Tuesday, June 29, 2010

Die lehre der Sainte-Victoire
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Os gálicos (literais e derivados) que comentam toda ficção realista moderna com risinhos de escárnio não entendem nada. As reclamações mais habituais sugerem que o que ocorre é um seguimento automatizado de linhas tradicionais programáticas simplérrimas, uma ingenuidade tremenda que se acha próxima de alguma forma objetiva de apresentar a realidade, mas na real só envolve a aplicação insciente de umas fórmulas burguesas aborrecidas, ignorantes de viradas e reboladas linguísticas, formidáveis limiares ultrapassados de maneira definitiva por gente assim inteligentíssima. Do tipo olhem-só-para-eles-acham-que-a-"realidade"-se-configura-assim-com-palavrinhas-que-remetam-a-objetos-e-lineariedade-e-um-universo-com-atualidade-apreensível-e-personagens-com-interioridade-e-agência-material-circunscrita-à-subjetividade-européia, tadinhos.

(como se certas medidas do fantástico, de pastiche pop, de fragmentação, de polifonia , etc, não se prestassem todas ao mesmo processo de formulação, ou o parti pris supostamente mais subjetivista trouxesse atestado de originalidade e complexidade).

Nenhum autor realista interessante apresenta uma cosmologia tão simples, tão inequívoca. uma impressão de realidade tão aborrecida. Nem uma Ann Beattie da vida. Essas convenções não se apresentam tão imediatas assim, são sempre renegociadas, repostas com o estabelecimento de qualquer voz minimamente autêntica. Não que todo mundo seja um Cézanne (um Henry James), mas o erro - ou a ingenuidade - é achar que realizar o mundo consegue ser simples. Nem querendo. Isso não existe.

Friday, June 25, 2010

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(parte de um conto enorme bagunçado que provavelmente nunca vou terminar)
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Arrigo recebeu a sugestão num email do Bernardo, entusiasmada, de imediatamente colocar a tal frase ali (uma linha de código? o que significava?) pra pesquisa e controlar câmeras soltas pelo mundo. Não entendeu muito bem o que era pra acontecer, se de fato seria tão fácil assim, tão simples. Mas tava lá, apareceu mesmo uma lista imensa de câmeras de segurança distribuídas pelo mundo, todas desguardadas e acessíveis, algumas até controláveis com setas direcionais, você podendo muito lentamente alterar o que ela enquadrava. Arrigo não entendia como isso era possível, qual tecnicalidade fazia com que isso acontecesse. Isso devia estar errado, que ele conseguisse acessá-las tão facilmente. Mas a lista se desenrolava, interminável, as tantas câmeras oferecidas em endereços de nome atropelado e confuso. A alimentação era lenta, às vezes você quase só distinguia a imagem ali antojada de uma foto fixa por ligeiras perturbações de pixels acontecidas em folhagem agitada por vento, movimentações mínimas de cor, de azul do céu escurecido ou esclarecido, luz refletida tremendo. O mais estranho, talvez, era a falta de origem ou explicação pra aquilo que você via. Às vezes o endereço até explicava aquela imagem como proveniente de um bar na Flórida, de uma praça em Edimburgo, uma universidade Coreana. Às vezes a própria imagem era bem auto-explicativa. Aviões se acomodando numa pista de pouso, crianças orientais numa creche. Mas a maioria não se anunciava, não se delimitava como pertencente a lugar algum. Era a mais desconectada e impertencente manifestação de atualidade que Arrigo conseguia imaginar. Seria como uma mente onisciente que não conseguisse processar ou compreender a quantidade absurda de informações disponível, que conseguisse acessar apenas dados soltos, desconexos, visões e pedaços do mundo que não reportassem a nada, que não sustentassem relações, um Deus dificultado que apenas conseguisse compreender e observar um pequeno recorte do universo de cada vez.

Aquilo acontecia, de fato, aquela visão noturna e alaranjada de uma rua apertada e vazia, sem carros estacionados, aquilo acontecia naquele momento, era um ramo real e presente dos fatos. As paisagens em sua maioria cinzentas, complexos funcionais acalmados, estacionamentos vazios, áreas de descarga e depósito, pequenas torres de transmissão nos longes, cercas de arame. E no entanto aquilo precisava ser de algum interesse possível, de alguma relevância institucional, sei lá, um dos privilegiados pontos materiais do cosmos eleitos como importantes o bastante para merecer a vigilância permanente de uma câmera, uma oferta de luz cuidada. A maior vontade de Arrigo, algo que o deixava formigando de antecipação com cada janela diferente que abria, era de um dia abrir naquela oferta aleatória de mundos uma câmera que o capturasse. Por mais que soubesse a possibilidade infinitamente remota. O bloco vizinho ao seu era vigiado por câmeras, por exemplo. Se um dia calhasse de abrir a página com uma delas (o que não era impossível, não era), ele desceria imediatamente, correndo, atravessaria a rua, se colocaria com toda gratidão sob a visão daquelas modestas lentes, metendo seus movimentos para captura, que fossem seccionados e guardados, transmitidos, e correria de volta para o computador, no quarto, com a esperança que os atrasos esperados entre captura e transmissão e processamento e transmissão permitissem que ele encarasse a si mesmo, o eco ainda soado de seus movimentos, como alguém que consegue virar rápido o bastante para enxergar a própria nuca refletida, que consegue encurralar dentro de seus próprios pensamentos uma inesperada recorrência e prova de presença divina, encontra a si mesmo numa história narrada alheia, numa foto histórica, como uma confirmação quase sobrenatural da sua própria existência, dela atingindo esferas outras distantes de importância.

Mas não, nunca aparecia nenhuma visagem minimamente reconhecível. Jardins com luz crepuscular deitando em espelhos d'água, renovados estacionamentos, nuvens adumbradas se misturando em baixa e incerta resolução.

Ele continuava abrindo novas janelas, não conseguia evitar a impressão de que a próxima câmera traria alguma visão espetacular. Se não essa, a próxima, ou ainda a próxima depois dessa. Não raro aparecia alguma câmera que apenas entregava um quadro escuro, todo preto. Mesmo essa falta de qualquer detalhe configurado, de qualquer mundo desenhado não impedia a impressão de que aquele também era um pedaço genuíno e distinto do universo, aquele escuro um escuro específico e real, individualmente realizado. Era tudo preto, mas não perfeitamente preto, a imagem se preenchia de granulações e compreensões variadas desse nada, dessa ausência, e também ainda assim se alterava, se atualizava, se renovava de diferentes tentativas, diferentes recuperações de noite.

Wednesday, June 16, 2010

Now wave your flag
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É muito bonitinho ver como a Copa do Mundo se dispõe como palco absoluto de aplicação de todos disponíveis instrumentos de entretenimento. Além da insistência repetitiva nas trinta e duas câmeras de alta tecnologia acionadas a todo momento, na sua qualidade de imagem e imediata disponibilidade ao montar fluentemente a historinha de cada partida pros milhões de pessoas assistindo, nós temos ainda os incontáveis aplicativos pipocando modos de visualização de informação ao vivo dos jogos. É previsível que artchistas enxerguem essa profusão como um terreno fértil de contemporaneidad’s, e eles não estão exatamente errados. A linha é mais ou menos a de mostrar a quantidade absurda de ferramentas e filtros através dos quais nós podemos compreender um evento. Nada é simples e unívoco, mesmo esse joguinho aqui se desenrola em dezenas de versões diferentes, dezenas de sistemas de representação, cada um oferecendo um sentido distinto. Um jogo acontece ali diferentemente na narração do Galvão, da ESPN, da Sportv, cada um desvelando suas linhas editoriais marcadas como bandeiras. Acontece diferente nos tópicos do twitter, como sintoma daquilo que mais chama a atenção topicamente articulável dessa comunidadezinha (o Tshabalala se destaca tanto porque todo mundo gosta de dizer e digitar seu nome, por ex.). Acontece na recursão entediante da própria mídia ao descrever a si mesma (a cabeçada de Zidane quase nunca é descrita sozinha, muito mais por suas ramificações infinitas, sua qualidade de meme imediato).

O comercial da Nike linkado por toda parte, cabulosamente produzido, carregou esse ponto de uma maneira meio indecisa entre séria e pastiche (além de constituir uma auto-paródia involuntária e meio deprimente do diretor, o tudo-é-global-tá-tudo-conectado Inarritu ). Os atos desempenhados ali naquele momento preparado do jogo se tornam, imperativamente, históricos. Mesmo se não forem tão espetaculares assim, a estrutura de sua importância já está armada inevitavelmente. História (nesses termos, né) vai ser feita, já se sabe. É só esperar. Cada pequeno marco é destacado e entronizado. O primeiro gol da copa, o terceiro cartão vermelho, o primeiro técnico sérvio a derrotar a Sérvia dirigindo uma seleção estrangeira. Dá pra imaginar cada uma daquelas cenas compondo um pequeno documentário da Copa passando na TV a cabo na Alemanha em 2054. Um momento marcante que nós assistimos ao vivo é sempre surpreendente, estranho, até ser acalmado e recebido pelo replay – a versão itemizada com a qual os instrumentos do mundo devem lidar com aquilo de agora em diante. E o slogan que a Nike arrancou disso (“Write the future”) sugere que nós humildes aqui assistindo em casa partilhamos de alguma maneira dessa possibilidade espetacular de agência.

Publicidade esportiva tem sempre isso, claro, de apelar pro moleque dentro da gente que quer fazer o gol na final. O descarado é o salto que sugere que nós de fato já tenhamos como desempenhar esses atos explodidos mundialmente, sentidos por milhões de pessoas. Uma variação engraçada disso eu vi outro dia, na casa de um amigo, assistindo a final da Liga dos Campeões. O ps3 estava ligado na mesma televisão (para se jogar FIFA World Cup no intervalo), e no meio do jogo dois amigos empunharam os controles e fingiram por uns instantes que controlavam o que se passava em Madrid, ao vivo, como se controlassem com manipulações simbólicas o corpo daqueles jogadores milionários, suas articulações estéticas visíveis ali na tela. O tanto que isso fez a gente rir e a insistência demorada na brincadeira traíram um fato estranho. Que parte de nós esperava minimamente que eles respondessem aos comandos, parte de nós encarava aqueles vinte e dois indivíduos metidos numa atividade física de um nível técnico impossível de se alcançar como elementos inscientes de um jogo inumano programado para o nosso divertimento. Isso porque o nível de realidade mais imediato daquela partida – a experiência material daquelas pessoas correndo na grama no frio - nos é infinitamente distante. A realidade de um indivíduo igual a nós participar daquele que parece um evento de relevância inimaginável não é devidamente computada.

Ou ainda, em outra direção: o irmão de um amigo durante o segundo jogo da copa comentou que tava prestando mais atenção em que marcas eram divulgadas em volta do campo do que no jogo. Isso não é novo, de um evento midiático estourar tanto que se presta mais atenção na sua aura, nos seus apêndices*.

Da mesma forma, não é possível dar conta da complexidade potencial de cada jogo da copa. Você vê a imprensa e a publicidade insistirem naquelas imagens tradicionais de gente em volta de televisores no mundo todo, de culturas e situações sociais distintas, todos reagindo da mesma maneira, niveladas lindamente por esse ‘jogo universal’, etc. Além da torcida no estádio há muito tempo funcionar principalmente como cenário para o espetáculo, reforçando o seu sentido, a gente hoje ainda assiste a outras pessoas assistindo o jogo na televisão – a comunidade de coreanos em São Paulo nos certificando que sim, que aquele jogo chatinho importa, e que você deveria continuar assistindo. Mas não é possível de fato simular mentalmente que aquele gol ali feio da Eslovênia tenha algum significado, que exista no mundo um território administrativo correspondente àqueles vinte e três uniformizados, que milhões de pessoas tenham individualmente sentido aquele evento. A maneira mais fácil para a minha imaginação de lidar com aquilo é como se esses países fossem não apenas invenções meio arbitrárias - o que eles são - , mas apenas times de futebol, montados para jogar a Copa do Mundo.

Wednesday, June 09, 2010

All them dumpsters overflowing
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Enfileirados todos na minha frente, antes de eu dormir. A disposição particular deles é muito familiar, o arranjo de cores, o desenho único que se monta . Pequenas caixinhas, pequenos tijolinhos de consciência. São objetos bem simples. Eu tento voltar minhas fracas luzes pra memória que tenho de cada um daqueles que, de fato, li. A imagem mais exata talvez seja de umas vagas impressões já desmontadas, sem cor, de uns eventos esvaziados, pedaços recortados de frases, lembrando apenas aquilo que eu conto que conto pra mim mesmo, como uma imagem repetidamente repassada por algoritmos de compressão. Mas a imagem que mais me agrada é bem outra, de todos aqueles hominhos - todas as vozes e acidentes e eventos empilhados - ainda redivivos aqui, ainda que inacessíveis, Tudo ainda resistindo, mundos recuperados, sobrevivendo não sei por que meios. Em hotéis e pensões mal acabadas, corredores enormes inassistidos. Os habitantes de cidades paroquiais inglesas, panoramas de tal e tal sociedade, pequena-nobreza russa, americanos nervosinhos, franceses ironizados, todo mundo vividamente interagindo, as tramas sobrepostas em múltiplas janelas minimizadas.