Tuesday, February 19, 2013


  • O SEU MUNDO AGORA



  • Ele acompanhava as notícias do mundo diariamente, suas peripécias formidáveis como as de uma novela, dramas sustentados e resolvidos em linhas narrativas tão bonitas e bem montadas, com personagens carismáticos recorrentes, temas e padrões reconhecíveis. Os países se envolviam nas mais diversas confusões, se enamoravam e traíam uns aos outros, sofriam ataques do terrorismo internacional, se endividavam, entravam em guerra, irrompiam em insurreições nas suas comunidades étnicas. Tudo ele acompanhava e discernia com extremo gosto e interesse, comendo na frente da televisão um penne feito só na manteiga e bebendo guaraná quase congelado, com as cristalizações quebradiças sentidas na sua língua e garganta.
  •         Além dos quatro telejornais que ele assistia todo dia, tudo isso era observável nos dois jornais que ele recebia na sua porta todo dia (A Folha e O Globo) e ainda na internet, que ele acessava com dificuldade, a cabeça reclinada ligeiramente pra trás para que seus óculos de leitura melhor antojassem ali a tela em todas suas agitações coloridas.
  • A multitude desgovernada da internet era confusa, muito facilmente dispersa em janelas estranhas com promoções de viagem e moças peladas, em gente pedindo que você concordasse com os termos de um contrato e preenchesse um formulário, mas ele quase sempre conseguia se ater a determinados caminhos conhecidos da página do seu provedor, roteiros aprendidos que já continham todo um mundo de notícias e vídeos relevantes provenientes do mundo todo, parecia já quase inesgotável. Ele recebia ainda de alguns netos de vez em quando emails com apresentações de slide do Powerpoint mostrando ilusões de ótica, frases inspiradores, fotos de Paris, prodígios da engenharia oriental, animais fazendo caras engraçadas.
  •         O problema da internet era nunca parar, ao contrário dos telejornais e dos jornais impressos, cujas assertivas tinham toda uma circunstância, uma gravidade confortável que acontecia em momentos específicos ou em seções espacialmente delimitadas. Eles pareciam encerrar contidos mundinhos apreensíveis todo o dia, apresentar os desenvolvimentos diários do Mundo de maneira absoluta e breve, deixando você tranqüilo e suspenso até o dia seguinte. A internet não. Na internet era só você entrar de novo no mesmo site quinze minutos depois e já apareciam ali umas vinte coisas novas, que por sua vez estabeleciam novas relações a eventos anteriores, abrindo sistemas de relação que nunca se fechavam, nunca terminavam, com notícias antigas sugeridas no pé da página. Polícia impede explosão de bomba em escola na Flórida, Contratos de futuros de cacau fecham em alta, Autoridades inglesas tentam domar o poder das redes sociais. Ele tenta imaginar todas essas coisas como eventos, como cenas cinematográficas montadas por algumas poucas pessoas trocando frases dramáticas e fazendo cara de sério. Segurança de Obama é preso por dirigir supostamente bêbado.
  • Com as paredes da sua cabeça progressivamente porosas - as coisas quase como que derretendo gentilmente, com contornos mais simples e amigáveis como os traços de um desenho animado - ele começava a entender o mundo como uma extensão sua. Se tudo que ele enxergava parecia estar dentro da sua cabeça, aparecendo-se-lhe através dos seus olhos e de suas ferramentas intelectivas de recriação, tudo narrado pela sua voz em primeira ou terceira pessoa, isso devia significar que o mundo acontecia ali dentro.
  • Essa impressão – que ele sempre teve com muita força desde criança – agora ganhava corpo literal, endurecia como um fato público e verificável, até trivial. O mundo acontecia ali na sua cabeça. E era prodigioso e formidável que tudo aquilo acontecesse dentro dele, através dele. Ele sentia um enorme orgulho por tudo que as gentes do mundo conseguiam realizar, como se todos fossem seus filhinhos queridos, todos engendrados e realizados através de seus instrumentos, acessando elementos seus distantes e recombinando-os em maravilhosas formações que ele acessava o dia quase todo. Americana quer se tornar mulher mais gorda do mundo. Chile quer dobrar vítimas do regime de Pinochet.
  • Isso eventualmente transbordou para além dos momentos em que ele acessava as notícias, eventualmente transbordou para todas outras esferas de sua vida, agora imbuídas de analogias globais extraordinárias, de relações macrocósmicas imprevisíveis. Derrubando leite em si mesmo, no seu suéter bege e no carpete (o cheiro progredindo com os dias em estágios cada vez mais grosseiros e maleducados), cortando o canto do seu queixo ao se barbear, ele podia enxergar as populações dizimadas, a destruição, as colheitas perdidas. Todo cuidado era necessário com o seu próprio corpo e com o seu apartamento, com os seus pensamentos e sonhos, que eles não causassem desastres naturais e conflitos étnicos ao redor do mundo.
  • E ao mesmo tempo que tantas responsabilidades extraordinárias se instalavam na sua vida, o mundo ficava mais misterioso, cheio de lacunas inexplicadas, de saltos. Ele acordava de repente e já era quase cinco horas da tarde, ele de camisa sem cueca no sofá, com farelos inexplicáveis de biscoito depostos nos pelos das pernas. Ou ele se percebia de repente sentado no ônibus chegando no Setor Bancário Norte, um papel na mão escrito ‘Cristovão 17h’.
  • A crise financeira mundial de 2008 ele entende como inextricável à uma série de dores de cabeça pontiagudas e incisivas que ele teve durante duas semanas, e que ele não soube compreender da maneira adequada, integrar dentro de um sentido maior (não conseguindo, portanto, desdobrar-se em ações eficientes e agéis em pontos globais estratégicos que podiam muito bem ter evitado aquela confusão toda!).
  • Mas todos os dias havia também aspectos positivos a serem ressaltados, é claro. Iniciativas populares de coleta seletiva de lixo no México, escolas públicas excepcionais no Ceará capitaneadas por duas professoras fervorosamente dedicadas, um novo aeroporto no Japão projetado de maneira inteiramente amigável ao meio-ambiente, um povoado na Rússia todo empreendido em fazer a maior colcha de retalhos da história. O mundo se desdobrava em atualidades válidas e esforçadas, gentes tumultuando dentro dele com ímpetos renovados e incansáveis, querendo criar empregos e lhe mostrar suas danças típicas, suas broas de milho, suas indecorosamente bem-fornidas filhas solteiras. Ele podia senti-los formigando como membros fantasmas vários, múltiplos, tentáculos se agitando em extensões desprendidas, levantando torres com cordas e roldanas, mudando o curso de rios, escrevendo manuais sobre pós-estruturalismo, alfabetizando idosos.
  • Ele se multiplicava nessa quantidade irisada de gentes até se esgarçar, quase deixando de existir, sua própria voz no meio das outras deixando de ser especial, indistinta, substituída pelas tantas sobrepostas, por crianças mongóis brincando com cabras numa planície, homens turcos terminando um xingamento desnecessariamente comprido numa arquibancada de futebol, publicitárias francesas provando um pouco da salada uma da outra. Ele acordava desses longos, quase intermináveis transes, que pareciam às vezes durar semanas, dessas habitações distantemente figuradas e tão específicas, com sua casa escura e o jornal acumulado na porta, a garganta dolorosamente seca, sua própria voz irreconhecível. Ele tentava reunir suas forças, agrupar suas extensões esparramadas, instrumentalizar ali aquele braço pesado pra preparar alguma coisa pra comer na cozinha, abrindo gavetas a esmo, mas urgiam tantas outras coisas mais importantes, tantas responsabilidades, tantos outros lugares. Rebeldes ampliando o cerco a Tripoli e isolando Khadafi, ativista indiano fazendo jejum em protesto, o ator Gerard Depardieu fazendo xixi no meio de um avião. Tudo isso ao mesmo tempo, estourando em clímaces sucessivos ritmados por uma formidável trilha sonora, ganhando coesão, estrutura, se resolvendo num único padrão total, um sistema que a qualquer momento agora incluiria todos os outros sistemas. A data de validade do guaraná não fazia muito sentido e lá fora guinchavam crianças ou carros ou bichos.