Sunday, December 11, 2011

A forma teimosa
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Que o romance continue, meu deus, esse tanto de tempo depois, essas tantas voltas de sensibilidade tornadas, esse tanto de coisa empilhada nas suas costas. Tudo bem que ele não seja mais a forma central de narrativa da nossa cultura (até porque não existem mais formas lá tão centrais, né mesmo), mas que ainda seja relativamente vigorosa dentro de determinadas comunidades, ainda espose algo que só podemos chamar de uma tradição. É verdade que se há uma coisa que podemos dizer sobre o mundo-de-hoje é que tudo sobrevive, nada morre de todo, tudo ecoa indefinidamente tal qual transmissões UHF de filmes do Steven Seagal pelos infinitos do espaço, ou músicas do Lionel Ritchie em rádios libanesas*. Mas a sobrevivência do romance não é apenas a sobrevivência de uma forma pitoresca dentro de uma comunidade insistente e irredutível. Ela é isso também, mas nas suas manifestações mais extraordinárias essa sobrevivência se dá por vontades artísticas tão genuínas e próprias, esforços tão deliberados e precisos de reformulação de certas estruturas dentro de novas circunstâncias, que somos tentados a crer que o romace não sobrevive apenas como uma convenção-de-representação-da-realidade inventado meio acidentalmente por uma dúzia de senhores mortos, e efetivo apenas por circunstâncias mesquinhas e limitadas de apreciação artística e social (uma burguesia ascendente que queria se ver representada e um público leitor feminino que não tinha lá muito o que fazer, etc). Ele sobrevive porque a sua forma de fato encerra um poder de representação enorme e sério, não-trivial, e que chamar esta forma de simplesmente arbitrária e convencional é no mínimo impreciso. Ela pode não ser natural, pode não ter sido encontrada no mundo pronta, mas algumas das soluções que ela encontra pra vontade de representação do mundo são tão bem-sucedidas e flexíveis que chega a parecê-lo, em alguns momentos**. Se toda arte figurativa pode ser compreendida como uma transfiguração de dados ou impressões da realidade dentro de uma mídia expressiva comum, o romance acaba sendo a arte figurativa mais completa ao não só narrar uma versão expressiva do mundo e uma afetação da realidade, mas também remontar o movimento interpretativo do indivíduo diante dessa realidade, tentando compreendê-la, tentando viver nela.

*não só os artefatos culturais permanecem todos quase ridiculamente recuperáveis e disponíveis, não só qualquer forma artística passível de revitalização e pastiche, mas até as próprias mídias sobrevivem relativamente à sua desuetude e relativa superação técnica, as polaroids e os discos de vinil valorizados por uma autenticidade, o calorzinho de que o analógico se investe pra galera que já cresceu com a infinita abstração de tudo digitalizado.

**dá até pra defender isso seriamente, mas claro que (1 ) tenho vergonha (2) não sei do que tou falando.

Wednesday, November 23, 2011

Ficção científica
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Não me parece acidental que tanto Pynchon quanto Delillo, os dois maiores romancistas vivos da língua inglesa*, tenham uma relação tão profunda com tecnologia. E no entanto a crítica parece dedicar pouquíssima atenção a isto, ainda tratando autores que se preocupam um pouco mais com o assunto como pitorescos ou engraçadinhos. Como se o interesse não fosse tão literariamente digno quanto alguns outros. Tanto que o autor do bastante inteligente e igualmente derivativo C, Tom Mccarthy (que é sobre umas quarenta e cinco coisas, mas é principalmente sobre as incipientes tecnologias de informação no começo do século passado) precisou praticamente apresentar sua sensibilidade com um texto que é quase um manifesto (curiosamente, aliás, admitindo mais a sua linhagem com o modernismo hoje meio esquecido dos Marinettis da vida do que com o Pynchon, que é sua influencia mais óbvia)

Alguns dos motivos da crítica não dedicar sua atenção à tecnologia (e ciência como um todo) de maneira mais detida ou organizada parecem decorrer simplesmente da pouca promiscuidade entre as humanas e as exatas, a maior parte dos acadêmicos dos dois lados se enxergando como habitantes de mundos distintos onde linguagens irreconciliáveis operam. Não que não hajam figuras híbridas importantíssimas, como nas duas últimas décadas os notáveis assim-chamados teóricos de mídia, os Flussers, Virilios e Kittlers da vida (este último um leitor dedicado e bastante sofisticado de Pynchon, aliás), mas essas figuras ainda parecem ter sua influencia restrita a academia, sem respingar muito na crítica literária tradicional da mesma maneira que os cultural studies da vida, por exemplo, respingaram tão tremendamente. Algumas vaguidões envolvendo hipertexto e Cyborgs pode dar as caras eventualmente, mas não parece haver uma noção de que existe um corpo literário importante dedicado ao assunto, não parece estar no arsenal imediato dos novos escritores e nem no imaginário crítico geral.

Outro motivo trivial para essa desatenção talvez seja a divisão rígida de gênero que se enrijeceu com a ficção científica, que apesar de ter algumas obras mais ou menos respeitáveis e ser reconhecidamente um tipo de arte (popular, que seja) com influência extraordinária na imaginação comum, é decididamente considerada como fora do escopo da literatura séria**. O papel admitido da ficção científica é um pouco o de apresentador de idéias interessantes e pitorescas a serem absorvidas posteriormente por autores mais sérios ou adaptadas pra filmes de apelo popular (alguns deles genuinamente fortes, como os do Cronenberg), com Philip K Dick da vida sendo um tanto parecido com o Poe na sua vasta e importante influência, na introdução de uma série de figuras expressivas e idéias realmente interessantes transmitidas com uma relativa pobreza de estilo e de sofisticação formal que impedem ambos de galgarem um degrau mais cabuloso de eminência canônica.

Uma exceção bem notável à essa desatenção da crítica é o livro The Mechanical Muse, do Hugh Kenner, reconhecido principalmente pelo seu trabalho sobre os altos modernistas, especialmente Joyce, que são também os alvos ostensivos desse pequeno livro, analisados aqui especificamente pela sua relação com tecnologia. Além das diversas pequenas observações inteligentes pra caramba, o livro de Kenner poderia ser útil justamente pra ajudar a fazer os críticos mais entenderem as diversas maneiras diferentes que transformações tecnológicas operam nas nossas sensibilidades e na imaginação literária como um todo, como a reorganização prática da vida moderna (os escritórios e os metrôs e relógios) está fortemente presente em Eliot, como Ulysses seria inimaginável sem a ordenação da matéria impressa e como Beckett tem ecos bem fortes de uma racionalidade computacional.

Em parte, claro que a tecnologia já influencia bastante a ficção, mesmo que isto não se reconheça diretamente, influencia tanto a confecção de novos romances quanto a sensibilidade dos novos leitores e críticos (a imaginação visual de alguém que cresceu com rádio é diferente de alguém que cresceu com televisão que é diferente da de quem cresceu com internet, etc), então por que a contínua surpresa quando algum autor dedica muito do seu recorte ficcional a tentar narrar a relação das pessoas com tecnologias relativamente recentes?

Proust, o alto modernista mais etéreo, de registro lingüístico e imagético mais enlevado e aparentemente imune às revoluções da cidade moderna, dedica um tantinho do seu tempo a falar com espanto e entusiasmo esteta do telefone, do carro e do avião. O que ele está fazendo não tem nada demais, é o procedimento altamente natural de um escritor de ficção relatando novos objetos no mundo, os usos possíveis deles e os efeitos que eles trazem à nossa imaginação comum. E no entanto alguns críticos acham estranho ou afetado que se queira dar alguma ênfase a internet, a redes sociais, blogs e etcs. Como se a vontade de narrar isso decorresse de um artificialismo, uma impostura, uma vontade superficial de ser contemporâneo. Tratar desses instrumentos é o mínimo que podemos esperar de um escritor de ficção que tente operar com alguma medida de realismo num livro passado nos dias de hoje. Ainda acham mais contemporâneo (no bom sentido, no sentido correto) e urgente focar em invenções modernistas que se acham pós-modernistas, as colagens e as vozes fragmentadas, as faltas de linearidade, as metalinguagens e os hipertextos, ou sugestões já cansadinhas de narrador instável, de que tudo é texto, do fora, do outro, do corpo, de autoficção, de tudo líquido, subjetividades que não deixaram abstratamente de ser interessantes e que obviamente ainda podem dar um caldo, mas que deixaram há muito de urgir com a contemporaneidade que neguinho parece supor, já se prestando a um bom tempinho à versões kitsch e automáticas (do tipo da desorientada da Tatiana Salem-Levy, por exemplo).

Claro que eu não ousaria chegar perto de uma babaquice de manifesto do tipo que prescreve o que deve ser narrado, não acho minimamente que há uma obrigação dos escritores de se interessarem por tecnologia (quem quer que você queira considerar os outros maiores escritores de ficção vivos - Coetzee, Marías, Cormac Mccarthy, Philip Roth, McEwan, Lobo Antunes, Zadie Smith, Franzen, Piglia, Amos Óz, Aira, Marilynne Robinson, Alice Munro, etc - dificilmente é alguém que se importa muito com isso). Mas me parece pouco controverso que a humanidade tenha passado nas últimas décadas por algumas revoluções técnicas sucessivas que redefiniram um sem número de coisas bastante sérias, no mínimo reposicionando a relação cotidiana que temos uns com os outros, a relação que temos com o espaço, a maneira de culturas distintas se comunicarem e a disponibilidade de informação e cultura que cada um tem. No mínimo.

Num período onde a literatura (esse golem, esse megazord) parece tão choramingona com sua crise de identidade, parece meio ansiosa e esquizofrênica com a disponibilidade paralela de quase todos recursos, sensibilidades e movimentos históricos que a ficção já apresentou, todos aparentando ser dispositivos formais igualmente válidos e igualmente emprestados, não-exatamente-nossos, talvez seria interessante buscar algo timidamente próximo de uma identidade ou uma direção naquilo que mais claramente parece nos distinguir de todas gerações literárias anteriores: os instrumentos brilhosos e altamente esquisitos de que nos servimos agora o tempo inteiro, essa rede absurda de informação que parece funcionar como uma autoconsciência do mundo. E que esse esforço sirva pra reconfiguração imaginativa de tudo aquilo que sempre importou, é claro, todos os temas que realmente valem a nossa atenção e fazem sentido (morte, solipsismo, identidade, o mal, ciúme, a acidentalidade aparente das coisas, a possibilidade teimosa de transcendência, etc) mapeados mais uma vez num novo terreno e numa nova sensibilidade.

*e consequentemente do mundo, dá vontade de dizer, mas aí vocês vão chiar.

** Um caso bem curioso é próprio é Ratner’s Star, do Don Delillo, que é o único livro de ficção científica de extrema sofisticação lingüística e formal que eu conheço. Talvez por isso mesmo seja um dos livros mais negligenciados e menos apreciados do Delillo. É fato que ele termina de forma desajeitada e é bastante estranho, mas isso é verdade de metade dos livros dele.

Sunday, October 09, 2011

Blessed rage for order, bro
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Logo depois de algum evento desses que mobilizam por alguns instantes a consciência dispersa da internet nós podemos ver em todas as nossas timelines caudalosas e histéricas um direcionamento, forças brevemente entrando em coerência, como pássaros migratórios em formação súbita.

Algumas respostas imediatas e genuínas (morre um visionário, morre um CEO trancador de tecnologia) seguidas de suas subversões irônicas (nossa gente grandes merda todos shora) e reclamações morais sobre reclamações morais, culminando em esvaziamentos absolutos (foto do jesse eisenberg interpretando o mark zuckerberg escrito rip steve jobs 1956-2011), dando a impressão formal muito curiosa de um evento cultural sendo digerido tão diversamente por estruturas fixas de resposta e se tornando rapidinho um tropo. Isto é, um meme, um elemento convencional e estilizado de uma linguagem vasta e móvel onde as coisas importam principalmente por suas capacidades mínimas de articulação estética imediata.

Essa comunidade vasta e principalmente anônima de fazedores-de-meme impressiona principalmente por sua capacidade de definição de um vocabulário comum, de estruturas estilizadas e gramáticas expressivas. Seria talvez mais fácil imaginar que neguinho se dispersasse em vozes sempre imediatamente realizadas, eu acho um tanto surpreendente que tantas formas expressivas fixas sejam estabelecidas de maneira espontânea.

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Os rage comics são o exemplo mais curioso disso, talvez. Neguinho desenvolveu ali rapidinho uma estrutura figurativa convencional cujos paralelos com formas altamente estilizadas de arte popular são bem óbvios. Os rostos compõe uma gramática básica de sentimentos estilizados e funções narrativas recorrentes, mas tanto a expressividade pictórica específica de cada um deles quanto os sentimentos ambíguos que eles representam são surpreendentes, mais sofisticados do que eu imaginaria provável.

E quase nenhuma das figuras foi desenhada a partir do nada, elas quase sempre derivam de alguma foto ou desenho já existente, apanhado do quase infinito arsenal figurativo disponível na internet. Seria interessante ver uma genealogia dessas figuras estereotipadas e notar de que forma que cada uma foi sendo selecionada como particularmente expressiva e artisticamente fértil. O anônimo brilhante que decidiu retirar de um frame específico do vídeo duma coletiva de imprensa de um jogador de basquete um rosto para expressar uma atitude generalizada de desprezo e superioridade* irônica merece ser valorizado como um artista popular genuíno de uma tradição espontânea tanto quanto um artesão anônimo da idade média responsável por um pequeno demônio notável incrustado na fachada de uma catedral, ou um bróder inca fazedor de urnas funerárias particularmente bonitas.

A seleção que ele fez é particularmente curiosa porque o jogador no vídeo não expressa aquilo que a figura destacada expressa, portanto foi preciso um tanto de sensibilidade pra notar que num vídeo de um homem rindo de maneira bem disposta há um frame que de fato parece conter uma forma essencial e arquetípica de um sentimento tão pouco simples e tão difícil de se expressar sinteticamente quanto ‘bitch please’.

Não há como dizer que a figura só é expressiva por ter sido selecionada e forçada numa forma convencional. Várias outras figuras são forçadas sem ganharem vigência e sem se fixarem dentro do vocabulário comum. Todas as que conseguem se fixar dentro do vocabulário são de fato bastante expressivas na sua especifidade e na sua contribuição pro vocabulário. O fato do artista anônimo ter retirado esse rosto de um lugar tão arbitrário quanto um vídeo de uma coletiva imprensa de um atleta diz bastante sobre a relação que neguinho mantém hoje com imagem, a disponibilidade absoluta de qualquer forma ser transformada em qualquer outra forma a partir de uma mínima equivalência ou sugestividade.

Ou a semelhança apontada entre uma foto do Richard Dawkins e uma da Emma Watson (que beira o literalmente inacreditável e levanta imediatos gritos de 'this looks shopped'). Essas dúcteis e aleatórias equivalências estão aí para serem assinaladas e divulgadas com o mesmo ímpeto com que são feitas as analogias e as relações profundas da poesia, que segundo Baudelaire e Wallace Stevens sugerem sempre a existência possível de um mundo de analogia perfeita ou metáfora total que seria a causa formal da imaginação poética (uma noção que o Northrop Frye remonta ao arquétipo mítico de um cosmos pleno de significado e de autossemelhança)**.

Do mesmo jeito que qualquer cultura lentamente enforma sua tradição pictórica a partir de suas possibilidades técnicas e pressupostos cosmogônicos, neguinho formou rapidinho uma tradição pictórica rudimentar e popular ali a partir da ferramentas mais simples e generalizadas (ms paint) e de um mundo de imagens todas prontamente manipuláveis por seu potencial expressivo imediato.

*matizada com variantes tipo ‘bich please’ ou ‘dumb bitch’ ou ‘fuck that guy’.

**desculpa, mas eu estou falando sério.

Tuesday, September 27, 2011

RESENHA DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORANEA DO LIVRO 'CIDADE LIVRE' DE AUTORIA DO AUTOR-DIPLOMATA-INTELECTUAL JOÃO ALMINO
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resenha que eu escrevi pra outro lugar (por isso meio engessadinha) e que agora jogo aqui pra não desperdiçá-la:

*música-tema de resenha de literatura brasileira*


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O romance de João Almino reconstitui a época da construção de Brasília, no final da década de 1950. O protagonista relembra sua infância nesse período e mistura a narrativa histórica e macroscópica aos focos mais íntimos da sua família e de seu amadurecimento.

A voz em primeira pessoa que organiza a história tenta se tornar mais interessante e complicada através de filtros subjetivos e oscilações ambíguas. Além das previsíveis menções à imprecisão da memória e de uma loucura temporária (que todo mundo sempre faz questão de incluir), o narrador ainda menciona duas complicações: um suposto autor que teria transformado o seu relato objetivo e direto numa obra mais literária e a publicação fictícia da história num blog
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A tentativa de se elaborar um composto retórico complexo com formas e vozes variadas é bem válida, mas os esforços de Almino não trazem praticamente nenhum efeito visível, não conseguem de fato tornar a voz mais interessante e ambígua, são quase só acenos abstratos na direção de uma complexidade narrativa que não chega a existir propriamente. Não sentimos essa suposta tensão entre as vozes do autor primeiro e segundo e os supostos comentários do blog trazendo informações factuais da época são mencionados de maneira bem apressada. No final das contas o registro se mantém sempre o mesmo, curiosamente estável e unívoco.

O livro recebeu diversos elogios entusiasmados da crítica, além de ganhar o prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance. A respeitada Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, disse que no romance de João Almino a cidade de Brasília se torna “microcosmo e metáfora do país, do universo, ou desse torvelinho vertiginoso que é a subjetividade.”

Tudo bem, de fato dá pra dizer que Almino faz um movimento bem evidente no sentido de transformar Brasília em metáfora pra tudo, mas é difícil encontrar algum trecho do livro que realmente encerre uma expressividade do tamanho e do alcance sugeridos por Galvão. O torvelinho mixuruca de subjetividade até existe, mas não causa nada nem remotamente próximo de uma vertigem. Não temos nenhuma metáfora ou descrição original envolvendo a construção absurda, quase fantástica, de uma cidade no meio do nada, não temos nenhuma descrição realmente precisa e interessante dos vários cenários estranhos e situações curiosas que compunham a capital, na época. O material é fértil, e Almino sabe compor alguns momentos de prosa descritiva competente, mas nunca sai do que já sabemos. É um registro pesquisado e mais ou menos meticuloso, é verdade, mas muito mais factual e didático do que imaginativo. Os personagens (o narrador incluso) são remontados com pouco mais do que um nome e uma ou duas qualidades genéricas. Figuras históricas (JK, Elizabeth Bishop, Aldous Huxley) aparecem sem desenhar nada mais interessante do que sua mera presença anedótica, como um ator famoso cuja ponta num filme só tem graça pela sua presença pitoresca ali. Mesmo Bernardo Sayão (o único desses ilustres que Almino efetivamente tenta tornar personagem) parece pálido e esquemático, apesar da facilidade com que sua figura tomaria ares titânicos e curiosos.

O livro é principalmente insosso, e esse problema é generalizado em todos seus níveis. Em parte isso acontece pela aparente incapacidade de Almino de dar voz aos seus personagens, que quase sempre falam pela voz de papagaio do autor, todas niveladas e essencialmente iguais. Da mesma forma, alguns elementos mais interessantes que Almino consegue trazer à história, das profecias místicas absurdas que algumas pessoas tiveram em torno de Brasília e dos vários absurdos de especulação imobiliária e má gestão que acompanharam a construção da cidade, são igualmente nivelados de um jeito raso e finalmente desinteressante, registros mais jornalísticos do que efetivamente imaginativos, sem a organicidade que esperamos de um livro sério de ficção.
No meio de todo o burburinho histórico ainda há uma trama misteriosa envolvendo o pai do narrador e a morte de um homem humilde e simples chamado Valdivino. Mas aqui a indeterminação temporal e espacial do narrador não torna as situações mais instigantes ou férteis, ela só esvazia e dispersa a dramaticidade e o peso dos eventos, que mal acontecem, vão se sucedendo em pipocos distantes de sexo e morte.

A sugestão final, aparentemente, remete a um dos maiores clichês da literatura das últimas décadas: o de um narrador instável tentando dar conta do peso subjetivo da memória dos mortos (um clichê diluído da obra de gente grande como Sebald e o nosso Bernardo Carvalho)
Como nas armações vazias e semiconstruídas de concreto que vemos nas fotos da construção de Brasília, nós temos aqui o desenho e a ossatura, as sugestões formais (até competentes) de um romance histórico subjetivamente informado. Mas não temos nenhum lineamento preciso de verdade, quase nenhum estofo dramático, e nenhuma figura expressiva vivendo lá dentro.

Friday, September 23, 2011

The mouthfeel of a discontinued cola
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Eu ainda assisto televisão, acredita? 2011 correndo, a singularidade logo ali, pessoas implantando guelras e asas de morcego no Japão (presumivelmente), a topografia dos países nórdicos toda renderizada perfeitamente, smartphones transformando a nossa experiência de esperar no dentista. As coisas agora ficam antigas rapidinho, coisa de quatro ou cinco anos. Aqueles celulares da nokia que todo mundo tinha em 2004 já parecem retrô, como se aquela telinha de uns dezoito pixels esverdeados fosse analógica, montada de cubinhos mecânicos rapidamente combinados. E dentro desse cenário a televisão é como vaudeville, como beisebol, como o U2, um negócio cuja valor sempre foi nenhum e cuja capacidade estimulante agora já se vê irrevogavelmente ultrapassada.

Se fossemos levar nossa vida minimamente a sério, claro que não haveria - fora o futebol - nenhum motivo legítimo para ainda se assistir televisão. A internet é superior na sua oferta de entretenimento em absolutamente todos os níveis possíveis (inclusive dignidade), e mesmo essas recentes reinvindicações de relevância de seriados dramáticos sérios são todas acessíveis optimamente pelo computador ou por DVD.

Já parece uma atividade curiosamente linear e comportada, nossa atenção forçada a demorar numa única coisa a cada momento (mesmo que mudando de canal rapidinho), os programas decorrendo nalgo como tempo real, você tendo que sentar numa hora específica pra ver um programa. E comerciais, meu deus do céu, o povo efetivamente querendo que você fique ali sentado esperando por um programa que já não vale nem 30% da sua atenção enquanto você negocia a posição das suas pernas pra cortar as unhas, esperando por aquela bobagem derivativa enquanto alguém grita no seu ouvido horários de programas ainda piores do que aquele e manobra filmes curtos fantasticamente produzidos com premissas estéticas mais sofisticadas do que toda a filmografia do Michael Bay tentando te convencer a comprar - o quê? - detergente, carro, televisão, umas escolhas de consumidor que você jamais efetuou na vida e nem pretende jamais efetuar com muito cuidado (os comerciais na internet ao menos são selecionados carinhosamente por bots aí que não entendo de forma a me mostrar produtos que supostamente me interessam).

Mas é em parte por isso que eu assisto. Além de uma inércia odiosa e de muito gosto pelo sofá azul da sala da minha casa, eu assisto a coitada pelos comerciais odiosos de perfume que eu deixo no mudo, pela incapacidade daqueles programas de te divertirem e a generalizada inadequação de tudo envolvido (como numa enciclopédia antiga, num jornal dos anos trinta). É até difícil imaginar hoje como que nos anos oitenta pra trás essa mídia parecia tão hipnotizadora e rápida e ostensiva.

E claro que existe sempre algum filtro curioso através do qual se enxergar qualquer besteira na televisão. Por mais que o mundo representado naqueles moldes seja tolo e superficial e principalmente medíocre, há sempre caminhos retóricos curiosos a serem depreendidos de algum comercial (monografias imbecis de cultural studies a serem mentalmente escritas em trinta segundos), elementos divertidos de culturas narrando a si mesmas e montando suas auto-imagens em telejornais e sitcoms de homens barrigudos com mulheres bonitinhas. E pro meu gosto tão facinho existe o quase infinito interesse em todos os pequenos acidentes culturais de vinte anos atrás cuja mínima sobrevivência e compreensibilidade até hoje parece quase literalmente impossível, piadas do Frasier envolvendo cappucinos ou um trocadilho rapidíssimo dos Simpsons como inscrições sutis e quase apagadas em artefatos de couro de um povo pré-colombiano resgatados de debaixo de pedras imensas, imensas.

Friday, September 02, 2011

Ideas from the novel of which this is the unsucccessful Stage adaptation
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A noção presente de que existe uma inesgotável bibliografia do mundo, sobre nossa experiência contemporânea (risos de parte da platéia), sobre realidades politicas aéreas e dimensões históricas de tudo. Theory, né, o termo guarda-chuva para o qual não sei o equivalente em português. Pensamento crítico? E isso não como uma disciplina acadêmica com suas áreas localizadas de relevância e eficácia, mas como uma extensão de um humanismo, da consciência que um homem-de-letras deve ter de si mesmo e de suas circunstâncias, os instrumentos básicos que ele deve ter pra compreender seu suposto posicionamento dentro de uma contingência histórica infinitamente complexa, de vastos sistemas que-tudo-compreendem. E pra minha geração tudo isso já esgotado de suas ambiências políticas imediatas, de sua urgência e utilidade universitária, disponível em .pdfs e textos xerocados tanto quanto qualquer outra coisa, tanto quanto o Livro Tibetano dos Mortos ou as Enéadas, textos a serem lidos já com uma distância irônica, recortados em uma linguagem datada já reconhecível por seus reflexos diluídos por aí na cultura. Amontoado com todo o resto, toda a montanha de lineamentos discursivos da qual pinçamos fragmentos soltos, apanhados quase aleatoriamente, com uma culpa danada, tentando dar conta de um peso claramente insustentável da Cultura do Mundo, quase como personagens em romances alemães tentando dar conta do peso dos mortos.

Thursday, August 25, 2011

Um trechinho do Barthes
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Pour saisir la puissance de motivation du mythe, il suffit de réfléchir un peu sur un cas extrême: j'ai devant moi une collection d'objets si désordonnée que je ne puis lui trouver aucun sens; il semblerait qu'ici, privée de sens préalable, la forme ne puisse enraciner nulle part son analogie et que le mythe soit impossible. Mais ce que la forme peut toujours donner à lire, c'est le désordre lui-même: elle peut donner une signification à l'absurde, faire de l'absurde un mythe. C'est ce qui se passe lorsque le sens commun mythifie le surréalisme, par exemple: même l'absence de motivation n'embarasse pas le mythe; car cette absence elle-même sera suffisamment objectivée pour devenir lisible: et finalement, l'absence de motivation deviendra motivation seconde, le mythe sera rétabli.
(não tenho a tradução aqui, foi mal, mas vem do Mythologies)
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A associação bem oportuna que Barthes deixa de fazer aqui é que uma mitificação bem parecida com essa que ele descreve do surrealismo foi feita com igual intensidade e insistência pelo nouveau roman da sua época, os Butors e Robbe-Grillets que ele tanto curtia (ou até por alguém posterior menos programático, tipo o Toussaint). O que neguinho fez foi a transfiguração da falta de sentido moral do mundo no principal telos narrativo da ficção de vanguarda, na principal chave interpretativa para o leitor sofisticado, na base de toda uma sensibilidade estabelecida e na resolução pronta para qualquer ambiguidade retórica ficcional. A opacidade tornada mito. Ou seja, todos eventos e todos objetos valorizados de pronto como acidentes (no sentido achoque aristotélico), e de alguma forma resultaria justamente disso o seu poder estético.

(alguém poderia dizer que o Beckett faz algo parecido, mas na real, não. Ele pode partir de um lugar parecido, mas é tudo filtrado por várias baguncinhas próprias dele bem mais expressivas, ele nunca tem essas setas tão didáticas e tão pré-montadas dos franceses).

Thursday, August 18, 2011

O complexo viário Neumer Voltasso
outro divertimento
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O complexo viário Neumer Voltasso começou a ser erguido há quatro administrações atrás. A cidade toda preenchida de cartazes divulgando seu caráter formidável e extraordinário, um novo horizonte, um novo começo. A sua suposta monumentalidade e a perspectiva de grandeza que ela emprestaria a cidade tornavam-no extremamente queridos à fatias demográficas importantes da população (crianças, donas de casa, obesos), e isso fez com que cada administração explodisse de maneira progressivamente irresponsável as pretensões do complexo. O projeto crescia, mudava de nome, dobrava várias vezes de tamanho sem nunca chegar nem na metade de sua conclusão.
O canteiro de obras já quase superava em extensão a própria cidade, hoje em dia. Extensões desmedidas de barro revirado, morros dinamitados, começos de viadutos entremetidos com meios de outros viadutos, tudo confusamente misturado em planuras incompreensíveis de materiais largados e transportados, trabalhadores urgindo e descansando, paralisações por greve, embargos ambientais, incongruências contábeis. Garrafas de plástico vazias desdeixadas por todo canto.

Havia uma pequena cidade dormitório provisória para os operários, no meio das obras, com sua própria também provisória estrutura viária rudimentar, e até um time de futebol jogando na segunda divisão do campeonato estadual (com um menino chamado Jóder comendo a bola, supostamente até já vendido pra algum time Holandês que não era o Ajax). Havia rumores de crianças nascidas lá dentro das obras que nunca haviam conhecido um mundo que não fosse barro, escavadeiras e armações de concreto. Documentaristas suecos vieram para fazer um retrato pungente e denunciatório da condição dessas crianças, mas a bagagem com seus equipamentos se extraviou irreversivelmente (o processo contra a companhia aérea corre até hoje).

Os jornais não inteiramente comprados pela administração gritavam quase diariamente sobre o dispêndio jorrado de dinheiro público, a falta de transparência, os contratos confusos, a ausência de clareza quanto ao projeto do complexo viário. De fato, era difícil entender o escopo do projeto. Olhando de cima (de um helicóptero ou dirigível, por exemplo), ninguém conseguiria dizer como aquele tanto de estruturas sugeridas, ainda discretas, em ossaturas incompletas, frases interrompidas de anéis rodoviários e túneis, balões e viadutos, como que aquilo tudo poderia um dia convergir em algo único e harmonioso, com as tantas faixas exclusivas prometidas para ônibus, plataformas para deficientes locomotivos, auditivos, visuais, grávidas e idosos. Existiam mais de doze destacamentos separados de engenheiros e operários, cada um com cores e mascotes distintos (Equipe Jaçanã, Equipe Bouganvília, Equipe Tamanduá, Equipe Barão do Rio Branco, Equipe Daniela Mercury, etc). Reportagens investigativas mal escritas contavam de uma falta absoluta de comunicação entre os destacamentos, de obras que se chocavam, inteiramente contraditórias, passavam por cima umas das outras, e até supostamente (mas nisso já quase ninguém acreditava) de grupos atrapalhando um ao outro, destruindo trechos já construídos, roubando materiais, enforcando as filhas de lideranças operárias ao entardecer.
Revistas semanais anos atrás dedicaram inúmeras edições comemorativas ao complexo rodoviário, sem jamais conseguir oferecer um desenho satisfatório de como ele pareceria na conclusão das obras. Falava-se de uma complexidade tão assustadoramente complexa que desafiava os nossos sistemas descritivos, as nossas capacidades de representação figurativa. Uma equipe especialista misturada de designers japoneses e noruegueses foi convocada oficialmente, com grande alarde, para finalmente nos oferecer uma imagem compreensível de como resultaria o complexo. Mas seus membros foram quase todos extraviados no jantar especial de recepção, na segunda melhor churrascaria local, onde compareceram mais de trezentos penetras e uma escultura de gelo foi subtraída do saguão. Dizem que alguns dos designers perdidos podem ser encontrados peregrinando pela obra até hoje, as roupas maltrapilhas, olhares maníacos e macbooks com bateria descarregada.

Os poucos especialistas sobreviventes entregaram um relatório imenso em japonês, sueco e esperanto. Uma segunda comissão de especialistas foi recrutada para traduzir esse relatório a uma linguagem mais próxima do senso comum. Até agora, não havia notícia de sucesso. Alguns sugeriam que seria necessário o desenvolvimento de tecnologia holográfica para uma representação gráfica satisfatória do projeto. A administração patrocinava generosamente o desenvolvimento da holografia com isto em mente. A escolha de universidades estrangeiras em detrimento das nacionais nesses investimentos foi severamente criticado pelo senador Glauber Vassourinha.

O que se admitiu, finalmente, em audiências públicas transmitidas em pay-per-view, era que realmente de fato não havia um único projeto coerente, o que haviam eram instâncias, momentos, eventos onde o projeto era sempre discutido e renegociado de acordo com as contingências, as necessidades democráticas, a cor e o suor do povo. Por isso que o orçamento jamais havia sido fixado. Ele jamais seria. Ele oscilava como um beija-flor, como a posição de um elétron que tentássemos observar de maneira impossivelmente isenta. Essa maneira epistemologicamente madura de encarar as coisas foi aplaudida por diversos minutos em audiência pública televisionada, por membros da platéia não enquadrados pela câmera (possivelmente inexistentes).

Alguns partidários da administração propunham que a incognoscibilidade derradeira do projeto se devia a motivos estratégicos, talvez até de segurança nacional. De fato, ocasionalmente podíamos ver grupos das forças armadas praticando manobras de treinamento nas dependências das obras, assim como oficiais misteriosos calados nas reuniões de planejamento semanais, com tapa-olho e charutos apagados que eles manuseavam de maneira misteriosa.

O atual prefeito, Jader Nonato, dedicava quase metade do seu tempo a rebater incansavelmente as críticas da oposição no seu twitter @FalaJader. Falava de como o maior complexo rodoviário estrutural da América Latina seria pioneiro não só nas suas soluções de transporte de pessoas, “mas também de transporte de informação”. Ninguém sabia o que ele poderia querer dizer com isso. Àqueles que sugeriam que a capacidade do complexo seria excessiva, desnecessária para uma cidade de médio porte, o prefeito argumentava que a possibilidade de circulação traria a necessidade de circulação, e que a administração já debatia a possibilidade de importar uns chineses para utilizar o complexo. “Eles não podem sair assim tão caros, afinal de contas, sendo tantos!”

Depois do oitavo carro engolido pelas fendas abertas nas terras da construção, decidiram pela efetivação de um “cemitério dos mártires do complexo rodoviário”, com capacidade para dez mil cadáveres. A administração comprou para a inauguração do cemitério uma centena de pavões comemorativos, uma edição limitada de pavões geneticamente alterados, com cores novas e instigantes. A falta de delegação de uma força-tarefa especial para cuidar dos pavões acabou resultando na dispersão de quase todos os bichinhos, com relatos dos habitantes das obras do complexo matando os pavões para comer sua carne e confeccionar vestidos e cocares. Uma foto infelizmente vazada na internet de um churrasquinho de pavão acabou atraindo atenção de organismos internacionais e a pressão pela presença de entidades isentas para verificação do impacto ambiental das obras. As entidades chegaram com grande festa da mídia local, que não entendia muito bem o que se passava e acreditava que a presença de estrangeiros só podia ser coisa boa. Os relatórios resultantes foram formidáveis, alertando para um desastre ambiental sem precedentes, com centenas de espécie da fauna e da flora dizimadas sem necessidade alguma, remodelações irresponsáveis das propriedades geográficas, risco de contaminação química e nuclear, etc. Livros acadêmicos já estavam sendo escritos sobre aquele que seria doravante um caso exemplar, redefinindo as possibilidades até então consideradas de desastre ambiental.

Os embargos resultantes desse escândalo parecem definitivos. Tudo foi parando, os operários desempregados construindo suas casas, oficinas e federações desportivas ali mesmo, em volta daquelas estruturas incompletas. Os poços de água parada virando córregos, o barro derramado, as roupas dependuradas nos volteios e arcos de concreto, de ferro, crianças brincando nos cabos e canos, os buracos, as sugestões distraídas, os ossos de um gigante em decomposição.

Sunday, July 03, 2011

EXTRAORDINARY MISUSES OF MILITARY TECHNOLOGY
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Outro dia vi um comercial de um site que faz um COMPÊNDIO de sites de compra coletiva (como peixe urbano, groupon, etc). O comercial parecia absolutamente deslumbrado com toda a situação. Consigo mesmo, com compras coletivas, com o site que as compila, com a engenhosidade empreendedora por trás e com o comercial que o divulga, com a linda e perfeita cultura que torna tudo isso possível. E o mais estranho era que o entusiasmo parecia ser genuíno, ou pelo menos verossimilhante.

Há uma autoconsciência absurda em tornos dessas redes sociais, todas elas redobradas, comentadas a todo passo como movimentos formidáveis da sociedade, do Espírito (ou como derrocadas do Humanismo, X está nos deixando mais burro?). Não só a besteira tão repetida (ainda que verdadeira) de que não mais se dissocia a experiência de sua veiculação pública, e tudo mais, ou de sua estetização plastificada e instantaneamente nostálgica (foursquare e insta.gram, respectivamente). Não só isso, mas que neguinho realmente parece experimentar, viver o mero fato destacado dessas redesderelação, de que elas existem.

O povo parece tão impressionado e enlevado com as estruturas de conexão quanto com as conexões que elas possibilitam, digamos. E por estruturas de conexão lá vou metendo os produtos da apple no meio, na minha vaguidão que-tudo-compreende. Uma menina com quem estudo ficou uns vinte minutos me contando das sutis diferenças no sistema operacional atualizado do iPhone, e me parecia muito claro que pra ela todas as renovadas condições de interface eram apreciadas como um fato estético, pelo todo orgânico ainda mais elegante de interação, muito mais do que pela conveniência que cada pequena diferença possibilitava (que me parecia desprezível). E eu faço esse gesto vago de incluir iPad e redessociais no mesmo balde porque eles são experimentados como uma coisa só, mesmo, uma mesma nuvem de quase-trascendência das circunstâncias chatas que compõem a nossa vida, quase da contingência do plano material, digamos.

Ficam lá tatuando maçãzinhas da apple e ministrando seminários sobre novas redes sociais uns pros outros, repetindo que informação não é conteúdo, que hoje a gente tem nossadeus tanta informação mas de que serve? E isto não como um gesto genuflexo de confessar que ninguém entende porra nenhuma do que se passa, e sim pra dizer que olha, dominando o megazord das tecnologias da informação tão formidáveis e gentis, sabendo ler esses gráficos desenhados de maneira tão inteligente e informativa, organizando as melhores ferramentas disponíveis para gerenciar os seus escassos recursos pessoais, cada um de nós pode se tornar o Steve Jobs de nós mesmos, organizadores dos aplicativos da área de trabalho do mundo, tornando toda matéria sensível do cosmos em interface agenciável e colorida, realidade aumentada.

Sunday, June 19, 2011

Ainda é possível um blog nos dias de hoje?
Não. Durante algumas horas em 2005 parecia que o blog seria um negócio assim extraordinário, com contribuições decisivas para as necessárias imaginações de nossos tempos, de uma elegância expressiva própria e confiante estabelecida através de (1) escolhas de design particularmente efetivas, (2) posicionamentos retóricos irretocáveis, (3) ironias adequadamente alocadas, etc.
Mas aí não foi.

E como que isto aqui ainda existe?
A existência disso aqui é extremamente discutível. Eu posso estar apenas repostando textos antigos de um blog secreto que todo mundo menos você conhecia, ou postando comentários irônicos sobre a possibilidade do post que acabei de postar. Ou usando como plataforma de divulgação da minha carreira de escritor de livros sérios de ficção *risos da platéia*. Ou posso ter perdido a minha senha e ter sido substituído por 'Bebeto, o mais extraordinário spambot de todos os tempos'*.

Como que você escreve essas besteiras?
Você acorda de tarde e percebe que já são cinco e tanto e o dia já está amarelo e fenecido e pendendo com o peso de sua extremidades murchantes. O que se pode fazer ainda daquele dia ali? Dois computadores estão ligados em cômodos diferentes para que você interaja ali com as telas coloridas e extraia elementos formidáveis, de alguma forma. Isto não acontece, ou acontece de maneira escasssa, um líquido quente trazido num canudinho fino demais, sugado com muita desconfiança. Até esta metáfora ela não sabe o que está fazendo, coitada. O time que você escolheu ainda agora preferir ganha o campeonato mundial de alguma coisa. Celebridades de atribuição confusa são abatidas aos montes. O mundo é todo denominado e pequeno, um desenho animado de si mesmo. Você troca de cômodos, bebe água fria, pensa em colocar meias. Lembra de memes parcialmente bem-sucedidos. Se você estivesse agora habitando um estado de espírito mais interessante, poderia perfeitamente escrever. Pegar esse estado de espírito interessante e extrai-lo de sua abstração aérea ali distante e suburbana usando de metáforas formidavelmente concretas, dando habitação e pernas praquela abstração, sistemas límbicos. Erguendo todo um prédio para o seu estado de espírito, toda uma catedral com arcobotantes e contrafortes cada vez mais denecessários, auto-concorrentes e impossíveis. Sua atenção já se detém nessas ramificações, nos apêndices, nas estruturas burocráticas da imaginação, nas suas consequências possíveis no mundo, suas caixas de comentários, suas reportagens da Ilustrada, suas entrevistas equivocadas, vozes indiretas como esta, enviesadas e supérfluas, e que às vezes parecem as únicas possíveis.

O que você pretende atingir?
Contribuições decisivas para as necessárias imaginações democrático-espirituais de nossos tempos.

*novela a ser publicada em 2013.

Wednesday, June 08, 2011

O artigo da wikipédia sobre si mesmo
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O artigo da wikipédia sobre si mesmo é um artigo da wikipédia sobre si mesmo¹. Ele constitui sua existência a partir da viabilidade formal e necessidade lógica que deriva das premissas e da estrutura da Wikipédia ("A enciclopédia Livre").

Não se pode dizer que o artigo da wikipédia sobre si mesmo não existe, ou que não é notável o bastante, já que ao considerar a sua existência e torná-la assunto para debate, inquérito científico e confirmação de acordo com a disponível realidade, tornamos imediatamente imperativo que a sua existência ganhe atenção especializada e esclarecimento discursivo. A forma mais adequada deste esclarecimento é ele mesmo (i.e. o próprio artigo).

Ele é notavelmente o único artigo que não depende de fontes externas confiáveis, já que toda a sua fundamentação é emanada das forças assertivas da própria Wikipédia².

Se o corpo de editores da Wikipédia decidir descartar o artigo como uma piada ou truque não-tão-espertinho-assim, essa decisão e sua subsequente reverberações nas suas páginas internas de discussão apenas confirmarão adiante a notabilidade do artigo (assim como sua necessidade enciclopédica) com os fogos "ontologicamente confirmatórios da controvérsia".

A tentativa de corrigir a linguagem e postura descritiva do artigo ao dar um passo epistemológico pra trás (ou 'zoom-out') de forma a descrever não o artigo em si mas o fato dele ter sido feito faria com que o artigo deixasse de ser sobre si mesmo e passasse a ser sobre uma controvérsia enciclopédica, o que faria com que ele se auto-destruísse imediatamente. Isso daria início a uma discussão automática sobre a Ética e Prudência enciclopédica cuja inevitável conclusão seria pela restauração do artigo no seu estado inicial.


Ver também:
Die Schraube an der hinteren linken Bremsbacke am Fahrrad von Ulrich Fuchs
Inclusionism
Lists of lists
On Exactitude in Science

Saturday, June 04, 2011

Só uma coisinha sobre Freedom

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Com todo o estoiro jornalístico meio bobo espumando em torno de Freedom, achei interessante esse texto aqui do Xerxenesky sobre a almofadice do Franzen. A reclamação que ele faz é basicamente da transparência da linguagem e das desinteressantes premissas e consequências estéticas que resultam. Acho que o AX acabou resumindo boa parte da birra que muitos críticos tem com o livro. É isso que eu pretendo comentar rapidinho:

*música grave de rosal público de discussão literária, de blogueiro comentando publicação da grande mídia*

A objeção à transparência que corre por cima do texto de AX e por baixo de vários outros pode ser compreendida de duas maneiras:

Uma seria a de acreditar que a literatura passa por tresholds (ou umbrais) estéticos definitivos na sua história, e que o século XX com todas suas atrapalhadas confusões teria tornado impossivelmente ingênuo uma linguagem ficcional transparente, que não tente dar conta da materialidade da linguagemm da artificialidade das convenções literárias e da heteronormatividade do cânone, sei lá mais o quê. Isto não está tão presente na objeção do AX, mas espreita por aí bastante observável.

A outra maneira é mais comedida, apontando apenas que as convenções estéticas do nosso tempo não aceitam bem a transparência, já que as circunstâncias da sensibilidade contemporânea empurram antes pro lado da complicação, do enviesamento, dos filtros e das peripécias retóricas*.

Eu vejo a transparência como um elemento mais neutro do que isso, menos minado e ainda bem útil. É verdade que tendemos hoje a preferir a entrega indireta, a complicação ostensiva, mas esta é uma convenção bastante limitante e limitada, que não pode querer funcionar em qualquer situação.

É também claro que a transparência literária que eu quero dizer não reporta a um grau maior de pureza, digamos, ou a uma objetividade séria. Isto seria, de fato, bem bobo e bem ingênuo. Qualquer transparência literária é necessariamente enviesada, indireta. No fundo estamos usando uma figura de linguagem, assim como quando chamamos um texto literário de sincero ou autêntico. Quando essas qualidades são apresentadas através do filtro da intencionalidade estética elas recebem uma camada de artificialidade retórica adicional, digamos. Ficam entre aspas.**

E vista como um tropo, e não como um grau de pureza, a transparência pode, sim, ser o resultado de uma depuração expressiva complexa e interessante. Acho que é isso que acontece em Freedom.

Sei que o livro não passa tanto essa impressão, de fato Franzen tem um estilo quase desleixado nele. Além do deslize técnico absurdo mencionado por AX, que é verdadeiro e injustificável, também chama atenção o ritmo apressado anedótico com que os eventos são apresentados, com pouquíssimas cenas sendo realizadas em atualidade e particularidade, como se aquela voz guardasse uma confiança tão absoluta na urgência narrativa que aqueles elementos configuram que nenhuma mediação posterior ou cinzelada mais aguda fosse necessária.

É como se o autor quisesse apenas chamar atenção para aquela sucessão de peripécias humanas, digamos, e precisasse nos puxar pela camisa e apontar para elas de maneira quase atabalhoada. Parece desinteressante pra muita gente, e eu entendo que pareça. Mas esta é uma afetação de urgência dentro de uma afetação de transparência, as duas construídas para valorizar um nível específico de construção ficconal, que poderíamos simplificar como: o de criação de personagens convincentes e de sua interação moral dentro de uma reconstrução expressiva dos minute particulars de uma cultura (que o AX chama com um certo desprezo de 'comentário social', o que acho um pouquinho injusto).

Pra mim existe uma inteligência absurda e um grau considerável de deliberação na voz que consegue constituir esse teatrinho moral como se inequívoco e transparente fosse. De qualquer forma, é nesse nível que o livro tem que ser julgado.

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*Alguém que soubesse de narratologia talvez pudesse argumentar que a reversão obtida quando deixamos de confiar num narrador tem funções estruturais semelhantes às peripécias antigas do tipo 'na-verdade-não-sou-um-mendigo-olhem-minha-marca-de-nascença-sou-o-conde-de-Norwich'.

**Em outro nível ainda mais babaca, poderíamos dizer que essas qualidades são sempre literalmente impossíveis e vem sempre entre aspas. Fica aí ao gosto do freguês.

Thursday, June 02, 2011

AVALIAÇÃO
foi mal, Ashbery
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De que forma podemos nos certificar de que a civilização mundial como um todo jamais repetirá um fenômeno como o de Cláudia Raia?
a) através de datas comemorativas memoriais
b) através de filmes dirigidos por Steven Spielberg
c) através do uso de bottons e demais adereços informativos
d) a criação de ministérios

De que maneira se porta o personagem de Will Smith na abertura do seriado Fresh Prince of Bel Air?
a) de maneira jocosa
b) de maneira adequada
c) de maneira digna
d) de maneira espetacular

Se fosse criado uma rede social para as demais redes sociais onde as redes sociais (através de lindos algoritmos ainda não possíveis) combinariam informações de maneira sigilosa de modo a extrair padrões significativos que levassem, por exemplo, à captura de terroristas, isto significaria que:
a) todos estaríamos mais seguros
b) alguns de nós estaríamos mais seguros (seletividade das instituições de repressão)
c) a singularidade teria chegado
d) um filme dirigido por David Fincher.

Quantos de nossos presidentes republicanos podemos dizer que foram constituídos de maneira plenamente democrática?
a)um
b)dois
c)vários
d)nenhum (resposta 'política')

Se um robô de seu trato cotidiano proceder de maneira absolutamente indistinguível de um ser complexo com sentimentos, você deve:
a) destruí-lo
b) chamar as autoridades especializadas
c) questionar o significado de sua própria humanidade (olhando no espelho)
d) procurar em suas fotos pessoais reflexos estranhos no espelho que indiquem que os documentos de seu passado foram forjados.

Se Marcos Palmeira aparece num informe publicitário recomendando o uso de um determinado produto, isso:
a) confere credibilidade ao produto
b) confere um senso de informalidade 'bon vivant' ao produto
c) confere um ligeiro acréscimo de esforço cognitivo por parte do consumidor
d) leva o consumidor a acreditar que aquela cena faz parte da novela

No caso de desastre nuclear e subsequente desfalecimento do sistema financeiro mundial, qual desses quadros nacionais é mais provável:
a) uma ditadura militar-sindicalista presidida por um triunvirato de ilustres da sociedade civil (ex: Sílvio Santos, Zico e Eri Johnson)
b) uma gincana violenta de proporções nacionais organizada pela Petrobrás "A Nossa Força"
c) uma edição extraordinária "guerra civil" do campeonato brasileiro
d) "A Grande Família"

Se dois homens de personalidades muito distintas se vêem circunstacialmente forçados a viajarem juntos e cuidar de um bebê, este é um:
a) procedimento com consequências cômicas
b) momento para reflexão
c) todos podemos nos identificar com esses personagens (universalidade de tropos narrativos)
d) "O que é arte", de Leão Tolstói.


De que maneira as nossas instituições governamentais e civis podem se preparar para um estado de maturação onde estejamos prontos para receber a copa de 2014?
a) seminários sobre redes sociais
b) marketing viral
c) colonização holandesa
d) max gehringer
e) a criação de ministérios


O que é a China?
a) um composto de documentos
b) uma coleção de estados mentais
c) um território imaginário
d) uma cultura formidável


E no entanto somos inelutavalmente forçados:
a) a continuar
b) a adotar medidas paliativas que estabeleçam novas estruturas
c) a reconsiderar a efetividade de nossos mecanismos de pensamento
d) a manter uma distância segura (3 a 5m)

Saturday, May 14, 2011

Notas sobre The Pale King (devem fazer pouco sentido para quem não leu, o que deve ser praticamente todo mundo, eu sei)
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TPK é o primeiro romance póstumo e não-terminado que leio que já tem embutido como parte de sua estrutura várias lacunas deliberadas, como anúncios de eventos que não acontecerão (ou aos quais não teremos acesso narrativo direto). A sensação é redobradamente estranha, então, já que ficamos bastante no escuro na nossa tentativa de delimitar que lacunas estavam ali prontinhas e cavadas e quais seriam eventualmente preenchidas e narrativamente endereçadas. Quais pontos nebulosos estão lá de propósito, quais não.

Todo mundo parece ter pego do livro o seu substrato narrativo (e moral, né) mais óbvio e escancarado: do tédio, de suas inúmeras implicações e que espécie de atitude podemos ter diante dele, algo como a dramatização ficcional de alguns dos elementos presentes no discurso que DFW fez em Kenyon e que desde então se tornou adesivo e tatuagem, atomizado como pregação. É um resumo correto, de fato é o substrato mais óbvio do livro e DFW faz menção direta a ele nas notas incluídas no apêndice. Mas ninguém parece ter percebido o outro nível em que esse núcleo do livro pode ser formulado, tão mais elegante, e que aparece enunciado em alguns dos momentos mais extraordinários do livro. De como informação excessiva é apenas complexidade irrelevante se não conseguimos extrair padrões interpretativos que realmente importem, e de como hoje em dia a organização intencional de informação (sua humanização ou curadoria, eu digo) é muito mais relevante do que a sua produção. É uma formulação também vaga, sim, mas que consegue reverberar no livro em instâncias diferentes, e que literariamente vai ganhando todo tipo de nível curioso (a literatura ela mesma é, afinal, uma maneira de organizar informação).

Sylvanshine com seus acessos místicos aleatórios a informação atomizada, descontextualizada e desimportante é das melhores idéias isoladas que DFW já teve, e sustenta comparação com os melhores personagens alegóricos do Borges, com a vantagem de ser bastante engraçada.

(esse nível do livro é estranhamente atual, aliás; algo inesperado para alguém que parecia ter desistido da coisa do palanque de voz-do-zeitgeist, que mal habitava a internet e que decidiu situar o romance nos anos oitenta)

É muitíssimo difícil interpretar pra onde caminhariam os eventos sobrenaturais do livro, e acho que continuaria muitíssimo difícil fazê-lo mesmo se o livro tivesse sido terminado; ainda é dos aspectos mais misteriosos e menos abordados do IJ. É um dos aspectos mais estranhos e menos explicáveis da sensibilidade do DFW, o que é ótimo. Suas preocupações morais e filosóficas recorrentes e alguns de seus recursos estilísticos insistentes correm o risco às vezes de montarem um universo e uma sensibilidade controlada demais por determinados procedimentos. A esquisitice dos eventos sobrenaturais é uma forma (bem-sucedida, eu acho) de quebrar nossas expectativas e bagunçar o mundinho que ele estabelece.


O apêndice inclui uma quantidade de notas ainda incertas, com rascunhos e possibilidades pra história e pros personagens. Não sei o quanto elas teriam sido editadas pelo Pietsch, e nem tenho idéia detalhada do modus operandi do DFW pra julgar, mas a estranha eloquência preparada e bonitinha dessas notas deixaram setores da minha cabeça considerando a possibilidade delas terem sido escritas já considerando que o livro bem possivelmente não seria terminado, como uma explicação e guia interpretativo para os leitores que ele sabia que existiriam. Isso é horrivelmente triste (mas talvez seja uma imposição imbecil da minha imaginação besta).


A ausência do trechinho ‘All That’ me parece muitíssimo estranha. Não só por ter sido previamente publicado como trecho do livro, mas por me parecer ter ecos temáticos bem claros com o TPK, principalmente com a onda infelizmente vaga e pouco explorada de validade-da-experiência-mística-individual-enquanto-experiência-subjetiva que remete ao Varieties of Religious Experience do William James.

Há um diálogo desbragadamente político sobre civismo que aparece de um jeito um tanto isolado no livro, muito pouco contextualizado. Esse isolamento abstrato não parece acidental, e o trecho é ruim, mesmo, das coisas mais retoricamente simplistas que DFW já escreveu. Ainda bem que nada mais no livro é contaminado.

DFW não brincava a sério de recursões metaficcionais desde Octet, e é estranho que tenha decidido fazê-lo de novo aqui. Não é tão fácil entender qual o ponto das complicações retóricas claras que ele adiciona à voz que se auto-proclama dele mesmo, do ‘autor de verdade’. São complicações, tudo bem, estímulos cognitivos adicionais, e são engraçadinhas, mas me parece um esforço dispensado por pouco efeito. No entanto, julgar o negócio pela metade faz pouco sentido, como com quase tudo no livro.

É impressionante que mesmo algumas idéias vagas para cenas e rascunhos de desenvolvimento de personagens contidos no apêndice já me pareçam mais interessantes e férteis do que toda a carreira de alguns autores consagrados que correm e dançam por aí.

Wednesday, April 27, 2011

A extinção do Curió-macaco
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Concluída em 1987, a extinção do Curió-macaco se deu de maneira metódica e inteiramente deliberada. Todos os levantamentos de organizações internacionais e independentes concordam nesse tanto, e ninguém parece disputá-lo. Os fatos estão eminentemente disponíveis na mídia: declarações de autoridades sobre a necessidade de extirpar o curió-macaco de nosso meio ambiente antes que fosse 'tarde demais', campanhas municipais e estaduais de erradicação do Curió-macaco, com mutirões e gincanas familiares dominicais onde crianças eram encorajadas a trazer quilos de carcaças em troca de prêmios como pistolas d'água e comendas mirins da câmara de comércio, informes federais instruindo no uso adequado de pedras, peixeiras, arapucas, enxadas e bombas caseiras para o extermínio dos Curiós-macacos. Políticos em campanha fotografados segurando pedaços de pau e fingindo participar de uma matança em massa de Curiós-macaco encurralados dentro de uma caixa d'água derrubada e abandonada.

Quando questionados por organizações ecológicas internacionais, as lideranças comunitárias e os transeuntes opinavam de maneira semelhante. Que o Curió-macaco não tinha apenas índole perversa e agressiva, trazendo todo tipo de incômodo para o pequeno agricultor e as pequenas comunidades rurais, entrando em calças e caixotes abandonados, escondendo debaixo de jornais. Mas que sua presença influenciava negativamente o clima e a fertilidade do solo da região em que habitava (ninguém sabe através de que supostos meios), além de penetrar em domínios simbólicos imprevisíveis, supostamente causando pesadelos e erros ortográficos num raio de alguns quilômetros.

Um pássaro gordinho de aproximadamente dez centímetros de altura, o Curió-macaco se distingue de outros pássaros em não sendo, exatamente, um pássaro. A sua cabeça, parecida com a de um macaco, ocupa quase metade do seu corpo, o que o impede de voar e faz com que ele quase sempre esteja tombado no chão. Sua penugem se solta com os meses até cair inteiramente por volta do seu segundo ano (ao qual ele dificilmente chega).

O Curió-macaco passa toda a sua vida gritando um grito desesperado e pouco musical, de nenhuma função evolutiva discernível. De fato, desde a engenharia pouco eficiente de todos os seus sistemas internos até o seu comportamento invariavelmente agressivo (inexplicável sob qualquer ponto de vista) e a inadequação de seus membros motores, nada no Curió-macaco parece trazer vantagem para a sua sobrevivência*.

Desde o momento em que nasce, o Curió-macaco gasta toda a sua energia em tentar matar toda a forma de vida que encontra, incluindo os seus pais (em esforço fraternal conjunto geralmente bem-sucedido). O Curió-macaco não só evita andar em bando como ataca impiedosamente qualquer membro da sua espécie que vem a encontrar com particular e destacada virulência. No entanto, seus dentes, asas e membros inferiores oferecem praticamente nenhuma ameaça perfurante, incisiva ou concussiva.

A primeira menção ao Curió-macaco nas letras nacionais se dá no diário do jesuíta Hernão Nunes, em 1768. Nunes mantinha sozinho um posto de reconhecimento estratégico num território recentemente desbravado hoje pertecente ao Estado de Goiás. Ele encontra diversas vezes indivíduos da espécie correndo desesperados pelo cerrado goiano e tem seus calcanhares prodigiosamente atacados em todas estas ocasiões, precisando usar de gravetos, pedras ou de suas desnudas mãos para matá-los de alguma maneira (já que o Curió-macaco nunca se amedronta, nunca recua diante de qualquer força adversa), uma violência com a qual o jesuíta não estava nem um pouco acostumado e que vai inteiramente contra sua índole.

Ele escreve no seu diário (publicado postumamente) que aquele ser desafortunado depõe inteiramente contra a sua compreensão anterior da natureza e de suas disposições, e que o inteiro despropósito daquela criatura e de seus atos o leva a crer que a natureza é ruim, e que os nossos esforços devem se concentrar em cercá-la, contê-la, refrear seus avanços e garantir a sua atrofia e inevitável derrocada.

*Kuch-Grünbeg relata no final do século IXX ter encontrado uma pequena comunidade no baixo Xingu que teria adotado o Curió-macaco como mascote, figurando-o na sua cosmologia como representante quase imediato de uma divindade menor com atribuições confusas e contraditórias. Kuch-Grünberg interpreta o papel simbólico do Curió-macaco como uma demonstração do caráter caído e falho do universo desde a morte da divindade, assim como da inadequação derradeira dos seus habitantes. De qualquer forma, essa adoção serviria como explicação parcial para a sua sobrevivência.
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Aliás,
meu livro foi resenhado aqui, aqui e aqui. E vou participar dia 1º do FESTIPOA, lá em Porto Alegre. As desculpas que eu peço por essa autopromoção elas não tem fim.

Thursday, March 17, 2011

Figures of adequate imagination
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De vez em quando você vê gente mais ou menos inteligente falando que desde momento X a literatura nunca mais fez grandes livros. A LITERATURA, esse golem, esse megazord. Que ela não nos entrega mais os grandes gênios lapidares, os narradores da epopéia do espírito humano. Muitas vezes escolhem o modernismo como esse ponto de derrocada, Ulysses como exemplo máximo de exaustão. Mas às vezes são mais modestos, reclamando dos últimos vinte, trinta anos e fazendo algumas concessões de gente do pós-guerra (geralmente Beckett e Borges).

Eu (que leio ficção recente e contemporânea com o entusiasmo de groupies adolescentes exultantes) fico sempre meio perplexo. Esse povo já leu Delillo, Carver, Gaddis, DFW, Sebald, Handke, Marías, Óz, Mccarthy, Pynchon, Toussaint, Puig, Roth, Pávitch, Coetzee? Se leu, entendeu alguma coisa?*


De fato alguma coisa parece ter se esgotado, mas não é a possibilidade de talento imaginativo, de narrativas bonitas possíveis, de prosa extraordinária. O que parece ter se esgotado (ou se tornado bem mais complicada) é a possibilidade de se montar uma narrativa historiográfica única, de eleger tradutores inequívocos da nossa sensibilidade e experiência. Nesse sentido eu concordo que Borges e Beckett podem muito bem ter sido os últimos. Os dois parecem os cantos de cisne de uma tradição enorme e absurdamente rica ainda se relacionando de maneira confiante e certa consigo mesma*, quase absoluta. Dá pra enquadrar canonicamente esses caras com extrema facilidade, dá pra explicar bonitinho de onde eles vem e o que eles trazem de novo pra festa, estampar suplementos literários e usar de resumo didático para um bando de tags contemporâneas. As vozes que não concordam com sua grandeza até existem, mas são pouco sérias ou idiossincráticas demais.

Isso significa que a historinha da literatura se tornou mais bagunçada, com pertencimentos de tradição e influência entremesclados e difusos, setinhas de progresso entortadas com várias direções simultâneas. Significa que um dos vários filtros estéticos possíveis - o de um autor dançando break na cara da Tradição - se enfraqueceu, tá quase indisponível. Que as vozes mais fortes e expressivas de agora em diante serão mais particulares, não tão unânimes ou definitivas. Que a tão-elusiva posteridade se tornou ainda mais esguia.


Mas não significa que os autores sejam fracos, que a experiência individual do leitor diante daqueles textos será menos expressiva. Ela pode ser mais contingente, menos absoluta na sua relação com a tradição e com certas possibilidades expressivas. Os melhores Faulkners são mais inequívocos que Suttree, Cervantes é mais importante do que Pávitch, Tolstói será lido por muito mais tempo que DFW. Nada disso diminui (nem deveria diminuir) a experiência individual do leitor, nada disso impede que eu prefira ler Suttree, Pávitch e DFW.

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*Ou ainda: Bolano, Aira, Saramago, Saer, Franzen, Munro, Murdoch, Benhard, Robinson, Houllebecq, Murakami. Isso sem contar os vários inúmeros que eu nunca li, é claro.

**Os dois últimos narradores confiantes e certos são, justamente, narradores de mediação e incerteza, é claro. Há-ha, ai que gracinha.

Sunday, March 13, 2011

The presumed landscape
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Como nossas imaginações e sensos de realidade são constituídos por pecinhas de lego e silhuetas recortadas de papelão, nunca dá pra saber exatamente o que vai lograr um nervo, o que vai nos parecer urgente e importante. Um terramoto é certamente algo tremendo e formidável, a terra racha e treme, devora coisas, mata muita gente, é tudo horrível. Mas estamos aqui quase todos nós em lugares prodigiosamente desprovidos de tremores, enquanto ouvimos e lemos o que acontece. A terra deita descansada e calma, sem rachaduras, com cheiro gostosinho de chuva. E acaba que nos percebemos (alguns) tão tocados quanto quando passando brevemente de canal nós vemos a Calista Flockhart – já quase engolida pelas fauces da desmemória – dizer ou ouvir de alguém (apenas lemos a legenda) que está com câncer.

Os jornais quase todos concordaram que a imagem exemplar mais expressiva dos eventos lá no Japão ontem era uma criancinha japonesa levantando os braços para que medissem sua radioatividade. De anteontem, era uma linha de senhoras japonesas abrigadas por iguais cobertores azuis. Antes disso, eram carros novos sendo engolidos e levados pela água (carros novinhos!, diz a voz de alguém na minha cabeça). Estas coisas aconteceram mais do que outras, aparentemente.

E como responder? O mundo já sabe de suas deixas e reações, né. Sabe dos seus diagramas infográficos e das suas expectativas de investimento. Ele narra a si mesmo em encaixes de telejornais e hashtags, como uma dona-de-casa francesa num romance do século dezenove. Geralmente temos ainda celebridades e canções beneficentes (com menos pathos, no caso de países de primeiro mundo). Designers desempregados fazem sua parte com imagens bonitinhas tumbláveis de bolas vermelhas e lágrimas estilizadas, com isso não precisamos nos preocupar.

Por mais que respeite e admire – de verdade – a disposição afetiva e emocional de quem consegue se afetar genuinamente por desastres naturais distantes, diversamente figurados e infinitamente disponíveis, ainda não sei como devo domar os potros, os burocratas prussianos da minha imaginação. Como diabos eu modulo a minha reação diante da correção jornalística de mortos que já figuram nos quatro dígitos? Com um ajuste de sobrancelhas?

É sério, eu não sei.

Saturday, February 12, 2011

Uma capivara que nasceu errado
outro divertimento
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Uma capivara que nasceu errado tenta subir escadas e não consegue. Um senhor de cabelos brancos quase inexistentes fumaçando uma cabeça de crânio denunciado está sentado num café do outro lado da rua, batendo a colherinha na sua xícara. Ele se vê estranhamente detido pela cena, pelos membros mal encaixados da capivara e sua protelada dificuldade. Fica tão comovido que decide levá-la para casa, ensiná-la a subir escadas e ‘poder assim participar integralmente dos movimentos do mundo’.

No jantar, percebe que as suas limitações alcançam outras esferas, que a capivara tem dificuldades infinitas ao endereçar o mundo, empacada em todas as direções, de todas as disponíveis maneiras. Ela não sabe trocar lâmpadas, conversar com estranhos, interpretar o impacto político de filmes na esfera pública, cancelar assinatura de TV a cabo ou rejeitar as solicitações do telemarketing. É tudo mesmo muito difícil.

O homem prorrompe em compaixão. Põe a capivara para dormir num composto de almofadas no chão da sala e passa a noite bebendo gin no escuro, chorando silenciosamente e considerando a gravidade de seu recém-revelado chamado.

No dia seguinte estabelece uma série de exercícios cruciais. Ensina a capivara como se faz café, como se dá nó na gravata, como se pede comida em diversos tipos diferentes de estabelecimentos de comércio de alimentos. A lontra tenta comer a borra do café no filtro, chora ao falar com o garçom, quase se enforca com a gravata, etc. É tudo muito divertido. O homem se preocupa, a capivara passa a morar com ele, saindo de casa apenas para ir trabalhar como guardinha noturno numa loja de eletrodomésticos. O trabalho envolve manter uma expressão atenta (o que ela quase consegue) e fazer percursos ociosos pelas dependências da loja, seria todo tranquilo não fosse pelo medo de invasores. A capivara não consegue nem imaginar a motivação necessária para tanto esforço, para sair de casa com caminhonete, cordas, roldanas e armas, usar de violência ou grave ameaça, quebrar vidros, carregar geladeiras, tudo tão difícil! E tudo para poder refrigerar alimentos ou secar roupas! Sentado no seu tamborete, ela admira a industriosidade concentrada dos eletrodomésticos, inveja a sua capacidade sintetizada de realizar tarefas. Eles todos zumbindo o funcionamento de suas maquinarias escondidas, calmamente realizando suas funções, enquanto ela não consegue, cai por aí, se choca com transeuntes, mastiga termômetros, perde vários dedos do pé em incêndios parcialmente provocados por sua inépcia com materiais nem tão inflamáveis assim!

Os exercícios são invariavelmente infrutíferos, mas o homem não desiste, fica acordado diversas noites lendo artigos científicos que não entende e pensando em como diabos redimir a inadequação total e derradeira da capivara . Ela não parece jamais ter se encaixado apropriadamente em nenhuma circunstância. Quase como se contivesse uma disposição negativa diante dos elementos, algo entranhado que sempre acionasse a resposta errada.

Ele pensa isso no escuro enquanto a capivara se debate dormindo, no chão, seu sono tumultuado por zíperes, formulários, parágrafos de historiadores alemães, catástrofes marítimas enormes causadas por ela, frotas inteiras afundando num mar escuro.

A melhor solução que ele consegue projetar é a de um livro, um Manual definitivo de procedimentos onde toda atividade concebivelmente necessária seria didaticamente enovelada. Como se fazer Bouef Bourguignon. Como se determinar politicamente. Como se portar diante de diferentes práticas religiosas. Como escolher um carro com a melhor relação custo-benefício. Como se prantear os mortos. Depois da primeira noite de trabalho o arquivo do Word já contém trinta e quatro páginas. Dessa maneira, em poucos meses ele teria milhares delas! Ele esconde da capivara a confecção do manual, pretendendo fazer uma surpresa no seu aniversário (em junho próximo).


Depois de duas semanas, o manual não passa perto de uma conclusão - nem mesmo de uma delimitação aproximada de seus limites - apenas se espraia adiante indefinidamente, ramificando-se como dedos d’água, obsessivo e progressivamente específico.

Como demonstrar respeitabilidade diante de um grupo de velhinhas assustadas no elevador. Como se esgueirar para atrás do móvel da televisão para ligar os cabos do DVD sem que nada seja derrubado. Como expressar resignação diante das críticas veladas feitas pelo seu sogro a respeito da educação que você dá ao seu filho. Como julgar a trajetória musical de David Bowie a partir dos anos oitenta.

A minúcia dos encadeamentos procedimentais começa a assustá-lo em sua complexidade, o arquivo primeiro de texto abandonado por rascunhos gráficos arvorados, fluxogramas enormes interminavelmente relacionados, cada item abrindo-se em novos e ultrajantes sistemas.

O homem percebe num sonho epifânico grandioso conduzido por David Caruso que o que ele está fazendo é programar a lontra. Olha que merda. Ele não sabe muito de computação, nem de nada parecido, mas a analogia lhe parece apta. E agora as noites que ele não passa em claro detalhado ou planejando novos segmentos e capítulos ele passa acordado preocupado com a capacidade cognitiva da capivara de processar todos aqueles textos e realizar aquelas operações de maneira satisfatória. Essa preocupação, embora ainda distante de ser resolvida, é por sua vez substituída por uma segunda preocupação, se a capivara, mesmo que consiga atingir um estado óptimo de realização de todos aqueles procedimentos (o que parece altamente improvável), seria capaz de realmente entender o que estava fazendo, e extrair das circunstâncias executadas experiências devidamente sentidas e realizadas, preenchidas, completas.

Ele pensa em incluir nos procedimentos um tipo de educação pessoal e sentimental que se certificasse desse resultado, mas as implicações práticas disso quase derretem sua cabeça. É tudo mesmo muito difícil. A capivara ofende a filha do embaixador, cria incidentes diplomáticos, estoura crises econômicas em diversos países emergentes.

O homem não mais dorme, as mãos aprestadas à cabeça, arcobotantes tensos pressionando pele nas têmporas, suando. Diante dele as páginas e páginas do manual, sua impossibilidade grosseira. Enquanto na cozinha a capivara derruba a mesa, açucareiro, colheres, maçãs, copos comemorativos de cerâmica, encosto, pires, a cadeira na qual estava sentada, quebrando a bacia, rasgando tecidos diversos e potencialmente comprometendo o funcionamento de uma série de estruturas vitais.

No quarto, o homem recebe o prolongado barulho de catástrofe com uma espécie de alívio. Permanece quieto na cama. Sonha com um musical formidável dançado por capivaras esguias e elegantes, arranjos complexos e simbolicamente elaborados dançados à perfeição por um composto quase orgânico de centenas delas, todas de fraque, inexpressivas, seus bracinhos seguindo ondulações seccionadas.

Wednesday, January 12, 2011

Como hacer cosas con palabras
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Com o hábito a nossa recepção dos lugares e das circunstâncias parece que enfraquece, vai sumindo. Um enfraquecimento até COGNITIVO (segundo algum estudo vago que li sem óculos de canto de olho no jornal, anos atrás), a gente mal tem o trabalho de processar circunstâncias e lugares e já aprendidos, só atentamos pra alguns gatilhos familiares. E, com isso, eles quase deixam de existir, res extensa da nossa cabeça, fundo de tela para interfaces simplérrimas.

E daí tédio, né.

Cursando há quatro anos um curso que passo bem perto de odiar, as aulas e as instalações e seus arredores já quase inexistem. Janelas minimizadas, umas figuras distantes acenando e gritando surdamente, gente rindo do nada, algumas palavras-chave anotadas quase aleatoriamente num caderno cheio de desenhos feios e engraçados. Numa aula de Direito do Trabalho, eu leio Lorrie Moore. A mulher progressivamente doidinha finalmente surta, enfia uma faca no marido. Minhas pernas se crispam, eu todo tenso, e por um segundo eu literalmente não entendo aquele negócio ali em volta, aquela gente falando sobre FGTS como se nada daquilo estivesse acontecendo, como se não tivesse uma faca enfiada no cara, coitado. Ora.