Sunday, July 22, 2012

A antologia dos 20 melhores escritores brasileiros !
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Se você não é uma das quinhentas pessoas que acompanham o canal #literatura do IRC, é bom eu te avisar que houve aí recentemente uma "antologia bravo! dos vinte melhores escritores brasileiros da literatura contemporânea"

Eu não li a a antologia, e não vou falar do seu conteúdo aqui. Vou falar só dos muitos pipocos em volta. 

(estou na internet e tenho opiniões, fmz)

Primeiro: É claro que uma antologia terá autores ruins. Não faz nem muito sentido supor que existam vinte bons escritores no Brasil. Não sei nem se existem vinte bons escritores com menos de 40 em qualquer país (mesmo no Behemoth que é a literatura dos EUA, a New Yorker fez recentemente uma lista que continha ~~muitos~~ autores desinteressantes e limitados, por exemplo).

Pra que pode servir um troço desses? Justamente pra tornar, por meio segundo, essa coisa tão vasta, dispersa e vaporosa que é A Literatura Brasileira Contemporânea! num objeto que as pessoas podem transformar em manchetes, fotos, matérias da Ilustrada (que obviamente, editada por peixes-boi como é, seria incapaz de dar destaque para literatura sem que ela estivesse revestida de alguma coisa fotografável ou resumível em quadro didático imbecil).

O propósito de uma antologia é mais ou menos esse, e não é absurdo ou inválido. É um propósito que pode conter, ao mesmo tempo, uma disposição ostensivamente marketeira e um ímpeto de de fato reunir a atenção coletiva de uma cultura (gasp!) num único objeto passível de discussão e análise crítica.

E como que isso acontece?

É mais ou menos assim: A antologia se apresenta e diz Eu sou a literatura brasileira contemporânea! (quando ela quer dizer, na verdade, eu sou a ficção brasileira contemporânea escrita dentro das convenções da ficção literária estabelecidos mais ou menos a partir da modernidade! e produzida dentro do eixo imaginário rio-sp-escritores-gaúchos!, mas tudo bem, deixa ela. ninguém com meio cérebro leva esses títulos a sério.)

Então a dispersa e distraída nuvem de atenções que compõem, coletivamente, a auto-compreendida literatura brasileira (!) toda se reúne e deglute aquela antologia, comentando todos seus formidáveis detalhes e autossemelhanças.

Adorei aquele! Nossa, odiei aquele! Que doidinho aquele! Veja como hoje a literatura. É possível notar como a literatura brasilei. Etc. Diversidade, modernidade. Referencias estrangeiras!

Infelizmente, não resulta dessa movimentação toda uma auto-consciência muito elaborada a respeito desse vaporzinho que é a literatura brasileira contemporânea. Mas há a disinta e agradável impressão generalizada de que cultura está sendo produzida, que existe uma tradição literária e discursiva acontecendo.

E tem isso mesmo? Não exatamente. É só ver que quase todas as 'resenhas' da antologia não falaram nada muito específico, não criticaram nenhum dos escritores horríveis ali dentro, foram pouco mais do que clippings jornalísticos desatentos, encomiosos e imbecis.** Claro que é quase só isso que esses veículos estão acostumados a fazer, mas no caso de uma antologia teria sido bacana se eles tivessem ao menos tentado a sério oferecer algo que pudéssemos, com boa vontade, chamar de crítica literária.

E é também óbvio, bem óbvio, a ponto de quase não merecer menção, que a vontade dessa pequena bolha discursiva carioca-paulista-gaúcha de aproximadamente duzentas pessoas de se compreender como fazendo a literatura brasileira é tola e risível (e eu não falo aqui dos escritores, falo das engrenagens todas girando em falso em torno do evento antologia, dos editores, jurados e jornalistas se congratulando como munchkins).

Mas acho que o mais importante de uma coletãnea é que nela não faltem os poucos autores que temos que de fato merecem a atenção coletiva desses dispersos, poucos e ruins instrumentos culturais disponíveis (que são, basicamente: Folha, Globo, Estadão, Rascunho, IMS, Serrote, Piauí, editoras e editores e mais uma dúzia de blogs e contas no twitter).

E todos que realmente se destacaram nos últimos anos de fato estão aqui. Galera, Saveedra, Laub e Lísias.*

Depois de se irritar e resmungar e esbravejar diante desse objeto desajeitado, então, o povo bem que podia se concentrar no seu fato mais importante: nós temos quatro bons escritores jovens( e um ou outro que denunciam alguma inteligência e talento). Isso é bom. Não sei se daria pra dizer isso dez, quinze anos atrás.

Seria ótimo se tivessem críticos e revistas decentes em torno desses escritores, mas isso é (por ora) até implausível. Pelo menos tem a internet.

*(mas a Tatiana Salem Levy também está ! E o Cueca! Isso é um constrangimento enorme para todos envolvidos com a antologia (e, porque não?, para o Brasil como um todo), claro, mas é só recortar, queimar e enterrar em ambiente seco as páginas deles que acho que tranqs)

**a boa exceção que eu vi até agora foi do Felipe Charbel, no Globo. ~~..pc2.0 RePreSeNT ~~

Saturday, July 21, 2012

2º prêmio ibest da literatura brasileira
-foram muitos votos muita deliberação muita democracia para chegar nessas decisões agradeço primeiro a todos que submeteram seus trabalhos e segundo a todos que votaram tanto por email quanto nas caixas distribuídas por diversas mídias sociais. esse prêmio é de todos vocês.


prêmio 'pedro menandro' de pura zoeirinha: bernardo brayner

prêmio 'negra li' de melhor web intervenção: web intervenções

prêmio 'mr bison' de excelência imagético-discursiva: SOSJORGINHO

prêmio 'eduardo suplicy' de freestyle socio-político: o pintinho

prêmio 'eri johnson' de heteronomia crítica: kelvin klein


prêmio 'manuel parangolete' de excelência em prosa em português: palavras de magno 

prêmio 'kanye west' de fanfarronice no twitter: eduardo viveiros de castro 
 
prêmio "frautaruda@hotmail.com" de elegâncie e excelência em auto-efaçamento: fourme (LINK NÃO DISPONÍVEL)

A todos que submeteram seus trabalhos e ficaram de fora vale refletir: De que forma a minha conduta e minha presença podem ser reformulados para contribuir ainda mais com o engrandecimento da internet brasileira?

(nota dos jurados:
"o prêmio 'ale' de melhor agremiação socio-discursiva excepcionalmente não será agraciado nessa edição pelo sentimento generalizado de que não existe, hoje, ambiente democrático e comunitário conducente à agremiações socio-discursivas dentro da internet brasileira. cabe aqui um momento de reflexão")




Saturday, July 14, 2012

New god flow, fuck everything else

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Criar seu próprio estilo não significa apenas usar algumas imagens novas, bagunçar o registro, virar coisas de cabeça pra baixo. Criar um estilo que a gente possa chamar de original em qualquer mídia expressiva representativa é algo enorme, um esforço imaginativo que envolve, necessariamente, toda uma figuração própria do mundo.

 

(isso lembra o que o Valery faz o seu Leonardo da Vinci dizer, que pra pintar uma árvore voce precisa colocá-la em algum fundo, figurá-la em algum universo)


Sempre que falamos de originalidade acabamos nos esbarrando nos amassados tropos românticos, naquilo do Blake que diz que precisa criar o seu próprio sistema ou ser escravizado pelo dos outros, pelo Wordsworth que quer recriar a natureza e não repetir os filtros existentes da tradição. Alguns autores parecem ter esse tipo de ímpeto bem mais demarcado e agônico do que outros. Dentro da literatura, o mais profundo esquadrinhador desse tipo de relação ainda é o tio Bloom*, apesar do foco desmesurado que ele dá pra imaginação poética como metonimia pra imaginação discursiva como um todo (o povo tinha mania de fazer isso, né).


Tem gente que gosta de dizer que a originalidade e a genialidade são 'só' tropos românticos, mas a partir do momento que esses tropos são introjetados pelos autores e usados como modelos retóricos a arte se carrega daquelas imagens, daquelas figuras. Eles são 'só' tropos no mesmo sentido que um conceito freudiano é só um tropo.


Apesar da gente quase sempre compreende-la através de filtros romanticos, a vontade de ser original não é uma invenção romantica. Nas artes plásticas, temos uma penca de artistas pré-modernos que colocava com todas as letras que precisava se libertar das formas convencionais de figuração. Só com uma sensibilidade do tamanho de uma ostra pra achar que a arte ocidental pré-moderna se contentava com ‘representar objetivamente a realidade’. Mesmo dentro de um recorte histórico e geográfico especfícico (como, por exemplo, o da era de ouro da pintura holandesa) nós temos mais variedade estilística séria do que em muitos nichos imaginativos modernos e pós-modernos.

Uma tradição representativa (tanto pictórica quanto literária) significa, necessariamente, um repertório de representação, schemata que não só ajudam o artista a representar figuras humanas, temas, posturas retóricas e relações espaciais, mas de fato a enxergar essas formas específicas, esses tipos específicos de relações. Uma tradição delimita as formas que usamos para organizar a nossa experiência, delimita os desenhos e padrões que conseguimos enxergar no mundo.

(não é só que o pintor e o autor introjetam convenções, temas e formas a serem repetidas na sua criação, é que depois de um tempo eles começam a compreender o mundo de acordo com aquelas figuras, mesmo)

Autores de originalidade titânica como Bruno Schulz, Cézanne, Emily Dickinson, Blake, Flannery O’Connor, Henry James e Borges são utilizadores extraordinários de imagens e formas já existentes, elementos esquecidos ou deslocados de suas comunidades expressivas. O modernismo tanto pictórico quanto literário nunca teve como ‘começar do zero’ na sua ruptura com a tradição. Para figurar sua tão auto-consciente ruptura com a tradição e com os códigos representativos tradicionais


*(que obviamente não deve ser lido como um academico criador de sistemas do tipo costumeiro da teoria crítica, e sim como um profeta gnóstico zé doidinho. Seus kenosis, tessera, askesis e clinamem e o caralho funcionam mais como metáforas místicas (ou seja, poéticas) do que conceitos críticos ou analíticos. Ele está mais próximo de um Simon Magus do que do seu mestre Northrop Frye (e acho que sabe disso).

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a troco de nada, >>Link pra garotada.<<