Sunday, April 25, 2010

Lately the concept has been adopted by marketing campaigns.
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Nunca vi ninguém falar nada parecido, mas me parece meio óbvio o motivo de paranóia ter se tornado um tema (ou método) tão prontamente absorvido pela ficção recente. Ela serve basicamente como uma teleologia falsa, uma totalidade impossível que o romance finge fixar, às vezes pelo interesse (em grande parte cômico) que se tem em articulações distantes e absurdas da realidade, às vezes como dramatização bastante séria e sisuda da arbitrariedade de todas essas nossas tão-tolas construções de sentido. Geralmente um meio termo dos dois. O Borges parece ser – como sempre – um dos pais distantes da confusão toda, ou pelo menos da sua possibilidade formal.

Faz sentido que a paranóia enquanto tropo se difunda como praga, se pra nove de dez autores modernosos o procedimento operacional padrão é o de estabelecer ironicamente tentativas fracassadas de compreensão do mundo (o ‘ironicamente’ e o ‘fracassadas’ aí variando bastante muito de tom). Também não ajuda que as pessoas achem que sugerir loucura em personagens - principalmente narradores - torna tudo imediatamente interessante.

Paranóia é mais habitualmente chamada pelo seu nome com os americanos, principalmente Pynchon, mas na real ela se vê esparramada por todo lado, ainda que às vezes fininha e dificilmente reconhecível. Nos EUA paranóia ganhou essas calças específicas de dominação política, a narrativa-total-paranóica misturando as várias possibilidades disponíveis e sobrepostas da mitologia política popular americana*. Não é um acidente que Pynchon tenha essa identificação com contracultura e anos-sessenta-ness (Inherent Vice deixou bem claro o tanto que ela é forte e afetiva).

Mas paranóia não é só isso. Você pode, eu proponho, chamar de paranóia toda redução extrema da realidade a um código absurdo, pessoal e arbitrariamente imposto. Toda totalização de um sistema de referências ou microcosmo aleatório. Não é psicologicamente preciso, deve ter algum outro nome mais exato, mas literariamente o recurso imaginativo é exatamente o mesmo.

E nesse sentido, paranóia tá lá pura e translúcida em Cosmos, do Gombrowicz, tá pesadona em quase tudo que eu já li do Bernardo Carvalho, em trechos do DeLillo (muito forte em Libra), naquele trecho de M*A*S*H do Infinite Jest, borbulhando indecisamente o tempo inteiro no Cortázar**, acho que até em momentos do Piglia. Se eu não fosse ignorante, aposto que teria mais uns dez exemplos***. Sempre que um personagem, geralmente o protagonista, propor um sistema de equivalências esquisito que pretenda dar sentido ao mundo - e, consequentemente, ao romance -, apenas para vê-lo plenamente frustrado em seguida (uma frustração que pode acontecer estrondosa, ou pode ser apenas retoricamente sugerida), ela tá lá, correndo por debaixo, toda esguia, toda safadona.

*No Pynchon ainda tem geralmente umas duas camadas adicionais de complicação, mas não temos tempo pra elas.
**Me irrita.
*** Eu chuto que franceses cont devem fazer isso toda hora. Mas eu não conheço praticamente nenhum. Se alguém souber faz favor me avisa.

Tuesday, April 13, 2010

Gli oggetti desueti nelle immagini della letteratura
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Não é aceitável que qualquer coisa se perca. Se eu tenho como encontrar imediatamente a completa lista de episódios dos Thundercats, eu deveria ser igualmente capaz de encontrar uma descrição perfeita do que eu fiz à tarde no dia treze de abril de noventa e nove, qual episódio de Newsradio que eu assisti, quantos biscoitos comi, o que eu achei da luz caída no chão do escritório, etc. Talvez na forma de um ensaio escrito por uma mestranda da Universidade de Bogotá, relacionando aquele dia com os outros dia daquele semestre, elencando gráficos que provassem pontos controversos, uma bibliografia enorme, as páginas mais interessantes faltando na visualização gratuita do Google Books.
Sempre que eu tento entreter imagens de onisciência, me pego escapando pra esses subterfúgios desajeitados.