Sunday, November 25, 2012

SIMULATION OF THE MOST BEAUTIFUL GOAL OF PELÉ
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Barthes chama de de "efeito de realidade" o enquadramento realista como quem dissipa uma ilusão. Uma denúncia. Srry burguesia, Flaubert não representa a realidade, Barthes diz. Aquilo é só um efeito! Acidentes banais listados como sinais de uma suposta acidentalidade e banalidade, um índex procedural de verossimilhança. 

O RLY, fio? Claro que o efeito realista é uma ilusão. True poetry is the most feigning, o poeta é um fingidor, e tudo mais. A literatura ocidental, esse vasto megazord organizado em torno dos clássicos, sempre foi autoconsciente a respeito de representação. Pense na segunda parte do Quixote, Sterne, Donne, (Kierkegaard, plmdd).

É muito comum na teoria crítica recente esse gesto de denunciar a contingência histórica e a convencionalidade do realismo como quem esvazia um balão, acaba com a festa. O comédia que se acha vendo através da Matrix e joga a real pra gente. 

E muita gente os lê dessa forma até hoje. Entendem que perdemos uma inocência qualquer a respeito da literatura como algo mais do que ilusão. Agora a gente sabe que são tudo uns tropos enganchados e nada mais, os tentáculos de um Behemoth enorme e malvado. Todos nós agora carregamos essa terrível consciência, agora, essa fardorosa luz gnóstisca, então a representação quebrou

O engraçado é que falar desse jeito dá a entender que a fissura de representação tivesse sido um evento. Como se a representação de uma ausência (de uma falta) não fosse tão artificiosa quanto a representação de uma presença. A tendência de artes sofisticadas para formas irônicas, distorcidas, narradores não confiáveis, fragmentos, é exatamente tão convencional quanto a tendência de um realismo comportado e que-se-entende-como-direto (cujo avatar aqui hoje vai ser o Franzen!). A voz de um Beckett, com sua extraordinária afetação de um esvaziamento retórico, sua representação mediada tentando virar outra coisa, depende total do engajamento com algumas estilizações convencionais (assim como da deliberada frustração de outras). 

(não dá pra figurar uma árvore sem figurar o seu fundo, como diz o Valery, e uma voz que não fosse convencional não seria compreensível, não seria nem humana, exatamente, e essa agitação toda do Vazio e do Neutro acaba parecendo místico mandando via negativa no freestyle)

Qualquer gesto crítico é exatamente tão ilusório (se a galera quer usar esses termos) quanto qualquer ficção. Barthes, apesar dessas cagalhaladas que fez mais novo, aceitava isso lindamente na maior parte de sua carreira, e acolhia pra dentro da sua imaginação crítica. Barthes nos seus melhores momentos cresce pra fora da voz limitada que lhe entregam  (e que ele fez por merecer), vira um dos maiores críticos que tivemos sobre ficção.*

Se tudo é retórica, como muita gente diz e sugere (ecoando mais obviamente o Nietzsche, Truth is a mobile army of metaphors, metonyms, anthropomorfisms, etc), então é claro que não há autoconsciência mais profunda do que o Quixote, ou Hamlet. Gender Trouble está longe de ser mais sofisticado do que As You Like It. E nunca que Les Mots et Les Choses ganharia de Ficciones em qualquer critério de qualquer supertrunfo decente.  

Isso o De Man fazia questão de entender mais do que a maioria dos colegas. Tudo que o povo aponta agora e faz-congressos-sobre sempre esteve aqui, sempre fez parte da representação. Autoconsciência, mediação, a sensação de ter chegado tarde demais pra festa, do discurso estar quebrado, vazio, de não fazer parte de nada, de todas as vozes serem alheias, das manifestações atuais de engajamento com as formas culturais que você mais curte não serem mais autênticas, desprovidas de alguma essência qualquer que elas já tiveram e que agora está extinta ou ameaçada. Tudo isso sempre esteve conosco (como cotovelos, ou esse nariz fantasmático que a gente tem embaixo dos olhos e que dói se você tenta focar).

O povo achando que tinham descoberto desconstrução e os textos lá se desmontando e remontando sozinhos**, é o que eu quero dizer.

It is one of the peculiarities of the imagination that it is always at the end of an era. A representação sempre conteve sua negação, sempre se relacionou com a sua própria negação. Só a encenação que é diferente agora. A cena, os adereços, o tipo de caçada. 

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* Leia os cadernos tardios dele, as notas para aula. Falando de Proust, principalmente. Das melhores coisas que tem no How Fiction Works sobre detalhes em ficção o Wood pegou dali. É lindo o que ele fala sobre particularidade dos detalhes expressivos evocando a Haeccitas do Duns Scotus. 

**não sozinhos-sozinhos, claro, mas você entende o que eu quero dizer.

Thursday, November 08, 2012

The fox and its entourage, part of some map of life
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Adventure time é o melhor programa. E é muito menos infantil do que Safran Foer (por exemplo). E a coisa auto-consciente com sensibilidade RPG e awesomeness de maneira geral (VHS, videogames 8 bit, a maneira do Finn falar quase qualquer coisa) é mais deliberada e bem-mantida do que as sofisticações seriamente mantidas quase sempre pouco convincentes do Mad Men e Breaking Bad (ou esses Homeland da vida), por exemplo.

Mas porque tanta coisa infantil sofisticada nos EUA? Wes Anderson fez dois filmes infantis seguidos, Spike Johnzee adaptou Where the Wild things Are, Dave Eggers e suas extensões todas. A explicação mais imediata seria, talvez (de novo!), a pala de autenticidade, essa obsessão dispendiosa da qual neguinho não consegue se livrar. 

As várias culturas que habitam a tenebrosa nuvem de coisas-tidas-como-sendo-de-hipster costumam se digladiar com isso com toda a seriedade do mundo. Parece ser por causa dessa preocupação avassaladora é que um carinho infantilizado tão enorme é deposto em (porexemplo) Coisas 8 bit, cupcakes fantasticamente decorados, enquadramentos miniaturistas do Wes Anderson, suéteres bordados com dinossauros, edições sofisticadas do Mcsweeney's*). Tentando formar uma cultura a partir da fonte mais bonita na qual ela possa ser escrita.

Outra solução pra mesma ansiedade é ser irônico justamente pra conseguir anular as defesas e falar a sério, o que acaba dando numa galera sendo, imaginem só, moralista, defendendo VALORES. South Park, Louis CK (no standup, não no seriado lá quero-fazer-arte dele), o Jon Stewart e o Colbert.

Em livro literário e pretensioso, tipo Indecision, All the Sad Young Literary Men, The Ask, Leaving the Atocha Station**, esse problema tá enorme, também. Eles são tudo preenchidos de um mesmo tipo de autoconsciência tombada pra dentro que não se compreende apenas ironicamente insuficiente pra tudo, mas ainda parece achar o próprio relato (o próprio ato de ficcionalização do autor) ilegítimo (e saber que reclamar dessa ilegitimidade seria, também, chuif chuif, ilegtímo!).

De todos esses, o único que consegue realmente tornar essa tortuosidade introjetada toda em algo expressivo, convincente e minimamente próprio é o Ben Lerner. Esse Leaving the Atocha Station é o único romance americano realmente forte e digno de nota em um bom tempo.

(o livro do Teju Cole é quase tão bom quanto, mas o cheiro de Sebald que tem nele é forte demais)

No livro a gente acompanha um protagonista profundamente desinteressante (eu digo isso tanto no sentido dele ser muito desinteressante quando da sua desinteressância ser profunda) na sua estadia ociosa pela Espanha como poeta fundado por uma bolsa. Ele mal escreve o que se comprometeu a escrever e pesquisar, passando o tempo fumando haxixe sentado por aí e tendo relações bilingues e confusas com os locais. O constante através de sua ociosidade e falta de direção é a dificuldade avassaladora de sentir que tem uma experiência autêntica (com arte, com as mina, com política, etc). 

Lerner parece indicar que reconhece o tanto que a experiência do seu protagonista pode ser generalizada, o tanto que ela responde a um sentimento comum, exemplar da dificuldade-geralmente-observada-entre-as-galeras-de-suas-quebradas de sentir qualquer tipo de autenticidade.


Esse sentimento comum pode ser descrito como a modulação homem-branco-privilegiado-no-capitalismo-tardio do tropo de autenticidade, que aqui vira uma preocupação inautêntica de não ser autêntico, de não só não conseguir ter uma experiência que não seja impressa por um molde inválido, mas de cada uma de suas tentativas de lidar com essa inautenticidade serem, também, inautênticos (poesia, sexo, haxixe, ser-um-poeta-numa-cidade-européia). E Lerner consegue encontrar pra esse sentimento (que é principalmente tolo, como eles mesmos todos sabem) uma expressividade reservada e distante que quase sempre funciona, até quando ele faz o gesto deferente de negar sua originalidade:

"a genius I knew I didn't have; no duende here. I would think to myself, checking my body for sensation, no deep song."


Essa disposição tão particularmente americana quase sempre acaba sendo, como mostra esse texto muito bom aqui, um endereçamento bem direto a Theory e toda a sensibilidade cultural derivada dela. A sensibilidade que os treinou, todos, com suas sofisticadas liberal arts education a tratar cultura como uma instância de má fé, antes de tudo, e que traz consigo uma voz política desarticulada, tombada, que não sabe do que se vestir.

A solução expressiva que o Lerner consegue dar pra essa tortuosa e tombada ficcionalização de inautenticidade é quase tão expressiva quanto a do Wallace em Good Old Neon*** (de longe o melhor conto dele), e o filtro que ele parece ter usado de forma muito deliberada pra conseguir essa solução foi, olha que surpresa, o Ashbery (o maior poeta americano vivo, google se você não conhece).

É dele que vem aquela voz confusa e generosa, perplexa, que consegue se demorar na sua própria disjunção, ganhar força nela, e juntar detritos com carinho, como o Barthelme fazia. O engraçado de tomar Ashbery como voz-oracular é que ele é principalmente um grande poeta de belatedness, de se encontrar tudo em você mesmo feito já de um discurso alheio e não conseguir montar a sua própria voz, constituir sua própria presença não-mediada (aquela fonte-de-cabulosidade-lírica-própria que quase todo poeta ocidental tá sempre querendo constituir, como mostra o tio Bloom).

O título troncho e bobo, aliás, se explica como uma citação de um poema do Ashbery , uma gracinha que pela coincidência divertida até se justifica, mas que acaba soando apenas bobo até você descobrir.

A dependência que Lerner tem de Ashbery parece excessiva, mas ele consegue reverter isso numa auto-consciência de sua mediação (ou belatedness) que quase sempre funciona. Não deixa de ser curioso, no entanto, notar a dificuldade que a ficção americana tem de nos apresentar vozes e figuras novas e expressivas. Depois de décadas nos dando Pynchon, Delillo, Barthelme, Moore, Beattie, Carver, Davis, Mccarthy, Roth, Wallace (e outros), a nova geração parece mais do que pálida. 
Como já foi observado, tem até mais ensaístas interessantes do que ficcionistas (Batuman e JJS sendo os dois mais fortes, talvez).

 Os EUA serviram desse estranhíssimo auto-apontado mito-do-mundo para a segunda parte do século, o que nos deu, entre outras coisas, uma extraordinária sensibilidade ficcional paranóica para lidar com mídia, mediação e história. Mas esse grande momento talvez tenha se exaurido no grotesco hiperconsciente tornado-voz-moral do Wallace. Essa solução enorme e traiçoeira que claramente se coloca como a única resposta expressiva a Pynchon, Barthelme e Delillo, mas cujos imitadores todos se desmontam em sentimentalismo inconvincente.


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*tanto o Clowes quanto o Ware parecem ter uma disposição parecida, mas são artistas genuínos. A vontade do Ware de fazer um livro absurdamente lindo e diferenciado do produto-livro normal pode parecer fetichístico, o equivalente editorial a edições da Criterion. Mas nesse último exemplo, Building Stories, levando o troço ao quase absurdo ele consegue redimensionar o troço todo como um esforço genuíno de criar uma obra a partir do objeto material, e não só fazer um fetiche da sua distinção e sofisticação (que pode, como no caso do Mcsweeney's, claramente superar o discernimento do seu depto. editorial).

**The Art of Fielding, o outro romance-de-gente-da-N+1, tem uma resposta mais esquisitinha, nostálgica e quase mística rolando ali com o Skrimshander. Funciona mais ou menos. Tem também que o livro revolve em torno de Beisebol, e Beisebol é muito zoado. 

***Re: Wallace e Lerner, que não são autores parecidos, há ainda uma equivalência bonita, ainda que talvez mais acidental do que qualquer coisa. os dois usam os mesmos versos do Ashbery no meio da prosa deles, vindo do mais lindo poema do Ashbery, Self-Portrait in a Convex Mirror.

Like a wave breaking on a rockgiving up / its shape in a gesture which expresses that shape


não acho que isso queira dizer nada, exceto que os dois tem bom gosto (o Lerner cita diretamente, faz todo um gesto da coisa, já que o livro inteiro é um beijo de língua no Ashbery), o Wallace não cita, mete o troço no meio da prosa, mas reconhece nas páginas de acknowledgements que faz a citação.


**** Theory é aquele guarda-chuva americano de pensamento crítico-apresentando-como-escola-de-pensamento, um troço que foram montado a partir da pala de Frankfurt + a outra umbrellada que eles fizeram de French Theory (Derrida, Foucault e Edileuza, essas galere), + psicanálise e estudos culturais de identidade de vários gostos e delineações.