Saturday, February 18, 2012

The Marriage Plot,
ou DFW como personagem
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Jeffrey Eugenides é um desses casos curiosos de autores que escrevem bem, são bastante espertos e conscientes, tem uma vontade expressiva genuína e uma preocupação formal decente, mas que são muito claramente não-brilhantes. Diferentemente de um Richard Powers ou Safran Foer, que tem problemas genuínos na sua retórica ficcional, nas vozes que eles tentam montar e nos mundinhos morais de que eles tentam nos convencer, Eugenides não tem nenhuma deficiência séria (exceto, talvez, quanto ao ritmo, mas isso parece praticamente superado nesse último livro). A sua única deficiência, se é que podemos chamar isso de deficiência, é a de não ser genial. De nunca ter metáforas, imagens, personagens ou artimanhas que te forneçam algo que você nunca viu antes, que mal pareciam possíveis antes de você encontrá-los. E eu não estou falando aqui de truques ou espertezas formais, escritores ostensivamente conservadores como Marilynne Robinson e Alice Munro são capazes de oferecer visões morais ou construções narrativas que nós nunca encontramos antes. Estou falando de uma carência imaginativa qualquer que não tem nem a ver, exatamente, com inteligência, e que é muito mais difícil de se precisar.

Talvez em parte pela sua não-genialidade, Eugenides tenta sempre montar seus livros em cima de assuntos e premissas interessantes. Middlesex tem a muitíssimo interessante premissa de acompanhar a vida de uma pessoa intersexo e de apresentá-la com todo um aparato simbólico e mítico que a tradição literária já emprestava às ambiguidades de gênero, enquanto esse seu último romance, The Marriage Plot, é baseado em pelo menos duas premissas espertas. Uma delas é a reformulação ou revisão da ficção inglesa do século dezoito e dezenove, dos romances que tinham o casamento como o seu telos narrativo, uma reformulação espertinha que tenta reestabelecer esse tipo de narrativa convencional como válida ao mesmo tempo que dá piscadelas pro fato de que aquela é uma reformulação auto-consciente e pós-moderna de uma estrutura convencional (Eugenides espertamente querendo ter as vantagens da narrativa convencional sem parecer que está sendo ingênuo ou antiquado ao usá-las).

A outra premissa esperta é a escolha de tomar DFW como modelo para um dos personagens principais. O Eugenides em entrevistas nega que fez isso, mas ele deve dizê-lo apenas para evitar acusações de se aproveitar da imagem midiática de um autor morto, porque a inspiração para o seu Leonard Bankhead é absolutamente evidente e nem parece fazer muito esforço de se esconder (masca tabaco, usa bandana, sofre de depressão, é um cara fisicamente grande, brilhante e interessado em humanas e exatas).

De certa forma, David Foster Wallace já era um personagem literário, claro. Você pode tanto argumentar que a obra e a persona literária e midiática do DFW compõe um todo retórico muito deliberado, uma voz muito específica que quer configurar uma presença muito específica (compassiva, atenta, erudita, gentil, não-irônica e onívoramente informada) quanto dizer que os críticos, leitores, fãs incondicionais e colegas e amigos se meteram a criar e reforçar esse personagem, principalmente depois de sua morte, com uma enchurrada de relatos, testemunhos pessoais e memoriais que montavam uma imagem semelhante de quase um santo literato secular (um Beckett que tentava dar lição de moral pros nossos tempos tão irônicos), algo que claramente incomoda alguns amigos mais próximos, como Franzen (tanto pelos motivos certos quanto pelos errados, dá pra dizer).

E o que Eugenides entendeu (na sua inteligência específica de captar objetos dramáticos interessantes já-prontos pairando pelo imaginário comum, digamos) foi o tanto que esse personagem coletivamente criado do DFW reunia tantos elementos interessantes e, risos, contemporâneos empacotados dentro de si. Dá pra resumir esses elementos assim:

(1) A dificuldade de se lidar com patologias mentais, com o fato de nossos estados mentais serem também estados químicos e com os limites aí tão complicados para algumas pessoas entre a vontade de ser você mesmo (o que quer que isso seja) e a de levar uma vida minimamente suportável através de remédios que alterem a química do seu cérebro*, (2) a tendência mais geracional de se manifestar essa depressão como um torvelinho recursivo de autoconsciência que gira sobre si mesmo até não aguentar mais e (3) a dificuldade de se lidar com valores e práticas que consigam talvez tornar a vida mais suportável quando se tem uma concepção fundamentalmente estética e imediatista da vida.

É um resumo rude, mas acho que mais ou menos fiel, tanto da imagem que DFW fazia de si mesmo quanto da imagem coletiva que foi aceita com entusiasmo por seus fãs mais ardorosos e críticos mais complacentes.

Eugenides está certo em fazer de Leonard apenas um terço da trama. Mesmo com esse espaço reduzido o personagem quase rouba a dramaticidade toda a história, fincando-a em si mesmo (no que acaba sendo uma boa imagem para o autoenvolvimento e buraco-negro-ness de uma pessoa clinicamente deprimida, risos). Eugenides precisa fugir um pouco do personagem que criou e apresentou tão bem, talvez em parte porque a sua técnica - que é invejável - não parece comportar exatamente as necessidades expressivas dos piores momentos de Leonard. Não que a sua maneira direta e realista de narrar depressão não seja muitíssimo interessante, ela só acaba parecendo meio pálida diante dos monumentos literários da obsessão recursiva e da depressão já inscritos pelo próprio DFW.

Porque o que torna Wallace o autor mais importante das últimas década** não são exatamente os seus temas. Por mais que todos esses elementos da sua sensibilidade e obra capturados pelo personagem de Eugenides sejam de fato urgentes e importantíssimos, a força expressiva realmente original da sua ficção vem da forma com que estes elementos (somados ao fantasma sempre-presente do solipsismo) estarem sempre terrivelmente mediados pela linguagem. Em todos os níveis e em todas as instãncias, da sua linguagem ser não só a ferramenta para descrever essas dificuldades, mas o campo onde elas são travadas, a sua mídia, não só a música mas também o ruído da agulha e dos sulcos do vinil. No final das contas, o estilo de Wallace é o que o torna grande, e o fato de que o seu estilo condensa, dramatiza e (sejamos chiques) performa todas as dificuldades que ele tenta descrever. E isso não dá pra dizer que o Eugenides faz, por mais que tenha escrito um ótimo livro.




*não sei se essa expressão é adequada. Cérebros são tão caixa-preta pra mim quanto carros e computadores. Sei que há toda uma maquinaria aparatosa ali dentro, mas basicamente lido só com a interface e suas manifestações mais óbvias.

**e pra mim ele segura esse posto com confiança independentemente das limitações sérias da sua obra, trazidas pela circunscrição imaginativa a um léxico cultural americano específico, a auto-indulgência eventual de sua histeria e as particularidades da sua linguagem, elementos que irritam muitos bons leitores