Saturday, January 07, 2012

História
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outro divertimento


Eles mal haviam chegado na festa e ele já queria ir embora, obviamente queria ir embora, suas expressões faciais muito mal contorcidas na tentativa pouco convincente de parecer que estava interessado em qualquer elemento daquela situação, qualquer daqueles salgadinhos e pessoas com seus assuntos e arranjos momentâneos dos seus rostos e franjas.
Ela estava claramente irritada com o desinteresse maleducado dele, e redobrava seus já consideráveis esforços em ser simpática com todo mundo e atender à atenção de todos presentes, parecendo quase histérica na sua educação e interesse em tudo que se passava, seus braços com pulseiras balançando audivelmente, rindo de piadas ditas do outro lado da sala e arregalando os olhos com seu interesse onívoro e levemente perturbador numa opinião tão casual e descompromissada sobre algo bem tolo (a Martha Suplicy, digamos).
No elevador indo embora ela tornou a sua irritação muito óbvia para ele, mas ele mesmo assim não notou, ainda imerso num jogo no seu celular onde ele tinha que coordenar ondas de pássaros migradores de forma a arranjar desenhos complexos em pleno voo. Era uma atividade bastante demandante, que frequentemente envolvia o risco de mais de um dedo na tela e deixava seu rosto quase tragicamente preocupado.
Ela decidiu (não da forma racional e sistemática que eu sugiro com o verbo ‘decidiu’) tomar um curso mais drástico e dramático, e disse - com uma dicção que lhe pareceu falsa, de novela - que não aguentava mais aquela merda de inadequação e grosseria dele, não aguentava mais o tanto que ele não se esforçava minimamente pra ter um convívio decente com as pessoas, que não aguentaria aquilo por mais nenhum segundo.
Mas ela aguentou, sim, por mais quatro anos. No quinto, transou com um homem alto de mãos geladas com quem ela tinha aula de desenho numa casa dividida por quatro artistas diversamente carecas no Lago Norte. Esse ato foi compreendido por ela mesma dentro da narrativa redemunhada e tortuosa que ela fazia da própria vida como um ato bombástico, extremo e necessário na direção de uma resolução satisfatória para diversos dramas interminavelmente sustentados da sua relação com Ele. Ela enunciava mentalmente variações pouco sofisticadas dessa percepção enquanto as coxas também geladas do cara alto batiam nas suas próprias coxas e faziam o único barulho ostensivo denunciatório daquele ato que eles estavam, aparentemente, fazendo. Ela durante o negócio conseguindo ainda ouvir o professor falando lá embaixo de como sugerir profundidade sem ter de utilizar truques de perspectiva óbvios demais e ver lá fora uma piscina com água provavelmente tepida e uma mangueira dentro e algumas poucas folhas secas molhadas boiando e se mexendo devagarinho.

Era muito estranho estar traindo seu namorado assim, de tarde, o quarto tão quente, sem nem poder fazer muito barulho, com um cara de mãos tão geladas.
Chegando em casa ela percebeu que nada havia mudado, que ela nem estava tensa e que nenhuma resolução de nada havia se desenhado. Ele estava no computador reclamando porque havia baixado episódios de um seriado que gosta mas o formato do arquivo tava dando problema e ele não conseguia assisti-los. Exceto que justamente essa teimosia do mundo de fingir que nada havia contecido começou a torná-la tensa, e ela finalmente estoura logo depois de ir ao banheiro e lavar as mãos, chora e conta tudo que havia se passado num tom oficioso, como quem faz um anúncio oficialmente delegado numa coletiva de imprensa, como quem fala de um fato público e impessoal.
Ele não reagiu, continuou tentando converter o arquivo, conseguindo só depois de meia hora. Assistiu a três episódios do seriado, cuja nova temporada lhe parecia inferior à primeira. Bebeu um garrafa de dois litros de guaraná diet quase toda.
De madrugada, ele a acordou perguntando qual seria o nome do homem alto de mãos geladas. Ela disse que Rubens Vieira. Ele repetiu o nome quatro vezes como se entre aspas, cada vez mais irônico, a ultima versão soando completamente inaceitável. Ele se levantou e foi ao computador, procurou o seu perfil na internet. Comentou que ele era feio e que ele não sabia construir uma versão aceitável de si mesmo em mídias sociais. Que seu uso de todas as plataformas denunciava uma ingenuidade retórica extraordinária e uma maneira muito banal de se portar diante dos movimentos midiáticos e espirituais do mundo. Ela meio que concordava, mas não falou nada. Os dois (ele no computador e ela deitada na cama com a cabeça apoiada no braço esquerdo) assistiram juntos trinta e cinco fotos de Rubens Vieiras em diversas agremiações sociais. Num churrasco, num show de alguma bandinha, no estacionamento de um supermercado, num festival de teatro.
No dia seguinte, eles viram um filme muito engraçado e comeram um negócio muito gostoso feito com pesto, confundiram aquilo com o bem estar profundo e sedimentado de uma vida viável.
Eles ficam juntos mais quatorze anos, durante os quais eles respondem várias vezes que não, não tem filhos, jantam mais de oitenta vezes num mesmo restaurante italiano perto de casa de que nem gostam muito, trocam de número de celular quatro vezes, participam de maneira numericamente irrelevante na economia e na sociedade como um todo, trocam brevemente de corpo através de uma intervenção mística inexplicável com deliciosas consequências cômicas e ganham um carro zero numa promoção do jornal, até que um dia eles se perdem um do o outro no shopping e acabam retornando pra casa com parceiros diferentes. Ela com uma jornalista muito baixinha e engraçada pernambucana, e ele com uma senhor que narra jogos fictícios do Botafogo enquanto toma banho. O Brasil enfim se livra das amarras da corrupção e se torna uma grande potência mundial.

Thursday, January 05, 2012

TEXTOS QUE ME OCORREM ENQUANTO DIRIJO OU TOMO BANHO OU ASSISTO FUTEBOL E QUE EU NÃO ESCREVO POR PREGUIÇA E POR NÃO TER EXATAMENTE ONDE PUBLICAR

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-Um ensaio muito sugestivo e esperto comparando os filmes Blow Up, Blow out, The Conversation e Profondo Rosso e mostrando de que formas diversas todos eles espelham e figuram uma mesma estrutura narrativa básica (que é essencialmente literária e paranoica).

-Uma exposição brilhante e revolucionária de como a crítica de música pop só vai fazer realmente sentido quando compreender a importância tão negligenciada da sua dimensão retórica.

-Um comentário provavelmente desnecessário comparando Flaubert e Cézanne, o tanto que eram artistas auto-conscientes e absurdamente deliberados, sem muito talento espontâneo, acinzelados num esforço dirigido até as formas difíceis que encontraram e que ajudariam a definir praticamente todos os formalismos do século XX.

-Uma resenha de Pale King que levasse a sério a relação do livro com ciência da informação.

-Uma análise da imagem/pessoa do Nicolas Cage enquanto figura de linguagem narrativa e figura de pensamento fílmico-conceitual (freestylin’ a partir das tradições clássicas e medievais de análise textual).

-Uma besteira sobre o tanto que alguns países de primeiro mundo (principalmente os Estados Unidos) narram a si mesmos de incontáveis maneiras o tempo todo e com isso sedimentam uma estabilidade simbólica e um extenso domínio de referências em comum. O tanto que os demais países e tradições culturais não tem. O que pode significar esse déficit de representação.

-Resenhas amargas, desnecessárias e virulentas de alguns romances brasileiros recentes.

-Algo bastante vago sobre elegância em videogames, uma desculpa pra falar sobre Shadow of The Colossus e Super Mario World.

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Aliás,
tem uma resenha minha dos últimos romances do Tom Mccarthy e do Houllebecq na última edição da Dicta & Contradicta (que também contém a única resenha do Pale King publicada no Brasil, qu'eu saiba). Saiu um textinho bacana que me cita aqui, também. Eu escrevi um romance/novela/conto comprido que está em busca de editora e com esperança deve sair antes da copa 2014. Acho que isso basta de notícias. Ah, sim, tenho um twitter quase desativado no @macacofantasma.

Passo desde hoje a assinar esse blog com o meu nome-de-verdade. É bastante estranho fazer isso, mas o pseudônimo já não fazia sentido há algum tempo e não queria jogaro blog fora e começar outro (sou sentimental). A voz aqui sempre foi a de um semi-bogus, não exatamente a minha mas não artificiosa a ponto de me parecer alheia. Espero não sofrer nenhuma crise agora que tem meu nome ali, e não uma figurinha faceira. Quem quiser continuar me chamando de andreis pode continuar.