Tuesday, March 11, 2014

Ye are many, they are few

"I am standing puzzled, unable to decide whether the veil is really being lifted, or lowered more firmly in place; whether I am witnessing a revelation or a more efficient binding." 
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Junho viu o espetáculo pouco usual de uma massa volumosa de gente desacostumada ao que se entende por prática política tentando protagonizar alguma coisa. Algo em torno dum par de milhão de pessoas (talvez bem mais do que isso) descobrindo, ainda que timidamente, e de forma bastante vaga, a rua como possibilidade expressiva. Ninguém sabe dizer ainda tão bem o que isso fez ou deixou de fazer.

É bastante fácil apontar o que há de narcíssico na juventude querendo tirar suas selfies na multidão tomando a rua, e demarcar nos seus perfis públicos o seu alinhamento contra tudo o que está aí da mesma forma que demarcam o seu gosto por tal bandinha ou tal filme. Claro que é importante reconhecer o quanto pode ser limitada uma noção de atuação política que esteja tão imediatamente atrelada à produção de uma imagem consumível pelos outros. Mas também é evidente que multidões sempre tem um forte auto-envolvimento narcíssico, e que o imaginário político coletivo é sempre mediado por superfícies altamente estetizadas (da segunda metade do século XX pra cá, de forma mais evidente, mas a figura de um rei absolutista, por exemplo, dificilmente teria o mistério naturalizado que tinha se sua imagem e os seus arredores não fossem cuidadosamente arrumados, sacramentados, guardados em sua pompa).


Ao invés de simplesmente querer tomar essa forma de estetização (da tela do computador e do celular mediando praticamente todas etapas de atuação política coletiva) como um elemento de deslegitimação necessária - como se a multidão perdesse algum tipo de pureza ou autenticidade ao se imaginar capturada e digerida antes de ir pra rua - dá de encontrar, talvez, algo de genuinamente novo nesse tipo de alavancagem técnica, e nas possibilidades práticas que ela parece criar.


Alguns descrevem o mundo social que acontece através das redes como um panopticom disperso, com todo mundo cuidando de produzir a sua imagem a ser consumida e prontamente também julgando (e, de certa forma, ajudando a controlar) a imagem alheia. Segundo o Steve Rushton, por exemplo, no seu recente e bem ferinha Masters of Reality* não precisaríamos mais do Big Brother, e nem da NSA (ainda que eles possam sempre estar à espreita) para nos vigiar, a necessidade de auto-performance dentro de filtros e meios culturais já estabelecidos seria uma forma extraordinária (e extraordinariamente perversa) de garantir estabilidade e ordem (de um sistema garantir homeostase, como diria a galera da cibernética, antes até de inventarem a ARPANET; ou mesmo o Luhmann). Se todo mundo observa todo mundo, tá tudo dominado (por assim dizer).


*mó nome de filme do He-Man, né.


O que junho mostrou é que isso não é exato. A vontade de produzir imagens desejáveis de si mesmo para que outros consumam pode resultar tanto em fotos de risoto e garrafas de champanhe soltando foguinho quanto gente quebrando vitrine de banco ou subindo em cima do Congresso Nacional. Ou seja, o jogo não só cria estabilidade (pra dizer o mínimo).


A graça é que, em parte, isso se torna possível justamente porque a gradual transformação de toda atividade humana em produto potencialmente consumível cuidou de vender pra mais de uma geração uma imagem (a princípio, inofensiva) de revolta e inconformismo como algo desejável, inclusive num sentido sexual. Há umas décadas que refrigerante, cigarro e carro tentam nos convencer de que seus produtos valem mais do que os outros com a sugestão absurda (mas poeticamente plausível, como qualquer imagem pode vir a ser, dado um contexto expressivo convincente) de que comprar tal ou tal produto pode fazer de você um rebelde, e que há algo de atraente na imagem de alguém que não segue as regras.


É óbvio que escolhas de consumidor, por si só, são incapazes de montar uma personalidade viável, mas é também óbvio que nossas personalidades são ficções continuamente sustentadas, inclusive por escolhas de consumidor. Pode haver algo de ridículo (ou triste) na pessoa que verdadeiramente acredita que se define inteiramente através das roupas que usa, lugares que frequenta e discos que baixa. Mas o fato é que todas essas escolhas também remontam a microcosmos sociais inteiramente reais, com suas regras e dinâmicas próprias, schemata gestuais, piadas internas, namoros e amizades de vida inteira, etc, então há um sentido bastante sério no qual a pessoa que se define por escutar rap, andar de skate,  fazer cinema, ler Ovídio, escutar noise japonês, curtir arte contemporânea ou jogar MMORPG efetivamente pode construir seus feixes de interrelação pessoal em parte ou inteiramente a partir dessas interfaces, montar as imagens que tem pra si mesmo e pro mundo a partir dos templates que elas oferecem, viver nelas da mesma forma que algumas pessoas moram em Bauru ou Abadiânia.


Em parte o que a internet tornou não só possível como extraordinariamente fácil é a criação e a manutenção de mundos sociais distintos, às vezes quase inteiramente autônomos (nos seus termos expressivos, ainda que não na sua realidade prática). As galerosidades se emprenharam como coelhos. Frye encontrava na expressão metafórica (que diz que A é B, mesmo A não sendo B) a possibilidade de qualquer “ali” ser trazido (ou produzido) “aqui”, uma ideia que lembra a absurda omnipresença do Aleph do Borges e que ele relaciona com a sugestão maluquete (mas linda, e profunda) de Whitehead de que todas as coisas estão em todos os lugares ao mesmo tempo, já que toda locação involve um aspecto de si mesma em toda outra locação, todo ponto de vista no espaço-tempo espelhando o mundo.

Se o discurso utópico é um discurso sem lugar, então a internet (nos termos em que a conhecemos) seria necessariamente um espaço de produção de diversos (e largamente incompatíveis)* imaginários utópicos.
O que ela absurdamente sugere (com o que Kittler chama de suas sensacionais tautologias de luz em cabros de fibra óptica), como a metáfora enquanto possibilidade formal da linguagem, é que todo lugar possa estar em qualquer outro lugar ao mesmo tempo, ou que todas as coisas possam ser todas as outras coisas ao mesmo tempo**. É claro que isso não é exatamente verdade (ao menos não num sentido literal), e é também claro que espaços de produção utópica dificilmente geram utopias (e frequentemente geram distopias bem horrorosas, na verdade, tão lá os chan e os comentários d'o Globo pra deixar inequívoco). A resposta mais imediata para o que aconteceu é dizer que a internet foi pra rua, ou que a internet entendeu que ela pode ir pra rua. Isso pode parecer simplista, e claro que tá longe pacas de abarcar todo o contexto, mas quando você leva a sério a absurda pulverização expressiva que a internet tornou possível, em contraste com o que eram os meios técnicos disponíveis para a produção social da realidade há menos de duas décadas atrás, quase toda acontecendo de fato nuns poucos bairros, nas mãos de umas poucas famílias (como tanto gosta de se dizer), fica claro que junho foi só o começo de um vastíssimo (e ainda largamente indefinido) corpo coletivo entendendo que existe, e ainda mal testando alguns de seus canais de emissão.


*Daí a incongruência tão fortemente sentida em junho quando o povo que sempre vai em protesto percebeu que boa parte de quem tava lá com eles não queriam as mesmas coisas (e que muitos, na real, queriam os exatos opostos).

**Que a maioria dessas coisas seja pornografia e fotos de gato não deveria surpreender ninguém (até porque pornografia e fotos de gato costumam ser ótimas coisas).