Sunday, October 05, 2014

Aracy De Almeida, quanto vale o show? Cin-quen-ta man-gos
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Por um lado, claro que especificidade e relativa espontaneidade são preferíveis a cinco canais de televisão e um cânone fechado mal ensinado e mal lido por meia dúzia de feladaputa (Ref. Chorão). Todo mundo concorda com os tio quando eles dizem que cultura não pode ter centro, tudo bem, vamo nessa (ou, ainda, e eu mesmo prefiro essa imagem: que o centro está em todo lugar). A música popular traz como tradição todo um repertório cênico, expressivo (até gestual, claro), e a falta de meios e tradições compartilhadas em grande escala significa, em última instância, também uma falta de possibilidades comunicativas, também uma falta de vocabulário expressivo comum. 

 Tá certo que uma das histórias possíveis pra isso é que há bem umas décadas que caminhamos pra confundir "cultura" com "entretenimento de massa norte-americano" (e mal se começou a se contabilizar o resultado, digamos, ESPIRITUAL disso). Mas claro que tudo que ganha a escala que a cultura de massa americana ganhou tende a virar uma outra coisa, ou ainda muitas outras coisas. Uma das respostas presse estado meio calamitoso é gostar das coisas, como faz o Caetano (o que funciona muito bem, ainda que haja o risco de não se perceber que se por um lado um troço como o Bátima é uma fantasia juvenil inofensiva, por outro ele é uma fantasia fascista que consegue ser perigosa, quando realista; ou, ainda, que os Warhols e Koons da vida passam facinho de capturar algo sobre o nosso tempo a ajudar a pós-produzi-lo no que ele tem de pior).


Aí ficam de cara que os vocabulários políticos das mais gerais galerosidades sejam moles, quebradiços e porosos quinem pinto de barro indevidamente sacramentado, e mal se percebe o contrassenso que existe em arte de vanguarda com ~~conteúdo político emancipador manter-se dentro das suas ecologias fechadas de emissão e reverberação, oferecendo vocábulos pra que uma pouca galera com pós-graduação se cumprimente e pisque os olhos. Superfícies estéticas também são políticas (ou, ainda, política também se faz com superfícies estéticas).