Sunday, June 19, 2011

Ainda é possível um blog nos dias de hoje?
Não. Durante algumas horas em 2005 parecia que o blog seria um negócio assim extraordinário, com contribuições decisivas para as necessárias imaginações de nossos tempos, de uma elegância expressiva própria e confiante estabelecida através de (1) escolhas de design particularmente efetivas, (2) posicionamentos retóricos irretocáveis, (3) ironias adequadamente alocadas, etc.
Mas aí não foi.

E como que isto aqui ainda existe?
A existência disso aqui é extremamente discutível. Eu posso estar apenas repostando textos antigos de um blog secreto que todo mundo menos você conhecia, ou postando comentários irônicos sobre a possibilidade do post que acabei de postar. Ou usando como plataforma de divulgação da minha carreira de escritor de livros sérios de ficção *risos da platéia*. Ou posso ter perdido a minha senha e ter sido substituído por 'Bebeto, o mais extraordinário spambot de todos os tempos'*.

Como que você escreve essas besteiras?
Você acorda de tarde e percebe que já são cinco e tanto e o dia já está amarelo e fenecido e pendendo com o peso de sua extremidades murchantes. O que se pode fazer ainda daquele dia ali? Dois computadores estão ligados em cômodos diferentes para que você interaja ali com as telas coloridas e extraia elementos formidáveis, de alguma forma. Isto não acontece, ou acontece de maneira escasssa, um líquido quente trazido num canudinho fino demais, sugado com muita desconfiança. Até esta metáfora ela não sabe o que está fazendo, coitada. O time que você escolheu ainda agora preferir ganha o campeonato mundial de alguma coisa. Celebridades de atribuição confusa são abatidas aos montes. O mundo é todo denominado e pequeno, um desenho animado de si mesmo. Você troca de cômodos, bebe água fria, pensa em colocar meias. Lembra de memes parcialmente bem-sucedidos. Se você estivesse agora habitando um estado de espírito mais interessante, poderia perfeitamente escrever. Pegar esse estado de espírito interessante e extrai-lo de sua abstração aérea ali distante e suburbana usando de metáforas formidavelmente concretas, dando habitação e pernas praquela abstração, sistemas límbicos. Erguendo todo um prédio para o seu estado de espírito, toda uma catedral com arcobotantes e contrafortes cada vez mais denecessários, auto-concorrentes e impossíveis. Sua atenção já se detém nessas ramificações, nos apêndices, nas estruturas burocráticas da imaginação, nas suas consequências possíveis no mundo, suas caixas de comentários, suas reportagens da Ilustrada, suas entrevistas equivocadas, vozes indiretas como esta, enviesadas e supérfluas, e que às vezes parecem as únicas possíveis.

O que você pretende atingir?
Contribuições decisivas para as necessárias imaginações democrático-espirituais de nossos tempos.

*novela a ser publicada em 2013.

Wednesday, June 08, 2011

O artigo da wikipédia sobre si mesmo
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O artigo da wikipédia sobre si mesmo é um artigo da wikipédia sobre si mesmo¹. Ele constitui sua existência a partir da viabilidade formal e necessidade lógica que deriva das premissas e da estrutura da Wikipédia ("A enciclopédia Livre").

Não se pode dizer que o artigo da wikipédia sobre si mesmo não existe, ou que não é notável o bastante, já que ao considerar a sua existência e torná-la assunto para debate, inquérito científico e confirmação de acordo com a disponível realidade, tornamos imediatamente imperativo que a sua existência ganhe atenção especializada e esclarecimento discursivo. A forma mais adequada deste esclarecimento é ele mesmo (i.e. o próprio artigo).

Ele é notavelmente o único artigo que não depende de fontes externas confiáveis, já que toda a sua fundamentação é emanada das forças assertivas da própria Wikipédia².

Se o corpo de editores da Wikipédia decidir descartar o artigo como uma piada ou truque não-tão-espertinho-assim, essa decisão e sua subsequente reverberações nas suas páginas internas de discussão apenas confirmarão adiante a notabilidade do artigo (assim como sua necessidade enciclopédica) com os fogos "ontologicamente confirmatórios da controvérsia".

A tentativa de corrigir a linguagem e postura descritiva do artigo ao dar um passo epistemológico pra trás (ou 'zoom-out') de forma a descrever não o artigo em si mas o fato dele ter sido feito faria com que o artigo deixasse de ser sobre si mesmo e passasse a ser sobre uma controvérsia enciclopédica, o que faria com que ele se auto-destruísse imediatamente. Isso daria início a uma discussão automática sobre a Ética e Prudência enciclopédica cuja inevitável conclusão seria pela restauração do artigo no seu estado inicial.


Ver também:
Die Schraube an der hinteren linken Bremsbacke am Fahrrad von Ulrich Fuchs
Inclusionism
Lists of lists
On Exactitude in Science

Saturday, June 04, 2011

Só uma coisinha sobre Freedom

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Com todo o estoiro jornalístico meio bobo espumando em torno de Freedom, achei interessante esse texto aqui do Xerxenesky sobre a almofadice do Franzen. A reclamação que ele faz é basicamente da transparência da linguagem e das desinteressantes premissas e consequências estéticas que resultam. Acho que o AX acabou resumindo boa parte da birra que muitos críticos tem com o livro. É isso que eu pretendo comentar rapidinho:

*música grave de rosal público de discussão literária, de blogueiro comentando publicação da grande mídia*

A objeção à transparência que corre por cima do texto de AX e por baixo de vários outros pode ser compreendida de duas maneiras:

Uma seria a de acreditar que a literatura passa por tresholds (ou umbrais) estéticos definitivos na sua história, e que o século XX com todas suas atrapalhadas confusões teria tornado impossivelmente ingênuo uma linguagem ficcional transparente, que não tente dar conta da materialidade da linguagemm da artificialidade das convenções literárias e da heteronormatividade do cânone, sei lá mais o quê. Isto não está tão presente na objeção do AX, mas espreita por aí bastante observável.

A outra maneira é mais comedida, apontando apenas que as convenções estéticas do nosso tempo não aceitam bem a transparência, já que as circunstâncias da sensibilidade contemporânea empurram antes pro lado da complicação, do enviesamento, dos filtros e das peripécias retóricas*.

Eu vejo a transparência como um elemento mais neutro do que isso, menos minado e ainda bem útil. É verdade que tendemos hoje a preferir a entrega indireta, a complicação ostensiva, mas esta é uma convenção bastante limitante e limitada, que não pode querer funcionar em qualquer situação.

É também claro que a transparência literária que eu quero dizer não reporta a um grau maior de pureza, digamos, ou a uma objetividade séria. Isto seria, de fato, bem bobo e bem ingênuo. Qualquer transparência literária é necessariamente enviesada, indireta. No fundo estamos usando uma figura de linguagem, assim como quando chamamos um texto literário de sincero ou autêntico. Quando essas qualidades são apresentadas através do filtro da intencionalidade estética elas recebem uma camada de artificialidade retórica adicional, digamos. Ficam entre aspas.**

E vista como um tropo, e não como um grau de pureza, a transparência pode, sim, ser o resultado de uma depuração expressiva complexa e interessante. Acho que é isso que acontece em Freedom.

Sei que o livro não passa tanto essa impressão, de fato Franzen tem um estilo quase desleixado nele. Além do deslize técnico absurdo mencionado por AX, que é verdadeiro e injustificável, também chama atenção o ritmo apressado anedótico com que os eventos são apresentados, com pouquíssimas cenas sendo realizadas em atualidade e particularidade, como se aquela voz guardasse uma confiança tão absoluta na urgência narrativa que aqueles elementos configuram que nenhuma mediação posterior ou cinzelada mais aguda fosse necessária.

É como se o autor quisesse apenas chamar atenção para aquela sucessão de peripécias humanas, digamos, e precisasse nos puxar pela camisa e apontar para elas de maneira quase atabalhoada. Parece desinteressante pra muita gente, e eu entendo que pareça. Mas esta é uma afetação de urgência dentro de uma afetação de transparência, as duas construídas para valorizar um nível específico de construção ficconal, que poderíamos simplificar como: o de criação de personagens convincentes e de sua interação moral dentro de uma reconstrução expressiva dos minute particulars de uma cultura (que o AX chama com um certo desprezo de 'comentário social', o que acho um pouquinho injusto).

Pra mim existe uma inteligência absurda e um grau considerável de deliberação na voz que consegue constituir esse teatrinho moral como se inequívoco e transparente fosse. De qualquer forma, é nesse nível que o livro tem que ser julgado.

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*Alguém que soubesse de narratologia talvez pudesse argumentar que a reversão obtida quando deixamos de confiar num narrador tem funções estruturais semelhantes às peripécias antigas do tipo 'na-verdade-não-sou-um-mendigo-olhem-minha-marca-de-nascença-sou-o-conde-de-Norwich'.

**Em outro nível ainda mais babaca, poderíamos dizer que essas qualidades são sempre literalmente impossíveis e vem sempre entre aspas. Fica aí ao gosto do freguês.

Thursday, June 02, 2011

AVALIAÇÃO
foi mal, Ashbery
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De que forma podemos nos certificar de que a civilização mundial como um todo jamais repetirá um fenômeno como o de Cláudia Raia?
a) através de datas comemorativas memoriais
b) através de filmes dirigidos por Steven Spielberg
c) através do uso de bottons e demais adereços informativos
d) a criação de ministérios

De que maneira se porta o personagem de Will Smith na abertura do seriado Fresh Prince of Bel Air?
a) de maneira jocosa
b) de maneira adequada
c) de maneira digna
d) de maneira espetacular

Se fosse criado uma rede social para as demais redes sociais onde as redes sociais (através de lindos algoritmos ainda não possíveis) combinariam informações de maneira sigilosa de modo a extrair padrões significativos que levassem, por exemplo, à captura de terroristas, isto significaria que:
a) todos estaríamos mais seguros
b) alguns de nós estaríamos mais seguros (seletividade das instituições de repressão)
c) a singularidade teria chegado
d) um filme dirigido por David Fincher.

Quantos de nossos presidentes republicanos podemos dizer que foram constituídos de maneira plenamente democrática?
a)um
b)dois
c)vários
d)nenhum (resposta 'política')

Se um robô de seu trato cotidiano proceder de maneira absolutamente indistinguível de um ser complexo com sentimentos, você deve:
a) destruí-lo
b) chamar as autoridades especializadas
c) questionar o significado de sua própria humanidade (olhando no espelho)
d) procurar em suas fotos pessoais reflexos estranhos no espelho que indiquem que os documentos de seu passado foram forjados.

Se Marcos Palmeira aparece num informe publicitário recomendando o uso de um determinado produto, isso:
a) confere credibilidade ao produto
b) confere um senso de informalidade 'bon vivant' ao produto
c) confere um ligeiro acréscimo de esforço cognitivo por parte do consumidor
d) leva o consumidor a acreditar que aquela cena faz parte da novela

No caso de desastre nuclear e subsequente desfalecimento do sistema financeiro mundial, qual desses quadros nacionais é mais provável:
a) uma ditadura militar-sindicalista presidida por um triunvirato de ilustres da sociedade civil (ex: Sílvio Santos, Zico e Eri Johnson)
b) uma gincana violenta de proporções nacionais organizada pela Petrobrás "A Nossa Força"
c) uma edição extraordinária "guerra civil" do campeonato brasileiro
d) "A Grande Família"

Se dois homens de personalidades muito distintas se vêem circunstacialmente forçados a viajarem juntos e cuidar de um bebê, este é um:
a) procedimento com consequências cômicas
b) momento para reflexão
c) todos podemos nos identificar com esses personagens (universalidade de tropos narrativos)
d) "O que é arte", de Leão Tolstói.


De que maneira as nossas instituições governamentais e civis podem se preparar para um estado de maturação onde estejamos prontos para receber a copa de 2014?
a) seminários sobre redes sociais
b) marketing viral
c) colonização holandesa
d) max gehringer
e) a criação de ministérios


O que é a China?
a) um composto de documentos
b) uma coleção de estados mentais
c) um território imaginário
d) uma cultura formidável


E no entanto somos inelutavalmente forçados:
a) a continuar
b) a adotar medidas paliativas que estabeleçam novas estruturas
c) a reconsiderar a efetividade de nossos mecanismos de pensamento
d) a manter uma distância segura (3 a 5m)