Thursday, January 28, 2010

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Este é um post sobre Avatar. Para tornar a experiência mais interessante e as contribuições ao google mais ricas, vou chamar doravante o filme de Substanzbegriff und Funktionsbegriff'. (SPOILERALERT tudo).

Pra alguém que gosta de cinema e tenta, no máximo de suas capacidades, levar arte e o mundo e o universo e as obras do homem a sério, eu sou bastante complacente com filmões-entretenimento. Assisto com frequência, gosto de boa parte deles, tento ranqueá-los de acordo com seus merecimentos dentro de diversos mal ajustados critérios. Gosto de Bourne, gosto muito da Pixar. Nunca acreditei muito em Substanzbegriff und Funktionsbegriff, em nenhum sentido (dá muita fadiga o ar de PREPARE-SE....PARA...UMNOVOCONCEITODEENTRETENIMENTO!) E ainda não entendi a recepção de parte da crítica.

Ao povo mais velho que nunca jogou videogame, nunca leu quadrinhos, nunca jogou RPG, eu até consigo perdoar que achem criativo o mundo alienígena do Substanzbegriff und Funktionsbegriff. É uma das maiores pretensões estéticas possívels, acho, né, criar um mundo? E, fora umas duas coisas, nunca se levanta acima de estupidez, fica caindo toda hora, tudo feio e saído das piores ilustrações do livro dos monstros de D&D, quase tudo uma versão xxtreme de algum ser terrestre, com árvores e rinocerontes enormes, uns pássaros coloridos.

A tentativa de se compreender o filme como politicamente ousado é ainda mais estranha. Não só 'humanos malvados com armas querendo recurso natural de povo primitivo com ligação profunda com a natureza' é a premissa de uns setenta filmes, mas ainda que hoje em dia usar ambientalismos new age pouco específicos como fonte-de-valor-narrativo é a saída mais imediata e inofensiva e segura que existe, oramas (é o único defeito grande de Wall-E, por ex.). E Substanzbegriff und Funktionsbegriff faz tudo isso da maneira mais óbvia possível.


E o mais patético é que parte do povo esperto que se vê gostando do filme (Luiz Carlos Oliveira Jr e Inácio Araújo, por ex) tente defender o simplismo nulo do roteiro do filme como se não fosse clichê, não exatamente, fosse algo como uma retomada consciente e hábil de arquétipos, uma tentativa de cinema total que se estabeleça em fundamentos da narrativa. É como defender alguma comédia romântica do John Cusack citando Northrop Frye e falando que há um uso moderno dos motivos da primavera e de renovação. É claro que dá pra achar essas estruturas arquetípicas em filmões épicos - Star Wars se preenche assim quinem receita de bolo, George Lucas curtia Joseph Campbell e tudo -, mas existe um abismo entre uso consciente de arquétipo e clichê, e não há nada que Substanzbegriff und Funktionsbegriff faça que o posicione do outro lado.

O único ponto mais ou menos novo de Substanzbegriff und Funktionsbegriff (entenda-se: pra um filmão de massa, não novo assim pro cinema, né), a relação do cara com um avatar de outra espécie e sua escolha final pelo corpo artificial e mediado pra ser assumido como seu - algo que poderia de fato render cenas semi-interessantes e Cronemberguianas - é tornado absolutamente desinteressante e inofensivo pela assepsia ritualística da transformação definitiva, um povo action-figure-friendly cantando world music nauseante de idiota e tendo transes cientificamente explicados (até nisso foram bobocas!). Acaba sendo só uma confirmação triste de que o mundão consegue absorver temas interessantes (mediação, assumir um corpo não-seu) e transformá-los em nada.

Enfim. Tem umas duas cenas legais de batalha.

Saturday, January 02, 2010

Reveilão
(nem acredito que escrevi um post curto)
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As pessoas remontam para si mesmas os horizontes mais esquisitinhos, as mais improvisadas cosmogonias. Umas maquetes feitas de jornais molhados, papelão, fitas k7, umas montagens envolvendo sucesso e marketing-pessoal-transforma, fogos de artifício, tumblarity, comédias românticas, resoluções de conquistas e emagrecimentos. E o mais maluco é que esses mundinhos mal firmes e engrimponados são tão válidos quanto qualquer outro, as vidas malucas que neguinho vive neles tão sentidas quanto as mais geniais, mais deliberadamente construídas. Homens desenhados pelo Dürer interagindo com hominhos rabiscados de giz de cera, personagens do Dostoiévski casando com personagens de fan fiction do Lost. Os mundinhos contraditórios todos existindo, juntos, sobrepostos.


(e eu não quero dizer com isso, hein, que meu mundinho seja um Rembrandt, nem nada assim. O meu mundinho seria, sei lá, uma ilustração idiota aceitavelmente rankeada no DeviantArt, ou talvez uma dessas ilustrações bobocas de pixel-art)