Wednesday, November 23, 2011

Ficção científica
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Não me parece acidental que tanto Pynchon quanto Delillo, os dois maiores romancistas vivos da língua inglesa*, tenham uma relação tão profunda com tecnologia. E no entanto a crítica parece dedicar pouquíssima atenção a isto, ainda tratando autores que se preocupam um pouco mais com o assunto como pitorescos ou engraçadinhos. Como se o interesse não fosse tão literariamente digno quanto alguns outros. Tanto que o autor do bastante inteligente e igualmente derivativo C, Tom Mccarthy (que é sobre umas quarenta e cinco coisas, mas é principalmente sobre as incipientes tecnologias de informação no começo do século passado) precisou praticamente apresentar sua sensibilidade com um texto que é quase um manifesto (curiosamente, aliás, admitindo mais a sua linhagem com o modernismo hoje meio esquecido dos Marinettis da vida do que com o Pynchon, que é sua influencia mais óbvia)

Alguns dos motivos da crítica não dedicar sua atenção à tecnologia (e ciência como um todo) de maneira mais detida ou organizada parecem decorrer simplesmente da pouca promiscuidade entre as humanas e as exatas, a maior parte dos acadêmicos dos dois lados se enxergando como habitantes de mundos distintos onde linguagens irreconciliáveis operam. Não que não hajam figuras híbridas importantíssimas, como nas duas últimas décadas os notáveis assim-chamados teóricos de mídia, os Flussers, Virilios e Kittlers da vida (este último um leitor dedicado e bastante sofisticado de Pynchon, aliás), mas essas figuras ainda parecem ter sua influencia restrita a academia, sem respingar muito na crítica literária tradicional da mesma maneira que os cultural studies da vida, por exemplo, respingaram tão tremendamente. Algumas vaguidões envolvendo hipertexto e Cyborgs pode dar as caras eventualmente, mas não parece haver uma noção de que existe um corpo literário importante dedicado ao assunto, não parece estar no arsenal imediato dos novos escritores e nem no imaginário crítico geral.

Outro motivo trivial para essa desatenção talvez seja a divisão rígida de gênero que se enrijeceu com a ficção científica, que apesar de ter algumas obras mais ou menos respeitáveis e ser reconhecidamente um tipo de arte (popular, que seja) com influência extraordinária na imaginação comum, é decididamente considerada como fora do escopo da literatura séria**. O papel admitido da ficção científica é um pouco o de apresentador de idéias interessantes e pitorescas a serem absorvidas posteriormente por autores mais sérios ou adaptadas pra filmes de apelo popular (alguns deles genuinamente fortes, como os do Cronenberg), com Philip K Dick da vida sendo um tanto parecido com o Poe na sua vasta e importante influência, na introdução de uma série de figuras expressivas e idéias realmente interessantes transmitidas com uma relativa pobreza de estilo e de sofisticação formal que impedem ambos de galgarem um degrau mais cabuloso de eminência canônica.

Uma exceção bem notável à essa desatenção da crítica é o livro The Mechanical Muse, do Hugh Kenner, reconhecido principalmente pelo seu trabalho sobre os altos modernistas, especialmente Joyce, que são também os alvos ostensivos desse pequeno livro, analisados aqui especificamente pela sua relação com tecnologia. Além das diversas pequenas observações inteligentes pra caramba, o livro de Kenner poderia ser útil justamente pra ajudar a fazer os críticos mais entenderem as diversas maneiras diferentes que transformações tecnológicas operam nas nossas sensibilidades e na imaginação literária como um todo, como a reorganização prática da vida moderna (os escritórios e os metrôs e relógios) está fortemente presente em Eliot, como Ulysses seria inimaginável sem a ordenação da matéria impressa e como Beckett tem ecos bem fortes de uma racionalidade computacional.

Em parte, claro que a tecnologia já influencia bastante a ficção, mesmo que isto não se reconheça diretamente, influencia tanto a confecção de novos romances quanto a sensibilidade dos novos leitores e críticos (a imaginação visual de alguém que cresceu com rádio é diferente de alguém que cresceu com televisão que é diferente da de quem cresceu com internet, etc), então por que a contínua surpresa quando algum autor dedica muito do seu recorte ficcional a tentar narrar a relação das pessoas com tecnologias relativamente recentes?

Proust, o alto modernista mais etéreo, de registro lingüístico e imagético mais enlevado e aparentemente imune às revoluções da cidade moderna, dedica um tantinho do seu tempo a falar com espanto e entusiasmo esteta do telefone, do carro e do avião. O que ele está fazendo não tem nada demais, é o procedimento altamente natural de um escritor de ficção relatando novos objetos no mundo, os usos possíveis deles e os efeitos que eles trazem à nossa imaginação comum. E no entanto alguns críticos acham estranho ou afetado que se queira dar alguma ênfase a internet, a redes sociais, blogs e etcs. Como se a vontade de narrar isso decorresse de um artificialismo, uma impostura, uma vontade superficial de ser contemporâneo. Tratar desses instrumentos é o mínimo que podemos esperar de um escritor de ficção que tente operar com alguma medida de realismo num livro passado nos dias de hoje. Ainda acham mais contemporâneo (no bom sentido, no sentido correto) e urgente focar em invenções modernistas que se acham pós-modernistas, as colagens e as vozes fragmentadas, as faltas de linearidade, as metalinguagens e os hipertextos, ou sugestões já cansadinhas de narrador instável, de que tudo é texto, do fora, do outro, do corpo, de autoficção, de tudo líquido, subjetividades que não deixaram abstratamente de ser interessantes e que obviamente ainda podem dar um caldo, mas que deixaram há muito de urgir com a contemporaneidade que neguinho parece supor, já se prestando a um bom tempinho à versões kitsch e automáticas (do tipo da desorientada da Tatiana Salem-Levy, por exemplo).

Claro que eu não ousaria chegar perto de uma babaquice de manifesto do tipo que prescreve o que deve ser narrado, não acho minimamente que há uma obrigação dos escritores de se interessarem por tecnologia (quem quer que você queira considerar os outros maiores escritores de ficção vivos - Coetzee, Marías, Cormac Mccarthy, Philip Roth, McEwan, Lobo Antunes, Zadie Smith, Franzen, Piglia, Amos Óz, Aira, Marilynne Robinson, Alice Munro, etc - dificilmente é alguém que se importa muito com isso). Mas me parece pouco controverso que a humanidade tenha passado nas últimas décadas por algumas revoluções técnicas sucessivas que redefiniram um sem número de coisas bastante sérias, no mínimo reposicionando a relação cotidiana que temos uns com os outros, a relação que temos com o espaço, a maneira de culturas distintas se comunicarem e a disponibilidade de informação e cultura que cada um tem. No mínimo.

Num período onde a literatura (esse golem, esse megazord) parece tão choramingona com sua crise de identidade, parece meio ansiosa e esquizofrênica com a disponibilidade paralela de quase todos recursos, sensibilidades e movimentos históricos que a ficção já apresentou, todos aparentando ser dispositivos formais igualmente válidos e igualmente emprestados, não-exatamente-nossos, talvez seria interessante buscar algo timidamente próximo de uma identidade ou uma direção naquilo que mais claramente parece nos distinguir de todas gerações literárias anteriores: os instrumentos brilhosos e altamente esquisitos de que nos servimos agora o tempo inteiro, essa rede absurda de informação que parece funcionar como uma autoconsciência do mundo. E que esse esforço sirva pra reconfiguração imaginativa de tudo aquilo que sempre importou, é claro, todos os temas que realmente valem a nossa atenção e fazem sentido (morte, solipsismo, identidade, o mal, ciúme, a acidentalidade aparente das coisas, a possibilidade teimosa de transcendência, etc) mapeados mais uma vez num novo terreno e numa nova sensibilidade.

*e consequentemente do mundo, dá vontade de dizer, mas aí vocês vão chiar.

** Um caso bem curioso é próprio é Ratner’s Star, do Don Delillo, que é o único livro de ficção científica de extrema sofisticação lingüística e formal que eu conheço. Talvez por isso mesmo seja um dos livros mais negligenciados e menos apreciados do Delillo. É fato que ele termina de forma desajeitada e é bastante estranho, mas isso é verdade de metade dos livros dele.