Thursday, August 25, 2011

Um trechinho do Barthes
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Pour saisir la puissance de motivation du mythe, il suffit de réfléchir un peu sur un cas extrême: j'ai devant moi une collection d'objets si désordonnée que je ne puis lui trouver aucun sens; il semblerait qu'ici, privée de sens préalable, la forme ne puisse enraciner nulle part son analogie et que le mythe soit impossible. Mais ce que la forme peut toujours donner à lire, c'est le désordre lui-même: elle peut donner une signification à l'absurde, faire de l'absurde un mythe. C'est ce qui se passe lorsque le sens commun mythifie le surréalisme, par exemple: même l'absence de motivation n'embarasse pas le mythe; car cette absence elle-même sera suffisamment objectivée pour devenir lisible: et finalement, l'absence de motivation deviendra motivation seconde, le mythe sera rétabli.
(não tenho a tradução aqui, foi mal, mas vem do Mythologies)
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A associação bem oportuna que Barthes deixa de fazer aqui é que uma mitificação bem parecida com essa que ele descreve do surrealismo foi feita com igual intensidade e insistência pelo nouveau roman da sua época, os Butors e Robbe-Grillets que ele tanto curtia (ou até por alguém posterior menos programático, tipo o Toussaint). O que neguinho fez foi a transfiguração da falta de sentido moral do mundo no principal telos narrativo da ficção de vanguarda, na principal chave interpretativa para o leitor sofisticado, na base de toda uma sensibilidade estabelecida e na resolução pronta para qualquer ambiguidade retórica ficcional. A opacidade tornada mito. Ou seja, todos eventos e todos objetos valorizados de pronto como acidentes (no sentido achoque aristotélico), e de alguma forma resultaria justamente disso o seu poder estético.

(alguém poderia dizer que o Beckett faz algo parecido, mas na real, não. Ele pode partir de um lugar parecido, mas é tudo filtrado por várias baguncinhas próprias dele bem mais expressivas, ele nunca tem essas setas tão didáticas e tão pré-montadas dos franceses).

Thursday, August 18, 2011

O complexo viário Neumer Voltasso
outro divertimento
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O complexo viário Neumer Voltasso começou a ser erguido há quatro administrações atrás. A cidade toda preenchida de cartazes divulgando seu caráter formidável e extraordinário, um novo horizonte, um novo começo. A sua suposta monumentalidade e a perspectiva de grandeza que ela emprestaria a cidade tornavam-no extremamente queridos à fatias demográficas importantes da população (crianças, donas de casa, obesos), e isso fez com que cada administração explodisse de maneira progressivamente irresponsável as pretensões do complexo. O projeto crescia, mudava de nome, dobrava várias vezes de tamanho sem nunca chegar nem na metade de sua conclusão.
O canteiro de obras já quase superava em extensão a própria cidade, hoje em dia. Extensões desmedidas de barro revirado, morros dinamitados, começos de viadutos entremetidos com meios de outros viadutos, tudo confusamente misturado em planuras incompreensíveis de materiais largados e transportados, trabalhadores urgindo e descansando, paralisações por greve, embargos ambientais, incongruências contábeis. Garrafas de plástico vazias desdeixadas por todo canto.

Havia uma pequena cidade dormitório provisória para os operários, no meio das obras, com sua própria também provisória estrutura viária rudimentar, e até um time de futebol jogando na segunda divisão do campeonato estadual (com um menino chamado Jóder comendo a bola, supostamente até já vendido pra algum time Holandês que não era o Ajax). Havia rumores de crianças nascidas lá dentro das obras que nunca haviam conhecido um mundo que não fosse barro, escavadeiras e armações de concreto. Documentaristas suecos vieram para fazer um retrato pungente e denunciatório da condição dessas crianças, mas a bagagem com seus equipamentos se extraviou irreversivelmente (o processo contra a companhia aérea corre até hoje).

Os jornais não inteiramente comprados pela administração gritavam quase diariamente sobre o dispêndio jorrado de dinheiro público, a falta de transparência, os contratos confusos, a ausência de clareza quanto ao projeto do complexo viário. De fato, era difícil entender o escopo do projeto. Olhando de cima (de um helicóptero ou dirigível, por exemplo), ninguém conseguiria dizer como aquele tanto de estruturas sugeridas, ainda discretas, em ossaturas incompletas, frases interrompidas de anéis rodoviários e túneis, balões e viadutos, como que aquilo tudo poderia um dia convergir em algo único e harmonioso, com as tantas faixas exclusivas prometidas para ônibus, plataformas para deficientes locomotivos, auditivos, visuais, grávidas e idosos. Existiam mais de doze destacamentos separados de engenheiros e operários, cada um com cores e mascotes distintos (Equipe Jaçanã, Equipe Bouganvília, Equipe Tamanduá, Equipe Barão do Rio Branco, Equipe Daniela Mercury, etc). Reportagens investigativas mal escritas contavam de uma falta absoluta de comunicação entre os destacamentos, de obras que se chocavam, inteiramente contraditórias, passavam por cima umas das outras, e até supostamente (mas nisso já quase ninguém acreditava) de grupos atrapalhando um ao outro, destruindo trechos já construídos, roubando materiais, enforcando as filhas de lideranças operárias ao entardecer.
Revistas semanais anos atrás dedicaram inúmeras edições comemorativas ao complexo rodoviário, sem jamais conseguir oferecer um desenho satisfatório de como ele pareceria na conclusão das obras. Falava-se de uma complexidade tão assustadoramente complexa que desafiava os nossos sistemas descritivos, as nossas capacidades de representação figurativa. Uma equipe especialista misturada de designers japoneses e noruegueses foi convocada oficialmente, com grande alarde, para finalmente nos oferecer uma imagem compreensível de como resultaria o complexo. Mas seus membros foram quase todos extraviados no jantar especial de recepção, na segunda melhor churrascaria local, onde compareceram mais de trezentos penetras e uma escultura de gelo foi subtraída do saguão. Dizem que alguns dos designers perdidos podem ser encontrados peregrinando pela obra até hoje, as roupas maltrapilhas, olhares maníacos e macbooks com bateria descarregada.

Os poucos especialistas sobreviventes entregaram um relatório imenso em japonês, sueco e esperanto. Uma segunda comissão de especialistas foi recrutada para traduzir esse relatório a uma linguagem mais próxima do senso comum. Até agora, não havia notícia de sucesso. Alguns sugeriam que seria necessário o desenvolvimento de tecnologia holográfica para uma representação gráfica satisfatória do projeto. A administração patrocinava generosamente o desenvolvimento da holografia com isto em mente. A escolha de universidades estrangeiras em detrimento das nacionais nesses investimentos foi severamente criticado pelo senador Glauber Vassourinha.

O que se admitiu, finalmente, em audiências públicas transmitidas em pay-per-view, era que realmente de fato não havia um único projeto coerente, o que haviam eram instâncias, momentos, eventos onde o projeto era sempre discutido e renegociado de acordo com as contingências, as necessidades democráticas, a cor e o suor do povo. Por isso que o orçamento jamais havia sido fixado. Ele jamais seria. Ele oscilava como um beija-flor, como a posição de um elétron que tentássemos observar de maneira impossivelmente isenta. Essa maneira epistemologicamente madura de encarar as coisas foi aplaudida por diversos minutos em audiência pública televisionada, por membros da platéia não enquadrados pela câmera (possivelmente inexistentes).

Alguns partidários da administração propunham que a incognoscibilidade derradeira do projeto se devia a motivos estratégicos, talvez até de segurança nacional. De fato, ocasionalmente podíamos ver grupos das forças armadas praticando manobras de treinamento nas dependências das obras, assim como oficiais misteriosos calados nas reuniões de planejamento semanais, com tapa-olho e charutos apagados que eles manuseavam de maneira misteriosa.

O atual prefeito, Jader Nonato, dedicava quase metade do seu tempo a rebater incansavelmente as críticas da oposição no seu twitter @FalaJader. Falava de como o maior complexo rodoviário estrutural da América Latina seria pioneiro não só nas suas soluções de transporte de pessoas, “mas também de transporte de informação”. Ninguém sabia o que ele poderia querer dizer com isso. Àqueles que sugeriam que a capacidade do complexo seria excessiva, desnecessária para uma cidade de médio porte, o prefeito argumentava que a possibilidade de circulação traria a necessidade de circulação, e que a administração já debatia a possibilidade de importar uns chineses para utilizar o complexo. “Eles não podem sair assim tão caros, afinal de contas, sendo tantos!”

Depois do oitavo carro engolido pelas fendas abertas nas terras da construção, decidiram pela efetivação de um “cemitério dos mártires do complexo rodoviário”, com capacidade para dez mil cadáveres. A administração comprou para a inauguração do cemitério uma centena de pavões comemorativos, uma edição limitada de pavões geneticamente alterados, com cores novas e instigantes. A falta de delegação de uma força-tarefa especial para cuidar dos pavões acabou resultando na dispersão de quase todos os bichinhos, com relatos dos habitantes das obras do complexo matando os pavões para comer sua carne e confeccionar vestidos e cocares. Uma foto infelizmente vazada na internet de um churrasquinho de pavão acabou atraindo atenção de organismos internacionais e a pressão pela presença de entidades isentas para verificação do impacto ambiental das obras. As entidades chegaram com grande festa da mídia local, que não entendia muito bem o que se passava e acreditava que a presença de estrangeiros só podia ser coisa boa. Os relatórios resultantes foram formidáveis, alertando para um desastre ambiental sem precedentes, com centenas de espécie da fauna e da flora dizimadas sem necessidade alguma, remodelações irresponsáveis das propriedades geográficas, risco de contaminação química e nuclear, etc. Livros acadêmicos já estavam sendo escritos sobre aquele que seria doravante um caso exemplar, redefinindo as possibilidades até então consideradas de desastre ambiental.

Os embargos resultantes desse escândalo parecem definitivos. Tudo foi parando, os operários desempregados construindo suas casas, oficinas e federações desportivas ali mesmo, em volta daquelas estruturas incompletas. Os poços de água parada virando córregos, o barro derramado, as roupas dependuradas nos volteios e arcos de concreto, de ferro, crianças brincando nos cabos e canos, os buracos, as sugestões distraídas, os ossos de um gigante em decomposição.