Wednesday, January 02, 2013

Um post muito legal com vários pequenos assuntos que devem, no seu conjunto, entreter a toda família brasileira
-


Tem pelo menos uns cinco anos que o utube me recomenda na barrinha ali à direita um vídeo chamado "o melhor imitador no programa do jô". No quadradinho, dá pra ver a imagem de um bróder qualquer sentado do lado do Jô Soares. Nunca que o vídeo que eu estou vendo tem qualquer relação apreciável com a nuvem de tags imediatamente retraçável a partir desse título. E no entanto o Googole continua tendo certeza que o vídeo me cabe, continua insistindo. 


-


O Barba Ensopada de Sangue rendeu uma ou outra comparação com o Cormac Mccarthy pelos diálogos diretamente metidos no texto, mas ninguém apontou o tanto que o livro parece querer ser influenciado por Suttree

 O livro tem alguns defeitos chatos, principalmente quando tenta sair da crueza material e direta do personagem principal e traficar estofo temático-intelectual em personagens secundários (uma mulher conversando do nada sobre mitos com um completo estranho, discursos budistas esparramados e insistentes). Mas o estilo do Galera melhorou uns litros, e nos seus melhores momentos, aqui, consegue ser a melhor prosa realista  escrita no Brasil em algum tempo, acho*. 

prosopagnosia do protagonista, aliás, é o único caso de disfunção neurológica em ficção que eu conheço que não desanda pra alegoria facinha. 

Não sei o que achar do final. Tava gostando mais do livro antes dele querer se amarrar (ainda que ele não chegue a se amarrar muito firme).

É uma pena que ele tenha sido recebido com resenhas tão imbecis (e com aquela matéria retardada do Conti na Piauí, que não sabe se quer ser um release ou um perfil mais ou menos sério). Muita gente recebe só a reverberação, os ecos falsos e retardados em volta, e acham que estão julgando o troço-em-si.


*O que, infelizmente, não é nenhum feito assim de outro mundo, considerando que nenhum dos nossos bons escritores vivos é grande estilista. Impressionante como somos humilhados pelos portugueses nisso. Lobo Antunes, Saramago, mesmo um Gonçalo Tavares dá surra de pau mole estilística em qualquer Bernardo Carvalho, Serjão Sant'anna e etc. O Soares Silva é melhor estilista do que o Galera, por ex., mas não dá vontade de chamá-lo de realista (sei lá o que ele é). 


-






O novo disco do Caetano é bem legal. Principalmente a primeira música, onde ele diz que o João Gilberto transformou as tristes raças brasileiras no Anderson Silva e no Minotauro. E o comédia me tem setenta anos. 



-





NW é o melhor romance da Zadie Smith até hoje. Mas é, estranhamente, um livro menor que a soma de suas partes. Querendo pagar de romanção-que-tudo-narra, ele aponta para uma unidade formal e uma tapeçaria de interrelações entre seus personagens que nunca chega a se adensar de verdade. 



A melhor coisa do livro, quase todo mundo parece concordar, é o trecho que acompanha Natalie/Keisha, a menina esforçada que sai do seu bairro problemático pra virar adevogada. É um dos poucos exemplos de ficcionista se metendo com mundo-real (QUESTÕES DE RAÇA e coisas) com esperteza e distanciamento retórico adequados. U go, fia. 

Essa parte do livro toda acontece com pequenas seções encabeçadas por títulos semi-crípticos. Há graça com enciclopedismo e com organização de informação, a Zadie Smith sempre gostando de encaixar seu realismo em moldes espertos. Mas não há exatamente histeria aqui, o excesso maníaco por detalhes e caracterizações. A voz é mais elíptica, deixando detritos acumularem, mas é também muito humana e muito engraçada. 

 Cada um de seus elementos é vívido e interessante, mas o todo nunca chega a se desenhar como um todo. Acho muito bacana gente tentando manter vivo o samba do romanção-que-tudo-narra, mas talvez seria bacana vê-la brincando de outra coisa. Fica a dica (no caso dela ser muito doida e sair googlando a si mesma, passando tudo pelo tradutor)


-

A coisa mais bonita (dentre várias) deste vídeo aqui é a naturalidade maior triunfante da menina, que fala da sua nóia extremamente (extremamente) maluca pra Eliana como se fosse a coisa mais natural do mundo. E isso porque - dá pra sociologar aqui no fistaile rapidinho - hoje dá pra viver de corpo&alma dentro de qualquer desses nichos com muito mais facilidade do que há quinze anos atrás. 

Ser nerd antes envolvia um esforço constrangedor, um ímpeto e um envolvimento desmedido.  Exigia mandar cartinha, receber catálogo pelo correio, assinar Dragão, ir pra convenção internacional em São Paulo, inventar seu próprio Cosplay (ao invés de escolher dentre quinze tutoriais). E durante o tempo todo sentir a cabulosa desconexão entre a tua quebrada e os teus interesses.

 Não é só que nem a menina e nem o bróder pareçam envergonhados, mas que eles nem pareçam reconhecer a possível envergonhadice da situação. 

-


Nussbaum num ensaio PWNeiro sobre Butler:

Try teaching Foucault at a contemporary law school, as I have, and you will quickly find that subversion takes many forms, not all of them congenial to Butler and her allies. As a perceptive libertarian student said to me, Why can't I use these ideas to resist the tax structure, or the antidiscrimination laws, or perhaps even to join the militias? Others, less fond of liberty, might engage in the subversive performances of making fun of feminist remarks in class, or ripping down the posters of the lesbian and gay law students' association. These things happen. They are parodic and subversive. Why, then, aren't they daring and good?

Podia facilmente estar falando de um certo carequinha retardado nosso (que eu não pretendo nomear pra não trazer maus agoiros).