Monday, November 30, 2009

DESCUBRE EL VICIO DE LA HIPOCRISIA, QUE AFETAM MUCHOS EM LA DISIMULACION DE SUS MALDADES
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Uma cultura toda obcecada com demarcar autenticidade, fixá-la como uma bandeirinha. Isso aqui não é uma simulação (o que quer que simulação signifique, no caso particular)! Eu juro que não é!

Isso vai de complicadas e convolutas demarcações pessoais de gosto nos mundos indies (eu gostava disso antes de sair no comercial da Toyota, antes de se tornar popular, antes da Pitchfork, gostava quando ainda se podia gostar-de-verdade) até as bem literais e repetitivas declarações de 4realness do hip-hop. Sem falar da própria obsessão-maior do rock indie de se botar como menor, como mais vulnerável e infantilizado (i.e. mais autêntico). Como se, nos mundões atuais, todo sistema estético contivesse necessariamente todo um rol de falsidade inócua e canalha ao qual se opor, de forma definitiva, antes da brincadeira sequer começar. É uma paranóia tão sintomática e óbvia que dá até preguiça, as citações de Baudrillard que ninguém quer fazer. Até pornografia mainstream caminha em direção do mais gonzo e menos produzido, e carrega a obsessão do Money shot obrigatório no final, como quem diz Aconteceu sexo de verdade aqui!* Se até publicidade (uma das maiores responsáveis pela paranóia toda, e sempre pontual cemitério de recursos) parece querer isso.
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E aí que uma certa parte desse ímpeto ganhou articulação do David Foster Wallace, lá no famoso ensaio dele, cuja historinha pode ser grosseiramente reduzida jornalisticamente como ironia subversiva e bacana dos escritores comediantes pós-modernos é absorvida e tomada pela mídia televisiva e pela publicidade até se tornar perversa e limitadora das forças redentoras da imaginação. Alguma coisa assim. Na verdade, o argumento dele (que me parece lindo e ótimo e correto, ainda que já datado) é bem delimitado à ficção americana de tal época, mas dá pra ver que ele já vem sendo tomado como call to arms pra arte verdadeira e honesta!, como uma solução geral contra um cinismo generalizado responsável por vários tipos de ruindades. Como se essa briga ironia/autenticidade não só fosse algo novo, mas ainda definisse toda a circunstância cultural desse mundão numa cisão clara e inequívoca.

E parece óbvio o bastante que qualquer discussão de autenticidade nas artes que não se queira fadada à adolescência de um filme indie não pode se traduzir apenas na irrupção de um novo léxico fixo de intenções. Quanto tempo até se aperceberem que se dizer curtidor de uma NEW SINCERITY, ou um PÓS-IRÔNICO, que tornar claro a toda hora que você é de verdade não torna nada mais certo, não estabelece nem sequer um ponto-de-partida retórico genuíno (que tampouco seria o bastante). Que, ao contrário, a declaração de autenticidade - seja direta, seja por adesão a pressupostos estéticos - funciona retoricamente bem mais como uma inversão retórica pra quem a detecta, pra quem percebe os fios. E com toda a culpa que DFW pode vir a ter na elaboração dessa onda toda** - e por mais maluco que soe um autor assim-dito literário influenciar campos tão distantes do mundo-real, ainda me parece mais ou menos plausível -, ninguém pode culpá-lo de não antever ao menos este mais óbvio dos paradoxos. Que a vontade-de-sinceridade tornada um tropo, tornada uma imagem fixa, traz seus coices imediatos de invalidez retórica, e precisa ser incessantemente reformulada, repetidamente afirmada, até se esfumaçar em nada.

*Essas não as únicas demarcações do money shot, né, nem de longe. Mas faz parte essencial do troço.

**Muito irresponsavelmente, sem justificar, eu estabeleço essa linha assim: DFW->Dave Eggers-> Indie Rock-> Juno-> Publicidade -> Mundo. Ela não deve fazer sentido, mas na minha cabeça faz. Dá pra ver o troço se diluindo.

Wednesday, November 11, 2009

What ordre shulde be in lernynge and whiche autours shulde be fyrst redde
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A Biblioteca Central da UnB tem um andar de periódicos. Semana passada eu fui lá pela segunda vez. O lugar é inteiramente diferente dos dois outros andares, tem quase metade do espaço para leitura, não é cheio de gente estudando para concurso, de meninas com cadernos abertos e várias canetas coloridas, de gente passeando pelos corredores. É vazio e, na maior parte do tempo, realmente silencioso, com as exceções sendo bem mais exageradas, já que ninguém parece levar o lugar tão a sério (o guardinha sentado num canto, apoiado na parede, escutando rádio pelo auto-falante estourado do celular, dois homens conversando em voz doidamente alta sobre arquivos que eles precisam digitalizar, um menino gordinho feio roncando feroz entre antropologia e história).

A primeira impressão, mais óbvia e pesada, é só de um excesso, much of a muchness, multidão canhestra e constrangida de conhecimentos e discursos materialmente renderizados. Tudo ganha um rosto mais específico e menor, pontiagudo, mais delimitado de sua realidade. As três prateleiras do Korean Journal of Linnear Algebra, as revistas americanas de fotografia com comercial de seguradora atrás, Acta Metallurgica, as Tel Quels dos anos 60 e 70*, Poultry Science, Архитектурæas CCCP dos anos 70, Sports Illustrated dos anos noventa todas amassadas, rasgadas. A impressão imediata, mais acessível à imaginação, mal emprestada da Bibilioteca de Borges, dos quase-infinitos textos puramente contidos em edições de capa-dura e escura, Harvard Great Books, dá lugar a uma outra versão, mais pesada, das edições amareladas, rasgadas, dobradas sobre si mesmas, escolióticas, tantas delas claramente virgens, vozes inassistidas ali impotentes. Qualquer mito ou representação coletiva de uma única cultura, um único troço que todos nós podemos apreender (dado um mínimo potencial cognitivo), um lugar que todo mundo visita igualmente - acompanhado do, sei lá, George Steiner - torna-se muito mais engraçadinho. Não que esse ponto não esteja já feito, não seja já muitíssimo familiar, mas é outra coisa vê-lo tão ricamente ilustrado, ali na sua cara, com poros entupidos e barba por fazer, a contracapa rasgada da revista de nevrologia & psychiatria entre estantes.

Ainda dá pra simular alguns desses traços todos antigos, ainda dá pra sorrir e tentar correr um progresso historiográfico panorâmico de algo-parecido-com a cultura ocidental na sua cabeça - sentir que tá simulando um Civilization.exe** - mas você sabe que 'cultura' é também uma pilha de JOURNALS OF COMPARATIVE LITERATURE, 1997/1998, com páginas meio pregadas de desuso, de onde caem cartões amarelados solicitando, tadinha, a sua assinatura, em prateleiras empoeiradas metálicas atendidas durante décadas apenas pelo pessoal da limpeza e por calouros querendo se agarrar (e ainda assim raramente).

Quase todo mundo que eu conheço que é genuinamente interessado em alguma coisa tem que se virar com um alto grau de auto-didatismo pra formar uma visão culturamente informada do que lhe interessa. Uma empreitada pessoal e improvisada, largamente mediada pela internet. O que é difícil, trabalhoso e terroso. Artigos da Wikipédia, ensaios acidentalmente pescados, colagens inventadas, lacunas tardiamente preenchidas. Muita, muita suposição pouco verificada. Uma cultura-gambiarra***. Eu passeei uns quarenta minutos pelos corredores todos e acabei com uma pilha de uns noventa quilos de quase tudo. Media Studies antiquados, Tel Quel, Arquitetura, Fotografia, Antropologia, Linguística, Revista Cult de uns sete anos atrás . Eu me sentei no chão, apoiado num vidro que acumulava toda uma história movimentada de sujeira, projetada e estendida no chão por um sol já idiota de logo-antes do almoço. A pretensão não era de conseguir ler nada muito seriamente. Na verdade, eu nem sabia muito bem qual era a pretensão. Acostumado antes de tudo com hiperlinque e com imaginar associações feitas nuvens de tags, o que facilita imagens mais aéreas e preguiçosa, eu tinha ali uma aproximação talvez mais verdadeira de como se dão esses troços todos aí no mundo, do que são efetivamente essas tentativas todas. E no final eram esses pedaços, essas coisas caídas no colo, tudo impossivelmente querendo ser entendido. E eu só com quarenta minutos até estar atrasado pra almoçar com minha vó.



*talvez a coisa mais genuinamente legal que eu achei. Barthes e Butor e essa garotada toda. Ver um pouco do contexto deles reproduzido - as edições tão francesas e simples, o povo todo concordando consigo mesmo como pequenas caricaturas - ajuda a entender um pouco a miopia concentrada e provinciana que os franceses dessa época conseguiam ter com literatura (uma miopia concentrada frequentemente genial, é verdade). Ajuda a entender como é possível que alguém escreva coisas como Pour num nouveau roman.

**se você tiver uma imaginação tipo a minha, o que rola é uma simulação toda animada, com pequenas miniaturas pantomímicas se agitando em velocidade x32 acompanhadas de tremebundas e abaritonadas onomatopéias.

***não que uma educação aí nas ivy leagues da vida seja necessariamente toda repleta, com barrinhas ideais se preenchendo perfeitamente numa enteléquia toda linda (como os skills num jogo), mas é certamente diferente.

Wednesday, November 04, 2009

Enfim, it faut faire leur place à de mysterieux facteurs à l’ouvre dans tant de villes, les chassant vers l’ouest et condamnant leurs quartiers orientaux à la misère ou à la decadence. Simple expression, peut-être, de ce rythme cosmique qui, depui ses origins, a penetre l’humanité de la croyance inconsciente que lês sens Du mouvement solaire est positif, Le sens inverse négatif; que l’un traduit l’ordre, l’autre Le disordre. Voilá longtemps que nous n’adorons plus Le soleil et que nous avons cesse d’associer lês points cardinaux à dês qualités magiques: couleurs et vertus. Mais, si rebelle que soit devenu notre esprit euclidien à la conception qualtitative de l’espace, il ne dépend pás de nous que lês grands phénomènes astronomiques ou même météorologiques n’affectent lês régions d’um imperceptible mais indélébile coefficient; que, pour tous leus hommes, la direction est-ouest ne soit celle de l’accomplissement; et pour l’habitant dês régions tempérées de l’hémisphere boreal, que Le nord ne soit Le siège du froid et de la nuit; Le sud, celui de la chaleur et de la lumière. Rient de tout cela ne transpaît dans la conduit raisonnable de chaque individu. Mais de la vie urbaine offre um étrange contraste. Bien qu’elle represente la forme la plus complexe et la plus raffinée de la civilisation, par l’exceptionnelle concentration humaine qu’elle réalise sur um petit espace et par la durée de son cycle, elle precipite dans son creuset dês attitudes inconscientes, chacune infinitésimale mais qui, em raison du nombre d’individus qui lês manifestent au même titre et de la même manière, deviennet capables d’engendrer de grand effets. Telle la croissance dês Villes d’est em ouest et la polarisation du luxe et de la misere selon cet axé, incompréhensible si l’on ne reconnaît ce privilège – ou cette servitude – dês Villes, à la façon d’um microscope, et grâce au grossissement qui leur est propre, de faire surgir sur la lame de la conscience collective le grouillement microbien de nos ancestrales et toujours vivantes superstitions.

S’agit-il bien, d’ailleurs, de superstitions? Dans de telles predilections, je vois plutôt la marquee d’une sagesse que les peoples sauvages ont spontanément pratiquée et contre quoi la rébellion modern est la vrai folle. Ils ont souvent su gagner leur harmonie mentale aux moindres frais. Quelles usures, quelles irritations inutiles ne nous épargnerions-nous pas si nous acceptions de recconnaître les conditions réelles de notre experience humaine, et qu’il ne depend pas de nous de nous affranchir intégralement de ses cadres et de son rythme? L’espace possède ses valeurs propres, comme les sons et les parfums ont des couleurs, et les sentiments un poids. Cette quête des correspondances n’est pas un jeu de poète ou un mystifications (…); elle propose au savant le terrain le plus neuf et celui dont l’exploration peut encore lui procurer de riches découvertes.
(…)
Ce n’est donc pas de façon métaphorique qu’on a le droit de comparer – comme on l’a si souvent fait – une ville à une symphonie ou á um poème; ce sont dês objets de même nature. Plus précieuse peut-être encore, la ville se situe au confluent de la nature et de l’artifice. Congrégation d’animaux qui enferment leur histoire biologique dans sés limites et qui la modèlent em même temps de toutes leurs intentions d’êtres pensants, par sa gênese et par sa forme la ville relève simultanément de la procréation biologique, de l’évolution organique et de la création esthétique. Elle est à la fois objet de nature et sujet de culture; individu et groupe, vécue et rêvée: la chose humaine par excellence.
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claude lévi-strauss, tristes tropiques.
(eu que transcrevi, acentos devem estar todos zoados)
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Não é um trecho dos mais legais, nem tão representativo, mas foi o que eu achei de última hora. É algo recorrente no livro, isso de uns pontos vagos e amplos serem expandidos inesperadamente, zoom-out nas ossaturas escondidas e reconhecíveis, assim, DO MUNDO.
Muito legal, pra mim, tê-lo andando por Goiás, por Mato Grosso, comentando as planuras e os longes, o céu largifronte, a terra desinformada, os hominhos confusos. Ele vai divagando de um jeio fistaile muito antiguinho, muito distante e direto, já d'outra realidade. Todo homem-de-letras-francês-fazendo literatura de um jeito gravata borboleta, pouco zoão, nada recursivo. E é estranho e bonito imaginar que ele fosse o último de uma espécie, o último receptáculo de uma episteme, uma consciência hesitante entre esferas, se sentindo de alguma forma responsável por coisa que ele nem entende, um mundo perdurando aí fraco e confuso.

Ficam os filhos dos filhos dos filhos das suas estruturas, sobreouvidas confusamente, resumidas na wikipédia. Assim como suas calças jeans ousadas e revolucionárias.