Tuesday, March 29, 2016

Djesa Cristo, pt.1

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Djesa Cristo, primogênito dos mortos, príncipe guerreiro da paz, não voltava ao seio dos seus tinha um par de milênios (e contando). São João Batista, que tinha por costume precedê-lo, viu por bem ir ressurtando gradualmente num senhor goiano que, como ele, morava como andarilho no deserto (no caso, no cerrado, mas que no sol de savana e na secura se assemelham). Com roupas esfarrapadas, o olho fascinado, sobrevivendo só na base de mel selvagem e gafanhotos. 

Esse senhor já existia por cinquenta e sete anos sem ser forma alguma de São João Batista, sendo inclusive denominado em seu registro geral Rodércio Dutra Dias. Depois de duas décadas de alcoolismo, do desemprego crônico e da mulher que o abandonou em Anápolis pela interação cada vez mais dramática desses dois eventos, Seu Rodércio passou a não responder quando lhe dirigiam a palavra, a vestir sacos plásticos sobrepostos como calça, chapéu e ombreira, a emitir urros alternadamente incrédulos e raivosos contra todos telejornais transmitidos em sua imediação. E o pior: nem beber ele bebia, mais.

A relativa intolerância do bom povo de Anápolis com seus novos hábitos foi forçando-o a viver cada vez mais à margem da sociedade. Até que o seu Rodércio, que sempre gostou muito de caminhar e sempre teve, tanto por genética quanto por hábitos alimentares salutares, excelente resistência física, percebeu que ficava menos triste do que jamais lembrava de estar na vida quando não pensava em absolutamente nada e só ficava andando a esmo pelo cerrado (é verdade que seu Rodércio quase não tinha lembranças da sua juventude, e nenhuma de sua infância) 

Gafanhotos são insetos relativamente abestados e fáceis de serem apanhados, mas mel já era mais difícil de ser obtido assim na tora. Subir nas árvores requeria métodos que Rodércio custou a aprender, esfolando braços e pernas contra a casca dura de algumas, caindo um par de vezes quedas que só não resultaram mortais por intervenção direta sobrenatural (imagina-se). Ele não entendia a vontade tão específica por mel, considerando que nunca foi muito de doce e ainda o custo e o risco consideráveis que sua busca lhe trazia, mas sempre que conseguia meter a mão numa colmeia cheia (antes mesmo de trazê-la besuntada à boca) sentia-se plenamente, misticamente recompensado. 

Mal imaginava o senhor Rodércio que suas práticas levariam, necessariamente, por adligantes imagéticas complexas, à absoluta possessão de seu corpo pelo complexo figural de São João Batista (que por sua vez era a emanação de entidades que não temos a liberdade e nem a disponibilidade tipográfica de denominar, no momento). 

Isto se deu gradualmente, caminhando das extremidades do corpo até o seu centro. Primeiro os pés e as mãos tomaram-se de formigamentos que duraram em cada caso de quinze a vinte horas. Durante essas horas o senhor Rodércio olhava para as suas mãos e pés e conversava com as formigas, entendia tanto o seu frenesi quanto sua complexa e generosa comunicação interna, a necessidade imperiosa de sua subsequente transformação. 

Pelo menos alguns lugares dizem ou já disseram hospedar a cabeça decepada de São João Batista: A San Silvestro in Capite em Roma, o Residenz Museum em Munique, a Mesquita Umayyad em Damasco.
Todos esses, no entanto, mentem (ou, sejamos gentis, talvez se equivoquem). A cabeça de São João Batista, como bem se sabe, encontrava-se enterrada no cerrado goiano, a duzentos e trinta e oito KM de Anápolis,  preservada de maneira tanto inexplicável quanto maravilhosa.

Enrolada num saco de estopa cheio de serragem, a cabeça se encontrava sequíssima, hibernando a baixíssimo regime energético, com os olhos virados pro lado de dentro. Ela se encontrava ali desde que foi enterrada pela segunda encarnação de D. Sebastião, que chegou andando do fundo dos mares no litoral Paraibano lá por volta de 1785, tendo sido, ao que se conta, visitada por Antônio Conselhereiro, Virgulino Ferreira da Silva e Maria Bonita, Padim Padim Cícero, Luiz Gonzaga (sr.), entre outros.

Quando passou por perto de onde a cabeça estava enterrada, Rodércio sentiu uma dor lancinante na sua própria. Ele não tinha enxaqueca desde os seus vinte e poucos anos, quando parou de tomar café, então achou aquilo muito estranho. Foi só depois de algumas horas deitado na sombra incompleta de uma árvore e xingando tudo que havia para ser xingado é que ele começou a perceber que a sua dor diminuía quando ele olhava numa determinada direção, e praticamente sumia quando ele caminhava pra ela. 

Só umas horas depois é que Rodércio entendeu que a resposta para sua enxaqueca estava debaixo do barro do chão. Cavou com as mãos e cavucou a terra com gravetos, encheu de terra as suas unhas até que sangrassem. Já era madrugada quando encontrou o saco de estopa, que ele levantou aos céus urrando como se desafiasse o Deus que tinha escondido dele aquilo com tanto esforço e teimosia. Os céus responderam com trovões e um aguaceiro. Rodércio Batista faz xixi e cocô no buraco que havia cavado, que agora se preenchia rapidamente de água barrenta, cantou em línguas cujos códigos inexistem.

Antes dele abrir o saco, entendeu que ali dentro estava a cabeça dele próprio, apesar dela também se encontrar naquele exato momento ali detrás dos olhos dele, no meio das orelhas. Ele sabia que encarar a sua própria cabeça ao vivo e sem espelho seria um ato desaforado, extremamente perigoso, mas não parecia possível àquela altura do campeonato deixar de fazê-lo. 

Foi só desatar a cordinha que fechava o saco para que sua própria cabeça caísse de onde estava, pendendo dos ombros como a esfera de um bilboquê. A cabeça de dentro do saco pulou pra fora e engatou-se onde estava a sua antiga, quando a sua visão de Rodércio retornou de todo, agora matizada em outras cores, mais velhas, e enxergando do interior de um cérebro de mais de dois mil anos de idade, seco como uva passa.

Foi então que Rodércio entendeu quem ele era, do que eram feitas as dobras amarrotadas do tempo, e que ele devia ir em imediato para Goiânia receber a presença vindoura do filho do Homem, o leão da judiação, Djesa Cristo, que naquele exato momento, a menos de trezentos KM dali, tentava tirar o baixo de "Concrete Jungle" sem muito sucesso. 

II

Djesa, o Cristo, morava em Goiânia e trabalhava com som automotivo no negócio de sua família. Nas horas vagas, discotecava em casamentos e tocava violão ou percussão em barzinhos na madrugada. Apresentava-se com frequência como o melhor DJ ("Dê Jota")do Brasil, depois do Djavan. Não era imediatamente claro se se tratava de uma piada. 

Djesa quando criança já havia feito pequenos pássaros de barro, num sábado, que saíram voando como se existissem. O seu pai se assustou muito com aquilo, deu-lhe uma peia considerável com o cinto e disse que nunca mais o repetisse. Djesa concordou, mas ficou contrariado. 

Na semana seguinte, desafiado por um coleguinha que o dizia burro e incapaz de defender bolas de meia com o pé, Djesa tocou o dedo na testa do moleque com toda a frieza disponível de sua alma e o deixou duro, não só morto de uma vez como já gelado, tombando no chão sem se mexer, os membros enrijecidos de imediato, o mindinho da mão esquerda espatifando-se ao contato com o chão. 

José dessa vez se assustou mais ainda, e deixou Djesa de castigo por duas semanas sem assistir televisão. Dessa vez Djesa reclamou menos, mas ainda assim ficou contrariado de não aceitarem que o moleque é que tinha começado.

Nessas duas semanas, Djesa foi visitado por inúmeras entidades demoníacas e celestiais que disputavam sua atenção e ofereciam visões panorâmicas e diorâmicas dos mundos que ele poderia subjugar e sobre os quais poderia reinar, se assim quisesse. Djesa tinha doze anos, todas aquelas entidades embaralhavam-se na sua cabeça, com seus nomes cheios de consoantes, suas hierarquias rijas e rixas internas. Os demônios quase todos lhe pareciam mais simpáticos que os anjos, aliás, que eram todos uns europeus e usavam roupas muito pomposas, cheias de renda e veludo roxo.

Foi só então que Djesa entendeu que era filho de um deus ciumento, silencioso, traiçoeiro, vingativo, que nem pra aparecer aparecia, e ainda mandava capangas.  Não tinha certeza se podia confiar em qualquer das vozes que lhe disputavam a atenção. Djesa decidiu então viver na roça com sua avó muda e meio índia para melhor decidir o que fazer com seus tão cabulosos poderes (que ainda, é verdade, mal se manifestavam). 

Na roça, tinha que capinar a manhã toda e aguentar nas costas a lapada do sol goiano em toda sua cruência. Em compensação, era quieto e tinha bicho e sua avó fazia a melhor pamonha já feita por mão de gente. Djesa jantava pamonha todo dia olhando para as estrelas e sua luz velha, cantando sucessos de Djavan e Beto Guedes. Sua visão ficava quase o tempo todo voltada pra cima não só porque ele gostasse das luzinhas, seus desenhos e suas distâncias intimadas, mas porque se ela se virasse para o cerrado goiano teria que lidar com a profusão de demônios e anjos engalfinhados à sua espera, cada vez mais numerosos, cada vez mais misturados e cada vez mais impacientes.

Rodércio Batista encontrou a casa onde morava Djesa numa terça-feira, de tarde. Apareceu lá para pedir um copo d'água, mas quando a velha da janela gritou pra alguém lá de dentro (nuns barulhos que a Rodércio pareceram desarticulados) uma água apareceu trazida por um  adolescente com mullets encrespados e camisa do Nirvana. Rodércio não acreditava nos seus olhos. Ajoelhou-se de uma vez e nem mais teve sede.
-Quem é o senhor?
-Luiz Gonzaga, seu filho.
Falou com um sorriso cândido, tirando uma mecha de cabelo da testa. Era aquele o filho do homem. O próprio. Era evidente. Chegava a hora daquela gente bronzeada mostrar seu valor. 
-Meu filho, que mal lhe pergunte, qual é a sua vocação?
-Vocação?
-é, o seu chamado. Você parece um rapaz, assim, sensível, né. Deve ter uma coisa que você gosta. 
-Ah. Música. Eu faço música. Djesa, seu criado, o melhor DJ do Brasil depois do Djavan.
-Então me permita te ajudar a ser o maior músico que você pode ser. Você pode ser muito mais do que isso.
-Melhor que o Djavan?
-Quem sabe o rei dos reis do baião.
-Mas vem cá, você é quem?
-Eu sou são joão batista
-Ah, tá. E eu?
-Você é o cristo.