Thursday, March 17, 2011

Figures of adequate imagination
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De vez em quando você vê gente mais ou menos inteligente falando que desde momento X a literatura nunca mais fez grandes livros. A LITERATURA, esse golem, esse megazord. Que ela não nos entrega mais os grandes gênios lapidares, os narradores da epopéia do espírito humano. Muitas vezes escolhem o modernismo como esse ponto de derrocada, Ulysses como exemplo máximo de exaustão. Mas às vezes são mais modestos, reclamando dos últimos vinte, trinta anos e fazendo algumas concessões de gente do pós-guerra (geralmente Beckett e Borges).

Eu (que leio ficção recente e contemporânea com o entusiasmo de groupies adolescentes exultantes) fico sempre meio perplexo. Esse povo já leu Delillo, Carver, Gaddis, DFW, Sebald, Handke, Marías, Óz, Mccarthy, Pynchon, Toussaint, Puig, Roth, Pávitch, Coetzee? Se leu, entendeu alguma coisa?*


De fato alguma coisa parece ter se esgotado, mas não é a possibilidade de talento imaginativo, de narrativas bonitas possíveis, de prosa extraordinária. O que parece ter se esgotado (ou se tornado bem mais complicada) é a possibilidade de se montar uma narrativa historiográfica única, de eleger tradutores inequívocos da nossa sensibilidade e experiência. Nesse sentido eu concordo que Borges e Beckett podem muito bem ter sido os últimos. Os dois parecem os cantos de cisne de uma tradição enorme e absurdamente rica ainda se relacionando de maneira confiante e certa consigo mesma*, quase absoluta. Dá pra enquadrar canonicamente esses caras com extrema facilidade, dá pra explicar bonitinho de onde eles vem e o que eles trazem de novo pra festa, estampar suplementos literários e usar de resumo didático para um bando de tags contemporâneas. As vozes que não concordam com sua grandeza até existem, mas são pouco sérias ou idiossincráticas demais.

Isso significa que a historinha da literatura se tornou mais bagunçada, com pertencimentos de tradição e influência entremesclados e difusos, setinhas de progresso entortadas com várias direções simultâneas. Significa que um dos vários filtros estéticos possíveis - o de um autor dançando break na cara da Tradição - se enfraqueceu, tá quase indisponível. Que as vozes mais fortes e expressivas de agora em diante serão mais particulares, não tão unânimes ou definitivas. Que a tão-elusiva posteridade se tornou ainda mais esguia.


Mas não significa que os autores sejam fracos, que a experiência individual do leitor diante daqueles textos será menos expressiva. Ela pode ser mais contingente, menos absoluta na sua relação com a tradição e com certas possibilidades expressivas. Os melhores Faulkners são mais inequívocos que Suttree, Cervantes é mais importante do que Pávitch, Tolstói será lido por muito mais tempo que DFW. Nada disso diminui (nem deveria diminuir) a experiência individual do leitor, nada disso impede que eu prefira ler Suttree, Pávitch e DFW.

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*Ou ainda: Bolano, Aira, Saramago, Saer, Franzen, Munro, Murdoch, Benhard, Robinson, Houllebecq, Murakami. Isso sem contar os vários inúmeros que eu nunca li, é claro.

**Os dois últimos narradores confiantes e certos são, justamente, narradores de mediação e incerteza, é claro. Há-ha, ai que gracinha.

Sunday, March 13, 2011

The presumed landscape
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Como nossas imaginações e sensos de realidade são constituídos por pecinhas de lego e silhuetas recortadas de papelão, nunca dá pra saber exatamente o que vai lograr um nervo, o que vai nos parecer urgente e importante. Um terramoto é certamente algo tremendo e formidável, a terra racha e treme, devora coisas, mata muita gente, é tudo horrível. Mas estamos aqui quase todos nós em lugares prodigiosamente desprovidos de tremores, enquanto ouvimos e lemos o que acontece. A terra deita descansada e calma, sem rachaduras, com cheiro gostosinho de chuva. E acaba que nos percebemos (alguns) tão tocados quanto quando passando brevemente de canal nós vemos a Calista Flockhart – já quase engolida pelas fauces da desmemória – dizer ou ouvir de alguém (apenas lemos a legenda) que está com câncer.

Os jornais quase todos concordaram que a imagem exemplar mais expressiva dos eventos lá no Japão ontem era uma criancinha japonesa levantando os braços para que medissem sua radioatividade. De anteontem, era uma linha de senhoras japonesas abrigadas por iguais cobertores azuis. Antes disso, eram carros novos sendo engolidos e levados pela água (carros novinhos!, diz a voz de alguém na minha cabeça). Estas coisas aconteceram mais do que outras, aparentemente.

E como responder? O mundo já sabe de suas deixas e reações, né. Sabe dos seus diagramas infográficos e das suas expectativas de investimento. Ele narra a si mesmo em encaixes de telejornais e hashtags, como uma dona-de-casa francesa num romance do século dezenove. Geralmente temos ainda celebridades e canções beneficentes (com menos pathos, no caso de países de primeiro mundo). Designers desempregados fazem sua parte com imagens bonitinhas tumbláveis de bolas vermelhas e lágrimas estilizadas, com isso não precisamos nos preocupar.

Por mais que respeite e admire – de verdade – a disposição afetiva e emocional de quem consegue se afetar genuinamente por desastres naturais distantes, diversamente figurados e infinitamente disponíveis, ainda não sei como devo domar os potros, os burocratas prussianos da minha imaginação. Como diabos eu modulo a minha reação diante da correção jornalística de mortos que já figuram nos quatro dígitos? Com um ajuste de sobrancelhas?

É sério, eu não sei.