Thursday, December 17, 2009

(encontrei isso salvo em rascunhos do meu gmail, nem lembrava da existência)
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Todo mundo se reuniu pra descobrir coisas autênticas. Num galpão, com cadeiras de plástico e sistema de som e uma mesa com salgadinhos. Tinha alguma ansiedade no ar, mas não tanta (as expectativas não eram tão fantásticas, depois das últimas decepções). O homem que deveria liderá-los, daquela vez, seria Arrigo Andrada, a última esperança verdejante. Quando alguém se destacava de alguma maneira (pegando um mosquito com as mãos, ficando debaixo d'água sem respirar por mais de um minuto, chorando por causa de um filme, compreendendo por inteiro a trama da novela), era eleito a nova esperança, alçado aos ares, casado com várias virgens e posto num terno distinto e sóbrio. Depois de experiências iluminadores e purificadoras, ele deveria nos explicar a origem de autenticidade, retraçá-la com gráficos e planilhas, para que finalmente entendêssemos onde é que ela havia se perdido nas confusões. O que se seguia era um extermínio, sensato e organizado e super competente, de tudo aquilo que pudesse entravar a autenticidade. Uma retomada legislativa de todos os códigos disponíveis para impedir que os itens agora expurgados pudessem sobreviver em quaisquer dos setores da realidade. Várias ondas subsequentes e contraditórias já se haviam seguido de explicações e tentativas de purificação, discursos e práticas proibidos e exterminados, um dilúvio que permitisse que vicejassem mais uma vez os lindos carvalhos da autenticidade (as metáforas já haviam largamente se perdido, com muita gente efetivamente achando que carvalhos reais cresceriam aqui em volta, imagine só, nesse tipo de terra, com esse tipo de tempo). Já era bem evidente para todo mundo que não se teria um fim, que o único sentido possível da nossa atividade era um alegórico, da impossibilidade da nossa empreitada, mas não é como se alguém tivesse alguma idéia melhor. Autenticidade ainda era prezada, apesar de tudo, isso ninguém discutia, e o esforço todo ainda era respeitável, com suas circunstâncias burocráticas e práticas (suas instituições e seus corredores e seus motoristas e seus sistemas de crédito e seus amigos ocultos no final do ano) que não poderiam assim ser desmanteladas de forma tão apressada. Nós já estávamos ali, afinal de contas, os processos já encaminhados, profissionais altamente capacitados, treinados até nos finais de semana, prontamente dispostos a efetivarem qualquer linha programática de otimização e planejamento que se estabelecesse. Havia, nos comitês, sempre um cego ou uma criança ou um velho negro que se levantasse dum jeito grosseiro, interrompendo os procedimentos para sugerir que talvez a própria tentativa de se estabelecer uma autenticidade derradeira possuísse em si uma premissa finalmente equivocada, que complicava qualquer de suas possíveis consequências, um até citava um poema bonito de como havia navios fadados ao fracasso desde a podridão das árvores que lhe serviram de madeira (o que eu pessoalmente achei de mau gosto), outros provando a impossibilidade lógica do que a gente tentava fazer, com diagramas e setas e latim (mas ninguém respeita essas coisas hoje em dia). Dessa vez foi quase diferente, apareceu uma moça gordinha falando de como as nossas ferramentas discursivas, redobradas sobre si mesmas, se misturavam como as ferramentas dentro de uma caixa de ferramentas, e que nós estávamos a esse ponto usando chaves de fenda para tentar desmontar um parafuso martelado por um prego. Todos nós achamos a imagem muito eloquente (e bem-humorada), e prontamente descemos Arrigo do pódio (com toda educação, ninguém aqui é bárbaro; ele ganha uma cesta de presentes oferecida pela Jonhson & Johnson) e levantamos a moça lá pra cima. Ela chorou, muito emocionada, era a primeira moça a fazer uma coisa daquelas, o que todo mundo concordou ser muito importante, muito correto. Suas primeiras medidas foram proibir comic sans e gasolina aditivada e gerundismo e oração nas escolas. Escolhas que foram recebidas pela crítica especializada como bem distribuídas e equilibradas em diversos planos diferentes de eficácia.