Saturday, March 27, 2010

É possível uma existência contemporânea hoje sem malware??
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Na real, ninguém sabe o que se passa, a quantas anda a internet, o Japão, a política, a democracia, a literatura, o Botafogo. Ajuntamos feeds obscuros, manchetes da Globo.com, artigos profundos da n+1, reflexões lindas que você faz dirigindo sozinho de noite sobre COMO FIRMAR UMA TELEOLOGIA FICCIONAL NOS DIAS DE. Mas o mundo se levanta com seus NPCs e tudo se derruba¹. Dentro de mim tem um universo de 76k tentando se manter coerente, recalculado a cada quinze minutos.
A gente decide uns pontinhos que a gente finge entender e manipula como pode, contando uns feijões deitados no chão com as pontas dos dedos, soldadinhos, fingindo que isso é aquilo, dando nomes, falando baixinho 'Aí o Henry James falou assim 'oxi, eu não', aí o mundo cresceu e aprendeu palavrões e (...)'-
Enfim. Meus sábados são desse jeito.

¹BACHELARD, Gaston (1991), p.95

Saturday, March 20, 2010

Ths is obviosuly fake, anyone who disagrees is a complete idiot
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Eu acabei de passar uma meia hora lendo uma discussão enorme, vigorosa, pessoal e apenas marginalmente interessante que aconteceu numa das listas de email que acompanho. Umas vozes desconhecidas vindas sei lá de onde rebatendo nuances progressivamente específicos, às vezes três ou quatro emails demorando numa única controversa frase. As pessoas quase todas dotadas de alguma habilidade argumentativa, embora as idéias elas mesmas fossem meio rasas. Li antes o email mais recente e fui descascando até chegar no email que desencadeou a confusão toda, meu interesse quase só na bagunça e na briga, nos mecanismos retóricos se encaixando.

Acho que quase todo mundo faz parecido, chega sem querer na página quatorze de comentários do YouTube de um clipe da LadyGaga, ou no terceiro tópico sobre o desempenho de um jogador menor do seu time. Meu interesse geralmente cresce de acordo com a quantidade de opiniões imbecis sendo veiculadas. Dá sempre vontade, mas eu quase nunca participo. É divertido, mas me assusta. De imaginar vidas inteiras preenchidas assim, derrubando os argumentos de moleques de quatorze anos, cortando as infinitas cabeças de umas hidras proteiformes, imediatamente repostas.
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Wednesday, March 10, 2010

RESENHA DAQUELE LIVRO FRANCÊS 'LA VIE MODE D'EMPLOI'
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*imagem ruim de televisão pública francesa, entrevistador indulgente, cachimbo, paletó com cotovelo remendado*

Sobre o método do livro*, dá pra dizer que ele sempre aponta em duas direções bem distintas. Ou ele captura um momento específico no máximo de sua materialidade e especifidade, numa enumeração minuciosa dos materiais, dos móveis e tapetes e tecidos e produtos industrializados reconhecíveis - perec pioneiro nisso de usar os pequenos reconhecimentos pós-industriais de achocolatado e refrigerante e filme-de-holywood como um detalhe ficcional determinante e afetivo, que restitue e posicione uma experiência em comum - agindo como uma fotografia, sem fazer com que esse momento se distenda ou se compreenda temporalmente direito. Ou ele faz justamente o contrário, narra a vida da personagem numa série de anedotas apressadamente relatadas, como a vida de um estadista romano numa enciclopédia. Essas histórias são muitas vezes de algum potencial considerável desperdiçado, ou utilizado para algum fim inútil - eruditos reclusos, esportistas aposentados, etc. Do jeito que o livro apresenta, é a vida compreendida como um jogo. Alguém totalizando um único detalhe ou aspecto de sua vida, medindo-a toda a partir desse critério solitário, direcionando-a toda a algum fim pequeno, às vezes aleatório. O exemplo mais puro e direto disso, tomado pelo livro como microcosmo de si mesmo (ha-ho), é o de Bartlebooth, um milionário cujo projeto de vida consiste em, primeiro, gastar anos para aprender a pintar aquarelas (algo que ele não tem vocação pra fazer), para depois então viajar o mundo e pintar em diversos locais distintos uma série (oitenta? não lembro) de cenas marinhas, que ele em seguida envia para Paris, onde um artista chamado Winckler é contratado para colar as aquarelas em quadros de madeira e recortá-los em loucamente intrincados quebra-cabeças dificílimos de serem resolvidos. Depois de pintar tudo, Bartlebooth retorna. Gasta mais uns dez anos pra montar todos os quebra-cabeças, para em seguida enviá-los pros seus locais de nascimento, para que sejam descolados dos quadros de madeira e dissolvidos no mesmo lugar onde foram pintados. Sua vida e fortuna gastas numa atividade absolutamente despropositada, que resulte em exatamente nada. Isso sendo uma metáfora assim pra mundo-vida, né, e pro próprio livro. De certa forma enviesada, isso de uma clareza alegórica sobreposta em níveis concêntricos se parece com a Divina Comédia, um pouco. A modernidad's do troço sobrevem, é claro, com a falta de anagogia e com a Moral da História sendo algo como: a vida é um jogo sem sentido que devemos organizar de maneira arbitrária! (assim exclamado, mesmo). Além de ser meio auto-irônica, com esse título todo faceiro.

Narrativamente, pra mim o livro quase nunca consegue se reunir nalguma força, em detalhes realmente sentidos, nisso de alternar entre detalhamento microscópico que não se estende (e que, portanto, não se presta a consagrar nenhuma atualidade efetivamente sentida) e vidas anedotais com estrutura propositalmente simplista.


O Perec claramente quer fugir da progressão ficcional de sempre, o que em si é agradável, mas nenhum dos enquadramentos pra mim é interessante. A impressão de todos detalhes e elementos do livro como combinações aleatórias de linhas programáticas rígidas, por ex, não traz pra mim grandes profundidades, nem na configuração de uma ordem, nem num possível sentido oposto, meio safado, de dramatizar a nenhumsentidoness desse mundão. O que realmente se dramatiza é um francês doidão super simpático brincando de sopa de letrinhas, e não qualquer impressão nossa do mundo. Quando ele toma pra si umas ferramentas pouco romancescas, a coisa fica mais engraçada, das bibliografias despropositadas, de enumerações constrangidas ali de seu excesso inapropriado no meio de algo tão sério quanto um Romance Francês**. Mas o livro se concentra mais em efetivamente contar historinhas, infelizmente. E quase todas as anedotas são divertidas, e há uma organização, um direcionamento, mas tudo se realiza de um jeito pequeno. O Perec se recusa às ferramentas tradicionais de ficção bonitinha, mas quer arrancar da gente algumas das mesmas reações (esse povo inovador dificilmente sabe o que quer, sempre aprontam dessas. convenção é um bicho traiçoeiro). Mesmo a opacidade fundamental das cenas enquadradas e meticulosamente realizadas não consegue - eu não sei por quê - te meter aquela agudeza de quididade, de linda especificidade de um canto realizado e atual do mundo. Isso poderia tornar o livro muito mais estranho (num ótimo sentido), de uma realidade agudamente sentida contrastando a todo momento com a clara artificialidade do mestre-titereiro puxando tudo pra lá e pra cá. Mas nem.

RECOMENDAÇÃO FINAL:
Leia, sim, tendo essa cara em mente, imaginando a sua insuperável francesidade ao realmente escrever aquele troço. Fica mais legal.

*não a maneira regrada e oulipiana das combinações de apartamentos e personagens e materiais se darem, digo do método narrativo compreendido da maneira mais simples possível.

**O Perec tem aquilo que Butor e Robbe-Grillet não pareciam ter, de uma inventividade bem-humorada, que parece consciente com o ridículo da coisa toda. Ele nunca escreveria um La Jalousie, ou um La Modification. No máximo vinhetas de duas páginas a partir das mesmas premissas, com títulos melhores.