Wednesday, May 30, 2012


O cânone ocidental, versão herbert richers
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É difícil retirar dos detritos aí resultantes das guerras canônicas* uma imagem adequada e útil do cânone ocidental. O Bloom faz lá a figuração bastante convincente dele, mas ela não me parece nos servir inteiramente, apesar da muita graça do seu gnosticismo triunfante e cabalístico. O que quer que ele seja, o cânone se apresenta diversamente pra gente aqui nos cerrados tentando entender qualquer coisa com pdfs, textos xerocados e hologramas do Lionel Thrilling.

 Aqui uma série de slides ilustrativos de powerpoint:

figura 1: O cânone é uma série de livros de capa dura que o sr. dentista compra pelo correio, figura 2: é uma série de documentos de barbárie, figura 3: é um composto de frases e posturas que você precisa aprender para se distinguir socialmente de uma determinada maneira, figura 4: é uma serie de figuras coloridas usadas na manutenção homeostática de um império hegemônico.

Todas essas figuras tem sua verdade, ilustram coisas mais ou menos interessantes. Todas elas são também tolas. Pode até ser que essa distinção social por saber Homero ou Balzac ocorra em algum lugar, em jóqueis clubes inimagináveis, mas ela não é operante pra minha experiência, não é séria pro mundo que eu consigo apreender. Basicamente porque aqui (Brasile unico e invisive) ninguém se importa.

A gente entende e bate palminha pra galera que tenta desmontar o cânone, mostrar lá os seus arquivos e enunciações, seus contextos, seus ares e falos imperialistas. Mas é um tanto engraçado querer importar prontamente um desmonte feito em outro lugar, em outríssimas circunstâncias (um lugar onde todo presidente precisa ter estudado em Harvard ou Yale, ou onde os professores todos usam terno e são formais).

De qualquer forma, mesmo pensando na cara que o troço devia ter até, digamos, a metade do século passado. É fato que o cânone não é mais o corpo de textos partilhado por toda pessoa educada e chique, não é mais aquela linguagem de citações latinas e compreensões superficiais que os senhorinhos usavam pra se brindar quando davam uns pros outros comendas da câmara de comércio em seus gloriosos nomes de juristas e senhores doutores.

Claro que a Bíblia, a República, a Poética e a Odisséia ainda são textos fundantes, mas são espectros distantes cujos efeitos são sentidos de forma principalmente inconsciente (o povo papagaia articulações epistemológicas feitas pelo Aristóteles sem saber, repete imagens bíblicas esvaziadas como memes). Eles ainda estão lá irradiando discursividade, claro que estão,mas como o núcleo invisivo da Terra, e não como o sol ali presente e agressivo na nossa cara.

 Eu não saberia dizer se é bom ou ruim que tudo isso tenha acontecido. Eu não sei latim, não sei grego, não sou, segundo os critérios do século dezoito, um homem letrado nessa cultura. Por mais que eu tente sê-lo com os máximos permitidos pela fadiga e as capacidades do meu hardware, o que eu tenho é uma versão dublada do cânone, dessa enorme conversa. A minha imaginação é outra coisa. Mas isso não precisa ser de todo ruim. Como o João Gilberto transformando os fonemas de qualquer língua nos fonemas da nossa, eu posso repetir (no sentido que o Frye dá pra repetição Kierkegaardiana) a tradição ocidental dublada em português, sabendo a distância dessa reverberação vicária e precária, e concentrando na sua força particular.

Todo o esforço de desmontar e relativizar a importância e a eminência cultural do cânone tem essa vantagem de trazer a dimensão da escolha pro troço.   É bem evidente que ninguém precisa mais brincar disso de Auerbach, de Curtius, de Milton, de Longino, de Rabelais, de Góngora, de Calderón, de Racine. Traz menos distinção social e é menos requerido do que o cânone de teoria crítica, hoje (que pelo menos nos EUA parece operar com a mesma função sistêmica do antigo cânone). É mais 'grave' em praticamente toda área de humanidades hoje você desconhecer Foucault ou Freud do que Virgílio, Shakespeare ou Dante, ou até Platão.

Porque há um sentido bastante imediato no qual o cânone é, além de qualquer outra coisa, um corpo de textos autoreferente que você precisa dominar minimamente se quiser brincar com um certo nível de adensamento referencial da literatura. É um léxico de registros, imagens, motivos e associações (de tropos e topoi). E nesse sentido é relativamente desimportante que ele tenha uma 'representatividade' política limitada, que ele seja um falo imperialista, um léxico para prefeitos trocarem afagos e beijinhos. Você escolhe repeti-lo, se quiser, se lhe parecer importante entender o que aqueles senhores e senhoras estão fazendo. Vendo nessa pilha de textos velhinhos e engraçados não uma ementa ou um dicionário de citações, mas um vasto corpo animado e quebrante.








*parece nome de fan fic do Guerra nas Estrelas, né.

Saturday, May 26, 2012


~~O BRASIL NA LIBERTADORES~~
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Nenhum relato jornalístico dá conta dos sentimentos bagunçados e embaçados que o torcedor brasileiro pode ter assistindo Libertadores. Como a maior parte das pessoas, eu não torço pra nenhum dos quatro times que restam, mas eu assisto mesmo assim, claro, por ser a melhor competição das Américas e a segunda melhor competição do mundo (não em termos técnicos, claro, mas em termos de cabulosidade).

Não conseguiu-se ainda no Brasil criar um evento esportivo em cima da Libertadores independentemente de torcida. Daí a tentativa ridícula da televisão de criar uma torcida pelo 'Brasil na Libertadores', um troço que até onde consigo apreciar não existe de verdade, todo mundo geralmente torcendo pela eliminação de times brasileiros, com poucas exceções.

Mas quem assiste futebol seriamente não assiste só jogos do seu time, e precisa arranjar formas interessante de figurar aquilo ali. Claro que para a galera fanática é tudo muito inequívoco. Tem torcedor que só consegue ver os times que-não-são-o-seu como emanações totêmicas negativas e demoníacas, forças a serem diminuídas e destruídas a toda oportunidade renovada, com o máximo de sofrimento inflingido. Eu gosto de ver os outros perdendo, claro, senão não saberia assistir futebol, mas mesmo um Corinthiano pra mim guarda ali sua humanidade, transfigurada em algo muito estranho pra minha imaginação, mas ainda recuperável com esforço.

Se o sentimento de torcer pelo seu time já parece vicário (embora nos seus momentos fortes não seja, não exatamente), o de torcer para um time alheio consegue ser ainda mais vicário, ainda mais entre aspas, ainda mais estranho. O interessante é que essa possibilidade sequer seja apresentada para uma imaginação onde ela não tem como viger seriamente.  Não é possível para a minha imaginação, que é cruzeirense, seriamente imaginar a vitória de outro time como algo formidável. E no entanto é com isso que eu tenho que lidar, na maior parte do tempo. Mesmo um torcedor que já tenha visto seu time ganhar a Libertadores um punhado de vezes precisa lidar com a vitória alheia (eu mesmo só vi o Cruzeiro ganhar uma vez, e era moleque, tinha um tipo de identificação com o troço que hoje não consigo recuperar, do mesmo jeito que não conseguiria jamais recuperar de que forma Cavaleiros do Zodíaco se apresentava para a minha imaginação).

Como que se monta o modo muito esquisito de convencimento e identificação que consiste em torcer para um time? Deve ter aí os antropólogos falando disso, não sei, mas nunca li uma descrição bem feita de como o troço se opera. É um estado de espírito convoluto, de imagens emprestadas, denominações heráldicas agressivas e territorialistas, que o povo consegue montar nessas imagens impossivelmente épicas, absurdas, em hagiografias declaradamente parciais e exageradas, hiperbólicas. Uns atributos hipostasiados cuja melhor ilustração são as bandeironas de torcida organizada. Se você quiser saber o que é o Palmeiras, o Goiás, O Náutico ou o Paysandu na imaginação do Bróder-De-Torcida-Organizada, olha ali pras figuras desenhadas naquelas bandeiras, pros personagem da Marvel desenhado com músculos absurdos, pras caricaturas ruins do Bob Marley vestindo a camisa do time, pros jogadores antigos desenhados com efígies de heróis. E tenha em mente que essas bandeiras são feitas com muita dificuldade, com muito custo, com muito carinho, por marmanjos que gastam a tarde costurando, pintando e enrolando aqueles negócios. Aquilo ali é muito sério.

E essas imaginações coletivas se instalam em versões pessoais, arremedos e montagens próprias de imagens que fazem parte de um mesmo léxico. Eu assisti os mesmos campeonatos que os meus amigos, mas eles tiveram auges e depressões bem distintas. São poucos os momentos que adquirem vigência na imaginação intertimes. Na verdade, dá pra fazer uma topografia razoável e significativa da imaginação futebolística brasileira a partir dos momentos que se destacam independentemente dos times, as figuras que conseguem ser universais dentro de sensibilidades irredutíveis como as de torcedores. Alguns casos recentes seriam atuação do Rogério Ceni contra o Liverpool, Cruzeiro do Alex, Petkovic em 2009, arrancada do Fluminense contra o rebaixamento, etc.

Isso tudo pra falar da semifinal que se apresenta agora, entre o Santos ('de Neymar') e o Corinthians (de Tite ou de Paulinho? Paulinho talvez seja uma metonímia mais apropriada presse time). Pode acabar sendo um jogo quebrado e pouco dramático, todo confronto de mata-mata tem essa possibilidade, mas tem muita chance de ser um jogo excepcional (em todos os sentidos possíveis). E acontece de ser um dos poucos momentos onde dá pra imaginar a imaginação de boa parte dos torcedores brasileiros se alinhando. No caso, claro, torcendo pelo Santos contra o Corinthians.

Nunca tive tanta antipatia assim pelo Corinthians, apesar de Marcelinho Carioca ser uma das várias imagens que eu tenho para o Mal. Conseguia até recentemente às vezes montar sentimentos afáveis a respeito de algum mano entrevistado chegando ao Pacaembu, esse tipo de coisa. Mas desde os novos contratos televisivos, André Sanches na cama com a CBF, Itaqueirão, título roubado de 2005, etc, é muito claro que o Corinthians se apresenta como o Vilão do futebol brasileiro, o time a ser odiado com todas as forças devocionais disponíveis.

(isso é obviamente irrelevante para o Corinthiano, todo torcedor enquanto torce tem o dever ético de retorcer o que for necessário para conseguir fixar o seu time como absoluto)


E é muito apropriado que este time malvado seja um time de volantes, de marcação dura, e que ele esteja movido por uma obsessão específica e pontiaguda difícil de se configurar numa torcida de forma tão concentrada. Ele está se tornando um troço muito forte, muito competitivo, maior do que a soma de suas partes.

 Claro que o Santos-meninos-da-vila também pode ter sua antipatia, principalmente pelo marketing agressivo e a tentativa muito artificial de construção de um Grande Time de Futebol Arte das Américas. Artificial e falsa, porque esse time aí só joga Muricybol, tem Arouca e Juan como peças-chave. Os bons momentos vem da eventual competência de seus coadjuvantes, de lampejos do Ganso e da consistente genialidade do Neymar, que já é obviamente um dos melhores atacantes do mundo. Ele não tem números comparáveis com Messi e Cristiano Ronaldo, mas não lembro de um jogador recente que jogasse o que ele joga com a idade dele, driblando em todas as direções, em qualquer velocidade, finalizando de forma diversa, recebendo a bola em qualquer lugar do campo. Não acho que tenha no campeonato inglês (por exemplo) um jogador tão brilhante quanto ele.

E não me venha dizer que o Brasileiro e a Libertadores não oferecem padrão, porque as melhores zagas latino-americanas são no mínimo do mínimo as zagas medianas do Campeonato Inglês (ou você vai me dizer que Dedé e Rever não são  melhores do que alguns caras que dão de jogar no Liverpool e no Arsenal?). E o fato dele jogar em gramados ruins com um time limitado deveria contar a seu favor.

Os paralelos messiânicos vão ficar quase intoleráveis se o 'Santos de Neymar' repetir o de Pelé ao ganhar duas Libertadores seguidas, ainda por cima se em cima do Boca. Já a torcida Corinthiana vai explodir, São Paulo provavelmente vai sofrer com o contentamento de neguinho, de uma magnitude coletiva poucas vezes experimentada na História, pela espera tão longa e o tanto de zoação acumulada em cima dessa lacuna específica (o Mundialito deles sendo pouco mais do que um constrangimento). O tamanho dessas possibilidades épicas torna o confronto possivelmente maior do que, por exemplo, essa final agora da Champions League (apesar da excelência do Drogba, que salvou o jogo da mediocridade do Robben e da antipatia dos dois times). Televisão nenhuma consegue conter o que é um jogo desses, o tanto de figurações absurdas que ele comporta. Mas pra isso tem a internet, tem a rua, etc. 




Sunday, May 20, 2012

Tuesday, May 15, 2012

 Algo muitíssimo parecido com um apelo
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Praticamente não existe hoje crítica literária nos jornais e revistas brasileiros. Devem ser no máximo uns cinco ou seis textos críticos bons ou razoáveis por mês, juntando todos os veículos de alcance nacional (Folha, o Globo e o Estado, todas as revistas semanais, Piauí, Serrote, Bravo!, Cult, etc). E mesmo os bons textos costumam ter um espaço bastante reduzido e indigno para tentar articular alguma coisa. No mais, esses veículos todos não fazem mais do que estampar umas fotos, divulgar polêmicas irrelevantes e vomitar palavras-chave inarticuladas sobre autores e movimentos.

 E qual exatamente é o propósito de fazer esse tipo distraído e superficial de jornalismo literário se existe a internet? Se qualquer um com uma conexão a internet e um domínio mais ou menos de inglês pode ir atrás dessas informações sem nenhuma dificuldade? A função desses jornais e revistas pode ser perfeitamente cumprida por agregadores de conteúdo, e é isso que já acontece, qualquer pessoa que se interessa genuinamente por alguma coisa vai atrás de se informar na internet (geralmente através de veículos gringos) enquanto os nossos periódicos acham que estão produzindo debates e fazendo alguma coisa.

Li uns seis textos sobre o lançamento da tradução que saiu agora de Against the Day do Pynchon, e te juro que somente dois deles pareciam escritos por pessoas que efetivamente leram o livro. Todos os outros pareciam inteiramente baseados na contracapa do livro e no fato de Pynchon ter aparecido nos Simpsons.

 A Bravo!, por exemplo, costuma ter no máximo um ou dois textos mais ou menos respeitáveis por edição, e o resto é um release colorido e mais ou menos bem diagramado do que tá sendo publicado no Brasil. A Ilustrada dá uns duzentos caracteres pras suas resenhas, que raramente passam da sinopse e de uma opinião inexplicada. Como é possível continuar fingindo que esses troços importam, que eles estão contribuindo de qualquer forma apreciável?




*abre para perguntas, silêncio constrangedor, uma mão tímida se levanta* 


Quem se importa?
Pouca gente, claro, quase ninguém. A 'cobertura' que a Ilustrada faz de literatura é tão profundamente imbecil justamente porque cultura literária é uma cultura de nicho. Aquele que se considera o maior jornal do Brasil não consegue oferecer nada que se pareça eventualmente com crítica literária por anos e anos e ninguém nota. Isso tem que significar alguma coisa.

A Serrote e a Piauí pelo menos dão espaço para textos maiores do que um tweet, e poderiam oferecer alternativas, mas infelizmente não oferecem. Eles publicam bons textos estrangeiros sobre literatura, mas o que há de 'produção própria' é quase sempre pobre e desinteressante (ou com um ranço acadêmico muito inadequado). Repetições derivativas sobre autores já repisados, deslumbre com coisas desimportantes, etc.


E pra quê ficar reclamando disso na internet?

Obviamente não porque eles vão ouvir, ou se importar. O meu ponto é justamente que nós deveríamos parar de prestar atenção nesses veículos como se eles fossem onde o 'diálogo cultural' (o que quer que isso seja) acontece. Os tiozões da Folha não tem ideia do que tá acontecendo. Eles parecem ter lido, conjuntamente, uns trinta livros, no máximo (vinte e cinco deles escritos no século XX). Acham que o Paul Auster, Schlink, Bukowski, etc são relevantes. Eles descobriram ano passado que DFW existe (mas ainda não o leram). Ficam impressionados se alguém conhece Blanchot e Derrida, não tem ideia de quem seja Kittler, acham que metaficção é um troço de vanguarda.

Se há qualquer coisa próxima de um diálogo cultural interessante acontecendo no Brasil, ele acontece na internet. Isto é absolutamente evidente para qualquer pessoa de sensibilidade que esteja prestando atenção. Não interessa o que eles estão achando ou dizendo. Escrevam, se comuniquem, insistam com os blogs e comunidades, mesmo que você só seja lido por quinze pessoas. Usem todos os canais disponíveis, porque é a melhor esperança que temos de arranjar interlocutores. Eles não vão nos ajudar e nem nos alcançar tão cedo.

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PUNHO DOS BROTHERS



Tuesday, May 08, 2012

Isso não foi uma empreitada estética, ou
 a retórica da autoficção
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Todo escritor de ficção tem, além da sua obra estrita, uma presença  midiática no mundo inscrita dentro de um cenário extenso e complicado. Esta presença inclui a sua voz crítica acadêmica ou casual, notas biográficas, pequenas polêmicas e posições políticas (ou a conspícua falta delas). Tudo isso remonta uma voz figurada somada de seus vídeos e fotos disponíveis, resultando numa pessoinha divulgável e digerível pelos instrumentos do mundo. Querendo ou não, isso acontece. E essa pessoinha que reverbera pelas mídias está claramente presente na leitura que a maior parte das pessoas faz da sua obra.

"The author makes his readers, just as he makes his characters", diz o Henry James. Podemos adicionar que ele também faz a si mesmo. Um autor é sempre uma voz, um busto (ou minicraque) retórico. Não há meio concebível de se escapar ou de se negar isso (a não ser que se desmonte todos os modos e práticas desse negócio que se chama de 'literatura ocidental'). O “Autor” não se mata nem com pedrada.

A maior prova disso é o caso do Pynchon, que ao se recusar a dar entrevistas e participar do jornalismo cultural adicionou ao seu espectro o mistério (meio tolo e divertido) do 'autor recluso'. Não há no Brasil texto de mais de 140 caracteres sobre ele que não mencione esse fato (na real, mais da metade do que sai aqui sobre ele se concentra quase inteiramente nisso). Ou seja: o gesto de se apagar é apenas reintroduzido dentro da lógica da autoria.

Pelo que eu sei, o termo autoficção é usada principalmente pra denominar narrativas autobiográficas confeccionadas com técnicas ficcionais, um hibridismo de sensibilidade principalmente francesa. Mas você pode também sem grande esgarçamento abrir o termo para abrigar todas as várias instâncias nas quais autores ficcionalizam as suas próprias figuras dentro dos seus livros, seja fazendo-se personagem num retrato mais ou menos direto (como fizeram Roth, Coetzee e Houllebecq), ou direto-com-complicações (como o último Lísias ou a a confusa aparição de DFW em The Pale King). Quase todo autor contemporâneo notável, de Sebald a Villamatas, tem pelo menos um dedinho molhado nessas águas. Ela está na moda, podemos dizer.

Há muitas maneiras de se compreender essa mania. As resenhas costumam simplesmente inclui-lo dentro da tradição metaficcional (o que me parece quase sempre um erro) ou repetir que o autor está brincando com os limites do real e do ficcional, com fronteiras de gênero e com convenções discursivas (os Ricouers e Compagnons da vida lembrando que afinal de contas o self também é uma ficção).

Eu diria que a maioria desses autores está tentando explicitar e dominar a lógica a qual a imagem deles já está submetida. Um autor já é um personagem, mas um personagem público. Dramatizar a sua própria imagem num romance pode ser lido como uma tentativa de controlar isso, deglutir ainda mais esse nível ou reverberação crítica (e boa parte dos movimentos de sensibilidade que ocorrem na literatura consiste na galera tentando deglutir e conter suas próprias apreciações críticas).

Mas você pode ser um pouquinho mais cara de pau, claro, esgarçar ainda mais a noção de autoficção para considerar que todo gesto público de um autor pode ser encarado pela lógica da autoria. Isto significaria que todo gesto público de um autor pode ser considerado como um elemento de sua retórica autoficcional. Autores dão entrevistas, escolhem fotos e veiculam opiniões numa tentativa de controle do que significa sua própria imagem. Isto significa, em última instância, uma tentativa de controle da enunciação da sua obra.

Essa lógica me parece meio perversa, mas é extremamente presente e teimosa. Isso já é feito adoidado tanto por resenhistas e acadêmicos quanto por leitores recreativos. Livros são frequentemente julgados pela imagem que seu autor remonta, pela sua cara de coxinha, pelas suas opiniões políticas e contas no twitter. Walser é lido pela infinita ensaiabilidade da sua biografia, Bolaño pelo romantismo DCE-casaco-de-couro, etc.

A pergunta que alguém poderia fazer num simpósio aí bobo é: E os limites disso cadê? Eu diria que dá pra pensar nuns trocentos limites éticos e elegantes, mas pra efeitos práticos eles virtualmente não existem. Se qualquer ato figurativo pode ser considerado uma ficção (o self, a Itália, um quadro do Rothko, um conflito militar), então é bastante óbvio que todo gesto de um autor pode ser incluído por seus leitores como elemento de sua obra. Inclusive uma bandana. Inclusive um suicídio.
We all self-conscious
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Acho esquisito que a retórica ande tão murcha e desusada* enquanto estratégia interpretativa numa época tão obviamente obcecada com a autenticidade (política e sentimental) de suas vozes e identidades culturais. Para efeitos de crítica estética, a 'autenticidade' precisa ser compreendida como um tropo retórico como qualquer outro (e um dos mais confusos de que se tem notícia).
 
E acho que só depois de desmontarmos a complicada maquinaria retórica por trás desse negócio de ‘autenticidade’ é que teremos alguma chance de fazer um testemunho crítico decente de uma série de objetos diferentes e curiosos, desde tradições expressivas populares como o Hip-hop e o grafite até a obra de artistas como Jeff Mangum e DFW (e eu estou falando sério).

*Claro que no século XX a retórica teve seus momentos robustos dentro daquela compreensão meio Todorov-tudo-é-tropo (como análise concentrada de figuras de linguagem). Mas como análise de técnicas de convencimento e manipulação de emoções ela me parece bem murchinha, sim, dentro da crítica literária.