Sunday, November 25, 2012

SIMULATION OF THE MOST BEAUTIFUL GOAL OF PELÉ
-
Barthes chama de de "efeito de realidade" o enquadramento realista como quem dissipa uma ilusão. Uma denúncia. Srry burguesia, Flaubert não representa a realidade, Barthes diz. Aquilo é só um efeito! Acidentes banais listados como sinais de uma suposta acidentalidade e banalidade, um índex procedural de verossimilhança. 

O RLY, fio? Claro que o efeito realista é uma ilusão. True poetry is the most feigning, o poeta é um fingidor, e tudo mais. A literatura ocidental, esse vasto megazord organizado em torno dos clássicos, sempre foi autoconsciente a respeito de representação. Pense na segunda parte do Quixote, Sterne, Donne, (Kierkegaard, plmdd).

É muito comum na teoria crítica recente esse gesto de denunciar a contingência histórica e a convencionalidade do realismo como quem esvazia um balão, acaba com a festa. O comédia que se acha vendo através da Matrix e joga a real pra gente. 

E muita gente os lê dessa forma até hoje. Entendem que perdemos uma inocência qualquer a respeito da literatura como algo mais do que ilusão. Agora a gente sabe que são tudo uns tropos enganchados e nada mais, os tentáculos de um Behemoth enorme e malvado. Todos nós agora carregamos essa terrível consciência, agora, essa fardorosa luz gnóstisca, então a representação quebrou

O engraçado é que falar desse jeito dá a entender que a fissura de representação tivesse sido um evento. Como se a representação de uma ausência (de uma falta) não fosse tão artificiosa quanto a representação de uma presença. A tendência de artes sofisticadas para formas irônicas, distorcidas, narradores não confiáveis, fragmentos, é exatamente tão convencional quanto a tendência de um realismo comportado e que-se-entende-como-direto (cujo avatar aqui hoje vai ser o Franzen!). A voz de um Beckett, com sua extraordinária afetação de um esvaziamento retórico, sua representação mediada tentando virar outra coisa, depende total do engajamento com algumas estilizações convencionais (assim como da deliberada frustração de outras). 

(não dá pra figurar uma árvore sem figurar o seu fundo, como diz o Valery, e uma voz que não fosse convencional não seria compreensível, não seria nem humana, exatamente, e essa agitação toda do Vazio e do Neutro acaba parecendo místico mandando via negativa no freestyle)

Qualquer gesto crítico é exatamente tão ilusório (se a galera quer usar esses termos) quanto qualquer ficção. Barthes, apesar dessas cagalhaladas que fez mais novo, aceitava isso lindamente na maior parte de sua carreira, e acolhia pra dentro da sua imaginação crítica. Barthes nos seus melhores momentos cresce pra fora da voz limitada que lhe entregam  (e que ele fez por merecer), vira um dos maiores críticos que tivemos sobre ficção.*

Se tudo é retórica, como muita gente diz e sugere (ecoando mais obviamente o Nietzsche, Truth is a mobile army of metaphors, metonyms, anthropomorfisms, etc), então é claro que não há autoconsciência mais profunda do que o Quixote, ou Hamlet. Gender Trouble está longe de ser mais sofisticado do que As You Like It. E nunca que Les Mots et Les Choses ganharia de Ficciones em qualquer critério de qualquer supertrunfo decente.  

Isso o De Man fazia questão de entender mais do que a maioria dos colegas. Tudo que o povo aponta agora e faz-congressos-sobre sempre esteve aqui, sempre fez parte da representação. Autoconsciência, mediação, a sensação de ter chegado tarde demais pra festa, do discurso estar quebrado, vazio, de não fazer parte de nada, de todas as vozes serem alheias, das manifestações atuais de engajamento com as formas culturais que você mais curte não serem mais autênticas, desprovidas de alguma essência qualquer que elas já tiveram e que agora está extinta ou ameaçada. Tudo isso sempre esteve conosco (como cotovelos, ou esse nariz fantasmático que a gente tem embaixo dos olhos e que dói se você tenta focar).

O povo achando que tinham descoberto desconstrução e os textos lá se desmontando e remontando sozinhos**, é o que eu quero dizer.

It is one of the peculiarities of the imagination that it is always at the end of an era. A representação sempre conteve sua negação, sempre se relacionou com a sua própria negação. Só a encenação que é diferente agora. A cena, os adereços, o tipo de caçada. 

-

* Leia os cadernos tardios dele, as notas para aula. Falando de Proust, principalmente. Das melhores coisas que tem no How Fiction Works sobre detalhes em ficção o Wood pegou dali. É lindo o que ele fala sobre particularidade dos detalhes expressivos evocando a Haeccitas do Duns Scotus. 

**não sozinhos-sozinhos, claro, mas você entende o que eu quero dizer.

Thursday, November 08, 2012

The fox and its entourage, part of some map of life
-
Adventure time é o melhor programa. E é muito menos infantil do que Safran Foer (por exemplo). E a coisa auto-consciente com sensibilidade RPG e awesomeness de maneira geral (VHS, videogames 8 bit, a maneira do Finn falar quase qualquer coisa) é mais deliberada e bem-mantida do que as sofisticações seriamente mantidas quase sempre pouco convincentes do Mad Men e Breaking Bad (ou esses Homeland da vida), por exemplo.

Mas porque tanta coisa infantil sofisticada nos EUA? Wes Anderson fez dois filmes infantis seguidos, Spike Johnzee adaptou Where the Wild things Are, Dave Eggers e suas extensões todas. A explicação mais imediata seria, talvez (de novo!), a pala de autenticidade, essa obsessão dispendiosa da qual neguinho não consegue se livrar. 

As várias culturas que habitam a tenebrosa nuvem de coisas-tidas-como-sendo-de-hipster costumam se digladiar com isso com toda a seriedade do mundo. Parece ser por causa dessa preocupação avassaladora é que um carinho infantilizado tão enorme é deposto em (porexemplo) Coisas 8 bit, cupcakes fantasticamente decorados, enquadramentos miniaturistas do Wes Anderson, suéteres bordados com dinossauros, edições sofisticadas do Mcsweeney's*). Tentando formar uma cultura a partir da fonte mais bonita na qual ela possa ser escrita.

Outra solução pra mesma ansiedade é ser irônico justamente pra conseguir anular as defesas e falar a sério, o que acaba dando numa galera sendo, imaginem só, moralista, defendendo VALORES. South Park, Louis CK (no standup, não no seriado lá quero-fazer-arte dele), o Jon Stewart e o Colbert.

Em livro literário e pretensioso, tipo Indecision, All the Sad Young Literary Men, The Ask, Leaving the Atocha Station**, esse problema tá enorme, também. Eles são tudo preenchidos de um mesmo tipo de autoconsciência tombada pra dentro que não se compreende apenas ironicamente insuficiente pra tudo, mas ainda parece achar o próprio relato (o próprio ato de ficcionalização do autor) ilegítimo (e saber que reclamar dessa ilegitimidade seria, também, chuif chuif, ilegtímo!).

De todos esses, o único que consegue realmente tornar essa tortuosidade introjetada toda em algo expressivo, convincente e minimamente próprio é o Ben Lerner. Esse Leaving the Atocha Station é o único romance americano realmente forte e digno de nota em um bom tempo.

(o livro do Teju Cole é quase tão bom quanto, mas o cheiro de Sebald que tem nele é forte demais)

No livro a gente acompanha um protagonista profundamente desinteressante (eu digo isso tanto no sentido dele ser muito desinteressante quando da sua desinteressância ser profunda) na sua estadia ociosa pela Espanha como poeta fundado por uma bolsa. Ele mal escreve o que se comprometeu a escrever e pesquisar, passando o tempo fumando haxixe sentado por aí e tendo relações bilingues e confusas com os locais. O constante através de sua ociosidade e falta de direção é a dificuldade avassaladora de sentir que tem uma experiência autêntica (com arte, com as mina, com política, etc). 

Lerner parece indicar que reconhece o tanto que a experiência do seu protagonista pode ser generalizada, o tanto que ela responde a um sentimento comum, exemplar da dificuldade-geralmente-observada-entre-as-galeras-de-suas-quebradas de sentir qualquer tipo de autenticidade.


Esse sentimento comum pode ser descrito como a modulação homem-branco-privilegiado-no-capitalismo-tardio do tropo de autenticidade, que aqui vira uma preocupação inautêntica de não ser autêntico, de não só não conseguir ter uma experiência que não seja impressa por um molde inválido, mas de cada uma de suas tentativas de lidar com essa inautenticidade serem, também, inautênticos (poesia, sexo, haxixe, ser-um-poeta-numa-cidade-européia). E Lerner consegue encontrar pra esse sentimento (que é principalmente tolo, como eles mesmos todos sabem) uma expressividade reservada e distante que quase sempre funciona, até quando ele faz o gesto deferente de negar sua originalidade:

"a genius I knew I didn't have; no duende here. I would think to myself, checking my body for sensation, no deep song."


Essa disposição tão particularmente americana quase sempre acaba sendo, como mostra esse texto muito bom aqui, um endereçamento bem direto a Theory e toda a sensibilidade cultural derivada dela. A sensibilidade que os treinou, todos, com suas sofisticadas liberal arts education a tratar cultura como uma instância de má fé, antes de tudo, e que traz consigo uma voz política desarticulada, tombada, que não sabe do que se vestir.

A solução expressiva que o Lerner consegue dar pra essa tortuosa e tombada ficcionalização de inautenticidade é quase tão expressiva quanto a do Wallace em Good Old Neon*** (de longe o melhor conto dele), e o filtro que ele parece ter usado de forma muito deliberada pra conseguir essa solução foi, olha que surpresa, o Ashbery (o maior poeta americano vivo, google se você não conhece).

É dele que vem aquela voz confusa e generosa, perplexa, que consegue se demorar na sua própria disjunção, ganhar força nela, e juntar detritos com carinho, como o Barthelme fazia. O engraçado de tomar Ashbery como voz-oracular é que ele é principalmente um grande poeta de belatedness, de se encontrar tudo em você mesmo feito já de um discurso alheio e não conseguir montar a sua própria voz, constituir sua própria presença não-mediada (aquela fonte-de-cabulosidade-lírica-própria que quase todo poeta ocidental tá sempre querendo constituir, como mostra o tio Bloom).

O título troncho e bobo, aliás, se explica como uma citação de um poema do Ashbery , uma gracinha que pela coincidência divertida até se justifica, mas que acaba soando apenas bobo até você descobrir.

A dependência que Lerner tem de Ashbery parece excessiva, mas ele consegue reverter isso numa auto-consciência de sua mediação (ou belatedness) que quase sempre funciona. Não deixa de ser curioso, no entanto, notar a dificuldade que a ficção americana tem de nos apresentar vozes e figuras novas e expressivas. Depois de décadas nos dando Pynchon, Delillo, Barthelme, Moore, Beattie, Carver, Davis, Mccarthy, Roth, Wallace (e outros), a nova geração parece mais do que pálida. 
Como já foi observado, tem até mais ensaístas interessantes do que ficcionistas (Batuman e JJS sendo os dois mais fortes, talvez).

 Os EUA serviram desse estranhíssimo auto-apontado mito-do-mundo para a segunda parte do século, o que nos deu, entre outras coisas, uma extraordinária sensibilidade ficcional paranóica para lidar com mídia, mediação e história. Mas esse grande momento talvez tenha se exaurido no grotesco hiperconsciente tornado-voz-moral do Wallace. Essa solução enorme e traiçoeira que claramente se coloca como a única resposta expressiva a Pynchon, Barthelme e Delillo, mas cujos imitadores todos se desmontam em sentimentalismo inconvincente.


-

*tanto o Clowes quanto o Ware parecem ter uma disposição parecida, mas são artistas genuínos. A vontade do Ware de fazer um livro absurdamente lindo e diferenciado do produto-livro normal pode parecer fetichístico, o equivalente editorial a edições da Criterion. Mas nesse último exemplo, Building Stories, levando o troço ao quase absurdo ele consegue redimensionar o troço todo como um esforço genuíno de criar uma obra a partir do objeto material, e não só fazer um fetiche da sua distinção e sofisticação (que pode, como no caso do Mcsweeney's, claramente superar o discernimento do seu depto. editorial).

**The Art of Fielding, o outro romance-de-gente-da-N+1, tem uma resposta mais esquisitinha, nostálgica e quase mística rolando ali com o Skrimshander. Funciona mais ou menos. Tem também que o livro revolve em torno de Beisebol, e Beisebol é muito zoado. 

***Re: Wallace e Lerner, que não são autores parecidos, há ainda uma equivalência bonita, ainda que talvez mais acidental do que qualquer coisa. os dois usam os mesmos versos do Ashbery no meio da prosa deles, vindo do mais lindo poema do Ashbery, Self-Portrait in a Convex Mirror.

Like a wave breaking on a rockgiving up / its shape in a gesture which expresses that shape


não acho que isso queira dizer nada, exceto que os dois tem bom gosto (o Lerner cita diretamente, faz todo um gesto da coisa, já que o livro inteiro é um beijo de língua no Ashbery), o Wallace não cita, mete o troço no meio da prosa, mas reconhece nas páginas de acknowledgements que faz a citação.


**** Theory é aquele guarda-chuva americano de pensamento crítico-apresentando-como-escola-de-pensamento, um troço que foram montado a partir da pala de Frankfurt + a outra umbrellada que eles fizeram de French Theory (Derrida, Foucault e Edileuza, essas galere), + psicanálise e estudos culturais de identidade de vários gostos e delineações.

Friday, October 19, 2012

Tropici più tristi 
-
Sempre achei bobo chamar de 'imperialismo cultural' o fato da gente conviver com o fato bruto e enorme da cultura gringa, que chega pra gente desde moleque aos baldes, aos contêiners. Tudo bem que tem que dar nome pra essa coisa, e até acho que tem que ser um nome feio (o fato em si é principalmente feio), mas chamar de 'imperalismo' que fique eternamente passando Um Maluco no Pedaço e tocando UB40 no rádio parece um esbravejamento meio mal direcionado (ou pouco convincente), até desrespeitoso com a cabulosidade de Imperialismo 4 real. 

Na maior parte do tempo, existe um lado bastante tranqs de como o povo engole e assume essas coisas de fora, dubladas, em figurações próprias (Goku desenhado na fachada de uma lanchonete de beira de estrada em Tocantins, adesivo do Calvin dando dedo e fazendo xixi). Deus sabe o que é que o povo assiste quando assiste Simpsons dublado (principalmente os episódios mais recentes, onde nem metade do que se passa deve fazer sentido), mas certamente não é uma recepção passiva e inocente, não é só engolir um apresuntado e pronto. O De Certeau saca isso melhor do que a maioria, mas essencialmente a virada que ele parece dar é aquilo quase qualquer moleque esperto saca com naturalidade e alguma rapidez, que os filmes e desenhos todos acontecem em algum lugar que não esse, que existe uma distância ali, e que essa distância pode (e deve) ser manipulada. 

De fato existe um alheamento possivelmente sério aí rodando ao redor da galera que vive através de uma cultura geograficamente alheia. Mas esse alheamento só parece realmente triste, realmente doído, em quem veste algum elemento da cultura alheia como plenamente sua, algo tão forte que lhe parece devido. E veste tanto que nem consegue ficar de boa no lugar onde vive. Friends é um objeto mais inofensivo e vazio do que qualquer coisa, um entretenimento que nunca nem finge de real ser algo além do que é, mas dá pra ver uma galera que se sente pilhada daquilo, da origem daquela maquinação, de uma forma doída e séria. Que sente um pertencimento clivado e sério diante daquele outro lugar que lhes parece tão mais bonito, tão mais chique.




Monday, October 08, 2012

O livro goiano dos mortos
-


He was by turn of his spirit oddly indifferent to the actual and the possible; his interest was all in the spent and the displaced, in what had been determined and composed round about him, what had been presented as a subject and a picture, by ceasing - so far as things ever cease - to bustle or even to be. It was when life was framed in death that the picture was really hung up. if his idea in fine was to recover the lost moment, to feel the stopped pulse, it was to do so as experience, in order to be again consciously the creature that had been, to breathe as he had breathed and feel the pressure that he had felt. 

The truth most involved for him, so intent, in the insistent ardor of the artist, was that art was capable of an energy to his end never yet to all appearance required of it. With an address less awkward, a wooing less shy, an embrace less weak, it would draw the foregone much closer to its breast. What he wanted himself was the very smell of that simpler mixture of things that had so long served; he wanted the very tick of the old stopped clocks. He wanted the hour of the day at which this and that had happened, and the temperature and the weather and the sound, and yet more the stillness, from the street, and the exact look-out, with the corresponding look-in, through the window and the slant on the walls of the light of afternoons that had been. He wanted the unimaginable accidents, the little notes of truth for which the common lens of history, however the scowling muse might bury her nose, was not sufficiently fine. He wanted evidence of a sort for which there had never been documents enough, or for which documents mainly, however multiplied, would never be enough. That was indeed in any case the artist's method - to try for an ell in order to get an inch. The difficult, as at best it is, becomes under such conditions so dire that to face it with any prospect one had to propose the impossible. Recovering the lot was at all events on this scale much like entering the enemy's lines to get back one's dead for burial; and to that extent was he not, by his deepening penetration, contemporaneous and present? "Present' was a word used by him in a sense of his own and meaning as regards most things about him markedly absent. It was for the old ghosts to take him for one of themselves. 

H James, the sense of the past.

The Yale anthology of rap
-
Se de fato é verdade que neguinho derrubou a distincao de arte erudita e popular (o que parece bem muito discutível), entao não foi pra fazer crítica de cultura popular, foi pra tratar tudo como cultural studies.  Isso significa, quase sempre, tratar cultura como uma aparatosa ilusão coletiva, e essa disposicao torna impossível tratar seu objeto como intencional e expressivo (que é o que a crítica tenta ou tentava fazer). O que resulta disso aí pode, claro, ser muitíssimo interessante, bacana, emancipador para os tios e as tias, articulador disso e daquilo, mas vai articular o que for, quase certamente, com a voz do crítico como principal origem de emanação discursiva, o crítico mostrando como o objeto expressa, quase apesar de si mesmo, isso e aquilo. 

Grafite pode ser levado pra dentro do museu, arte contemporanea pode permitir basicamente qualquer forma expressiva como válida, o rap estudado por gente usando casaco com remendo nos cotovelos, série de televisao resenhada em revista prestigiada, mas quando passa de cultural studies isso quase sempre significa aplicar convencoes interpretativas inapropriadas, ler tudo como quadro, poesia lírica e romance. Qualquer que seja o valor que voce de para Warhol, é certo que nao faz sentido trata-lo como Cézanne (fazendo retrospectiva em salinha branca com as obras originais (originais!) expostas pra gente fazer fila entrar e achar bonito). Qualquer que seja o tipo de valor que neguinho quiser assinalar pra musica pop, quadrinho e perfil do twitter, ele precisa levar em conta as especificas circunstancias retóricas das suas expressividades, suas convencoes proprias, e todo esse bagulho. Carimbar na NYer não é a mesma coisa que explicar direitinho como que algo é bom, e como que merece a nossa atenção.


Sunday, September 16, 2012

Lists, catalogues and other forms of enumeration can also perform a kind of phatic expression in which the midiatic channel is somewhat tested for other instances of representation
-
a/c rafaello trindade

Aos beócios Peneleus e Leitos chefiavam,
e Arquesilaus, Protoenor e Clonios.
Eles habitavam Hiría, a pedregosa Aulís,
Scoinos, Scôlos e a montanhosa Eteonôs
Têspeia, Graia e a extensa Mikalessôs,
habitavam os arredores de Harma, Eilêsion e Erithrái,
possuíam Eleon, Hile e Peteon,
Okalee e Medeon, fortaleza bem construída,
Copai, Êutresis e Tisbe, cheia de pombas,
Coronéia e a verdejante Halíartos,
possuíam Plátaia e habitavam Glisás,
possuíam Hipotebas, fortaleza bem construída,
a sagrada Onquestôs, do esplêndido bosque de Poseidon,
possuíam Arne de muitos vinhedos, Mideia,
Nisa, a santificada, e a distante Anthedon.
Com eles iam cinqüenta naus, e em cada uma delas
cento e vinte jovens beócios haviam embarcado.


--

Se liga aí jardim evana, parque do engenho, gerivá, jardim
rosana, pirajusara, santa tereza.
Vaz de lima, parque santo antônio, capelinha, joão morá, vila
calu, branca flor, paranapanema, iaracati.
Novo oriente, parque arariba, jardim ingá, parque ipê.
Pessoal da sabin, jardim marcelo, cidade ademar, jardim são
carlos, jardim primavera, santa amélia, jardim santa terezinha,
jardim míriam, vila santa catarina.
Aí vietinã, cocáia, cipó, colônia, campanário de adema, calúpso
e são bernardo.
Vila industrial santo andré, bairro das pimentas, brasilândia,
jardim japão, jardim ebron, coabi 1, coabi 2, são matheus, itai,
cidade tiradentes, barueri, coabi de tapas.
Mangueira, boréus, cidade de deus. E aí DF, expansão, P norte, P
sul.
E aí pessoal do sul, restinga.
E aí quebradas, zona noroeste santos, rádio favela, bh.
E pra todos os aliados espalhados pelas favelas do brasil
Firma!

Thursday, September 06, 2012

As formidáveis aventuras de Marcelinho pelo reino da memória!
-
A coisa mais original e poderosa da Recherche não é exatamente a profunda subjetividade e interioridade da memória do Proust. Isto aí já estava, ainda que em outros termos,  ainda que em outro estilo, disponível no Montaigne e no Rousseau (ou até no Santo Agostinho). 

Proust não inventou a possibilidade de se auto-constituir num texto, e como texto (como livro!), e nem a possibilidade de usar a própria memória pra fazer isso.  Essa coisa que o Barthes  tenta assumir pra voz crítica e que parece entranhada na literatura francesa mais forte até que o ethos romântico pra inglesa.

 O troço realmente engata na Recherche (a ponto de assustar) no final, no último volume, no momento de revelação na antesala da madame Algumacoisa onde todo o edifício romanesco omnitemporal da memória  se encaixa numa máquina estética cuja pretensão é nada mais nada menos do que a reversão do tempo, a redenção de toda contingência morta da vida do narrador a partir da equivalência trazida pela memória acidental.

A vida do Marcel toda repetida num encaixe hermenêutico e metafórico que, de uma só vez, explica, justifica e redime tudo aquilo que a gente leu. Aquilo que até então era basicamente um esteticismo espertalhão vira outra coisa inteiramente. 

É uma cena de reconhecimento, claro, a anagnorisis de sempre levada à sua mais extraordinária concentração formal e subjetiva. Eu não conheço nenhum momento isolado mais forte do que aquele em toda a literatura, em pura densidade metafórica e formal. Depois dele se instalar, absolutamente qualquer dimensão interpretativa parece possível. Não estamos mais brincando de modernismo, de França, de subjetividade. Até a anagogia dá as caras. Como o Frye fala do Stevens: chega a parecer religião.


Monday, August 27, 2012

GESTA HUNGARORUM
 ou LISTA CURTA QUE COMPROVA DE FORMA DEFINITIVA A SUPERIORIDADE DA HUNGRIA DO SÉCULO XX  EM RELACAO A DIVERSAS OUTRAS CULTURAS NACIONAIS EUROPEIAS QUE NEGUINHO ACHA O MÁXIMO
-
Béla Bartók
Bela Tarr
Györgi Ligeti
László Krasznahorkai
Sándor Márai
Imre Kertész
Péter Esterhazy
Péter Nádas
Ferenc Puskás e a cabulosíssima seleção de 1954
Rachel Weisz
Györgi Lukács
Louis Székely








Friday, August 17, 2012

Idelber Avelar contra as malvadezas do valor literário


-
Então. Vou falar disso e disso aqui.

(Eu espero, pode ir lá ler)

O problema do Paulo Coelho falar o que falou sobre o Ulysses não está no fato do Paulo Coelho ser um autor bom ou ruim, erudito ou popular. Tem gente que se irritou ainda mais com o que ele disse por achar que um autor tido como sendo de autoajuda barata não estaria autorizado a falar de um grande autor erudito. Claro que esse sentimento é rançoso e tolo, mas o problema está na declaração em si, que foi presunçosa e imbecil.

Uma coisa é dizer quer não gosta ou não se interessa por Ulysses, outra é dizer que é 'só estilo', punhetagem, e que pode ser resumido a um tuíte. É um juízo tão tolo que mal merece atenção além de um senta lá, Cláudia.

 Mas  as engrenagens só rodam dessa forma, com polêmicas vazias, então a Folha publica la uma série de tuítes resumindo Ulysses, foca adestrada que ela é, e Idelber Avelar é acionado, como um pokemon, para reafirmar a contingência dos valores literários e defender Paulo Coelho do fantasma dos elitistas.



1.


É claro que o valor que uma determinada comunidade reputa a uma obra e a um artista depende de pactos valorativos, tecnologias de reprodução e de toda uma parafernália contingente. E claro que você pode sempre  pegar uma axiologia e mostrar o encanamento dela, as fissuras e a paisagem onde ela está montada.

Mas o fato de não haver uma axiologia objetiva e absoluta pairando sobre as nossas cabeças não significa uma equivalência absoluta entre todos nichos culturais expressivos, muito menos uma equivalência estética imperativa entre todas as obras do mundo.

É sempre possível, no mínimo, fazer distinções, distinções que operam dentro de sistemas interpretativos e 'pactos valorativos', claro, mas que não deixam de ter validade, de fazer algum tipo de sentido.

Tá aqui um juízo estético: King Lear é uma obra esteticamente superior à Toy Story 3. Esse meu juízo não me parece absurdo, parece intuitivamente inequívoco como uma tautologia. O fato dele ser um juízo contingente não quer dizer que ele desapareça, estoure como bolha (mas quer dizer sim que ele só vale pra certos sentidos, pra certas instâncias).

2.

O megazord da tradição literária ocidental contém uma série de disposições estéticas, posturas retóricas e formas expressivas (os tropos e topoi de sempre, redobrados sobre si mesmos, enrolados). Em última instancia, como qualquer ordem discursiva, são uma série de schemata para organizar a nossa experiência e codificar a realidade.

É possível derivar da literatura ocidental uma dispersa e tentativa auto-consciência crítica,  mas não uma unidade de valores e formas. Não há preceitos absolutos a respeito do que faz algo ser literatura ou não.

(há convenções formais e de gênero, que falam que Ulisses é um romance, e convenções interpretativas, que falam que Ulisses tem que ser lido assim e assim, convenções no caso introjetadas melhor do que ninguém pelo próprio sr.Joyce operando tudo como deus absconditus, aliás)

A distinção Alta cultura x Baixa Cultura não parece, mesmo, fazer tanto sentido. Mas a conclusão que devemos tirar disso não é "tudo se equivale", porque essa é, no mínimo, uma formulação imprecisa. Tradições expressivas específicas tem sempre uma série de particularidades (de estratégias de interpretação e convenções midiáticas, digamos) que devemos apreender antes de pensar que podemos julgá-las enquanto objetos intencionais e expressivos. Não parece a melhor estratégia interpretativa ouvir rap como se escutasse um quarteto de câmara, ou ler um romance como se fosse um relato objetivo que aconteceu com alguém.

(a outra alternativa é desconsiderar inteiramente o caráter intencional e retórico de qualquer obra de arte e julgar apenas a sua expressividade política, as possíveis figurações que podemos fazer de relações de poder a partir daquilo, e pra isso não precisamos de muita sutileza retórica e estética, só um arsenal de procedimentos de critical theory)

Por muito tempo a cultura popular se distinguiu da erudita por uma suposta falta de complexidade e falta de posicionamento dentro de uma linhagem expressiva auto-consciente. Mas hoje a gente tem boa noção de que qualquer cultura popular de nicho de vinte ou trinta anos de idade pode se vangloriar de ter um cânone, uma gramática expressiva complexa e uma série de matizações semióticas e retóricas próprias. Qualquer indie rock ou quadrinho alternativo pode se declarar highbrow e ganhar legitimação dos canais tradicionais (New Yorker) ou criar os seus próprios (Pitchfork).

Então, em certo sentido, o Sr. Avelar está certo. Nós mal temos hoje o vocabulário crítico para articular qual seria a distinção entre o Paulo Coelho e o James Joyce. Eu acredito que ela exista, e que seja uma distinção importante, mas pra oferecer uma articulação dela teríamos que sair do campo de valores rigidamente estabelecidos da teoria crítica.

(o fato de que não temos hoje o vocabulário para falar de uma coisa não quer dizer que isso não exista, embora a confusão seja compreensível)

 A ficção que se entende como 'literária' não é mais nem menos convencional do que os livros de fantasia, o livro policial ou a pornografia (esses gêneros podem até talvez ser mais formulaicos, mas mesmo isso é bastante discutível).

Há poucas imaginações mais controladas e comportadas (mais convencionais) do que a da literatura contemporânea, mesmo parecendo tão diversa e histérica.


Uma lista curta de preceitos não-ditos sobre literatura contemporanea em forma de letra de música ruim!
 parti pris subjetivista, 
da dispersão, do descontínuo, 
sem valoração moral ostensiva, 
sem breguice, sem puxar muito forte pra alegoria,
 pastiches e paranoia,
lirismo das aporias e da incomunicabilidade, 
da impessoalidade, ironia dramática,
mundo sem teleologia narrativa ou moral,
pastiches de paranoia.


 Justamente porque a literatura contemporânea é bastante convencional é que nós podemos julgar (com alguma precisão) quando uma obra pretende ser julgada de acordo com seus critérios ou não.

Paulo Coelho não tenta fazer literatura dentro dos moldes convencionais da literatura que se compreende literária e quer ser julgada por crítica de jornal, ao que parece (é sempre possível imaginar que ele seja um Pierre Menard ou um Duschamp executando um gesto lindo de retórica que só será inteligível daqui a cinquenta anos).

Se os seus livros tiverem valor (e é sempre possível que eles tenham algum tipo de valor), eles o terão de acordo com outra sensibilidade que não exatamente aquela disponível na literatura tida como séria pelos canais midiáticos convencionais (nessa semana representados pelos queridos Alcir Pécora, Camille Paglia e Teju Cole, obrigado pela presença, gente)

E é claro que existem critérios particulares à tradição literária ocidental, critérios que não necessariamente entram em questão dentro de outros nichos expressivos. De originalidade estilística, complexidade psicológica e moral, sofisticação retórica e estilística, posicionamento frente à tradição, auto-reflexividade, organicidades e unidades formais e intencionais.

Você pode acolher esses critérios ou não, figurá-los como quiser, mas não faz sentido fingir que eles não existem, que não temos na nossa fantasmagórica tradição discursiva procedimentos disponíveis para julgar se um texto é esteticamente bem-sucedido ou não.

 Nós temos muitos, muitos, muitos desses procedimentos.

3.

O que o Sr. Avelar parece dizer é que, faltando qualquer troço transcendental, a gente só poderia se apoiar na circularidade tautológica das tecnologias de valoração. Ou seja: Shakespeare é lido porque Shakespeare é lido, ele é tido como importante porque é tido como importante.

De fato essa circularidade existe, é claro que há um ciclo de realimentação que faz com que monumentos culturais se mantenham vigentes (exigidos em provas, partilhados como certificados de alfabetização dentro de uma comunidade).

Não fossem esses mecanismos circulares, dificilmente um livro como Ulysses continuaria editado e corrente dentro da nossa cultura. Ele é muito mais admirado como totem modernista e festejado de boca cheia do que propriamente lido, e todo mundo sabe disso.

(e é difícil de entender exatamente onde que se mantém a fantasmagórica e empedernida cultura elitista. qualquer caderno cultural hoje resenha filme do Tarantino e seriado da HBO como se fosse romance russo, boa parte dos jornais parece incapaz de mencionar a existência do Ulysses sem botar alguém pra rir de canto de boca e falar 'RS puta livro doido')

Mas a circularidade tautológica das 'tecnologias de reprodução' não esgota o assunto. Primeiro, porque não explica como esses corpos de texto se formaram (que é, aparentemente, matéria de muito interesse para o Sr. Avelar, curioso para as curiosidades políticas que isso deve revelar, imagino).

E, segundo, porque não traz uma redução causal absoluta do porque que determinados livros continuam expressivos ao longo dos séculos e outros não (não explica direito nem porque que determinadas obras de determinados autores se afirmam perante outras).

A leitura da tradição é uma vasta prosopopeia que fazemos dos mortos (como diz o De Man). Nós podemos eleger os filtros e vozes que vamos repetir, e os papeis que daremos a eles. Mas a partir do momento que nós repetimos essas vozes nós estamos sempre as colocando em algum fundo, dando a elas algum tipo de valor. Não há grau zero, espaço-em-branco.


4.

Se realmente fôssemos operar sem nenhuma axiologia, a crítica deixaria de existir.

Isso fica evidente no próprio exercício crítico ali do Idelber Avelar defendendo o Paulo Coelho dentro da Folha de São Paulo.

Ele não nega ou desconstitui a estrutura do valor literário convencional ao dizer que Paulo Coelho é bom. Ele só inclui Paulo Coelho dentro da lógica estabelecida, onde um caderno literário respeitado (risos forçados da plateia) atesta a qualidade de um autor.

O engraçado aqui é que Idelber Avelar não se acha só mais um jornalista distraído da Folha. Ele é um acadêmico consciente das ramificações ostensivas da atividade crítica das últimas décadas, e acha que está operando atividade crítica interessante ali ao chocar uma parte da burguesia e entronizar o valor tão 'polêmico' do Paulo Coelho.

Seria de fato muito interessante ver o sr. Avelar desconstituir os nossos preceitos tradicionais de valoração literária e apresentar outros, esguios, próprios, orgulhosos e interessantes, nos quais os livros de Paulo Coelho figuram em extraordinária expressividade.

(Eu não conheço bem os livros de Paulo Coelho, e portanto não ofereço nenhum juízo a respeito da sua qualidade, aliás, óbvio)

 Eu seria todo ouvidos a um homem academicamente sério e, ao que parece, mais culto* que a média, tentando defender o valor estético do Paulo Coelho.Mas ele não faz isso. Ele mal chega perto de oferecer alguma formulação interessante a respeito de qual seria, então, o valor do livro. O mais próximo que ele chega de fazer crítica é sugerir que o fato do Paulo Coelho se utilizar da parábola poderia ser uma das explicações para o seu sucesso tão grande e digno de nota (e o Avelar acha que o sucesso do Paulo Coelho o faz digno de atenção crítica, aparentemente, no que eu parcialmente concordo).

É uma explicação que poderia se mostrar interessante, se estendida, mas que dificilmente basta para mostrar porque que o livro do Paulo Coelho seria bom. Basta que ele esteja usando uma forma narrativa pouco usual pra que um livro seja interessante? Fazer uma parábola nos dias de hoje não acaba passando pelo menos perto do problema de parecer kitsch, afetado, um Moisés de gesso? Qual retorcimento retorico é utilziado pelo Sr. Coelho pra reapresentar a parábola para a nossa sensibilidade narrativa?

O Sr. Avelar não endereça nada disso, apenas nos afirma, no topo de sua autoridade enquanto vozinha no jornal e professor dotô respeitado, que o livro é: Bom.

No fundo, o juízo dele é só esse, mesmo. O juízo do intelectual respeitado de que aquele livro é bom. Esvaziado de intenção, como um carimbo.

Parece ser incluído no juízo dele o fato de que o Paulo Coelho defende o Livro de Humanas e os direitos autorais. Eu juro que não digo isso como quem acusa o autor de motivações escusas, apenas digo que isso se deriva muito naturalmente da retórica do seu post. Eu também acho muito bacana que o Sr. Coelho tenha essa postura diante dos direitos autorais. Isso de fato torna ele uma figura mais afável e correta, mas não o torna um escritor melhor.

(a não ser que o Sr. Avelar quiser nos apresentar o seu .pdf onde ele explica como que as intenções políticas corretamente alocadas de um escritor fazem dele uma grande voz literária)

Ele acha que está sambando na cara da sociedade, oferecendo seu dedo em riste de rapper ameaçador.
Mas ele está apenas repetindo o clichê crítico contestador que se espera, substituindo uma axiologia por outra, e chacoalhando cartas de Magic como se fizesse crítica.

*para critérios da Folha, e não do, digamos, departamento de filologia da universidade de Marburgo, claro.



Codinha


O movimento que se entende como 'crítico' hoje em dia é quase que sempre o da hermenêutica da suspeição. Retoricamente é tudo muito parecido, a ponto de ser modorrento. A genealogia, a desconstrução, o gesto que aponta que uma estrutura naturalizada é, na verdade, afinal de contas, gasp!, uma hierarquia contingente.

O engraçado é que a atividade crítica (leia-se, acadêmica e para-acadêmica) acontece dentro de seus nichos fechadinhos de reverberação, suas galerinhas de iluminados em canais midiáticos garantidos e seguros, sistemas de inscrição fossilizados, trocando entre si gramáticas e vocabulários de emancipação como foguinhos prometeicos.

 As interfaces de larga escala com a sociedade que eles pretendem emancipar praticamente não existem, o que significa que tudo aquilo que a atividade crítica se presta a desmontar e desconstruir continua saudável e pimpão aí, correndo pelo Goyaz, indefinidamente, o Snark nunca encontrado.

Jardins imaginários com sapos de verdade, cabeças de hidras como falos logocêntricos decepados todo dia, o dia inteiro, com espada Vorpal +12 contra hipostasias burguesas. Pra até onde durar o hardware.











Monday, August 13, 2012


-
Em algum momento no futuro algum antropológo vai propor a ressignificação de 'orkutização' pra querer dizer uma manipulação irreverente de  "uma estrutura rígida de interface de interrelação social", falando de como o espírito brasileiro da gambiarra e do arrebite e da bricolagem e da favela e do parangolé e do drible sempre plasma sua própria dinâmica de discursividade e vivência no mundo, coisas assim.

Ou algum artigo na ilustríssima (de algum tiozão desses da Serrote que escrevem parágrafos mais longos que a muralha da china sobre o lugar do Chico Buarque na canção brasileira) daqui a uns anos falando sobre a irreverente, ácida e proteiforme expressividade internética brasileira. As coletãneas, as entrevistas com Zeca Camargo. O povo é lento, tá tentando entender o mundo a manivela, mas eventualmente as reverberações chegam neles. É uma defasagem quase mecânica, de quantidade de informação processada, de quantas internetes. Uma reportagem falando a sério que Com filmes dublados na TV a cabo e no cinema. os espectadores não tem mais opção de assistir o filme no original!

Vai ser engraçado (e constrangedor) vendo esses instrumentos todos tentando dar conta da internet de forma tão tardia, de tudo isso que a gente já vive há alguns anos e já trata por casa. Os senadores jogando Tibia.

Tem mais complexidade e autoconsciência retórica num post do Palavras de Magno, numa irrupção d'o pintinho ou do SOSJORGINHO do que em todo o 'Paraíso é bem bacana', um dos melhores romances brasileiros da última década. Claro que eu digo isso inteiramente a sério. Não para menosprezar o livro do Sant'anna, e sim pra valorizar esses outros negócios.

Em algum momento no futuro toda e qualquer cultura expressiva de nicho vai ser nivelada como igualmente valorosa. Não existindo uma cultura com c maiúsculo dividindo valores e propagando hipostasias com as quais todo mundo concorda, toda empreitada estética tem que ser equivalente. Levar a sério a suposta derrocada de distinção highbrow x lowbrow (que nunca aconteceu, não exatamente, permanecendo ainda com outras calças tao bobas quanto). O romance, o tuírer faceiro, a tirinha, o meme formulaico, a ópera, o filme do Bátima, o indie rock, o sertanejo universitário. Tudo é obra, tudo ganha bolsa da Funarte. As duas mídias expressivas morais de larga escala remanescentes (o rap e a esquerda) vão ganhar adaptações cinematográficas com o Will Smith focadas principalmente no mercado internacional. O conservadorismo se concentra no seu potencial indie rock de contestação rebelde e autêntica ao status quo. Pondé faz turnê guiada da Dinamarca explicando a ligação de Kierkegaard com o mensalão. Assinatura pra New Left Review no iPad.Toda industria cultural vira cafezinho, edição especial vendida com paypal, crowdfunding de artista independente. Consumidores sofisticados, todo mundo, de Henry Louis Gates Jr. e Kanye West.

A imaginação pulverizada, fórum tailandês de história em quadrinho de super-herói, guilda pernambucana de World of Warcraft, terceiro encontro latinoamericano de crítica pós-colonial, filme brasileiro estrelado pelo Nicolas Cage, .ALAC do Nelson Cavaquinho.





Wednesday, August 08, 2012

taí um conto que escrevi tem já anos, boto fé, e que estava lá um .doc parado num canto ganhando proverbial poeira, sem fazer nada.

Marketing pessoal transforma 
-

O táxi estava frio dum ar condicionado excessivo, tudo detido e fixo contra a noite quente lá fora, laranja e móvel.

    Com o rádio ligado em uma discussão desanimada e surpreendentemente técnica sobre economia, Wallyson sucedia em dormitar por pequenos períodos, confusamente, tentando sempre se recompor para que o taxista não percebesse que ele dormia, tentando disfarçar todos seus pequenos gestos denunciatórios - de olhos pescando e cabeça pendendo pra frente - com subseqüentes dedos estalados e comentários vagos sobre o trânsito, um pouco para que o motorista não se aproveitasse dele, tomando caminhos absurdos, um pouco porque havia algum orgulho vago a ser mantido em continuar desperto, consciente, um homem partilhando com outro homem aquela função de transporte, uma transação prática e respeitosa, ao contrário de um engravatado gordinho de meia-idade sendo levado, dormindo, de volta pro seu hotel três estrelas de uma rede estrangeira (Comfort International). O composto do marketing do produto pessoa.   

    Um homem de voz presunçosa falava sobre o aumento da confiança dos investidores internacionais no Brasil. O relógio do painel do carro parecia dizer que estávamos no ano 2100, o que dificilmente era verdade.

Ele pagou com a sua última nota, de cinqüenta, e percebeu que teria de tirar dinheiro amanhã antes de ir para o aeroporto, e que não tinha  ainda nem idéia de como acharia um caixa automático ali perto. Ele não conhecia nada daquela cidade. Empreendeu uma reunião de si mesmo que demorou tempo demais, apalpando todos os vários bolsos mais de uma vez e repetindo a constatação – que ainda parecia improvável - de que não carregava mesmo nenhuma pasta consigo, nenhuma mala, nada, uma insegurança confusa que certamente havia tornado inútil seus esforços até então de transparecer ao motorista uma imagem dominada de si mesmo, de alguém perfeitamente consciente de todas as suas circunstâncias práticas. O taxista, jovem e forte e insciente de tudo, de cabelo pintado de amarelo e endurecido de gel, mal olhou pra ele, devolveu o troco em exato, em gestos econômicos, e desejou um boa noite sobre o qual pouquíssimo poderia ser interpretado.

    O hotel era bonito, o que ele já sabia, tinha tudo correto, decoração sóbria e eficiente, funcionários claramente espertos, que entendiam suas funções sem se derramarem de uma maneira inapropriada, o que permitia a Júlio satisfazer a sua necessidade de funções bem oleadas, de se ver participando de uma máquina bem-sucedida e boa. Não era apenas a vontade de conforto saciada e bem tratada, e nem exatamente o gosto de se sentir metido em algo superior, de uma sofisticação financeiramente comprovada, exclusiva, privilegiada, era uma satisfação estética mais indireta, de apreciar que todos ali estavam cumprindo adequadamente uma função pré-determinada, realizando uma forma benéfica no mundo. Os dirigentes corporativos do conglomerado responsável pelo hotel acertando nas suas determinações e projeções, os executivos acertando na sua localização e adequação ao mercado, os funcionários em trabalharem de maneira satisfatória e, finalmente, ele em usar daqueles serviços da melhor maneira. Aquele era um todo agradável de partes funcionando e concordando entre si. 

Vagas intuições se apresentavam na sua imaginação, figuras de uma economia e um país e uma sociedade saudáveis, de todos apertando a mão uns dos outros, aproveitando com lindo respeito todas suas devidas e respectivas possibilidades.

    Tinha um time de futebol se hospedando lá também, ele percebeu. Uns vários, uns vinte e cinco homens uniformizados, na maioria meninos, ouvindo música em fones de ouvido trambolhosos e coloridos, quietamente educados, mexendo tudo no celular. Ele não lembrava direito em que divisão do campeonato brasileiro andava o Ipatinga, então não podia tirar daquele fato nenhuma conclusão satisfatória sobre a qualidade do hotel e de sua posição relativa aos demais hotéis da cidade.

    Ele recupera a chave do quarto no balcão de uma menina linda e gentil  que em nenhum momento olha nos seus olhos. No elevador, subindo pro décimo primeiro andar, ele acha que dá pra dizer que ele é apenas o terceiro homem mais gordo, a partir de uma estimativa rudimentar apanhada discretamente no espelho. Não está tão mal assim.

    Assim que abriu a porta do quarto ficou feliz de reencontrar ali guardada sua pequena mala preta, de rodinha (bagagem de mão, que não tinha que despachar, que ele não tinha que esperar naquelas esteiras lentas que tornavam toda a experiência do aeroporto mais inadequada e entravada do que deveria), deposta em cima da cama, aberta horas atrás para o resgate apenas do desodorante e de uma biografia de Winston Churchill, que ele havia começado, distraídamente, no avião, antes de se ver cativado por um vídeo sobre uma vinícola do Rio Grande do Sul, com gente simpática e trabalhadora expondo os seus sonhos e objetivos profissionais. O desenvolvimento do produto pessoal interno. Transformando sonhos em metas, metas em realidade. Assim que ele colocou o seu cartão no buraquinho da entrada, as luzes e o ar-condicionado e o rádio ligaram, um simulacro de companhia que o encheu de esperança, mais uma vez agradado por ver suas possíveis necessidades já atendidas, já encontradas por delineações técnicas competentes (pelas quais ele havia pago apropriadamente, ainda, é bem certo, o que tornava o quadro e o seu manejo bem-sucedido de expectativas, acima de tudo, justo).

    Ele era um conhecedor profundo de quartos de hotel, de sua aura e de seu peso. Não era um homem bobo, um moleque inexperiente, não estava prestes a sentar na cama e olhar para a janela escura e sentir os vazios que estavam prontos a serem sentidos, as faltas e as quebras que, assim como o rádio e o ar-condicionado, dormiam ali naquele quarto e esperavam ser reanimados por algum ocupante solitário desavisado. Ele sabia, inclusive, que franceses chamavam aquilo de ‘ennui’.  Ele sabia que precisava, acima de tudo, se preencher, manter-se ocupado, para que não espreitassem (de maneira acima de tudo incorreta) os vários fantasmas. Não era tão diferente dos procedimentos encaminhados em outras situações. Como evitar os bloqueios mentais em reuniões? Havia diretrizes e exercícios a serem seguidos em todas essas coisas, pontos objetivos que ele conseguia visualizar quase como se configurassem slides elegantemente sucessivos do Powerpoint.


Ligou, antes de tudo, a televisão, primeiro na Globonews, depois, pensando melhor, na CNN, para exercitar o inglês. O desenvolvimento. Tirou toda sua roupa e a depositou com cuidado na mala, já, poupando o trabalho de amanhã cedo, e resgatou um pequeno short verde-escuro, velhíssimo, de associações positivas de conforto. Foi tomar banho, munido de uma pequena e prática nécessaire, confiante na sua capacidade de desempenhar tudo que a noite lhe requisitava. Ainda se guardava uma ligeira, ainda não inteiramente iluminada, possibilidade de pornografia paga no sistema de TV a cabo do hotel. Ele ainda não entretinha essa possibilidade diretamente, para não destruí-la com antecipação, não apressá-la, mas ela se recostava como um pano de fundo gostosinho por trás de tudo que ele estava fazendo.

    Levou uns cinco minutos até que ele dominasse o funcionamento das torneiras de quente/frio, as modulações que ele devia fazer pra atingir o seu jato ideal de água morna e extremamente forte, que chega a doer no couro cabeludo, que o deixa com a impressão de que o seu banho é uma atividade intensa que ele está desempenhando sobre pressão. O desenvolvimento.

    Apesar da felpudice extrema da toalha, ele mal se enxuga, anda o quarto ainda bem molhado, pingando um rastro ostensivo, ensaiando mínimos e leves passos de boxe, com as mãos aprestadas em defesa de socos invisíveis, o pescoço se deslocando como o de uma tartaruga. Evita olhar no espelho deliberadamente, evita se postar diante dele, porque sabe que a visão não será exatamente lisonjeira, e sabe que se deve evitar feedbacks negativos que ele não possa utilizar no momento, que esse tipo de ‘semente negativa’ deve ser filtrada.

    A vida deve ser um contínuo de sucesso, um movimento único permanente e dominado.

    Sabe que inclusive ele não deveria entreter nem mentalmente a possível imagem do espelho, como faz agora. A pança se derramando além da cintura, se pronunciando adiante como se fosse cair, ou como se fosse derrubá-lo. Haveria um momento possível decisivo onde a sua aparência pessoal desacertada e troncha se reverteria no mundo, a sua aura e suas circunstâncias seriam convertidas em uma aura de poder e de domínio de si. A sua pança uma pança de autoindulgência calculada, não de fracasso. O seu sorriso solto de descontração, não de insegurança nervosa. O pelo embranquecendo em tantos lugares, os seus olhos pequenos sempre parecendo assustados. O pintinho ali curvando como.

    Na televisão eles falam de um terremoto. Earthquake. Ele não sabe se é um novo ou se é aquele antigo. No Chile. Ele já esteve lá. Agora com aquelas imagens de terra cavada e derruída ainda se mexendo, gente chorando, carros cobertos de poeira, estruturas destroçadas, com suas ossaturas aparentes. Agora parecia bobo procurar pelos canais adultos. Parecia o mínimo que faria uma pessoa decente ficar ali em pé com as mãos depostas na cintura observando por algum tempo – cinco minutos? Mais? – a explicação apenas parcialmente compreendida da gravidade dos tremores de terra, a quantidade de mortos, o comprometimento de infraestrutura básica, as ramificações várias, o treinamento e a experiência do povo chileno, as diferenças culturais, as heranças de colonizações e ditaduras diferentes.

     O seu reflexo disponível fraco ali na janela, a cidade escura e tão acesa diante dele, apenas o seu contorno sugerido, meio de perfil, um contorno que ele inicialmente interpreta como sendo de uma outra pessoa, de um estranho. Como se colocar em evidência em reuniões? Como se.

    A palestra de hoje não valeu a viagem, mas não era ele quem pagava pela maior parte, então a sua preocupação não devia se orientar na direção de palavras como desperdício, perda de tempo. Essas palavras tem a sua energia, e só podem ser evocadas em necessidade, ele sabe muito bem. Foi muito correta, a palestra, mas cheio de coisas que ele já sabia, coisas que você consegue depreender já dos títulos dos livros, de entrevistas, de programas no rádio. As pessoas realmente precisam ouvir que projetar uma imagem positiva cria resultados positivos, que uma ambiência de sucesso gera sucesso? Ele já havia compreendido isso muito antes de lhe explicarem de maneira tão didática e repetitiva. Mas fez um networking básico, distribuiu uns cartões, conheceu um rapaz novinho do Maranhão que pareceu muito esperto e energético e falou sobre muita coisa interessante, de oportunidades envolvendo a Copa do Mundo, principalmente. 




No táxi do hotel até o centro de convenções de Goiânia (moderno, ainda que um pouco desorganizado, a fila dos crachás atendida só por aquela menina que errava o nome de todo mundo, e as pessoas ainda insistindo em falar nomes difíceis sem soletrar, o que resultava num pequeno drama de confusão e timidez da menina em perguntar de novo, do crachá impresso com o nome errado e reclamações e um atraso que poderia ter sido perfeitamente evitado se metade das pessoas prestassem alguma atenção no mundo depositado ali bem na cara delas) ele havia conversado longamente com o motorista. Havia falado sobre o negócio que as suas duas filhas tavam criando, a própria jornada profissional delas se estabelecendo sem a sua ajuda, da confecção de bolos decorativos para eventos importantes. Arte com açúcar, chamava. De como já se apresentava a possibilidade de expandir o negócio para uma porção significativa do centro-oeste (aonde o mercado era menor, mas a competição era quase nula). O motorista ficou muito impressionado com a garra, determinação e competência das duas.

    Nada daquilo era verdade. Era parte de um exercício que ele havia inventado para si mesmo uns meses atrás, acontecendo quase exclusivamente com taxistas em viagens a trabalho. De remontar histórias positivas e interessantes da sua vida, histórias possíveis, ainda que não exatamente existentes. A princípio, valia como um exercício retórico e imaginativo de improvisação, mas ele percebeu que parte dele quase começava a acreditar na história, depois de uns dez, quinze minutos. A coerência interna realista que ele rigorosamente tentava obedecer lhe trazia um prazer enorme, com a adição de detalhes particularmente realizados, bonitos e críveis, que faziam todo sentido.

    Com tudo isso aquela linhazinha narrativa se cristalizava na sua cabeça como algo tão possível e tão adequado que ele começava a sentir que estava, de fato, recuperando aquilo da memória e relatando, e não inventando, tirando tudo de sei lá onde, de que buraco dentro da cabeça.

    Uma continuidade que ele criava e sustentava, um pequeno mundo animado e levantando, e que morria logo em seguida. Era muito estranho.

    Agora ele encarava a janela e a cidade escura se espraiando diante dele, uma cidade que ele não conhecia. Mesmo entendendo que era necessário e saudável ter como horizonte de expectativas as maiores ambições possíveis, desenhadas nas maiores escalas e proporções, chegavam momentos onde ele precisava enunciar para si mesmo que não, não aconteceria. Por uma série de razões, boa parte delas de fato não atribuíveis à nenhuma responsabilidade negativa sua, nenhuma culpa verificável. Não aconteceria. Ele não vai se projetar para nada tão além disso aqui, dessa vida que ele já tem, já estabelecida em alguns limites diariamente sentidos, contra os quais ele se chocava e se esbatia regularmente, como o movimento de uma perna convalescente dentro de um gesso. O gerente regional de uma empresa de colchões. O tamanho circunscrito de uma existência, seu lugar delimitado dentro de certas esferas e caminhos já sulcados. O seu esforço em montar imagens de sucesso ele sabia que não era apenas estratégico, ele sabia que partilhava em muito de uma ilusão infantil, do prazer pequeno e sofrido em sonhar com aquelas imagens formidáveis todas em sua grotesca impossibilidade. E qual era o problema nisso?

    O mero fato da nossa vida ser esta aqui, e não qualquer outra.

    Ele havia deixado o hotel fazer com ele aquilo de tão previsível, de tão fácil. Um homem de meia-idade sozinho num hotel, a trabalho. Um hotel apenas razoável, um quarto apenas satisfatório (por conseqüência, um homem apenas).

    Ainda a cidade espraiada e escura, baixa de poucos prédios, pouco desenvolvida, pouco organizada. As lojas, as ruas, o povo, tudo feio. Não só um hotel mais ou menos, mas uma capital de menor importância, e isso num país de terceiro mundo. As sucessivas maneiras em que a sua vida não era a ideal, não era uma otimização de nada. Aqueles vultos derrubados não compõe nem uma sexta, nem uma décima potência dentro do país, inexistente em relação ao resto do mundo. E ele um elemento dessa desimportância, uma parte representativa dessa pequenez.

    Existem meios de montar sua vida, encaixá-la de procedimentos e diretrizes. Isso não é propriamente ingênuo, se você entende os limites da empreitada, e ele acha que entende. Mas não é aceitável permitir essas brechas tolas, essas quebras e escorregões. Como se ele se deixasse guiar lentamente e previsivelmente dentro de um poço perigoso, voluntariamente entrando num mar revoltoso do qual você não saberá sair depois. E ele não sabe como sair disso?

    A idéia de bater uma punheta e dormir com o ar-condicionado no máximo não mais se apresenta como uma realização ótima da noite. Seriam negociações pobres, soluços de uma continuidade destroçada.O dia como uma promessa. Infinitamente estendida, infinitamente rompida.

    Ele se deita devagar, sua posição torta, sua cabeça procurando alguma acomodação aceitável no travesseiro. Na televisão ainda urgem os desabrigados, os assustados, as imagens silenciosas narradas por uma voz eloqüente e calma. Voltando, amanhã, as coisas se tornariam mais fáceis, ele pensa. As vinícolas precisavam de sua atenção, precisavam de uma dedicação administrativa tremenda, de que ele se apresentasse e tomasse as responsabilidades, aparentasse saber o que tá fazendo, transmitisse confiança para os subalternos e para os investidores. Nada disso permite brechas desse tipo, permite esses atoleiamentos, essas viadagens. Ele teria que pressionar os geógrafos e meterologistas pelas projeções que eles haviam encomendado, e adequar isso aos relatórios dos agrônomos, o planejamento para a próxima safra. Ele poderia passear nos vinhedos, a luz vazada pelas folhas, ondulando no chão, as sombras complexas desenhadas, terra úmida com seu cheiro próprio matizado. A sensação de fertilidade e abundância, de elementos utilizados de acordo com o máximo de seus potenciais. Uma enteléquia plena. O desenvolvimento.


Sunday, July 22, 2012

A antologia dos 20 melhores escritores brasileiros !
-

Se você não é uma das quinhentas pessoas que acompanham o canal #literatura do IRC, é bom eu te avisar que houve aí recentemente uma "antologia bravo! dos vinte melhores escritores brasileiros da literatura contemporânea"

Eu não li a a antologia, e não vou falar do seu conteúdo aqui. Vou falar só dos muitos pipocos em volta. 

(estou na internet e tenho opiniões, fmz)

Primeiro: É claro que uma antologia terá autores ruins. Não faz nem muito sentido supor que existam vinte bons escritores no Brasil. Não sei nem se existem vinte bons escritores com menos de 40 em qualquer país (mesmo no Behemoth que é a literatura dos EUA, a New Yorker fez recentemente uma lista que continha ~~muitos~~ autores desinteressantes e limitados, por exemplo).

Pra que pode servir um troço desses? Justamente pra tornar, por meio segundo, essa coisa tão vasta, dispersa e vaporosa que é A Literatura Brasileira Contemporânea! num objeto que as pessoas podem transformar em manchetes, fotos, matérias da Ilustrada (que obviamente, editada por peixes-boi como é, seria incapaz de dar destaque para literatura sem que ela estivesse revestida de alguma coisa fotografável ou resumível em quadro didático imbecil).

O propósito de uma antologia é mais ou menos esse, e não é absurdo ou inválido. É um propósito que pode conter, ao mesmo tempo, uma disposição ostensivamente marketeira e um ímpeto de de fato reunir a atenção coletiva de uma cultura (gasp!) num único objeto passível de discussão e análise crítica.

E como que isso acontece?

É mais ou menos assim: A antologia se apresenta e diz Eu sou a literatura brasileira contemporânea! (quando ela quer dizer, na verdade, eu sou a ficção brasileira contemporânea escrita dentro das convenções da ficção literária estabelecidos mais ou menos a partir da modernidade! e produzida dentro do eixo imaginário rio-sp-escritores-gaúchos!, mas tudo bem, deixa ela. ninguém com meio cérebro leva esses títulos a sério.)

Então a dispersa e distraída nuvem de atenções que compõem, coletivamente, a auto-compreendida literatura brasileira (!) toda se reúne e deglute aquela antologia, comentando todos seus formidáveis detalhes e autossemelhanças.

Adorei aquele! Nossa, odiei aquele! Que doidinho aquele! Veja como hoje a literatura. É possível notar como a literatura brasilei. Etc. Diversidade, modernidade. Referencias estrangeiras!

Infelizmente, não resulta dessa movimentação toda uma auto-consciência muito elaborada a respeito desse vaporzinho que é a literatura brasileira contemporânea. Mas há a disinta e agradável impressão generalizada de que cultura está sendo produzida, que existe uma tradição literária e discursiva acontecendo.

E tem isso mesmo? Não exatamente. É só ver que quase todas as 'resenhas' da antologia não falaram nada muito específico, não criticaram nenhum dos escritores horríveis ali dentro, foram pouco mais do que clippings jornalísticos desatentos, encomiosos e imbecis.** Claro que é quase só isso que esses veículos estão acostumados a fazer, mas no caso de uma antologia teria sido bacana se eles tivessem ao menos tentado a sério oferecer algo que pudéssemos, com boa vontade, chamar de crítica literária.

E é também óbvio, bem óbvio, a ponto de quase não merecer menção, que a vontade dessa pequena bolha discursiva carioca-paulista-gaúcha de aproximadamente duzentas pessoas de se compreender como fazendo a literatura brasileira é tola e risível (e eu não falo aqui dos escritores, falo das engrenagens todas girando em falso em torno do evento antologia, dos editores, jurados e jornalistas se congratulando como munchkins).

Mas acho que o mais importante de uma coletãnea é que nela não faltem os poucos autores que temos que de fato merecem a atenção coletiva desses dispersos, poucos e ruins instrumentos culturais disponíveis (que são, basicamente: Folha, Globo, Estadão, Rascunho, IMS, Serrote, Piauí, editoras e editores e mais uma dúzia de blogs e contas no twitter).

E todos que realmente se destacaram nos últimos anos de fato estão aqui. Galera, Saveedra, Laub e Lísias.*

Depois de se irritar e resmungar e esbravejar diante desse objeto desajeitado, então, o povo bem que podia se concentrar no seu fato mais importante: nós temos quatro bons escritores jovens( e um ou outro que denunciam alguma inteligência e talento). Isso é bom. Não sei se daria pra dizer isso dez, quinze anos atrás.

Seria ótimo se tivessem críticos e revistas decentes em torno desses escritores, mas isso é (por ora) até implausível. Pelo menos tem a internet.

*(mas a Tatiana Salem Levy também está ! E o Cueca! Isso é um constrangimento enorme para todos envolvidos com a antologia (e, porque não?, para o Brasil como um todo), claro, mas é só recortar, queimar e enterrar em ambiente seco as páginas deles que acho que tranqs)

**a boa exceção que eu vi até agora foi do Felipe Charbel, no Globo. ~~..pc2.0 RePreSeNT ~~