Thursday, October 21, 2010

Le diverse et artificiose machine del capitano Agostino Ramelli
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Blog já ficou tão antiquado, né. Todo mundo aí disperso em outras presenças fantasmáticas mais breves e esguias, e eu aqui todo Roberto Pompeu de Toledo, o futuro do livro e a privatização do aborto, todo Irão e iPad.

Ainda mais blogger, meu deus, esse troço pedacento. Mas vocês é que não entenderam ainda que já deu a volta, transtrocou e revirou chique. Quinem que GIF.

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Andam numas de que o seriado sério americano – de TV a cabo, com um ritmo ‘deliberado’, sem as formulações apressadas de várias tramas resolutas por episódio – tá substituindo o romance. Como espelho da sociedade, como espaço comum de reflexão sofisticada, assunto de pessoas inteligentes, coisas assim. Isso num palco muito bonito de atribuições sociais às artes, né, com painéis em rosais públicos.

Esses seriados costumam ter criadores fortes por trás (ao invés de uma massa corporativa de produtores e escritores recorrentes), e um nível até surpreendente de integridade, considerando o nível televisivo. Mas nem dá pra entender o que ser quer com a tal substituição. Fora o Franzen, nenhum escritor de alguma força tenta ‘traçar panoramas’ e figurar em debates de relevância social. Talvez o Vargas Llosa, ou aquele Littel, mas parece difícil se manter acordado com esses tijolos todos mostrando que olha, opressão e totalitarismo não são legais, não! olha a banalidade do mal aqui. E não há um grande escritor ‘social’ de fato massivamente lido desde o século dezenove, provavelmente, quando Balzac e Dickens eram serializados e lidos como entretenimento popular.

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Mad Men não alcançou exatamente o respeito crítico de Sopranos e Wire, mas passa perto, e já é cultuada desenfreadamente como um objeto de distinção, algo a ser adicionado e curtido publicamente. Mas a sofisticação alardeada do negócio se contenta, mais do que qualquer coisa, em enquadrar elegância dos anos 60 em imagens tumbláveis e jogar toda hora umas ironias facinhas com alguns clichês vencidos da época (Olha como eles eram bobos, fumando e sendo sexistas, haha! Nossa, hoje a gente sabe melhor).

Mas eu assisto, sim, com algum atraso, e gosto de alguns momentos. Existe ‘complexidade psicológica’*, tem escritores razoáveis ali, às vezes montando diálogos interessantes de fato, com personagens empáticos que inclusive sobrevivem a massa de episódios, até se mantém de pé. Mas me incomoda o truque, ou filtro, ou sei lá o quê, de ‘capturar uma década’ como quem tá arrasando, como quem constitui um tremendo ato artístico. Jameson tem citações lindamente vagas e bem apropriadas que eu tou com preguiça de catar.

O seriado parece fascinado com sua própria capacidade de reproduzir as circunstâncias desse período destacado e reconhecível. Ah, a ingenuidade hipócrita desses anos!, de uma elegância e inocência perdidas com Kennedy, Nixon, Marilyn e o Vietnã! Revolução Sexual e movimento de direitos civis sugeridos em inserções gratuitas e vazias. Esse tipo de coisa. A manipulação publicitária se tornando mais poderosa e sofisticada (o que o seriado ao mesmo tempo elogia, estiliza por fodona e elege como símbolo de desonestidade e superficialidade cultural).

Os efeitos dessa reconstituição já estão prontos e vão se encaixando, os conflitos narrativos mais ou menos satisfatórios carregando tudo como lentas locomotivas desapressadas. E as brechas poucas que aparecem são preenchidas com gestos vagos e demorados, só raramente humanos, de uma melancoliazinha esbatida e tão sofisticada, de uns sobrolhos franzidos em quartos à meia luz.


*Geralmente quando dizem isso de um seriado, querem dizer que os personagens são moralmente dúbios e ocasionalmente contraditórios, em espamos arbitrariamente alocados. Mas aqui até que não.

Tuesday, October 12, 2010

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Esse post é muito vago e eu adorei escrevê-lo.

Na minha cidade não chove, e nem mais nada acontece. Bandas internacionais decidem que podem nos incluir nas suas turnês. Elas descem aqui de avião e tocam, boa parte das vezes em estruturas emprestadas e mal improvisadas, já que não temos muitos lugares apropriados pra esse tipo de coisa. O caderno de cultura faz um barulho todo. Existe um provincianismo extremo e muito bonitinho (que eu entendo) de olhar pra aquele povo da TV da sua adolescência e ver que eles estão existindo ali na sua cidade, olha só, as duas esferas se tocam. De extrair disso uma importância enorme, daquele lugar se reposicionar dentro de coordenadas pessoais de importância.

E é tudo tão pequeno. Uma banda de gente de talento muito ligeiro (mesmo pra esse tipo de coisa). Foi quase um acidente momentâneo de fatores que tornou as músicas deles um pouco mais significativas ou divertidas do que a massa de músicas bem parecidas da mesma época. E esse breve momento de fazer algum sentido pra adolescentes em conjunturas culturais tão particulares se filtra em diversas instâncias corporativas e jornalísticas, se dilui adiante, indefinidamente, qualquer espontaneidade redentora se perdendo. Esse breve acidente se traduz pro resto da vida tocando pelo mundo, na Turquia - imagino, não sei - no leste europeu, no interior do México. Como um filme dublado do Steven Seagal ainda reverberando no espaço, décadas adiante. E isso significando alguma coisa pra adolescentes renovados, para jovens adultos já nostálgicos de algo que nem, exatamente, chegou a acabar.

Um santinho eleitoral me fala de ‘equipamentos culturais para a comunidade’. É uma expressão meio triste, ressonando palavreado aparatoso político, instrumentalizações esquisitas. E por isso mesmo eu gosto dela, da tristeza pequena dela. Equipamentos culturais, faz pensar em algo trambolhoso. Faltam mesmo, esses quipamentos culturais. Na falta, na pobreza variada de imaginação, importamos tudo como podemos, de maneiras curiosamente pessoais. Eu penso sempre num amigo que teve a adolescência povoada por bandas pequenas e alternativas, bandas que só ele conhecia, num raio de possíveis milhares de quilômetros. E, além disso, uma rede de amigos gringos verdadeiros, de familiaridade extrema com os arredores de uma cultura alheia.

Temos uma penca de mundos imaginados à nossa quase-disposição, pendurados no nosso pescoço. E a distância desses mundos todos sempre contrasta decomforça, é sempre sentida.

É bem possível escolher pra si as circunstâncias e ambiências distantes de um pequeno setor cristalizado que lhe agrada. De sei lá o quê, de cinema francês dos anos tal, indie rock californiano dos anos noventa, república weimar, punk inglês, jazz age, maio de 68. Tudo parece igualmente habitável de mentirinha. E, em certa limitada medida, claro, não é nem de mentirinha. Não é impossível que funcione, que se fique bom nisso, praticado. Costuma ser meio ridículo pra quem vê de longe, como qualquer sustentação irônica, qualquer bovarismo,quixotismo, mas isso não torna inválido. Uma palheta reduzida de cores simples e poucas, repetidas, insistidas, trabalhadas durante toda uma vida.