Saturday, May 14, 2011

Notas sobre The Pale King (devem fazer pouco sentido para quem não leu, o que deve ser praticamente todo mundo, eu sei)
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TPK é o primeiro romance póstumo e não-terminado que leio que já tem embutido como parte de sua estrutura várias lacunas deliberadas, como anúncios de eventos que não acontecerão (ou aos quais não teremos acesso narrativo direto). A sensação é redobradamente estranha, então, já que ficamos bastante no escuro na nossa tentativa de delimitar que lacunas estavam ali prontinhas e cavadas e quais seriam eventualmente preenchidas e narrativamente endereçadas. Quais pontos nebulosos estão lá de propósito, quais não.

Todo mundo parece ter pego do livro o seu substrato narrativo (e moral, né) mais óbvio e escancarado: do tédio, de suas inúmeras implicações e que espécie de atitude podemos ter diante dele, algo como a dramatização ficcional de alguns dos elementos presentes no discurso que DFW fez em Kenyon e que desde então se tornou adesivo e tatuagem, atomizado como pregação. É um resumo correto, de fato é o substrato mais óbvio do livro e DFW faz menção direta a ele nas notas incluídas no apêndice. Mas ninguém parece ter percebido o outro nível em que esse núcleo do livro pode ser formulado, tão mais elegante, e que aparece enunciado em alguns dos momentos mais extraordinários do livro. De como informação excessiva é apenas complexidade irrelevante se não conseguimos extrair padrões interpretativos que realmente importem, e de como hoje em dia a organização intencional de informação (sua humanização ou curadoria, eu digo) é muito mais relevante do que a sua produção. É uma formulação também vaga, sim, mas que consegue reverberar no livro em instâncias diferentes, e que literariamente vai ganhando todo tipo de nível curioso (a literatura ela mesma é, afinal, uma maneira de organizar informação).

Sylvanshine com seus acessos místicos aleatórios a informação atomizada, descontextualizada e desimportante é das melhores idéias isoladas que DFW já teve, e sustenta comparação com os melhores personagens alegóricos do Borges, com a vantagem de ser bastante engraçada.

(esse nível do livro é estranhamente atual, aliás; algo inesperado para alguém que parecia ter desistido da coisa do palanque de voz-do-zeitgeist, que mal habitava a internet e que decidiu situar o romance nos anos oitenta)

É muitíssimo difícil interpretar pra onde caminhariam os eventos sobrenaturais do livro, e acho que continuaria muitíssimo difícil fazê-lo mesmo se o livro tivesse sido terminado; ainda é dos aspectos mais misteriosos e menos abordados do IJ. É um dos aspectos mais estranhos e menos explicáveis da sensibilidade do DFW, o que é ótimo. Suas preocupações morais e filosóficas recorrentes e alguns de seus recursos estilísticos insistentes correm o risco às vezes de montarem um universo e uma sensibilidade controlada demais por determinados procedimentos. A esquisitice dos eventos sobrenaturais é uma forma (bem-sucedida, eu acho) de quebrar nossas expectativas e bagunçar o mundinho que ele estabelece.


O apêndice inclui uma quantidade de notas ainda incertas, com rascunhos e possibilidades pra história e pros personagens. Não sei o quanto elas teriam sido editadas pelo Pietsch, e nem tenho idéia detalhada do modus operandi do DFW pra julgar, mas a estranha eloquência preparada e bonitinha dessas notas deixaram setores da minha cabeça considerando a possibilidade delas terem sido escritas já considerando que o livro bem possivelmente não seria terminado, como uma explicação e guia interpretativo para os leitores que ele sabia que existiriam. Isso é horrivelmente triste (mas talvez seja uma imposição imbecil da minha imaginação besta).


A ausência do trechinho ‘All That’ me parece muitíssimo estranha. Não só por ter sido previamente publicado como trecho do livro, mas por me parecer ter ecos temáticos bem claros com o TPK, principalmente com a onda infelizmente vaga e pouco explorada de validade-da-experiência-mística-individual-enquanto-experiência-subjetiva que remete ao Varieties of Religious Experience do William James.

Há um diálogo desbragadamente político sobre civismo que aparece de um jeito um tanto isolado no livro, muito pouco contextualizado. Esse isolamento abstrato não parece acidental, e o trecho é ruim, mesmo, das coisas mais retoricamente simplistas que DFW já escreveu. Ainda bem que nada mais no livro é contaminado.

DFW não brincava a sério de recursões metaficcionais desde Octet, e é estranho que tenha decidido fazê-lo de novo aqui. Não é tão fácil entender qual o ponto das complicações retóricas claras que ele adiciona à voz que se auto-proclama dele mesmo, do ‘autor de verdade’. São complicações, tudo bem, estímulos cognitivos adicionais, e são engraçadinhas, mas me parece um esforço dispensado por pouco efeito. No entanto, julgar o negócio pela metade faz pouco sentido, como com quase tudo no livro.

É impressionante que mesmo algumas idéias vagas para cenas e rascunhos de desenvolvimento de personagens contidos no apêndice já me pareçam mais interessantes e férteis do que toda a carreira de alguns autores consagrados que correm e dançam por aí.