Saturday, February 12, 2011

Uma capivara que nasceu errado
outro divertimento
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Uma capivara que nasceu errado tenta subir escadas e não consegue. Um senhor de cabelos brancos quase inexistentes fumaçando uma cabeça de crânio denunciado está sentado num café do outro lado da rua, batendo a colherinha na sua xícara. Ele se vê estranhamente detido pela cena, pelos membros mal encaixados da capivara e sua protelada dificuldade. Fica tão comovido que decide levá-la para casa, ensiná-la a subir escadas e ‘poder assim participar integralmente dos movimentos do mundo’.

No jantar, percebe que as suas limitações alcançam outras esferas, que a capivara tem dificuldades infinitas ao endereçar o mundo, empacada em todas as direções, de todas as disponíveis maneiras. Ela não sabe trocar lâmpadas, conversar com estranhos, interpretar o impacto político de filmes na esfera pública, cancelar assinatura de TV a cabo ou rejeitar as solicitações do telemarketing. É tudo mesmo muito difícil.

O homem prorrompe em compaixão. Põe a capivara para dormir num composto de almofadas no chão da sala e passa a noite bebendo gin no escuro, chorando silenciosamente e considerando a gravidade de seu recém-revelado chamado.

No dia seguinte estabelece uma série de exercícios cruciais. Ensina a capivara como se faz café, como se dá nó na gravata, como se pede comida em diversos tipos diferentes de estabelecimentos de comércio de alimentos. A lontra tenta comer a borra do café no filtro, chora ao falar com o garçom, quase se enforca com a gravata, etc. É tudo muito divertido. O homem se preocupa, a capivara passa a morar com ele, saindo de casa apenas para ir trabalhar como guardinha noturno numa loja de eletrodomésticos. O trabalho envolve manter uma expressão atenta (o que ela quase consegue) e fazer percursos ociosos pelas dependências da loja, seria todo tranquilo não fosse pelo medo de invasores. A capivara não consegue nem imaginar a motivação necessária para tanto esforço, para sair de casa com caminhonete, cordas, roldanas e armas, usar de violência ou grave ameaça, quebrar vidros, carregar geladeiras, tudo tão difícil! E tudo para poder refrigerar alimentos ou secar roupas! Sentado no seu tamborete, ela admira a industriosidade concentrada dos eletrodomésticos, inveja a sua capacidade sintetizada de realizar tarefas. Eles todos zumbindo o funcionamento de suas maquinarias escondidas, calmamente realizando suas funções, enquanto ela não consegue, cai por aí, se choca com transeuntes, mastiga termômetros, perde vários dedos do pé em incêndios parcialmente provocados por sua inépcia com materiais nem tão inflamáveis assim!

Os exercícios são invariavelmente infrutíferos, mas o homem não desiste, fica acordado diversas noites lendo artigos científicos que não entende e pensando em como diabos redimir a inadequação total e derradeira da capivara . Ela não parece jamais ter se encaixado apropriadamente em nenhuma circunstância. Quase como se contivesse uma disposição negativa diante dos elementos, algo entranhado que sempre acionasse a resposta errada.

Ele pensa isso no escuro enquanto a capivara se debate dormindo, no chão, seu sono tumultuado por zíperes, formulários, parágrafos de historiadores alemães, catástrofes marítimas enormes causadas por ela, frotas inteiras afundando num mar escuro.

A melhor solução que ele consegue projetar é a de um livro, um Manual definitivo de procedimentos onde toda atividade concebivelmente necessária seria didaticamente enovelada. Como se fazer Bouef Bourguignon. Como se determinar politicamente. Como se portar diante de diferentes práticas religiosas. Como escolher um carro com a melhor relação custo-benefício. Como se prantear os mortos. Depois da primeira noite de trabalho o arquivo do Word já contém trinta e quatro páginas. Dessa maneira, em poucos meses ele teria milhares delas! Ele esconde da capivara a confecção do manual, pretendendo fazer uma surpresa no seu aniversário (em junho próximo).


Depois de duas semanas, o manual não passa perto de uma conclusão - nem mesmo de uma delimitação aproximada de seus limites - apenas se espraia adiante indefinidamente, ramificando-se como dedos d’água, obsessivo e progressivamente específico.

Como demonstrar respeitabilidade diante de um grupo de velhinhas assustadas no elevador. Como se esgueirar para atrás do móvel da televisão para ligar os cabos do DVD sem que nada seja derrubado. Como expressar resignação diante das críticas veladas feitas pelo seu sogro a respeito da educação que você dá ao seu filho. Como julgar a trajetória musical de David Bowie a partir dos anos oitenta.

A minúcia dos encadeamentos procedimentais começa a assustá-lo em sua complexidade, o arquivo primeiro de texto abandonado por rascunhos gráficos arvorados, fluxogramas enormes interminavelmente relacionados, cada item abrindo-se em novos e ultrajantes sistemas.

O homem percebe num sonho epifânico grandioso conduzido por David Caruso que o que ele está fazendo é programar a lontra. Olha que merda. Ele não sabe muito de computação, nem de nada parecido, mas a analogia lhe parece apta. E agora as noites que ele não passa em claro detalhado ou planejando novos segmentos e capítulos ele passa acordado preocupado com a capacidade cognitiva da capivara de processar todos aqueles textos e realizar aquelas operações de maneira satisfatória. Essa preocupação, embora ainda distante de ser resolvida, é por sua vez substituída por uma segunda preocupação, se a capivara, mesmo que consiga atingir um estado óptimo de realização de todos aqueles procedimentos (o que parece altamente improvável), seria capaz de realmente entender o que estava fazendo, e extrair das circunstâncias executadas experiências devidamente sentidas e realizadas, preenchidas, completas.

Ele pensa em incluir nos procedimentos um tipo de educação pessoal e sentimental que se certificasse desse resultado, mas as implicações práticas disso quase derretem sua cabeça. É tudo mesmo muito difícil. A capivara ofende a filha do embaixador, cria incidentes diplomáticos, estoura crises econômicas em diversos países emergentes.

O homem não mais dorme, as mãos aprestadas à cabeça, arcobotantes tensos pressionando pele nas têmporas, suando. Diante dele as páginas e páginas do manual, sua impossibilidade grosseira. Enquanto na cozinha a capivara derruba a mesa, açucareiro, colheres, maçãs, copos comemorativos de cerâmica, encosto, pires, a cadeira na qual estava sentada, quebrando a bacia, rasgando tecidos diversos e potencialmente comprometendo o funcionamento de uma série de estruturas vitais.

No quarto, o homem recebe o prolongado barulho de catástrofe com uma espécie de alívio. Permanece quieto na cama. Sonha com um musical formidável dançado por capivaras esguias e elegantes, arranjos complexos e simbolicamente elaborados dançados à perfeição por um composto quase orgânico de centenas delas, todas de fraque, inexpressivas, seus bracinhos seguindo ondulações seccionadas.