Friday, April 13, 2012

Ficciones, ou o minicraque do Barthes contra o Dragão da Maldade da Intenção Autorial
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Não sei a quantas anda a coisa toda do Barthes e do Foucault de matar o autor, Dá pra imaginar que percalços palavrosos e ‘problematizações’ que isso aí não deve ter corrido nas últimas décadas. Gente falando que o autor está vivo, gente falando que o autor renasceu, gente falando que o autor na verdade é algo ainda mais historicizado, complexo, queer e múltiplo do que antecipava a astúcia de qualquer francês branco, etc. Deve ter sido uma festa do boi, tenho certeza.

Independentemente da sua importância na academia, e apesar de 90% da crítica obviamente ignorar a morte do autor pra levar seus trabalhos na prática, você ainda vê a coisa do ‘autor está morto!’ pipocando por aí como se fosse uma descoberta científica, um limiar epistemológico ultrapassado, num tom tipo Gente-mas-isso-já-acabou-ninguém-te-avisou-ainda?

Passadas já essas décadas todas, mesmo pra um ignorantão como eu as particularidades contextuais em torno da postura do Barthes e do Foucault parecem se desenhar com alguma clareza. E como já nos parecem pitorescos e bonitinhos aqueles franceses todos se achando revolucionários, sentindo que tavam derrubando patriarcados e tirando a roupa de reis e papas ao dizer aquelas coisas todas, como são transparentes alguns dos gatilhos retóricos deles e a importância política que eles dão pros seus próprios gestos.

Não que eles pareçam tolos, longe disso. Os textos são realmente brilhantes e cumpriram funções importantes, claro que sim. Certamente serão lidos por muito tempo, no mínimo pelo seu estilo e retórica (não é à toa que são tão influentes).

Mas o mais engraçado dessa vontade deles de instalar suas leituras múltiplas e fluidas contra o autor burguês e empoeirado (o ato de leitura livre contra o ato impedido pela intencionalidade) é que não é lá muito difícil enxergar nessa postura deles uma repetição da postura romântica frente à tradição. A postura que diz que o poeta não deve imitar a Natureza, como Homero, e nem deve imitar Homero (como Virgílio), o que ele deve é criar a Natureza ele mesmo! Num gesto lindamente subjetivo e individual! Donde brotam leituras e subjetividades como leite das tetas de camponesas! etc.

Ao tornar o leitor produtor de significado e retirar o Balzac da sua eminência estatuada, o Barthes está apenas fazendo o que a literatura sempre faz de tempos em tempos, buscando um novo lugar retórico de onde sentido autêntico pode sair mais uma vez, um novo registro ficcional, uma nova voz que desbanque as anteriores. Não havendo formas ficcionais fortes nas quais se depositar, a literatura Ocidental na sua autoconsciência hipertrofiada e gasta foi transbordando pro pensamento crítico, pro comentário, pro texto secundário tornado texto primário (um lugar onde os franceses chegam anunciando com trombetas e releases pra imprensa e encontram o Borges lá sentado quietinho na dele, tranqs como uma capivara cega).

Não há nada de errado nisso, claro que não há. É um movimento engenhoso e bem feito, e merece a atenção que recebeu. Mas só numa galerinha que nunca leu Empson e que achava que crítica era Sainte-Beuve pra realmente achar que precisava matar o autor pra sair deslizando em leituras sofisticadas e distantes de biografismos. E só numa sede de fincar espadas retóricas em hipostasias burguesas pra achar que essa pode ser uma percepção definitiva, uma virada conceitual séria.

O problema é achar que o gesto deles é algo mais do que um deslocamento* retórico. Here be tropes, ppl. O que o Barthes fazia era literatura, ele mesmo reconhecia isso, e o que os franceses fizeram a partir dessa epoca (ou o que a recepção americana deslumbrada da crítica francesa fez, difícil dizer) foi transformar a teoria crítica no principal gênero literário da segunda metade do século XX. Não digo principal no sentido de superior (Borges é esteticamente superior a todos esses franceses e contém em si quase toda a sensibilidade pós-moderna compactada com elegância), mas principal no sentido de dominante-na-academia, mais influente, etc S/Z deve ser hoje mais lido nas universidades do que qualquer obra individual do Balzac, eu chutaria. E o ethos crítico francês informa a postura do estudante de humanas da exata mesma forma que as figura romântica de um Wordsworth ou a figura moderna do Baudelaire (e isso desde o calouro sem noção de ciências sociais até as gentes mais espertinha da n+1).

A melhor forma de ler esses autores é como literatura, figurar as vozes deles como as vozes de personagens interessantes, seus mundos figurados como hipóteses ficcionais engraçadinhas. Barthes contém essa possibilidade de forma bastante explícita, e certamente apreciaria o gesto de ler sua obra como se fosse ficção.

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*E quando eu digo deslocamento vocês por favor leiam "A reconstrução de padrões míticos em palavras mais comuns". Estou apontando pro Frye, e não pra quem-quer-que-seja responsável pelo uso adoidado e irrestrito que você vê de "deslocamento" por aí.