quase toda noite, e só Júlio-Emanuel que parecia se incomodar com aquilo (talvez por ter de escutá-los sozinho, sem ter com quem comentar e fazer graça, como sempre tiveram seus irmãos, talvez porque os gritos e os barulhos foram ficando mais criativos e estranhos, mesmo, com o passar do tempo, a sedimentação cinzenta do hábito e a necessidade imperiosa de se apimentar as coisas)

Os dois, já aposentados de seus cargos comissionados no governo do estado de São Paulo, pareciam hoje só falar a todo tempo de sua paternidade e maternidade conjunta, o investimento emocional e as recompensas e dificuldades de persegui-las em dupla, com um/uma companheiro(a). Como se aquela fosse a efetiva carreira deles, o seu período produtivo no mundo que eles agora se ocupavam só de resenhar em voz alta, como um artista em declínio. A casa toda já havia crescido há tempo, algumas irmãs eram artistas plásticas, outras médicas, os dois irmãos eram advogados tributaristas (e igualmente chamavam Lourenço-Lourenço). Os pais sempre foram criativos com os nomes, mas foi  lá pro sexto filho que realmente começaram a esculhambar. 

Júlio Emanuel-Bruno odiava o seu nome quase tanto quanto ele odiava a sua filiação, embora admitisse as suas enormes vantagens práticas.  Ele era o caçula, recebendo os irmãos mais velhos em visitas como tios, servindo chá que ele fervia depois do almoço enquanto os pais ainda estavam acordando, a porta trancada. Qualquer manifestação que Júlio fizesse era vista como um simulacro de alguma manifestação infantil de algum irmão ou irmã. Ninguém levava ele a sério. Rapa do tacho, eles chamavam, não sem alguma agressividade. 

O moleque tomando café da manhã sozinho na cozinha em pé, todo dia antes da aula, ainda de olhos fechados. Ele desenvolve aos poucos a noção de que já é adulto, uma pessoa formada. Lê vários livros para adquirir informação de como deve se portar a psique de um homem adulto. Simula mentalmente sentimentos incompreensíveis de amadurecimento, impotência diante do mundo, cinismo, resignação amarga. Pensa muito sobre a desesperança da senescência sexual mesmo antes mesmo de jamais bater uma punheta bem-sucedida. Essa simulação acaba por operar com alguma força próxima de experiências reais, pela imaginação poderosa de Júlio Emanuel-Bruno, estimulada com diversos aparatos e relativa liberdade libidinal desde a mínima infância, capaz de configurar extrema força emocional a eventos descarregados de realidade concreta. Júlio-Emanuel Bruno encena mentalmente transformações catárticas de si mesmo em sequências dramático-afetivas reproduzidas de estruturas de sentimento aprendidas de todos os filmes, poemas, óperas, canções populares, estátuas, vídeo-jogos, trípticos, instalações, documentários, vídeos comédia e demais objetos disponíveis para recuperação técnica a uma família afluente e aberta. 

Meu cérebro, ele pensa, esse volumoso pudim

Júlio-Emanuel Bruno, então, não era nem um pouco emocionalmente maduro, mas o era, um tanto, mentalmente. Adquiriu com esforço uma história sedimentada de sentimento artificioso e variado, duramente sulcado. Chegava em casa da aula na oitava série com um cansaço enorme da imaturidade de seus colegas, metido já num desalento existencial, esfregando as têmporas lentamente com a toalha em volta do pescoço, depois de um tomar uma ducha quente. Seu cabelo ainda molhado pingando fora do tapetinho no chão e o espelho ainda embaçado se esclarecendo lentamente, o mundo vago tentando ganhar forma e impor seus contornos convencionais. Esse cansaço espiritual lhe traz a vontade de se aposentar, mudar de vida, tomar Ayahuasca, andar por cordilheiras andinas, virar budista, coisas assim. Encontrar monges sábios e cabalistas provençais e animais surpreendentemente falantes com ensinamentos dos antepassados que ele gostaria que fossem os seus,  os legítimos donos daquela terra (de cosmogonias tão comédia, quase todas). Júlio-Emanuel Bruno começou aos onze a organizar sua longa viagem que culminaria a sua educação sentimental, sua descolagem, despirocada e eventual retomada do mundo. Durante o almoço, com seus pais de calça de pijama comendo torta alemã de prato principal e assistindo DVD da segunda temporada de House, ignorando o que ele fala, Júlio-Emanuel Bruno já não sente raiva, sente uma benevolência distante dos seus pais, tão presos em ciclos sentimentais tão vulgares, tão auto-indulgentes. Júlio-Emanuel Bruno empreende sua viagem logo antes do seu aniversário de dezesseis anos. 

Conhece mais dificuldades do que imagina, é preso na Holanda, perde um dedo na Turquia, tem uma série de crises de ansiedade em aeroportos, descobre-se quase impotente em Angola. O mundo das engrenagens práticas e das interpenetrações orgânicas se revela mais dificultoso do que ele imaginava. Já pensa em cortar a viagem pela metade e admitir a sua insuficiência diante dos incontáveis braços de Coto, Giges e Briareu quando faz um amigo na Ucrânia, um senhor perdido nas ruas, cego de um olho, aposentado, segurando um cachimbo vazio, que oferece a todo transeunte um resumo histórico das procelosas complicações geopolíticas da região por apenas oitenta grívnias – não coincidentemente o preço de uma sopa de cebola muito bem feita num restaurante ali próximo. Bruno fica amigo desse senhor - “uma amizade muito especial”. Em diversos momentos, ao dormirem juntos no sofá-cama cheirando a mijo velho em que dorme o senhor, na casa de suas duas tias idosíssimas, já quase mortas, dá impressão de que vão transar. Bate maior climão, mas acaba que nunca acontece. Nenhum dos dois já comeu ou deu prum homem antes, e não entendem como se dá a diplomacia ativo-passivo. São ambos, e de maneira diversa, muito tímidos. Acabam se casando num arranjo não-sexual, jogando muito videogame. 

Anos mais tarde, sintetizam um filho com o seu material genético combinado e a ajuda do óvulo, do útero, da despachância e dos préstimos rítmicos de uma senhora congolesa muito gorda, testuda e gentil, com quem formam uma família ainda mais especial. Mudam-se para Boiçucanga, onde montam uma pousada. O bebê nasce hermafrodita, com quatro olhos e seis braços, lindíssimo. Nasce já falando sânscrito e iorubá, manejando o arco e programando em UNIX. Os três criam o bebê para liderar politicamente as massas revoltosas e famélicas contra o Ocidente, destruir o Império Imagético de Consumo Norte-Americano com hipnose e Tecno-Umbanda, executar membros do parlamento europeu numa cerimônia ao vivo (com shows de bandas cover do Sepultura e do Olodum) forçar os países que colonizaram outros países a arcar devidamente com sua dívida histórica, devolver os tesouros históricos que saquearam, resetar todo o sistema financeiro internacional e formar uma união pluriafetiva-transespecífica-politeísta-e-pancontinental de povos que vem a reunir um terço da população mundial, antes de ser tragicamente derrotada por uma traição vergonhosa dos franceses, dos ingleses e dos alemães, que preferem ser dominados pela China e pela Rússia a engolir aquela putaria toda no seu quintal, com aquele tanto de viado, de bicho, aquele cheiro empestado de curry. 

Thursday, March 12, 2015

Gaia e suas tretas
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If thou openest not the gate to let me enter,
I will break the door, I will wrench the lock,
I will smash the door-posts, I will force the doors.
I will bring up the dead to eat the living.
And the dead will outnumber the living."




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Outubro passado ocorreu o colóquio Mil Nomes de Gaia, no Rio, com Viveiros de Castro, Bruno Latour, Isabelle Stengers, telepresença da Donna Haraway e grande elenco. 

Isso aqui são uns comentários que escrevi um pouco depois, baseado nas notas que fui tomando esparsamente durante as falas. 

I. 

Um dos maiores problemas da crise climática é a dificuldade aparente de fazer o que já parece ser certeza científica se traduzir de forma expressiva em termos políticos. Há quem (como a Naomi Klein) veja nessa situação uma oportunidade tremenda para catalisar todas as principais demandas emancipatórias globais, organizadas agora em torno das demandas urgentes por redução da nossa taxa de emissão de combustíveis fósseis (que necessariamente precisa passar por uma redefinição global do que se estabeleceu nas últimas décadas como expectativa quase universal de consumo). Por enquanto, as chances não parecem lá das melhores. 

 A causa ambiental já é corrente (e massificada, ainda que de forma diluída e inofensiva, quase sempre) há décadas, todos que costumam trafegar por causas tidas por progressistas costumam fazer lá suas menções eventuais e defesas de elementos pontuais. Mas é difícil ver mesmo a retórica desses grupos assumir a escala de urgência que os especialistas sugerem que deveríamos assumir. O que acontece, quase sempre, é mais um esforço publicitário de se botar um verniz eco-amigável em tudo que é atividade dispendiosa e destruidora, antes de se tentar mudar qualquer aspecto substancioso da nossa situação (o que implicaria, se não uma mudança radical de regime político-econômico, no mínimo um re-arranjar brutal da maneira de produzir coletivamente os nosso desejos)

 Esse problema, como todo problema político, é, em grande parte, se não todo, imaginativo (ou seja, estético). 

II. 

A Gaia de seios vastos da Teogonia do Hesíodo, a Pachamama andina e quaisquer outras imagens míticas para a Terra que se quiser arranjar são geralmente figuras de uma extensão e poder avassaladores, primordiais, muitas vezes maiores do que as capacidades dos meros humanos. Isso, obviamente, não é acidental, as figuras que fazemos da Terra sempre espelham o assombro que a escala e o poder dos fenômenos naturais trazem pro nosso corpo. O difícil, em parte, é fazer esse tremendo reajuste imaginativo a respeito da espécie humana, que com os avanços da técnica desde a revolução industrial passou em pouco tempo de entidade biológica (como tantas outras na Terra, ainda que uma bem esperta) a força geológica, capaz de mudar os termos do contexto em que se encontra numa proporção que antes só a mitologia costumava achar possível.

 Perceber que a nossa compósita agência pode, sim, ameaçar a integridade do sistema biológico no qual tamos metidos é estranho, até meio contra-intuitivo, mas é uma realidade técnica com a qual convivemos pelo menos desde a invenção da bomba (que alguns colocam como o marco zero do antropoceno). Oppenheimer famosamente citou o Bhagavad Gita ao se deparar com o teste da bomba, "Agora eu me tornei morte, destruidor de mundos", num misto estranho de aparente húbris e genuíno pavor diante da força avassaladora que se criava. Quem tem cu tem medo e treme, diria o poeta. O temor e o tremor que já vem empacotados juntos na cabulosidade atômica, tão bem assimilados pela cultura popular japonesa, devia, talvez, ajudar-nos um pouco a entender a dimensão técnica da nossa espécie (assim como a de alguns impérios), tão esperta e tão imbecil, capaz de instrumentalizar a natureza da qual faz parte a ponto de botá-la em risco.

 É genuinamente difícil olhar para o mar - essa coisa tão enorme, tão absoluta, de onde se arrastaram os veículos expressivos de água que acabaram dando na gente - e enxergar naquela imensidão toda que ele congrega e representa em toda sua avassaladora profundidade uma força sujeita às modificações que a nossa presença coletiva faz no ambiente (o lixo que produzimos, a energia que consumimos). A impressão para quem bota os pés na água fria castrante ainda é de que aquela força ainda nos é infinitamente superior pra todos os lados.

Freud, num de seus momentos mais descaradamente mitógrafos, diz em Totem e Tabu que a cultura começa com um patricídio conjunto feito por irmãos. Luce Irigaray diria que antes disso teria acontecido um matricídio ainda mais primordial. As duas hipóteses parecem meio fantásticas, enquanto narrativas antropológicas efetivas e totalizantes pro nascimento da cultura, mas não deixam de ter, ambas, sua distinta expressividade política (a segunda um tanto maior, é verdade, até porque o que o Freud tá dizendo dá pra encontrar na Teogonia, já, ainda que exposta em outros termos).

Se os mais alarmados estiverem perto da verdade (e eles podem até estar exagerando um tanto que a coisa continua bem tenebrosa), isso significa que nós já matamos, não necessariamente a terra, ela mesma (até porque ela teria que constituir um organismo vivo inteiriço pra morrer, segundo vai o vocabulário conceitual mais óbvio, e nem Lovelock sugere isso, exatamente), mas a conjuntura específica de fatores que tornou nossa espécie possível; isto é, o meio no qual sempre estivemos imersos, do qual sempre fomos dependentes, em sua interrelação de componentes que tornaram o nosso tipo de organismo possível;  e que em sua totalidade expressiva já foi em tantas mitologias figurada como uma mãe, pela analogia com seu aspecto de força fértil geradora. O matricídio primordial repetido, agora numa escala inumana. 

Uma das coisas que se disse mais de uma vez durante o colóquio (uma das vezes pela Juliana Fausto) é que a maior evidência do antropoceno não é a climática, mas a de perda de espécies. Os últimos duzentos anos tiveram uma taxa de extinção tão absurdamente acelerada que isso, por si só, fora a situação climática, já bastaria para qualificar uma brutal mudança de termos cênicos (se permitem o trocadilho). 

Formas de vida extintas significam mundos expressivos inteiros destruídos, sumidos do universo, daquilo que é o caso. Como quando o mundo perde uma língua ou uma cultura, o que se perde é todo um repositório expressivo  (Vicente Ferreira diria cênico) da vida na terra e de suas compossíveis articulações contextuais. 

Se toda cultura é uma manifestação externa cristalizada de como o homem consegue produzir identidades e localidades, uma nova versão das plásticas possibilidades coletivas da nossa espécie, se uma língua comporta sempre uma gramática expressiva do mundo, todo animal e planta é também uma forma própria de se organizar em meio a um ambiente, todas as formas de vida um repertório intrincado de respostas a problemas do seu meio que compõem o todo interrelacionado da natureza enquanto totalidade criada e criadora. Toda coisa viva é crítica, diria Kenneth Burke (toda coisa pensa, o Deleuze)*. Os dois, acho que dá pra dizer, via Leibniz e sua mônada. 

O que não se costuma deixar claro com tanta frequência é que tanto a destruição de formas culturais pela universalização de algumas expectativas de consumo quanto a destruição de formas de vida através da nossa maneira violenta de viver enquanto espécie implicam em perdas informacionais genuínas para o todo. O mundo fica mais pobre com toda cultura e língua que se destrói ou se assimila à força aos moldes e sulcos do consumo, e o mundo fica mais pobre com todo animal que exterminamos. Perde articulações, instrumentos e virtualidades expressivas de diversas ordens.

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*. Toute corps, toute chose, pense et est une pensée, pour autant que, réduite à ses raisons intensives, elle exprime une Idée dont elle determine l'actualisation (Différence et Répetition, p.327)

Todo corpo, toda coisa, pensa e é um pensamento, pelo tanto que, reduzido às suas razões intensivas, ela exprime uma idéia cuja atualização ela determina.

III.

A nossa capacidade atual de exterminar diversidade e produzir o mesmo numa proporção aterradora pode, talvez, ser vista como uma aceleração desenfreada dos processos naturais de entropia. Foi isso o que entendi da apresentação muitíssimo interessante (e igualmente confusa) do Mauro de Almeida. Se o universo tende para a perda gradual de complexidade e aumento da desorganização, culminando daqui a uma cagalhada de tempo numa morte térmica inevitável, (como sugere a segunda lei da Termodinâmica), a monocultura civilizacional do consumo, inventada há tão pouco tempo, vai continuar indefinidamente aumentando a proporção em que consume fósseis antigos (vida sedimentada por tanto tempo) e produz novos. Carcaças de celulares, de carros, de geladeira, assim como infinitas embalagens de plástico pra povoar as nossas vastas terras desoladas por alguns milhares de anos, pelo menos. 

Se tanto das possibilidades da técnica hoje implicam em enxergar o mundo todo como matéria-prima para transformação energética que mantenha girando e crescendo os moinhos do Deus-consumo, os efeitos materiais brutos dessa disposição insustentável ficam, geralmente, bem longe das bolhas de otimização (ou de redução de entropia) onde o topo da pirâmide mora.  O que fica encapsulado na interface do consumo é toda a cadeia produtiva daquilo que se consome. Quem tá lá usando smartphone, andando de SUV e comendo sushi não tem que lidar com a realidade da fábrica que montou o celular, não tá sentindo o desperdício colossal de energia que a sua locomoção acarreta, sentindo o cheiro de lixo e merda que sua pessoa causa fora dali, e nem vendo os quilos de vida marinha morta colateralmente pra se arranjar aquelas fatiazinhas tão gostosas de atum.

Arranjar formas práticas de tornar inteligível a extensão técnica dos nossos atos de consumo é um desafio do caramba. Como já falei, até por uma questão de escala, tanto no sentido da magnitude esmigalhar a nossa capacidade de reconstituição imaginativa quanto no sentido da ubiquidade de determinadas práticas tornar muito difícil, para a maioria das pessoas, enxergar nelas algo possivelmente errado ou sequer estranho (comer carne criada de forma industrial, adicionar um sabor artificial de batata numa batata congelada, ter como padrão usar terno e ar-condicionado num país tropical)

 A maneira mais alardeada da própria máquina lidar com a situação, claro, é de traduzir essa consciência em consumo sofisticado eticamente consciente e inovações tecnológicas estrombólicas que salvem o nosso rabo quando a coisa esquentar de fato. Opções orgânicas e locais se tornando uma estilização ética pra determinados grupos socioeconômicos, de um lado, e geoengenharia e semelhantes temerosidades do outro. Nenhuma das duas coisas, por si só, deve chegar a fazer cócegas no problema.

Tentando meter a nossa imaginação em marchas que dêem conta do tamanho da besta, é fácil acabar olhando pra gente como qualquer outra máquina auto-replicante, um aparato que reitera a si mesmo (com muito sucesso, aliás) e vai se reproduzindo como pode. Além da conta, no nosso caso, e da maneira mais desastrada possível, até comer o próprio rabo. Retomando a metáfora (admitidamente imprópria) de Gaia como um organismo, a gente passa a se parecer bastante com um câncer.

O problema de enxergar a coisa nessa escala é que podemos perder de vista quem são os responsáveis por esse quadro. Foi a nossa espécie que chegou nesse cume, certo, mas foram espécimes bem específicos dessa espécie que criaram a situação (devemos agradecimentos antes de tudo aos modernos, por sua instrumentalização técnica de toda realidade, sem a qual nada disso seria possível; depois, suponho, ao império norte-americano, por sua criação desde o fim da segunda guerra de uma utopia simbólica de consumo produzida em massa em escala global; depois, que tal as 90 empresas responsáveis por dois terços de toda emissão humana? a lista continua, mas claro que não tenho competência pra preenchê-la com a devida gravidade) 

Perceber o quanto o regime desastroso em que vivemos data de pouquíssimo tempo atrás pode tanto trazer otimismo (se foi feito ontem, pode ser desmontado amanhã) quanto pessimismo (como que conseguiram me cagar tudo tão rápido assim?). O mais importante, acho, ou uma das coisas mais importantes, é fortalecer a todo tempo o estranhamento diante da estupidez dessas formas de habitação e atentar para a genealogia de todas as péssimas escolhas civilizacionais tomadas nas últimas décadas*. E já  que tamos falando nisso, aliás, atentar pra materialidade de todas as nossas redes técnicas de comunicação social tampouco seria uma má ideia. 

Há quem goste de diminuir ou desqualificar o ímpeto socialista (ou até, digamos, o anarquista) dizendo que é uma "imanentização do eschaton" (ou seja, a vontade de tornar imanente o estado ou lugar sobreterreno que fica pra depois da história, o apocalipse). Se as previsões se confirmarem, a ironia é que terá sido justamente o capitalismo, junto de seu deus-consumo, a trazer o eschaton, ainda que de outro tipo. Os dois terão enfim um apocalipse bem imanente pra chamar de seu. Ou ainda, vários deles, sucessivos, arrastados e diferentes de tudo que já se imaginou. E, como sempre, a parte de baixo da pirâmide será a primeira a sentir na pele os seus efeitos mais brutos. Ou, como um amigo meu diz há alguns anos, se o Capitalismo enfim levar o mundo a um desastre ambiental da escala do que se prevê de forma já corriqueira, ele terá sido, sem sombra de dúvida, o pior sistema de alocação de recursos já produzido. 


No lugar de uma conclusão, que não existe, um poema do Gregório de Matos: 

Na oração que desaterra a terra 
Quer Deus que a quem está o cuidado dado 
Pregue que a vida é emprestado estado 
Mistérios mil que desenterra enterra

Quem não cuida de si, que é terra, erra
Que o alto rei, por afamado amado 
É quem assiste ao desvelado lado 
Da morte ao ar não desaferra aferra

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Atar-lhe a vida em atadura dura 
Ò voz zelosa que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura, usura
Será no fim dessa jornada nada 

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Perceber, entre outras tantas coisas, que os muitos exemplos que a antropologia mostra de sociedades sem estado não precisam ser considerados falhos ou insuficientes frente uma totalidade que se atinge numa progressão evolutiva inequívoca. Assim como o monoteísmo não é uma culminação necessária (ou sofisticação técnica) do politeísmo, como tantas vezes se propôs no ocidente. 

Thursday, February 12, 2015

Alguns exercícios
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Pense num estabelecimento comercial. O dono é um senhor barrigudo cujo nariz quase certeza que é um tubérculo. Ele nunca olha para as pessoas que entram no seu estabelecimento, apenas bufa audivelmente. Quando acontece de olhar, sempre parece por acidente. Trabalham nesse estabelecimento mais duas garotas, novas, que riem bastante. Sempre que você compra (suco, pão, cigarro) nesse estabelecimento você tem a ligeira impressão (1) de que o homem te acha ridículo e (2) de que as meninas te acham risível. Existem outros estabelecimentos comerciais no seu bairro, inclusive vendendo melhores marcas de achocolatado e apresuntado. Você, no entanto, só compra nesse.

Pense num país. Bem pequeno, com uma burocracia que não precisa de mais do que sessenta e cinco pessoas pra ser gerida. O organograma de todo o serviço público do país cabe numa cartolina comprida que fica enrolada na sala do Ministro do Interior. O ministro do Interior não tem muito o que fazer. O país não tem obras de infraestrutura a serem realizadas, não tem potenciais de exportação ainda não explorados, não tem dinâmicas internas de produção que precisem ser interanimadas com outros setores da economia. No dias mais vazios, depois das três da tarde, o ministro começa a tomar seu uisquinho. Tira os pés dos sapatos, senta com as pernas cruzadas na cadeira. Desenrola a cartolina com o organograma do serviço público nacional, vai adicionando de caneta bic ramificações do seu ministério, subdepartamentos inexistentes, atribuições rocambolescas, dotações orçamentárias ultrajantes. A secessão de um bairro no país faz com que o Estado fique menor ainda. Perguntam para o Ministro se ele se incomodaria de dividir a sala com o Procurador-Geral da República. Ele responde tacando um de seus sapatos na direção da porta.

Pense na sua alma. Se você acha alma uma palavra "espiritual" ou "transcendental" demais, pense no seu estômago, intentino delgado ou grosso, par de pulmões, etc. Agora pense nessa alma (ou estômago, ou intestino delgado, ou grosso, ou sistema circulatório, até) esvaziada do que ela tem, derramando pelas mangas, jorrando mesmo, e depois esprimida, até não sobrar nada, ficar só a forma oca, despreenchida, dobrada em si mesma. Caídas no chão, as suas partes parecem agora algo como pedaços de pano e juntas movediças sujas de alguma coisa gosmenta. Agora volte e passe espíritos distintos naquele mesmo maquinário, pra ver o que acontece. Ele fatalmente vai se inflar de novo, assumir diversas poses, figuras, esgarçar umas aberturas, amolecer umas partes rígidas de sua anatomia, enrijecer partes moles, assumir o que poderíamos chamar de uma plasticidade formal maior, de um repertório expressivo significativamente mais robusto. Agora retorne o seu espírito anterior pra dentro daquele maquinário (se o tiver extraviado; o que é normal, arrume outro, de qualquer material). Você verá com toda certeza que quase todos os seus medos deixaram de existir.

Pense num jogo de futebol americano universitário. Diversos homens correndo, trombando deliberadamente uns com os outros. Os cérebros dentro do maquinário de ligas, juntas e carne se chocam o tempo todo contra as paredes do crânio. Na plateia, um antropólogo e um analista de sistemas discutem o que é que eles estão assistindo. O analista de sistemas é tcheco, acha o esporte ridículo, só gosta de futebol de verdade. O antropólogo é norte-americano, cresceu assistindo aquilo, mas hoje tem dificuldade de conciliar o seu carinho pelo esporte com a violência que ele envolve, necessariamente. Vários daqueles jogadores terão demência no final da vida, ele diz. Eles todos estão sofrendo o equivalente a uma série de pequenas colisões de carro, toda vez que jogam esse jogo. O primeiro diz que aquilo é um análogo de guerra, mas um que traz catarse, deixa a galera ventoar umas coisas, e que esse lado ele acha legal (o analista de sistemas inventa palavras quando não sabe se expressar com uma existente, o antropólogo sabe e gosta disso). O antropólogo fala que acha que é, sim, um análogo expressivo da guerra, até pela coisa territorial, mas não acha que seja minimamente catártico, acha que funciona mais na base mimética mesmo, uma estrutura menor e menos séria  daquele que é o gesto representativo total daquela sociedade, espelhando e reforçando o ato dramático que mais diretamente congrega aquela vastidão num único corpo expressivo. A guerra. As tropas sinedóticas que morrem pela sua liberdade lá nos longes marrons, eles acreditam. A sério. Os dois estão bêbados; um deles está, também, fumado. Os dois ficam em silêncio, demoram por um instante os seus olhares nos traseiros chacoalhantes das animadoras de torcida, embora um deles seja homosexual (eles estão perto o bastante pra que no momento toda a comoção coreografada e tão jovem reúna boa parte das atenções disponíveis). O analista de sistemas pergunta: se agora eles estão subcontratando a guerra para os robôs, será que vão fazer isso com essa aqui, simbólica, também? O antropólogo ri, levanta os olhos de novo para o jogo, imagina aquele mesmo lugar tomado por robôs (ou ciborgues) daqui a vinte, ou trinta, anos. Maxilares que caem e são re-instalados na hora, botinhas turbo que soltam fogo, lançamentos precisos de centenas de metros, eles se desmontando nas porradas, torsos se descolando das cinturas (como naqueles Comandos em Ação antigos) e se remontando. Ambas espinhas tem um tremelique.

Pense na pessoa que você mais ama, e que agora tem apenas desprezo por você e tudo que a sua pessoa congrega e representa (se essa pessoa não existir, conjure a sua dimensão emocional a partir de elementos de pessoas que existam). Imagine agora essa pessoa do seu lado, contorcendo o seu rosto em figurações expressivas de desprezo, formulando durante horas variações de frases incisivas que repisem justamente aqueles pontos mais farelentos e quebradiços do seu caráter. O seu amor por ela, enquanto isso, vai inchando, sem saber pra onde ir e o que fazer consigo mesmo, preenchendo sulcos esparramados, completando reservatórios secos, vestindo paletós e calças guardados no armário.

Vocês se separam de novo. Você volta aí pro seu trabalho na firma, ela volta para a sua rotina itinerante onde ela coordena diversas forças-tarefa eminentemente práticas e locais em defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e da diversidade ontológica (amplamente compreendida)

Você acompanha as vitórias dela pelas redes alternativas de angariação e reverberação de eventos noticiosos. O seu grupo liberta diversas cidades, escravos, espécies, afirma a legitimidade política e afetiva de uma série de agrupamentos comportamentais. Vários amigos seus compartilham fotos dela em palanques, comitês, barricadas. O seu amor por ela explode canos, irrompe de aortas.  Enquanto isso, a firma para a qual você trabalha vende aparelhos usados de radiografia para presídios do interior, você mente para a sua avó deprimida e sozinha que está ocupado demais para visitá-la.

Todos os eventos contínuos da realidade parecem confirmar de maneira quase escandalosa todos os pontos defendidos por ela na última ocasião em que você foi (justamente) descascado. Você secretamente acredita que ela talvez seja o messias redivivo (ou, no caso, rediviva). Numa das fotos, se você olha direito, ela parece estar levitando.

Vocês se encontram novamente, dessa vez no interior do Paraná. Ela está lá a trabalho, você a seguiu para que pudessem se encontrar, de novo. A passagem, comprada de última hora, não foi barata. Ela chega duas horas atrasada, cercada da patuscada irritante que sempre corre com ela agora. Tá vestida só de diversas penas sintéticas coloridas formando uma penugem iridescente como a cauda de um pavão, com só uns trinta por cento do seu corpo descoberto (mas justamente as partes mais interessantes). Quando você pergunta pra ela de qual é a das penas e faz uma piada a respeito do Carnaval ser só semana que vem, ela nem finge que ri e fala por tempo demais do pavão e seu simbolismo alquímico, Proustiano, Jorge Beniano. Você olha pra cima, pras unhas.

Por um instante, a arrogância tão feia dela (ainda que justa, em certo sentido) a respeito da sua própria  exuberância  lhe permite que sua extrema pujança moral e estética se veja diminuída por um instante. Por esse tanto, pelo menos, você é muito grato.

Pense num professor universitário de religião comparada. Ele (você) tem trinta e cinco anos e rabinho de cavalho, alterna estranhamente entre camiseta e pochete e um blazer de veludo verde-escuro. Tenta cultivar uma imagem aberta, experiente e um pouco misteriosa, de alguém que detém mistérios orientais e alguma expertise lisérgica e mística que ele gostaria que já sentissem nele antes que ele soltasse qualquer sinal mais explícito nesse sentido. Ele nunca tinha tido nada muito próximo de uma experiência mística, embora as achasse bem interessantes de se ler, fingidas ou genuínas.

Um dia, depois de cochilar diversas vezes assistindo televisão, e não conseguir nem chegar na metade da comprida cinebiografia do Malcolm X, ele decide desligar a televisão, vai do sofá pra rede. Fica deitado na rede olhando para o armário de cor de madeira, pescando.
Olha de repente para a janela, a faixa de vidro que fica bem à altura da sua atenção quando está na rede (e só nessa ocasião).


Tem só três meses que ele mudou pra esse apartamento. Ele olha e de longe tem a impressão de estar vendo um palito de fosfóro e as lascas de um lápis, assim flutuando no escuro. Ele não entende direito o que é que ele tá vendo. Pensa de repente que estão congelados ali gestos dele dos quais ele ja tinha esquecido. Fixos por alguma estranha intervenção.  Talvez por estar quase dormindo, isso lhe parece muitíssimo óbvio e profundo, ao mesmo tempo, e ele em seguida entende, com muita naturalidade, o tempo como um elemento espesso no qual todo mundo está metido, entranhado, o tempo todo, viscoso como xarope de bordo. E vidro era luz grossa. As imagens deviam ter se atrasado ali dentro daquele ali, ele pensou. Claro. Isso fez todo o sentido do mundo. Ele percebeu que poucas vezes esteve tão feliz, e tranquilo, antes de adormecer.

No dia seguinte, de manhã, enquanto toma café aguado e come biscoito  de maizena, ele lembra da experiência, fica até emocionado. Começa a narrar todo o processo pra si mesmo várias vezes, modulando o tom e as ênfases, acinzelando uma sucessão dramática. Quando volta pro quarto pra dormir mais dez minutos antes de se vestir (ou até tomar banho, dependendo da hora), ele ao deitar na rede olha de novo pra mesma faixa da janela, e vê que o fósforo e as lascas de lápis (e também umas colunas baixas de cinza de cigarro) ainda estão lá, flutuando, só que numa teia de aranha; ela que agora você consegue ver também, na dela, do tamanho dum chip de celular, cinza-marrom, calma.