Wednesday, April 27, 2011

A extinção do Curió-macaco
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Concluída em 1987, a extinção do Curió-macaco se deu de maneira metódica e inteiramente deliberada. Todos os levantamentos de organizações internacionais e independentes concordam nesse tanto, e ninguém parece disputá-lo. Os fatos estão eminentemente disponíveis na mídia: declarações de autoridades sobre a necessidade de extirpar o curió-macaco de nosso meio ambiente antes que fosse 'tarde demais', campanhas municipais e estaduais de erradicação do Curió-macaco, com mutirões e gincanas familiares dominicais onde crianças eram encorajadas a trazer quilos de carcaças em troca de prêmios como pistolas d'água e comendas mirins da câmara de comércio, informes federais instruindo no uso adequado de pedras, peixeiras, arapucas, enxadas e bombas caseiras para o extermínio dos Curiós-macacos. Políticos em campanha fotografados segurando pedaços de pau e fingindo participar de uma matança em massa de Curiós-macaco encurralados dentro de uma caixa d'água derrubada e abandonada.

Quando questionados por organizações ecológicas internacionais, as lideranças comunitárias e os transeuntes opinavam de maneira semelhante. Que o Curió-macaco não tinha apenas índole perversa e agressiva, trazendo todo tipo de incômodo para o pequeno agricultor e as pequenas comunidades rurais, entrando em calças e caixotes abandonados, escondendo debaixo de jornais. Mas que sua presença influenciava negativamente o clima e a fertilidade do solo da região em que habitava (ninguém sabe através de que supostos meios), além de penetrar em domínios simbólicos imprevisíveis, supostamente causando pesadelos e erros ortográficos num raio de alguns quilômetros.

Um pássaro gordinho de aproximadamente dez centímetros de altura, o Curió-macaco se distingue de outros pássaros em não sendo, exatamente, um pássaro. A sua cabeça, parecida com a de um macaco, ocupa quase metade do seu corpo, o que o impede de voar e faz com que ele quase sempre esteja tombado no chão. Sua penugem se solta com os meses até cair inteiramente por volta do seu segundo ano (ao qual ele dificilmente chega).

O Curió-macaco passa toda a sua vida gritando um grito desesperado e pouco musical, de nenhuma função evolutiva discernível. De fato, desde a engenharia pouco eficiente de todos os seus sistemas internos até o seu comportamento invariavelmente agressivo (inexplicável sob qualquer ponto de vista) e a inadequação de seus membros motores, nada no Curió-macaco parece trazer vantagem para a sua sobrevivência*.

Desde o momento em que nasce, o Curió-macaco gasta toda a sua energia em tentar matar toda a forma de vida que encontra, incluindo os seus pais (em esforço fraternal conjunto geralmente bem-sucedido). O Curió-macaco não só evita andar em bando como ataca impiedosamente qualquer membro da sua espécie que vem a encontrar com particular e destacada virulência. No entanto, seus dentes, asas e membros inferiores oferecem praticamente nenhuma ameaça perfurante, incisiva ou concussiva.

A primeira menção ao Curió-macaco nas letras nacionais se dá no diário do jesuíta Hernão Nunes, em 1768. Nunes mantinha sozinho um posto de reconhecimento estratégico num território recentemente desbravado hoje pertecente ao Estado de Goiás. Ele encontra diversas vezes indivíduos da espécie correndo desesperados pelo cerrado goiano e tem seus calcanhares prodigiosamente atacados em todas estas ocasiões, precisando usar de gravetos, pedras ou de suas desnudas mãos para matá-los de alguma maneira (já que o Curió-macaco nunca se amedronta, nunca recua diante de qualquer força adversa), uma violência com a qual o jesuíta não estava nem um pouco acostumado e que vai inteiramente contra sua índole.

Ele escreve no seu diário (publicado postumamente) que aquele ser desafortunado depõe inteiramente contra a sua compreensão anterior da natureza e de suas disposições, e que o inteiro despropósito daquela criatura e de seus atos o leva a crer que a natureza é ruim, e que os nossos esforços devem se concentrar em cercá-la, contê-la, refrear seus avanços e garantir a sua atrofia e inevitável derrocada.

*Kuch-Grünbeg relata no final do século IXX ter encontrado uma pequena comunidade no baixo Xingu que teria adotado o Curió-macaco como mascote, figurando-o na sua cosmologia como representante quase imediato de uma divindade menor com atribuições confusas e contraditórias. Kuch-Grünberg interpreta o papel simbólico do Curió-macaco como uma demonstração do caráter caído e falho do universo desde a morte da divindade, assim como da inadequação derradeira dos seus habitantes. De qualquer forma, essa adoção serviria como explicação parcial para a sua sobrevivência.
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Aliás,
meu livro foi resenhado aqui, aqui e aqui. E vou participar dia 1º do FESTIPOA, lá em Porto Alegre. As desculpas que eu peço por essa autopromoção elas não tem fim.