Sunday, November 28, 2010

Frozen images, respected few
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Um show de rock é um evento quase sempre desajeitado. É possível imaginar ocasiões de um alinhamento cultural extraordinário onde o humor se assesta, as pessoas realmente se entendem, mas parecem ser bem poucos. Geralmente você lida com muita gente besta, som ruim, moço da cerveja gritando. Os materiais disponíveis tão dificultosamente tentando se congregar numa fruição genuína, com tantos cotovelos e nucas literais e metafóricos te acertando e te impedindo, as empresas que patrocinam o evento com suas vinhetas e cartazes ridículos. As presenças apresentadas em variados níveis de pureza e suposta autenticidade (proximidade dos artistas do seu auge criativo, presença exigida de todos os membros da formação original, inclusive dos que nunca acrescentaram nada musicalmente, etc).

Eu falo disso porque sábado agora eu vi a minha banda preferida de todos os tempos, que eu escuto desde os quinze/dezesseis, e foi uma experiência emocionalmente muito forte e estranha. As dificuldades descritas estavam lá, ajuntadas ao tempo horrivelmente curto e aos fãs impassíveis de Billy Corgan. Mas a maioria delas não diminuía (pra mim) a força daquilo que eventualmente se configurava, e a princípio eu não conseguia entender como, exatamente. Até que me ocorreu que a maior parte da boniteza do Pavement já vem de uma awkwardness*, de um desajeito, um constrangimento. Daí que In the mouth a desert cantada por um homem maduro e aparentemente constrangido (de voz já dessemelhante de si mesma, diante de uma multidão apenas parcialmente compreensiva) não resulta menor, mais dispersa. Fica até, quem sabe, mais bonita.

*palavra intraduzível, né, das mais lindamente autológicas que existem.

Sunday, November 07, 2010


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Quem quiser ler algum trechino: isso aqui tá no livro, ainda que bem modificado. Comprem pra toda família (y).

Friday, November 05, 2010

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Eu formo os meus preconceitos estéticos como se estivesse realizando algo exato. Percebo alguns clichês recorrentes atrelados a um escritor, noto como é seu admirador típico, reconheço algumas tags genéricas tacadas pelo jornalismo distraído e vou endurecendo numas impressões vagas como se elas tivessem qualquer profundidade. Montando bustos de barro de gente que eu nunca vi.

É até útil, impede que eu fique doido de ansiedade por não ser capaz de perseguir todos os vários escritores que eu deveria perseguir. Mas é também traiçoeiro pra caramba.

EXEMPLO DE COMO PODE SER TRAIÇOEIRO PRA CARAMBA:

Coetzee acabou caindo nas minhas graças negativas por uma mistura confusa de suspeita do prêmio Nobel com suspeita de crítico fingindo que gosta de qualquer coisa que venha da África e faça alguma menção de tratar de opressão política. Acho que também não fui com a cara da fotinha dele. Dando tempo, essas vagas intimações vicejam na minha cabeça, criam troncos de anéis sobrepostos, musgo e parasitas, como se eu tivesse lido bibliografias, escrito alentados tomos sobre as deficiências do cara.

E ainda acontece deu dar de primeira com Slow Man, um dos seus piores livros (segundo muita gente que sabe melhor do que eu). Eu provavelmente passaria anos e anos de cara enfezada sem dar uma segunda chance, se não tivesse tido a tremenda sorte de alguém ter esquecido Desonra na minha casa.

Comecei a ler o livro com a cara feia já disposta, esperando encontrar clichês, facilidades políticas didaticamente enoveladas, truques literários sem conseqüência. Mas não. Toda essa pré-disposição foi sendo cirurgicamente desmontada por um dos livros mais fortes e irredutíveis das últimas décadas. Foi uma experiência engraçada continuar ainda por várias páginas achando que a minha cabecinha anteciparia o próximo passo, a próxima frase, o próximo efeito desejado, apenas para se ver o tempo inteiro surpreso com aquela sensibilidade tão aguda para desgraça, aquelas frases tão cuidadosas desvelando uns cortes agudos. Gradações do Mal trabalhadas numa voz que as leva a sério, que não troca violência por um signo político armado e que confere toda a gravidade ficcional necessária para que tamanha força auto-importante não se desmonte em algo arbitrário e simplesmente cruel.

Enfim. Hoje é um dos meus livros favoritos. E eu poderia passar a vida sem lê-lo apenas porque algum bobo copiou&colou bobagens vazias sobre o cara e me irritou.

MORAL DA HISTÓRIA: Os instrumentos do mundo não são confiáveis e somos todos moralmente obrigados a ler todos o livros já publicados.