Sunday, October 09, 2011

Blessed rage for order, bro
-
Logo depois de algum evento desses que mobilizam por alguns instantes a consciência dispersa da internet nós podemos ver em todas as nossas timelines caudalosas e histéricas um direcionamento, forças brevemente entrando em coerência, como pássaros migratórios em formação súbita.

Algumas respostas imediatas e genuínas (morre um visionário, morre um CEO trancador de tecnologia) seguidas de suas subversões irônicas (nossa gente grandes merda todos shora) e reclamações morais sobre reclamações morais, culminando em esvaziamentos absolutos (foto do jesse eisenberg interpretando o mark zuckerberg escrito rip steve jobs 1956-2011), dando a impressão formal muito curiosa de um evento cultural sendo digerido tão diversamente por estruturas fixas de resposta e se tornando rapidinho um tropo. Isto é, um meme, um elemento convencional e estilizado de uma linguagem vasta e móvel onde as coisas importam principalmente por suas capacidades mínimas de articulação estética imediata.

Essa comunidade vasta e principalmente anônima de fazedores-de-meme impressiona principalmente por sua capacidade de definição de um vocabulário comum, de estruturas estilizadas e gramáticas expressivas. Seria talvez mais fácil imaginar que neguinho se dispersasse em vozes sempre imediatamente realizadas, eu acho um tanto surpreendente que tantas formas expressivas fixas sejam estabelecidas de maneira espontânea.

-

Os rage comics são o exemplo mais curioso disso, talvez. Neguinho desenvolveu ali rapidinho uma estrutura figurativa convencional cujos paralelos com formas altamente estilizadas de arte popular são bem óbvios. Os rostos compõe uma gramática básica de sentimentos estilizados e funções narrativas recorrentes, mas tanto a expressividade pictórica específica de cada um deles quanto os sentimentos ambíguos que eles representam são surpreendentes, mais sofisticados do que eu imaginaria provável.

E quase nenhuma das figuras foi desenhada a partir do nada, elas quase sempre derivam de alguma foto ou desenho já existente, apanhado do quase infinito arsenal figurativo disponível na internet. Seria interessante ver uma genealogia dessas figuras estereotipadas e notar de que forma que cada uma foi sendo selecionada como particularmente expressiva e artisticamente fértil. O anônimo brilhante que decidiu retirar de um frame específico do vídeo duma coletiva de imprensa de um jogador de basquete um rosto para expressar uma atitude generalizada de desprezo e superioridade* irônica merece ser valorizado como um artista popular genuíno de uma tradição espontânea tanto quanto um artesão anônimo da idade média responsável por um pequeno demônio notável incrustado na fachada de uma catedral, ou um bróder inca fazedor de urnas funerárias particularmente bonitas.

A seleção que ele fez é particularmente curiosa porque o jogador no vídeo não expressa aquilo que a figura destacada expressa, portanto foi preciso um tanto de sensibilidade pra notar que num vídeo de um homem rindo de maneira bem disposta há um frame que de fato parece conter uma forma essencial e arquetípica de um sentimento tão pouco simples e tão difícil de se expressar sinteticamente quanto ‘bitch please’.

Não há como dizer que a figura só é expressiva por ter sido selecionada e forçada numa forma convencional. Várias outras figuras são forçadas sem ganharem vigência e sem se fixarem dentro do vocabulário comum. Todas as que conseguem se fixar dentro do vocabulário são de fato bastante expressivas na sua especifidade e na sua contribuição pro vocabulário. O fato do artista anônimo ter retirado esse rosto de um lugar tão arbitrário quanto um vídeo de uma coletiva imprensa de um atleta diz bastante sobre a relação que neguinho mantém hoje com imagem, a disponibilidade absoluta de qualquer forma ser transformada em qualquer outra forma a partir de uma mínima equivalência ou sugestividade.

Ou a semelhança apontada entre uma foto do Richard Dawkins e uma da Emma Watson (que beira o literalmente inacreditável e levanta imediatos gritos de 'this looks shopped'). Essas dúcteis e aleatórias equivalências estão aí para serem assinaladas e divulgadas com o mesmo ímpeto com que são feitas as analogias e as relações profundas da poesia, que segundo Baudelaire e Wallace Stevens sugerem sempre a existência possível de um mundo de analogia perfeita ou metáfora total que seria a causa formal da imaginação poética (uma noção que o Northrop Frye remonta ao arquétipo mítico de um cosmos pleno de significado e de autossemelhança)**.

Do mesmo jeito que qualquer cultura lentamente enforma sua tradição pictórica a partir de suas possibilidades técnicas e pressupostos cosmogônicos, neguinho formou rapidinho uma tradição pictórica rudimentar e popular ali a partir da ferramentas mais simples e generalizadas (ms paint) e de um mundo de imagens todas prontamente manipuláveis por seu potencial expressivo imediato.

*matizada com variantes tipo ‘bich please’ ou ‘dumb bitch’ ou ‘fuck that guy’.

**desculpa, mas eu estou falando sério.