Monday, August 27, 2012

GESTA HUNGARORUM
 ou LISTA CURTA QUE COMPROVA DE FORMA DEFINITIVA A SUPERIORIDADE DA HUNGRIA DO SÉCULO XX  EM RELACAO A DIVERSAS OUTRAS CULTURAS NACIONAIS EUROPEIAS QUE NEGUINHO ACHA O MÁXIMO
-
Béla Bartók
Bela Tarr
Györgi Ligeti
László Krasznahorkai
Sándor Márai
Imre Kertész
Péter Esterhazy
Péter Nádas
Ferenc Puskás e a cabulosíssima seleção de 1954
Rachel Weisz
Györgi Lukács
Louis Székely








Friday, August 17, 2012

Idelber Avelar contra as malvadezas do valor literário


-
Então. Vou falar disso e disso aqui.

(Eu espero, pode ir lá ler)

O problema do Paulo Coelho falar o que falou sobre o Ulysses não está no fato do Paulo Coelho ser um autor bom ou ruim, erudito ou popular. Tem gente que se irritou ainda mais com o que ele disse por achar que um autor tido como sendo de autoajuda barata não estaria autorizado a falar de um grande autor erudito. Claro que esse sentimento é rançoso e tolo, mas o problema está na declaração em si, que foi presunçosa e imbecil.

Uma coisa é dizer quer não gosta ou não se interessa por Ulysses, outra é dizer que é 'só estilo', punhetagem, e que pode ser resumido a um tuíte. É um juízo tão tolo que mal merece atenção além de um senta lá, Cláudia.

 Mas  as engrenagens só rodam dessa forma, com polêmicas vazias, então a Folha publica la uma série de tuítes resumindo Ulysses, foca adestrada que ela é, e Idelber Avelar é acionado, como um pokemon, para reafirmar a contingência dos valores literários e defender Paulo Coelho do fantasma dos elitistas.



1.


É claro que o valor que uma determinada comunidade reputa a uma obra e a um artista depende de pactos valorativos, tecnologias de reprodução e de toda uma parafernália contingente. E claro que você pode sempre  pegar uma axiologia e mostrar o encanamento dela, as fissuras e a paisagem onde ela está montada.

Mas o fato de não haver uma axiologia objetiva e absoluta pairando sobre as nossas cabeças não significa uma equivalência absoluta entre todos nichos culturais expressivos, muito menos uma equivalência estética imperativa entre todas as obras do mundo.

É sempre possível, no mínimo, fazer distinções, distinções que operam dentro de sistemas interpretativos e 'pactos valorativos', claro, mas que não deixam de ter validade, de fazer algum tipo de sentido.

Tá aqui um juízo estético: King Lear é uma obra esteticamente superior à Toy Story 3. Esse meu juízo não me parece absurdo, parece intuitivamente inequívoco como uma tautologia. O fato dele ser um juízo contingente não quer dizer que ele desapareça, estoure como bolha (mas quer dizer sim que ele só vale pra certos sentidos, pra certas instâncias).

2.

O megazord da tradição literária ocidental contém uma série de disposições estéticas, posturas retóricas e formas expressivas (os tropos e topoi de sempre, redobrados sobre si mesmos, enrolados). Em última instancia, como qualquer ordem discursiva, são uma série de schemata para organizar a nossa experiência e codificar a realidade.

É possível derivar da literatura ocidental uma dispersa e tentativa auto-consciência crítica,  mas não uma unidade de valores e formas. Não há preceitos absolutos a respeito do que faz algo ser literatura ou não.

(há convenções formais e de gênero, que falam que Ulisses é um romance, e convenções interpretativas, que falam que Ulisses tem que ser lido assim e assim, convenções no caso introjetadas melhor do que ninguém pelo próprio sr.Joyce operando tudo como deus absconditus, aliás)

A distinção Alta cultura x Baixa Cultura não parece, mesmo, fazer tanto sentido. Mas a conclusão que devemos tirar disso não é "tudo se equivale", porque essa é, no mínimo, uma formulação imprecisa. Tradições expressivas específicas tem sempre uma série de particularidades (de estratégias de interpretação e convenções midiáticas, digamos) que devemos apreender antes de pensar que podemos julgá-las enquanto objetos intencionais e expressivos. Não parece a melhor estratégia interpretativa ouvir rap como se escutasse um quarteto de câmara, ou ler um romance como se fosse um relato objetivo que aconteceu com alguém.

(a outra alternativa é desconsiderar inteiramente o caráter intencional e retórico de qualquer obra de arte e julgar apenas a sua expressividade política, as possíveis figurações que podemos fazer de relações de poder a partir daquilo, e pra isso não precisamos de muita sutileza retórica e estética, só um arsenal de procedimentos de critical theory)

Por muito tempo a cultura popular se distinguiu da erudita por uma suposta falta de complexidade e falta de posicionamento dentro de uma linhagem expressiva auto-consciente. Mas hoje a gente tem boa noção de que qualquer cultura popular de nicho de vinte ou trinta anos de idade pode se vangloriar de ter um cânone, uma gramática expressiva complexa e uma série de matizações semióticas e retóricas próprias. Qualquer indie rock ou quadrinho alternativo pode se declarar highbrow e ganhar legitimação dos canais tradicionais (New Yorker) ou criar os seus próprios (Pitchfork).

Então, em certo sentido, o Sr. Avelar está certo. Nós mal temos hoje o vocabulário crítico para articular qual seria a distinção entre o Paulo Coelho e o James Joyce. Eu acredito que ela exista, e que seja uma distinção importante, mas pra oferecer uma articulação dela teríamos que sair do campo de valores rigidamente estabelecidos da teoria crítica.

(o fato de que não temos hoje o vocabulário para falar de uma coisa não quer dizer que isso não exista, embora a confusão seja compreensível)

 A ficção que se entende como 'literária' não é mais nem menos convencional do que os livros de fantasia, o livro policial ou a pornografia (esses gêneros podem até talvez ser mais formulaicos, mas mesmo isso é bastante discutível).

Há poucas imaginações mais controladas e comportadas (mais convencionais) do que a da literatura contemporânea, mesmo parecendo tão diversa e histérica.


Uma lista curta de preceitos não-ditos sobre literatura contemporanea em forma de letra de música ruim!
 parti pris subjetivista, 
da dispersão, do descontínuo, 
sem valoração moral ostensiva, 
sem breguice, sem puxar muito forte pra alegoria,
 pastiches e paranoia,
lirismo das aporias e da incomunicabilidade, 
da impessoalidade, ironia dramática,
mundo sem teleologia narrativa ou moral,
pastiches de paranoia.


 Justamente porque a literatura contemporânea é bastante convencional é que nós podemos julgar (com alguma precisão) quando uma obra pretende ser julgada de acordo com seus critérios ou não.

Paulo Coelho não tenta fazer literatura dentro dos moldes convencionais da literatura que se compreende literária e quer ser julgada por crítica de jornal, ao que parece (é sempre possível imaginar que ele seja um Pierre Menard ou um Duschamp executando um gesto lindo de retórica que só será inteligível daqui a cinquenta anos).

Se os seus livros tiverem valor (e é sempre possível que eles tenham algum tipo de valor), eles o terão de acordo com outra sensibilidade que não exatamente aquela disponível na literatura tida como séria pelos canais midiáticos convencionais (nessa semana representados pelos queridos Alcir Pécora, Camille Paglia e Teju Cole, obrigado pela presença, gente)

E é claro que existem critérios particulares à tradição literária ocidental, critérios que não necessariamente entram em questão dentro de outros nichos expressivos. De originalidade estilística, complexidade psicológica e moral, sofisticação retórica e estilística, posicionamento frente à tradição, auto-reflexividade, organicidades e unidades formais e intencionais.

Você pode acolher esses critérios ou não, figurá-los como quiser, mas não faz sentido fingir que eles não existem, que não temos na nossa fantasmagórica tradição discursiva procedimentos disponíveis para julgar se um texto é esteticamente bem-sucedido ou não.

 Nós temos muitos, muitos, muitos desses procedimentos.

3.

O que o Sr. Avelar parece dizer é que, faltando qualquer troço transcendental, a gente só poderia se apoiar na circularidade tautológica das tecnologias de valoração. Ou seja: Shakespeare é lido porque Shakespeare é lido, ele é tido como importante porque é tido como importante.

De fato essa circularidade existe, é claro que há um ciclo de realimentação que faz com que monumentos culturais se mantenham vigentes (exigidos em provas, partilhados como certificados de alfabetização dentro de uma comunidade).

Não fossem esses mecanismos circulares, dificilmente um livro como Ulysses continuaria editado e corrente dentro da nossa cultura. Ele é muito mais admirado como totem modernista e festejado de boca cheia do que propriamente lido, e todo mundo sabe disso.

(e é difícil de entender exatamente onde que se mantém a fantasmagórica e empedernida cultura elitista. qualquer caderno cultural hoje resenha filme do Tarantino e seriado da HBO como se fosse romance russo, boa parte dos jornais parece incapaz de mencionar a existência do Ulysses sem botar alguém pra rir de canto de boca e falar 'RS puta livro doido')

Mas a circularidade tautológica das 'tecnologias de reprodução' não esgota o assunto. Primeiro, porque não explica como esses corpos de texto se formaram (que é, aparentemente, matéria de muito interesse para o Sr. Avelar, curioso para as curiosidades políticas que isso deve revelar, imagino).

E, segundo, porque não traz uma redução causal absoluta do porque que determinados livros continuam expressivos ao longo dos séculos e outros não (não explica direito nem porque que determinadas obras de determinados autores se afirmam perante outras).

A leitura da tradição é uma vasta prosopopeia que fazemos dos mortos (como diz o De Man). Nós podemos eleger os filtros e vozes que vamos repetir, e os papeis que daremos a eles. Mas a partir do momento que nós repetimos essas vozes nós estamos sempre as colocando em algum fundo, dando a elas algum tipo de valor. Não há grau zero, espaço-em-branco.


4.

Se realmente fôssemos operar sem nenhuma axiologia, a crítica deixaria de existir.

Isso fica evidente no próprio exercício crítico ali do Idelber Avelar defendendo o Paulo Coelho dentro da Folha de São Paulo.

Ele não nega ou desconstitui a estrutura do valor literário convencional ao dizer que Paulo Coelho é bom. Ele só inclui Paulo Coelho dentro da lógica estabelecida, onde um caderno literário respeitado (risos forçados da plateia) atesta a qualidade de um autor.

O engraçado aqui é que Idelber Avelar não se acha só mais um jornalista distraído da Folha. Ele é um acadêmico consciente das ramificações ostensivas da atividade crítica das últimas décadas, e acha que está operando atividade crítica interessante ali ao chocar uma parte da burguesia e entronizar o valor tão 'polêmico' do Paulo Coelho.

Seria de fato muito interessante ver o sr. Avelar desconstituir os nossos preceitos tradicionais de valoração literária e apresentar outros, esguios, próprios, orgulhosos e interessantes, nos quais os livros de Paulo Coelho figuram em extraordinária expressividade.

(Eu não conheço bem os livros de Paulo Coelho, e portanto não ofereço nenhum juízo a respeito da sua qualidade, aliás, óbvio)

 Eu seria todo ouvidos a um homem academicamente sério e, ao que parece, mais culto* que a média, tentando defender o valor estético do Paulo Coelho.Mas ele não faz isso. Ele mal chega perto de oferecer alguma formulação interessante a respeito de qual seria, então, o valor do livro. O mais próximo que ele chega de fazer crítica é sugerir que o fato do Paulo Coelho se utilizar da parábola poderia ser uma das explicações para o seu sucesso tão grande e digno de nota (e o Avelar acha que o sucesso do Paulo Coelho o faz digno de atenção crítica, aparentemente, no que eu parcialmente concordo).

É uma explicação que poderia se mostrar interessante, se estendida, mas que dificilmente basta para mostrar porque que o livro do Paulo Coelho seria bom. Basta que ele esteja usando uma forma narrativa pouco usual pra que um livro seja interessante? Fazer uma parábola nos dias de hoje não acaba passando pelo menos perto do problema de parecer kitsch, afetado, um Moisés de gesso? Qual retorcimento retorico é utilziado pelo Sr. Coelho pra reapresentar a parábola para a nossa sensibilidade narrativa?

O Sr. Avelar não endereça nada disso, apenas nos afirma, no topo de sua autoridade enquanto vozinha no jornal e professor dotô respeitado, que o livro é: Bom.

No fundo, o juízo dele é só esse, mesmo. O juízo do intelectual respeitado de que aquele livro é bom. Esvaziado de intenção, como um carimbo.

Parece ser incluído no juízo dele o fato de que o Paulo Coelho defende o Livro de Humanas e os direitos autorais. Eu juro que não digo isso como quem acusa o autor de motivações escusas, apenas digo que isso se deriva muito naturalmente da retórica do seu post. Eu também acho muito bacana que o Sr. Coelho tenha essa postura diante dos direitos autorais. Isso de fato torna ele uma figura mais afável e correta, mas não o torna um escritor melhor.

(a não ser que o Sr. Avelar quiser nos apresentar o seu .pdf onde ele explica como que as intenções políticas corretamente alocadas de um escritor fazem dele uma grande voz literária)

Ele acha que está sambando na cara da sociedade, oferecendo seu dedo em riste de rapper ameaçador.
Mas ele está apenas repetindo o clichê crítico contestador que se espera, substituindo uma axiologia por outra, e chacoalhando cartas de Magic como se fizesse crítica.

*para critérios da Folha, e não do, digamos, departamento de filologia da universidade de Marburgo, claro.



Codinha


O movimento que se entende como 'crítico' hoje em dia é quase que sempre o da hermenêutica da suspeição. Retoricamente é tudo muito parecido, a ponto de ser modorrento. A genealogia, a desconstrução, o gesto que aponta que uma estrutura naturalizada é, na verdade, afinal de contas, gasp!, uma hierarquia contingente.

O engraçado é que a atividade crítica (leia-se, acadêmica e para-acadêmica) acontece dentro de seus nichos fechadinhos de reverberação, suas galerinhas de iluminados em canais midiáticos garantidos e seguros, sistemas de inscrição fossilizados, trocando entre si gramáticas e vocabulários de emancipação como foguinhos prometeicos.

 As interfaces de larga escala com a sociedade que eles pretendem emancipar praticamente não existem, o que significa que tudo aquilo que a atividade crítica se presta a desmontar e desconstruir continua saudável e pimpão aí, correndo pelo Goyaz, indefinidamente, o Snark nunca encontrado.

Jardins imaginários com sapos de verdade, cabeças de hidras como falos logocêntricos decepados todo dia, o dia inteiro, com espada Vorpal +12 contra hipostasias burguesas. Pra até onde durar o hardware.











Monday, August 13, 2012


-
Em algum momento no futuro algum antropológo vai propor a ressignificação de 'orkutização' pra querer dizer uma manipulação irreverente de  "uma estrutura rígida de interface de interrelação social", falando de como o espírito brasileiro da gambiarra e do arrebite e da bricolagem e da favela e do parangolé e do drible sempre plasma sua própria dinâmica de discursividade e vivência no mundo, coisas assim.

Ou algum artigo na ilustríssima (de algum tiozão desses da Serrote que escrevem parágrafos mais longos que a muralha da china sobre o lugar do Chico Buarque na canção brasileira) daqui a uns anos falando sobre a irreverente, ácida e proteiforme expressividade internética brasileira. As coletãneas, as entrevistas com Zeca Camargo. O povo é lento, tá tentando entender o mundo a manivela, mas eventualmente as reverberações chegam neles. É uma defasagem quase mecânica, de quantidade de informação processada, de quantas internetes. Uma reportagem falando a sério que Com filmes dublados na TV a cabo e no cinema. os espectadores não tem mais opção de assistir o filme no original!

Vai ser engraçado (e constrangedor) vendo esses instrumentos todos tentando dar conta da internet de forma tão tardia, de tudo isso que a gente já vive há alguns anos e já trata por casa. Os senadores jogando Tibia.

Tem mais complexidade e autoconsciência retórica num post do Palavras de Magno, numa irrupção d'o pintinho ou do SOSJORGINHO do que em todo o 'Paraíso é bem bacana', um dos melhores romances brasileiros da última década. Claro que eu digo isso inteiramente a sério. Não para menosprezar o livro do Sant'anna, e sim pra valorizar esses outros negócios.

Em algum momento no futuro toda e qualquer cultura expressiva de nicho vai ser nivelada como igualmente valorosa. Não existindo uma cultura com c maiúsculo dividindo valores e propagando hipostasias com as quais todo mundo concorda, toda empreitada estética tem que ser equivalente. Levar a sério a suposta derrocada de distinção highbrow x lowbrow (que nunca aconteceu, não exatamente, permanecendo ainda com outras calças tao bobas quanto). O romance, o tuírer faceiro, a tirinha, o meme formulaico, a ópera, o filme do Bátima, o indie rock, o sertanejo universitário. Tudo é obra, tudo ganha bolsa da Funarte. As duas mídias expressivas morais de larga escala remanescentes (o rap e a esquerda) vão ganhar adaptações cinematográficas com o Will Smith focadas principalmente no mercado internacional. O conservadorismo se concentra no seu potencial indie rock de contestação rebelde e autêntica ao status quo. Pondé faz turnê guiada da Dinamarca explicando a ligação de Kierkegaard com o mensalão. Assinatura pra New Left Review no iPad.Toda industria cultural vira cafezinho, edição especial vendida com paypal, crowdfunding de artista independente. Consumidores sofisticados, todo mundo, de Henry Louis Gates Jr. e Kanye West.

A imaginação pulverizada, fórum tailandês de história em quadrinho de super-herói, guilda pernambucana de World of Warcraft, terceiro encontro latinoamericano de crítica pós-colonial, filme brasileiro estrelado pelo Nicolas Cage, .ALAC do Nelson Cavaquinho.





Wednesday, August 08, 2012

taí um conto que escrevi tem já anos, boto fé, e que estava lá um .doc parado num canto ganhando proverbial poeira, sem fazer nada.

Marketing pessoal transforma 
-

O táxi estava frio dum ar condicionado excessivo, tudo detido e fixo contra a noite quente lá fora, laranja e móvel.

    Com o rádio ligado em uma discussão desanimada e surpreendentemente técnica sobre economia, Wallyson sucedia em dormitar por pequenos períodos, confusamente, tentando sempre se recompor para que o taxista não percebesse que ele dormia, tentando disfarçar todos seus pequenos gestos denunciatórios - de olhos pescando e cabeça pendendo pra frente - com subseqüentes dedos estalados e comentários vagos sobre o trânsito, um pouco para que o motorista não se aproveitasse dele, tomando caminhos absurdos, um pouco porque havia algum orgulho vago a ser mantido em continuar desperto, consciente, um homem partilhando com outro homem aquela função de transporte, uma transação prática e respeitosa, ao contrário de um engravatado gordinho de meia-idade sendo levado, dormindo, de volta pro seu hotel três estrelas de uma rede estrangeira (Comfort International). O composto do marketing do produto pessoa.   

    Um homem de voz presunçosa falava sobre o aumento da confiança dos investidores internacionais no Brasil. O relógio do painel do carro parecia dizer que estávamos no ano 2100, o que dificilmente era verdade.

Ele pagou com a sua última nota, de cinqüenta, e percebeu que teria de tirar dinheiro amanhã antes de ir para o aeroporto, e que não tinha  ainda nem idéia de como acharia um caixa automático ali perto. Ele não conhecia nada daquela cidade. Empreendeu uma reunião de si mesmo que demorou tempo demais, apalpando todos os vários bolsos mais de uma vez e repetindo a constatação – que ainda parecia improvável - de que não carregava mesmo nenhuma pasta consigo, nenhuma mala, nada, uma insegurança confusa que certamente havia tornado inútil seus esforços até então de transparecer ao motorista uma imagem dominada de si mesmo, de alguém perfeitamente consciente de todas as suas circunstâncias práticas. O taxista, jovem e forte e insciente de tudo, de cabelo pintado de amarelo e endurecido de gel, mal olhou pra ele, devolveu o troco em exato, em gestos econômicos, e desejou um boa noite sobre o qual pouquíssimo poderia ser interpretado.

    O hotel era bonito, o que ele já sabia, tinha tudo correto, decoração sóbria e eficiente, funcionários claramente espertos, que entendiam suas funções sem se derramarem de uma maneira inapropriada, o que permitia a Júlio satisfazer a sua necessidade de funções bem oleadas, de se ver participando de uma máquina bem-sucedida e boa. Não era apenas a vontade de conforto saciada e bem tratada, e nem exatamente o gosto de se sentir metido em algo superior, de uma sofisticação financeiramente comprovada, exclusiva, privilegiada, era uma satisfação estética mais indireta, de apreciar que todos ali estavam cumprindo adequadamente uma função pré-determinada, realizando uma forma benéfica no mundo. Os dirigentes corporativos do conglomerado responsável pelo hotel acertando nas suas determinações e projeções, os executivos acertando na sua localização e adequação ao mercado, os funcionários em trabalharem de maneira satisfatória e, finalmente, ele em usar daqueles serviços da melhor maneira. Aquele era um todo agradável de partes funcionando e concordando entre si. 

Vagas intuições se apresentavam na sua imaginação, figuras de uma economia e um país e uma sociedade saudáveis, de todos apertando a mão uns dos outros, aproveitando com lindo respeito todas suas devidas e respectivas possibilidades.

    Tinha um time de futebol se hospedando lá também, ele percebeu. Uns vários, uns vinte e cinco homens uniformizados, na maioria meninos, ouvindo música em fones de ouvido trambolhosos e coloridos, quietamente educados, mexendo tudo no celular. Ele não lembrava direito em que divisão do campeonato brasileiro andava o Ipatinga, então não podia tirar daquele fato nenhuma conclusão satisfatória sobre a qualidade do hotel e de sua posição relativa aos demais hotéis da cidade.

    Ele recupera a chave do quarto no balcão de uma menina linda e gentil  que em nenhum momento olha nos seus olhos. No elevador, subindo pro décimo primeiro andar, ele acha que dá pra dizer que ele é apenas o terceiro homem mais gordo, a partir de uma estimativa rudimentar apanhada discretamente no espelho. Não está tão mal assim.

    Assim que abriu a porta do quarto ficou feliz de reencontrar ali guardada sua pequena mala preta, de rodinha (bagagem de mão, que não tinha que despachar, que ele não tinha que esperar naquelas esteiras lentas que tornavam toda a experiência do aeroporto mais inadequada e entravada do que deveria), deposta em cima da cama, aberta horas atrás para o resgate apenas do desodorante e de uma biografia de Winston Churchill, que ele havia começado, distraídamente, no avião, antes de se ver cativado por um vídeo sobre uma vinícola do Rio Grande do Sul, com gente simpática e trabalhadora expondo os seus sonhos e objetivos profissionais. O desenvolvimento do produto pessoal interno. Transformando sonhos em metas, metas em realidade. Assim que ele colocou o seu cartão no buraquinho da entrada, as luzes e o ar-condicionado e o rádio ligaram, um simulacro de companhia que o encheu de esperança, mais uma vez agradado por ver suas possíveis necessidades já atendidas, já encontradas por delineações técnicas competentes (pelas quais ele havia pago apropriadamente, ainda, é bem certo, o que tornava o quadro e o seu manejo bem-sucedido de expectativas, acima de tudo, justo).

    Ele era um conhecedor profundo de quartos de hotel, de sua aura e de seu peso. Não era um homem bobo, um moleque inexperiente, não estava prestes a sentar na cama e olhar para a janela escura e sentir os vazios que estavam prontos a serem sentidos, as faltas e as quebras que, assim como o rádio e o ar-condicionado, dormiam ali naquele quarto e esperavam ser reanimados por algum ocupante solitário desavisado. Ele sabia, inclusive, que franceses chamavam aquilo de ‘ennui’.  Ele sabia que precisava, acima de tudo, se preencher, manter-se ocupado, para que não espreitassem (de maneira acima de tudo incorreta) os vários fantasmas. Não era tão diferente dos procedimentos encaminhados em outras situações. Como evitar os bloqueios mentais em reuniões? Havia diretrizes e exercícios a serem seguidos em todas essas coisas, pontos objetivos que ele conseguia visualizar quase como se configurassem slides elegantemente sucessivos do Powerpoint.


Ligou, antes de tudo, a televisão, primeiro na Globonews, depois, pensando melhor, na CNN, para exercitar o inglês. O desenvolvimento. Tirou toda sua roupa e a depositou com cuidado na mala, já, poupando o trabalho de amanhã cedo, e resgatou um pequeno short verde-escuro, velhíssimo, de associações positivas de conforto. Foi tomar banho, munido de uma pequena e prática nécessaire, confiante na sua capacidade de desempenhar tudo que a noite lhe requisitava. Ainda se guardava uma ligeira, ainda não inteiramente iluminada, possibilidade de pornografia paga no sistema de TV a cabo do hotel. Ele ainda não entretinha essa possibilidade diretamente, para não destruí-la com antecipação, não apressá-la, mas ela se recostava como um pano de fundo gostosinho por trás de tudo que ele estava fazendo.

    Levou uns cinco minutos até que ele dominasse o funcionamento das torneiras de quente/frio, as modulações que ele devia fazer pra atingir o seu jato ideal de água morna e extremamente forte, que chega a doer no couro cabeludo, que o deixa com a impressão de que o seu banho é uma atividade intensa que ele está desempenhando sobre pressão. O desenvolvimento.

    Apesar da felpudice extrema da toalha, ele mal se enxuga, anda o quarto ainda bem molhado, pingando um rastro ostensivo, ensaiando mínimos e leves passos de boxe, com as mãos aprestadas em defesa de socos invisíveis, o pescoço se deslocando como o de uma tartaruga. Evita olhar no espelho deliberadamente, evita se postar diante dele, porque sabe que a visão não será exatamente lisonjeira, e sabe que se deve evitar feedbacks negativos que ele não possa utilizar no momento, que esse tipo de ‘semente negativa’ deve ser filtrada.

    A vida deve ser um contínuo de sucesso, um movimento único permanente e dominado.

    Sabe que inclusive ele não deveria entreter nem mentalmente a possível imagem do espelho, como faz agora. A pança se derramando além da cintura, se pronunciando adiante como se fosse cair, ou como se fosse derrubá-lo. Haveria um momento possível decisivo onde a sua aparência pessoal desacertada e troncha se reverteria no mundo, a sua aura e suas circunstâncias seriam convertidas em uma aura de poder e de domínio de si. A sua pança uma pança de autoindulgência calculada, não de fracasso. O seu sorriso solto de descontração, não de insegurança nervosa. O pelo embranquecendo em tantos lugares, os seus olhos pequenos sempre parecendo assustados. O pintinho ali curvando como.

    Na televisão eles falam de um terremoto. Earthquake. Ele não sabe se é um novo ou se é aquele antigo. No Chile. Ele já esteve lá. Agora com aquelas imagens de terra cavada e derruída ainda se mexendo, gente chorando, carros cobertos de poeira, estruturas destroçadas, com suas ossaturas aparentes. Agora parecia bobo procurar pelos canais adultos. Parecia o mínimo que faria uma pessoa decente ficar ali em pé com as mãos depostas na cintura observando por algum tempo – cinco minutos? Mais? – a explicação apenas parcialmente compreendida da gravidade dos tremores de terra, a quantidade de mortos, o comprometimento de infraestrutura básica, as ramificações várias, o treinamento e a experiência do povo chileno, as diferenças culturais, as heranças de colonizações e ditaduras diferentes.

     O seu reflexo disponível fraco ali na janela, a cidade escura e tão acesa diante dele, apenas o seu contorno sugerido, meio de perfil, um contorno que ele inicialmente interpreta como sendo de uma outra pessoa, de um estranho. Como se colocar em evidência em reuniões? Como se.

    A palestra de hoje não valeu a viagem, mas não era ele quem pagava pela maior parte, então a sua preocupação não devia se orientar na direção de palavras como desperdício, perda de tempo. Essas palavras tem a sua energia, e só podem ser evocadas em necessidade, ele sabe muito bem. Foi muito correta, a palestra, mas cheio de coisas que ele já sabia, coisas que você consegue depreender já dos títulos dos livros, de entrevistas, de programas no rádio. As pessoas realmente precisam ouvir que projetar uma imagem positiva cria resultados positivos, que uma ambiência de sucesso gera sucesso? Ele já havia compreendido isso muito antes de lhe explicarem de maneira tão didática e repetitiva. Mas fez um networking básico, distribuiu uns cartões, conheceu um rapaz novinho do Maranhão que pareceu muito esperto e energético e falou sobre muita coisa interessante, de oportunidades envolvendo a Copa do Mundo, principalmente. 




No táxi do hotel até o centro de convenções de Goiânia (moderno, ainda que um pouco desorganizado, a fila dos crachás atendida só por aquela menina que errava o nome de todo mundo, e as pessoas ainda insistindo em falar nomes difíceis sem soletrar, o que resultava num pequeno drama de confusão e timidez da menina em perguntar de novo, do crachá impresso com o nome errado e reclamações e um atraso que poderia ter sido perfeitamente evitado se metade das pessoas prestassem alguma atenção no mundo depositado ali bem na cara delas) ele havia conversado longamente com o motorista. Havia falado sobre o negócio que as suas duas filhas tavam criando, a própria jornada profissional delas se estabelecendo sem a sua ajuda, da confecção de bolos decorativos para eventos importantes. Arte com açúcar, chamava. De como já se apresentava a possibilidade de expandir o negócio para uma porção significativa do centro-oeste (aonde o mercado era menor, mas a competição era quase nula). O motorista ficou muito impressionado com a garra, determinação e competência das duas.

    Nada daquilo era verdade. Era parte de um exercício que ele havia inventado para si mesmo uns meses atrás, acontecendo quase exclusivamente com taxistas em viagens a trabalho. De remontar histórias positivas e interessantes da sua vida, histórias possíveis, ainda que não exatamente existentes. A princípio, valia como um exercício retórico e imaginativo de improvisação, mas ele percebeu que parte dele quase começava a acreditar na história, depois de uns dez, quinze minutos. A coerência interna realista que ele rigorosamente tentava obedecer lhe trazia um prazer enorme, com a adição de detalhes particularmente realizados, bonitos e críveis, que faziam todo sentido.

    Com tudo isso aquela linhazinha narrativa se cristalizava na sua cabeça como algo tão possível e tão adequado que ele começava a sentir que estava, de fato, recuperando aquilo da memória e relatando, e não inventando, tirando tudo de sei lá onde, de que buraco dentro da cabeça.

    Uma continuidade que ele criava e sustentava, um pequeno mundo animado e levantando, e que morria logo em seguida. Era muito estranho.

    Agora ele encarava a janela e a cidade escura se espraiando diante dele, uma cidade que ele não conhecia. Mesmo entendendo que era necessário e saudável ter como horizonte de expectativas as maiores ambições possíveis, desenhadas nas maiores escalas e proporções, chegavam momentos onde ele precisava enunciar para si mesmo que não, não aconteceria. Por uma série de razões, boa parte delas de fato não atribuíveis à nenhuma responsabilidade negativa sua, nenhuma culpa verificável. Não aconteceria. Ele não vai se projetar para nada tão além disso aqui, dessa vida que ele já tem, já estabelecida em alguns limites diariamente sentidos, contra os quais ele se chocava e se esbatia regularmente, como o movimento de uma perna convalescente dentro de um gesso. O gerente regional de uma empresa de colchões. O tamanho circunscrito de uma existência, seu lugar delimitado dentro de certas esferas e caminhos já sulcados. O seu esforço em montar imagens de sucesso ele sabia que não era apenas estratégico, ele sabia que partilhava em muito de uma ilusão infantil, do prazer pequeno e sofrido em sonhar com aquelas imagens formidáveis todas em sua grotesca impossibilidade. E qual era o problema nisso?

    O mero fato da nossa vida ser esta aqui, e não qualquer outra.

    Ele havia deixado o hotel fazer com ele aquilo de tão previsível, de tão fácil. Um homem de meia-idade sozinho num hotel, a trabalho. Um hotel apenas razoável, um quarto apenas satisfatório (por conseqüência, um homem apenas).

    Ainda a cidade espraiada e escura, baixa de poucos prédios, pouco desenvolvida, pouco organizada. As lojas, as ruas, o povo, tudo feio. Não só um hotel mais ou menos, mas uma capital de menor importância, e isso num país de terceiro mundo. As sucessivas maneiras em que a sua vida não era a ideal, não era uma otimização de nada. Aqueles vultos derrubados não compõe nem uma sexta, nem uma décima potência dentro do país, inexistente em relação ao resto do mundo. E ele um elemento dessa desimportância, uma parte representativa dessa pequenez.

    Existem meios de montar sua vida, encaixá-la de procedimentos e diretrizes. Isso não é propriamente ingênuo, se você entende os limites da empreitada, e ele acha que entende. Mas não é aceitável permitir essas brechas tolas, essas quebras e escorregões. Como se ele se deixasse guiar lentamente e previsivelmente dentro de um poço perigoso, voluntariamente entrando num mar revoltoso do qual você não saberá sair depois. E ele não sabe como sair disso?

    A idéia de bater uma punheta e dormir com o ar-condicionado no máximo não mais se apresenta como uma realização ótima da noite. Seriam negociações pobres, soluços de uma continuidade destroçada.O dia como uma promessa. Infinitamente estendida, infinitamente rompida.

    Ele se deita devagar, sua posição torta, sua cabeça procurando alguma acomodação aceitável no travesseiro. Na televisão ainda urgem os desabrigados, os assustados, as imagens silenciosas narradas por uma voz eloqüente e calma. Voltando, amanhã, as coisas se tornariam mais fáceis, ele pensa. As vinícolas precisavam de sua atenção, precisavam de uma dedicação administrativa tremenda, de que ele se apresentasse e tomasse as responsabilidades, aparentasse saber o que tá fazendo, transmitisse confiança para os subalternos e para os investidores. Nada disso permite brechas desse tipo, permite esses atoleiamentos, essas viadagens. Ele teria que pressionar os geógrafos e meterologistas pelas projeções que eles haviam encomendado, e adequar isso aos relatórios dos agrônomos, o planejamento para a próxima safra. Ele poderia passear nos vinhedos, a luz vazada pelas folhas, ondulando no chão, as sombras complexas desenhadas, terra úmida com seu cheiro próprio matizado. A sensação de fertilidade e abundância, de elementos utilizados de acordo com o máximo de seus potenciais. Uma enteléquia plena. O desenvolvimento.