Tuesday, September 27, 2011

RESENHA DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORANEA DO LIVRO 'CIDADE LIVRE' DE AUTORIA DO AUTOR-DIPLOMATA-INTELECTUAL JOÃO ALMINO
-
resenha que eu escrevi pra outro lugar (por isso meio engessadinha) e que agora jogo aqui pra não desperdiçá-la:

*música-tema de resenha de literatura brasileira*


-
O romance de João Almino reconstitui a época da construção de Brasília, no final da década de 1950. O protagonista relembra sua infância nesse período e mistura a narrativa histórica e macroscópica aos focos mais íntimos da sua família e de seu amadurecimento.

A voz em primeira pessoa que organiza a história tenta se tornar mais interessante e complicada através de filtros subjetivos e oscilações ambíguas. Além das previsíveis menções à imprecisão da memória e de uma loucura temporária (que todo mundo sempre faz questão de incluir), o narrador ainda menciona duas complicações: um suposto autor que teria transformado o seu relato objetivo e direto numa obra mais literária e a publicação fictícia da história num blog
.
A tentativa de se elaborar um composto retórico complexo com formas e vozes variadas é bem válida, mas os esforços de Almino não trazem praticamente nenhum efeito visível, não conseguem de fato tornar a voz mais interessante e ambígua, são quase só acenos abstratos na direção de uma complexidade narrativa que não chega a existir propriamente. Não sentimos essa suposta tensão entre as vozes do autor primeiro e segundo e os supostos comentários do blog trazendo informações factuais da época são mencionados de maneira bem apressada. No final das contas o registro se mantém sempre o mesmo, curiosamente estável e unívoco.

O livro recebeu diversos elogios entusiasmados da crítica, além de ganhar o prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance. A respeitada Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, disse que no romance de João Almino a cidade de Brasília se torna “microcosmo e metáfora do país, do universo, ou desse torvelinho vertiginoso que é a subjetividade.”

Tudo bem, de fato dá pra dizer que Almino faz um movimento bem evidente no sentido de transformar Brasília em metáfora pra tudo, mas é difícil encontrar algum trecho do livro que realmente encerre uma expressividade do tamanho e do alcance sugeridos por Galvão. O torvelinho mixuruca de subjetividade até existe, mas não causa nada nem remotamente próximo de uma vertigem. Não temos nenhuma metáfora ou descrição original envolvendo a construção absurda, quase fantástica, de uma cidade no meio do nada, não temos nenhuma descrição realmente precisa e interessante dos vários cenários estranhos e situações curiosas que compunham a capital, na época. O material é fértil, e Almino sabe compor alguns momentos de prosa descritiva competente, mas nunca sai do que já sabemos. É um registro pesquisado e mais ou menos meticuloso, é verdade, mas muito mais factual e didático do que imaginativo. Os personagens (o narrador incluso) são remontados com pouco mais do que um nome e uma ou duas qualidades genéricas. Figuras históricas (JK, Elizabeth Bishop, Aldous Huxley) aparecem sem desenhar nada mais interessante do que sua mera presença anedótica, como um ator famoso cuja ponta num filme só tem graça pela sua presença pitoresca ali. Mesmo Bernardo Sayão (o único desses ilustres que Almino efetivamente tenta tornar personagem) parece pálido e esquemático, apesar da facilidade com que sua figura tomaria ares titânicos e curiosos.

O livro é principalmente insosso, e esse problema é generalizado em todos seus níveis. Em parte isso acontece pela aparente incapacidade de Almino de dar voz aos seus personagens, que quase sempre falam pela voz de papagaio do autor, todas niveladas e essencialmente iguais. Da mesma forma, alguns elementos mais interessantes que Almino consegue trazer à história, das profecias místicas absurdas que algumas pessoas tiveram em torno de Brasília e dos vários absurdos de especulação imobiliária e má gestão que acompanharam a construção da cidade, são igualmente nivelados de um jeito raso e finalmente desinteressante, registros mais jornalísticos do que efetivamente imaginativos, sem a organicidade que esperamos de um livro sério de ficção.
No meio de todo o burburinho histórico ainda há uma trama misteriosa envolvendo o pai do narrador e a morte de um homem humilde e simples chamado Valdivino. Mas aqui a indeterminação temporal e espacial do narrador não torna as situações mais instigantes ou férteis, ela só esvazia e dispersa a dramaticidade e o peso dos eventos, que mal acontecem, vão se sucedendo em pipocos distantes de sexo e morte.

A sugestão final, aparentemente, remete a um dos maiores clichês da literatura das últimas décadas: o de um narrador instável tentando dar conta do peso subjetivo da memória dos mortos (um clichê diluído da obra de gente grande como Sebald e o nosso Bernardo Carvalho)
Como nas armações vazias e semiconstruídas de concreto que vemos nas fotos da construção de Brasília, nós temos aqui o desenho e a ossatura, as sugestões formais (até competentes) de um romance histórico subjetivamente informado. Mas não temos nenhum lineamento preciso de verdade, quase nenhum estofo dramático, e nenhuma figura expressiva vivendo lá dentro.

Friday, September 23, 2011

The mouthfeel of a discontinued cola
-
Eu ainda assisto televisão, acredita? 2011 correndo, a singularidade logo ali, pessoas implantando guelras e asas de morcego no Japão (presumivelmente), a topografia dos países nórdicos toda renderizada perfeitamente, smartphones transformando a nossa experiência de esperar no dentista. As coisas agora ficam antigas rapidinho, coisa de quatro ou cinco anos. Aqueles celulares da nokia que todo mundo tinha em 2004 já parecem retrô, como se aquela telinha de uns dezoito pixels esverdeados fosse analógica, montada de cubinhos mecânicos rapidamente combinados. E dentro desse cenário a televisão é como vaudeville, como beisebol, como o U2, um negócio cuja valor sempre foi nenhum e cuja capacidade estimulante agora já se vê irrevogavelmente ultrapassada.

Se fossemos levar nossa vida minimamente a sério, claro que não haveria - fora o futebol - nenhum motivo legítimo para ainda se assistir televisão. A internet é superior na sua oferta de entretenimento em absolutamente todos os níveis possíveis (inclusive dignidade), e mesmo essas recentes reinvindicações de relevância de seriados dramáticos sérios são todas acessíveis optimamente pelo computador ou por DVD.

Já parece uma atividade curiosamente linear e comportada, nossa atenção forçada a demorar numa única coisa a cada momento (mesmo que mudando de canal rapidinho), os programas decorrendo nalgo como tempo real, você tendo que sentar numa hora específica pra ver um programa. E comerciais, meu deus do céu, o povo efetivamente querendo que você fique ali sentado esperando por um programa que já não vale nem 30% da sua atenção enquanto você negocia a posição das suas pernas pra cortar as unhas, esperando por aquela bobagem derivativa enquanto alguém grita no seu ouvido horários de programas ainda piores do que aquele e manobra filmes curtos fantasticamente produzidos com premissas estéticas mais sofisticadas do que toda a filmografia do Michael Bay tentando te convencer a comprar - o quê? - detergente, carro, televisão, umas escolhas de consumidor que você jamais efetuou na vida e nem pretende jamais efetuar com muito cuidado (os comerciais na internet ao menos são selecionados carinhosamente por bots aí que não entendo de forma a me mostrar produtos que supostamente me interessam).

Mas é em parte por isso que eu assisto. Além de uma inércia odiosa e de muito gosto pelo sofá azul da sala da minha casa, eu assisto a coitada pelos comerciais odiosos de perfume que eu deixo no mudo, pela incapacidade daqueles programas de te divertirem e a generalizada inadequação de tudo envolvido (como numa enciclopédia antiga, num jornal dos anos trinta). É até difícil imaginar hoje como que nos anos oitenta pra trás essa mídia parecia tão hipnotizadora e rápida e ostensiva.

E claro que existe sempre algum filtro curioso através do qual se enxergar qualquer besteira na televisão. Por mais que o mundo representado naqueles moldes seja tolo e superficial e principalmente medíocre, há sempre caminhos retóricos curiosos a serem depreendidos de algum comercial (monografias imbecis de cultural studies a serem mentalmente escritas em trinta segundos), elementos divertidos de culturas narrando a si mesmas e montando suas auto-imagens em telejornais e sitcoms de homens barrigudos com mulheres bonitinhas. E pro meu gosto tão facinho existe o quase infinito interesse em todos os pequenos acidentes culturais de vinte anos atrás cuja mínima sobrevivência e compreensibilidade até hoje parece quase literalmente impossível, piadas do Frasier envolvendo cappucinos ou um trocadilho rapidíssimo dos Simpsons como inscrições sutis e quase apagadas em artefatos de couro de um povo pré-colombiano resgatados de debaixo de pedras imensas, imensas.

Friday, September 02, 2011

Ideas from the novel of which this is the unsucccessful Stage adaptation
-
A noção presente de que existe uma inesgotável bibliografia do mundo, sobre nossa experiência contemporânea (risos de parte da platéia), sobre realidades politicas aéreas e dimensões históricas de tudo. Theory, né, o termo guarda-chuva para o qual não sei o equivalente em português. Pensamento crítico? E isso não como uma disciplina acadêmica com suas áreas localizadas de relevância e eficácia, mas como uma extensão de um humanismo, da consciência que um homem-de-letras deve ter de si mesmo e de suas circunstâncias, os instrumentos básicos que ele deve ter pra compreender seu suposto posicionamento dentro de uma contingência histórica infinitamente complexa, de vastos sistemas que-tudo-compreendem. E pra minha geração tudo isso já esgotado de suas ambiências políticas imediatas, de sua urgência e utilidade universitária, disponível em .pdfs e textos xerocados tanto quanto qualquer outra coisa, tanto quanto o Livro Tibetano dos Mortos ou as Enéadas, textos a serem lidos já com uma distância irônica, recortados em uma linguagem datada já reconhecível por seus reflexos diluídos por aí na cultura. Amontoado com todo o resto, toda a montanha de lineamentos discursivos da qual pinçamos fragmentos soltos, apanhados quase aleatoriamente, com uma culpa danada, tentando dar conta de um peso claramente insustentável da Cultura do Mundo, quase como personagens em romances alemães tentando dar conta do peso dos mortos.