Friday, July 11, 2014

1.

Se vários países possuem seus mitos revolucionários de fundação (ainda mais os com territórios de proporções continentais como as nossas), no Brasil nunca tivemos nada parecido. Nossa independência se deu, risos, com um príncipe português, a fundação da república com uma conspiração mixuruca e todas peripécias institucionais seguintes foram mais manipuladas por um pequeno grupo de oligarcas fazendo dança das cadeiras do que espontaneamente urgidas de uma forma massivamente representativa. As Diretas Já claramente assinalam um momento onde o povo na rua fez pressão popular por uma mudança política inequívoca, mas isto já se deu dentro do lento xote das engrenagens institucionais que caminhavam nessa direção (e de cima pra baixo, como sempre).



Talvez justamente por nunca termos tido um momento primevo desses de construção identitária mais tradicional é que o futebol acabou por ganhar essa importância toda na fabulação coletiva recente, a ponto de virar, sem exagero, o teatro mais ostensivo da nossa constituição narrativa (e a Copa do Mundo enquanto arena mais cabulosa para essa constituição). Se não temos uma história verdadeira de violência fundante ao redor da qual organizar um mito cívico, acaba servindo como pode esse espetáculo formidável de violência simbólica globalmente compreendido. Se não conseguimos ser um país a sério, podemos tentar ser o maior dos países de mentirinha, de quatro em quatro anos.



E, nesse sentido, a narrativa imagética futebolística do Brasil enquanto nação não nasceu em 58, com a primeira conquista do Mundial, Garrincha fazendo miséria na Suécia, deixando seus descendentes, Pelé com dezessete anos fazendo o que fez na pequena área, na final (o Brasil sendo inaugurado, como disse o Nelson Rodrigues). Ela nasceu em 50, mesmo, com o Maracanazzo, a grande festa em casa que ia ter e não teve, o complexo de vira-lata se confirmando com carimbo, o pai do então-Edson-Arantes chorando de frente ao rádio e o moleque prometendo que ganharia uma copa pra ele. Tá lá desde a poética do Aristóteles que as boas histórias precisam ter reviravoltas. Precisávamos ter perdido em casa, contra todas expectativas (presunçosas, hubrosas), e de virada, de um país que caberia umas cinquenta vezes dentro da gente, pra que a coisa ganhasse toda essa importância indevida, hipertrofiada. É morrendo antes enquanto coletividade dispersa que se pode nascer de forma tão ruidosa e exagerada (oito anos depois, e mais quatro vezes depois disso), o Maracanã se tornando alavanca, Axis Mundi.



2.
Futebol não é só um negócio sério no Brasil, é questão de nação, de unidade cultural, essas palavras faladas de boca cheia (quem achar que não que leia os pronunciamentos da Dilma desde o início da Copa e veja a gravidade com que ela fala do troço). Não que isso possa se verificar ou contabilizar de maneira tão óbvia, muito menos controlar de forma muito deliberada, mas a seleção é muito mais importante, muito mais generalizada e muito mais expressiva que qualquer outro símbolo isolado de nacionalidade (sem contar, claro, a língua portuguesa, que é a única coisa que torna o nosso país minimamente possível, mas que é a agua onde todo mundo boia, e que mal se percebe como tal).



A Copa do Mundo é talvez o único outro meio expressivo além das eleições através da qual nós acontecemos ostensivamente enquanto coletividade, e em certo sentido talvez o mais autêntico (ou, vá lá, menos falso), já que as nossas eleições continuam sendo, como toda eleição televisionada em uma imensa democracia de massas (ainda mais numa tão oligárquica), pouquíssimo democrática*, pouco mais do que um reality show mal produzido pelas zelite.



*maseamúsicapopular, e a farofa? São ainda mais importante, culturalmente, claro, mas a música oferece repertório expressivo de outras maneiras, bem mais difusas e diversas, não entrega uma narrativa inteiriça que todo mundo pode acompanhar, não nos submete a uma diegese inequívoca como o futebol e a Copa conseguem fazer. E a farofa, salvo engano, é ainda um elemento incorretamente muito mal integrado na nossa identidade narrativa.



Futebol é violência simbólica estilizada em dança, e, pra mim, das formas de arte  popular mais notáveis das várias inventadas no século passado. Notável, aliás, justamente por ser de todos os esportes globalmente jogados justamente o mais entrópico e o menos justo (muito como o universo, *drumroll*). Ele é, também, claro, um entretenimento de massa altamente lucrativo ordenhado em todas suas tetas disponíveis, e toscamente; funcionando, boa parte do tempo, nas suas atuais tecnologias de apreciação, como reforço de vários dos aspectos mais imbecis e desnecessários tanto do nacionalismo quanto da masculinidade ocidental.
Isso sem contar, claro, que o microcosmo ~~lúdico~~ de extraordinária eficiência (pra algo tão mal gerido) que ele produz no Brasileirão parece facilitar a manutenção dócil da nossa escrotíssima ordem econômico-social nos moldes em que se encontra. Além de vagos delírios a respeito de democracia racial, nem os defensores mais ardorosos do esporte costumam supor nele grande potencial de transformação política (apesar da masseza inegável de incidentes isolados como o da democracia corinthiana, ou daquela torcida organizada esquerdista turca). Não me parece acidental e nem tão trivial que tantas vezes chamem, e de forma derisória, o nosso pouco convincente jogo político tradicional de Fla-Flu. No mínimo, digamos que atrapalhar a situação posta ele não atrapalha.
Claro que torcer pela seleção não se confunde com torcer pela CBF, Fifa, ou pelos seus patrocinadores. Muito menos torcer pelo governo. A seleção é também um objeto estético e oferece, como tal, uma série de interfaces distintas de fruição, com suas próprias galerosidades. Muitos gostam de descortinar a alegria do futebol e da copa do mundo como ilusória, mas isso só faz sentido mais ou menos. Futebol é um jogo, e a arbitrariedade dos limites de qualquer jogo é justamente o que torna sua expressividade absoluta, dentro dos seus próprios termos (que você, claro, aceita ou não). Pode-se contestar qual seria o diabos da importância de ser campeão, a legitimidade da vitória em termos esportivos, mas não um título em si (que é circular como uma tautologia, produzido junto com seu contexto).

3.
O fato de que somos, ou éramos,  o maior país do mundo em termos de seleção nacional masculina de futebol pode não significar absolutamente nada além de si mesmo, mas já oferece todo um cenário expressivo partilhado para milhões de pessoas construírem uma imagem viável dessa coletividade dispersa (que existe, claro, com muito mais força do que a ficção oficial do país consegue reunir).
Para um país (leia-se: realidade burocrático-institucional, não o povo e nem a cultura que o sustentam) que praticamente não existe, isso me parece contar bastante. Além de alguns momentos do rap, é onde ainda resta espaço para registros convincentes do épico enquanto fenômeno de massa (lembrando que todo épico digno de nota não só contém um grupo de figuras heróicas históricas e/ou míticas com gestos passados enaltecidos, mas sugere um ethos, propõe tanto um passado quanto um futuro para uma coletividade e seus mortos, muitas vezes até descreve o literal território geográfico onde se devem guardar os numes, com seus acidentes e peculiaridades).
Um evento como a Copa do Mundo claramente serve pra dar expressão pra nacionalismos de várias ordens. Mas não me parece tão claro se essa expressão serve mais diretamente pra reforçar e dar liga pro lado mais tacanho e perigoso desses sentimentos (praticamente formando e treinando pequenas falanges fascistas pelo mundo), ou se, pelo contrário, ela não pode servir quase como um substituto simbólico (e, vamo combinar, bem mais legal) pra guerra, dando espaço para que as coletividades se exaltem e dramatizem seus dramas internos e tensões exteriores com um espetáculo controlado (e, claro, comercializado) de suas sinédoques profissionais treinadas e uniformizadas para tanto.
Futebol é um jogo altamente caótico, e mesmo uma vitória acachapante e inquestionável como a de ontem tem seus aspectos bisonhos e acidentais. Nosso time podia ser pior que o alemão, aparentemente muito melhor preparado e treinado que o nosso, podíamos ter desfalques bem consideráveis (nossos dois melhores jogadores, um deles o capitão do time e melhor zagueiro do mundo há alguns anos). O Felipão pode ser um não-técnico há um bom tempo, achando que ganharíamos do melhor meio campo da Copa sem treinar, na base de recadinhos de incentivo e apoio moral em forma de bigode, blindagem da imprensa e gaúcheza arrogante. Mas é claro que 7 x 1 de um time que custou a marcar gol na Argélia é desproporcional, e fora de qualquer expectativa razoável.
Tomamos quatro gols de pelada em pouquíssimos minutos. Nenhum deles requisitou uma precisão fora de série ou mesmo grande rapidez do time alemão. Foram gols cirúrgicos, feitos de forma direta e simples, até repetitiva, num time que não sabia onde estava depois do erro primário de marcação do primeiro gol, e não tinha quem os organizasse em campo. Há muito o que se dizer da CBF, claro, há muito que se comparar os dois campeonatos nacionais, em diversos aspectos. Querer que isso se traduza em tratados sociológicos da superioridade da eficiência protestante contra a desorganização tropical é ridículo, mas também não há chance de alguém que leve futebol a sério (como eu levo) não tomar essa humilhação com uma dose considerável de (todo tipo disponível de) simbolismo.
Quem não se importa com futebol não tem tanta dificuldade de desligar a chavinha da copa e voltar ao razoável e prudente “gente, isso não importa porra nenhuma”. Não é que eles estejam errados. De fato foi um jogo atípico e querer que ele traduza alguma coisa séria sobre duzentos milhões de pessoas (ou mesmo sobre o futebol brasileiro como um todo) é, seriamente falando, ridículo. Mas pra mim é impossível não se importar muito com o que essa derrota faz com a nossa imagem exatamente porque eu sei o que um 7 x 1 nosso (ou um resultado igualmente absurdo) faria na direção oposta.  
Eu sei o tamanho desmedido que teria a minha exaltação se fôssemos nós a ganhar desse jeito, seria eu o primeiro a sentir ali toda uma satisfação enorme (e esteticamente justificada, ainda que irracional) de um país miseravelmente zoado ganhar de um país tão mais rico e organizado, o primeiro a passar bem umas vinte horas em êxtase rindo da cara dos alemães e sentindo uma vingança imbecil, digamos, do nosso IDH ou da deficiência da nossa malha ferroviária diante da deles. O meu agigantamento com o resultado invertido seria um fato objetivo, certo, manuseável e resistente por décadas, eu tenho certeza. Eu estaria até agora bêbado (tanto de felicidade quanto de álcool), revendo os gols, tendo espasmos incontroláveis de alegria.
Tem também que fui criado por filme americano, assim como quase todo brasileiro, pra ter alemão como um vilão inequívoco (não que eles não tenham feito por onde, né; valendo lembrar que ‘alemão’ é gíria tanto pra inimigo quanto pra polícia em boa parte do Brasil).
O engraçado é que a proporção do que os alemães fizeram dificilmente é inteligível pra eles. Não que eles não sejam emotivos, ou que gostem menos de futebol. Eles, os italianos, os ingleses e boa parte dos latino-americanos gostam de futebol tanto quanto a gente. Mas é claro que pra eles a seleção nacional importa muito menos enquanto apêndice expressivo de toda a coletividade, claro que ela pesa muito menos na imagem total que o alemão faz de si mesmo e no seu lugar no mundo. Eles tem lá outros esportes nacionais tão importantes quanto (música, automobilismo, filosofia, genocídio). Eles não tem nem como ter ideia, a sério, do que fizeram com a gente.



4.
Independente de qual relação você enxergue entre o Estado brasileiro e a Copa (ou a Fifa e a Copa, a Fifa e a seleção, a seleção e o Estado, etc), é bem claro que a realização do evento vinha ganhando no país o sentido disperso (e diversamente valorado) de culminação de um processo cumulativo de desenvolvimento que o Brasil vem sofrendo desde a Constituição de 1988 (se um petista conta a história, desde 2002; se um tucano, desde 1994). Era a nossa chance agora, ao que se entende dessa historinha, de ser a própria porra, Der Geist, o tal do modelo civilizatório alternativo no qual daria a mistura das três raças, um verdadeiro gigante econômico e democrático dos trópicos (e zás, e zás), etc.
Por isso a preocupação tão comédia e provinciana com a boniteza dos nossos aeroportos e estádios, com não fazer papelão diante dos turistas gringos, com os arrumos mais superficiais daquilo que efetivamente se imagina como uma festa de debutante para um país em construção (onde ele é apresentado com toda pompa para uma sociedade de possíveis pretendentes que mais querem, naturalmente, beber e zoar na 4x4).
Essa é uma maneira bastante infantil de se tentar construir um país, logicamente, mas, como qualquer espetáculo midiático, importa muito mais o seu tamanho (a eficiência e a reverberação exetensiva de sua disseminação técnica) do que a sua viabilidade lógica enquanto narrativa. E, nesse sentido, ganhar adquire um tipo de importância que jamais teve antes, exatamente, misturado com a nossa capacidade de realizar o evento de forma satisfatória. Dentro dessa lógica expressiva, qualquer resultado que não a vitória era não só decepcionante, mas inaceitável.
Pra quem entende, como eu, que o Brasil vive há alguns anos em guerra civil consigo mesmo (uma guerra recortada por raça e classe, mais do que qualquer outra coisa), e que nela o nosso aparato estatal cumpre um papel quase genocida (apoiado e subscrito por boa parte da sociedade civil dotada de meios e influência) ficava difícil decidir como que se torcia pela seleção. E eu digo “como”, mesmo, porque torcer eu sabia que ia torcer, é quase um músculo involuntário.
Fala-se muito da ambivalência esquerdista em relação à seleção de 70, em plena ditadura, mas o Estado brasileiro hoje mata e tortura muito mais do que nessa época (e hoje nem tem a desculpa, digamos assim, de sermos uma ditadura). E olha que não estou nem tocando no absurdo que foi a realização da copa em si, com as remoções, a reverência à FIFA, o exagero retardado dos tantos estádios, tudo apoiado uniformemente pelo discurso nacionalista tacanho do Aldo e da presidenta.
Fala-se muito, também, da repressão policial aos protestos contra a copa, e corretamente, mas é claro que a repressão policial a manifestantes, absurda que ela tenha sido e seja em diversas ocasiões (profusamente documentadas), não é nem uma unha do absurdo que é o cotidiano das nossas forças repressivas voltadas contra seus inimigos já naturalizados (contando-se, aí, claro, a manutenção contínua do nosso sistema carcerário nas condições que todo mundo conhece), muitas vezes em áreas sobre as quais o Estado brasileiro praticamente admite não ter jurisdição efetiva.
Claro que a seleção não é o Estado, e claro que o Estado brasileiro não é só polícia e cadeia. Mas considerando o tanto que futebol é guerra simbólica, e o quanto o brasileiro consegue ser casualmente, zoeiramente fascista, fica difícil não achar que boa parte do povo que tá gritando VAI BRASIL junto contigo e cantando o hino a capela extrai um sentimento parecido ao ver a tropa do choque enfileirada, ou o exército nas UPPs.



5.
Das frases que mais rapidamente nasceram e morreram com junho do ano passado foi a do “gigante acordou”, fazendo referência, mais imediatamente, tanto ao gigante pela própria natureza do hino quanto ao truísmo de que o brasileiro é uma eterna potência do futuro que não consegue se dar conta da própria força.
São muitas as histórias míticas que associam o mundo a um gigante e, mais especificamente, a criação do mundo ao seu desmembramento. Além do sacrifício de Tiamat (a deusa caótica do oceano morta pelo herói deicida-demiurgo Marduk no mito babilônico Enuma Elis) cujo corpo dá origem aos céus e à terra, temos Ymir, na mitologia nórdica, um ser primordial ancestral de todos os gigantes Jotnar, de cuja carne, sangue, ossos, cabelo, crânio e cérebro se fizeram (respectivamente) a terra, os oceanos, as montanhas, as árvores, os céus, as nuvens; de suas sobrancelhas Midgard (que puta sobrancelhas, aliás).
Tem ainda Pan Ku, na mitologia chinesa, e o Purusa (ou Purusha) hindu, que primeiro aparece no Rig Veda, com o seu desmembramento dando origem ao cosmos ordenado e hierarquizado em castas. Tem o Albion inglês, usado pelo Blake, e o Adão Cadmon, homem primordial da tradição da cabala usado lindamente por Pávic no Dicionário Kazar.
Curioso que são muitos os compiladores de mitologia que supõem necessariamente algum parentesco histórico entre algumas dessas histórias, como se povos distintos não pudessem ter intuições expressivas semelhantes. Nada me parece mais sensato (ou poeticamente expressivo) do que ver o universo como um organismo, ou a coletividade da qual você faz parte como um corpo humano gigante. Capital, em alemão, diz-se cidade-cabeça. Parece-me meio óbvio que quase qualquer cultura com tradição mitológica robusta possa eventualmente esbarrar em imagens parecidas.
Esses “macroántropo cósmicos”, como Mircea Eliade os chama, parecem servir antes de tudo como base para se expressar a relação microcosmo-macrocosmo. Compreender que o mundo seja formado a partir de algo como um corpo humano é também, sempre, entender que o corpo humano possa ser formado pelos mesmos processos que formam o universo como um todo (ou, da mesma forma, compreender que o individual nasce no coletivo e o coletivo nasce do individual)
O transporte metafórico nunca é só de uma coisa pra outra, é sempre também da outra pra coisa. Isso também quer dizer que quem extrai um sentimento genuíno de exaltação narcíssica (e até de validação ontológica) com vitórias de futebol executadas por estranhos distantes centenas de KM (algumas delas há décadas atrás) precisa se curvar à necessidade expressiva de extrair, também, do mesmo jeito, um sentimento genuíno de derrota e humilhação (e mesmo de invalidação ontológica) quando estes estranhos perdem.

6.
Pra todo mundo que, como eu formava ou forma uma parte desmedida da imagem tanto do Brasil quanto de si mesmo a partir da superioridade do desempenho da seleção masculina de futebol (de forma infantil, isto ninguém nega), alguma coisa morreu pra sempre ontem, esquartejada casualmente por jovens alemães que nem jogaram lá tanta bola assim (claro que jogaram muito bem, que nos deram um belo dum banho tático, mas digo que também não houve um espetáculo técnico que merecesse o tamanho da hecatombe).
Prum país com um déficit tão sério de representação (artística, acadêmica, jornalística, política, etc), acaba que a realização desses eventos grandiosos abestalhados parece ter servido, em alguma mínima medida, para forçar que o país encare de outra maneira alguns dos elementos naturalizados (ou mitificados) da sua cultura. Duvido que junho tivesse acontecido como aconteceu não tivesse a Copa das Confederações como estofo temático e dramático em torno. Eu achava que isso, em parte, estava acontecendo, e que o saldo era mais positivo que negativo, apesar do comportamento do governo e da imprensa, até a copa começar.
Daí em diante ela se mostrou tão fera, com tantos gols e jogos ótimos, a nossa capacidade coletiva para curti-la tão derretida, assim como o fascínio pelo fato de reunirmos a atenção do mundo durante um mês, que eu que sempre fui contra a copa não fiz mais nada desde o dia doze além de assistir a praticamente todos os jogos e me refestelar na sua disseminação global posterior na internet. Minha vida essencialmente se confundiu com uma sucessão de gestos paratáticos e fixos em GIF, vistos em repetição entre as partidas, e na contínua infalível hilariedade a ser derivada do encontro de gringos com Brasil. É evidente que a copa era um equívoco desde o princípio, ainda mais da maneira imbecil e criminosa com que foi realizada, mas eu consegui relevar tudo a partir do golaço do Van Persie na Espanha. Seria ridículo eu, de todo mundo, tentar retomar um discurso “não vai ter copa” agora (ou melhor, quem dera, um “não teve copa” coletivo, fingindo que nada se passou). Ganhar a sexta copa, e em casa, seria tão fantástico pra todo mudo que gosta de futebol (uma boa parte do país, afinal) que conseguiria reverter todos os aspectos escrotos do nacionalismo brasileiro, eu pensava. Tudo que temos de melhor e de mais genuíno seria aflorado, explodido, e ainda pavoneado pra gringo ver. A copa tava ótima até não estar.

7.
Eu seria o primeiro a me esgoelar de alegria com a vitória, dançar bêbado na carcaça do derrotado gritando que a vida é bonita, é bonita e é bonita, que mil gols só o Pelé, o Romário e o Túlio, que o Brasil e o Sílvio Santos são as coisas mais maravilhosas que o homem já inventou, que o hexa nos levaria fatalmente à construção da maior democracia de massas da história do universo e que o espírito de Garrincha vive na alma de toda criança, todo cachorro, todo dibre.
Agora que virou um desastre, agora que eu não sei nem mais quem eu sou direito, muito menos o que diabos é o Brasil, pelo menos tem a vantagem (chamemos assim) de que uma derrota humilhante é uma imagem muito mais adequada em torno da qual nos reunirmos, talvez oferecendo catarses bem mais expressivas pro partilhamento do contínuo grotesco das nossas instituições e da nossa sociedade civil. Pelo menos não teremos tanta gente (eu incluso) exaltando até rasgar a garganta a bandeira e o nome de um país que tem o Estado e a elite desprezíveis que tem, num evento realizado de forma tão tacanha, dentro de um projeto de país tão desastroso (que tá longe de ter sido inventado por esse governo, é verdade, mas esta é justamente a merda, tendo ainda as caras de se vestir como um projeto de esquerda). Daqui a quatro anos tou torcendo de novo, claro, mas alguma coisa pra mim mudou. Daria vontade de arriscar (ou inventar) uma morte da hegemonia do patriarcado, se parte do nosso problema hoje em dia já não fosse que arrastamos há tempos o seu cadáver babão.
Cabou o Brasil, morreu, vida longa, que a gente arrume uns outros jogos pra ele (nunca houve melhor momento pra se derrubar o Estado e abolir a propriedade privada, aliás, ficando a dica). A morte é pão de todo mundo, merda se espalha, tomara que alguma planta útil seja feita do corpo desse deus esquartejado. Man rührt die Trommeln. Die Männer führen kriegerische Tänze auf