Saturday, October 31, 2009

NOTA BIOGRÁFICA
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1987: Nasce, em Biguaçu (grande Florianópolis), Andreis Passarinho.

1994: Assiste, pela primeira vez, Jamaica Abaixo de Zero. Muda-se para Brasília.

1997: Primeira viagem a Caldas Novas

2006: Segunda viagem a Caldas Novas

2011: Passa em vigésimo terceiro lugar em um concurso razoavelmente concorrido do Poder Judiciário. Não passa pelo período probatório, por motivos desconhecidos.

2012: Escreve seus primeiros poemas em hipertexto

2013: Publica “O véu e o espelho: ensaios” (autopublicação)

2015: Terceira viagem a Caldas Novas.

2017: Publica “O direito de participar no trabalho da imaginação” (manifesto on-line)

2018: Cria o seu próprio artigo na Wikipédia, apagado horas depois.

2019:Publica “Identidades parciais, explorações totais: ensaios” (7letras)

2022:Convidado para participar do conselho editorial de uma edição da revista de literatura & design da Universidade de Juiz de Fora

2023: Publica o romance “O meio do avesso” (Rocco)

2026:Primeira viagem à Índia. Torna-se (por um breve período) budista.

2027: Perde o movimento de alguns dedos num acidente com a porta de um carro, ganha um tremendo processo com a Ford que lhe sustentará pelo resto de sua vida.

2028: Publica o romance “Repetição” (Editora Ecos), amplamente tido como ilegível.

2031:Publica o controverso ensaio “Pós-humanos ou pós humanos?” na hoje extinta revista on-line Pará Ex-Machina

2031: Participa do programa de entretenimento-realidade-gincana “Hn:S MX’ING”, torna-se um meme involuntário ao se assustar com alguns hologramas e bater em duas mulheres participantes. Sua fama mundial dura quase uma semana.

2032: Publica o romance satírico “Nós éramos nós”, recebido pela crítica como um dos primeiros romances a tratar de maneira crítica a internet e a pós-modernidade no Brasil, que lhe renderá a fama de ser “talvez até o novo Júlio Abreu”

2033:Ganha uma coluna semanal na revista online portuguesa Tripas

2035:Encerra sua parceira com a revista online portuguesa Tripas

2036:Publica “Brasília: a utopia estática”, com edição subsidiada pelo Governo Estadual, vira alvo de controvérsia e denúncias de improbidades.

2037: É condecorado com a ordem de Duque de Impossibilidad do Reino fictício de Redonda, pelo músico, grafiteiro virtual e chef Gastón Marías, filho de Javier Marías e neto de Julian Marías. A imprensa espanhola repercute de maneira extremamente negativa, sugere que a "amizade virtual" dos dois explique a condecoração.

2044: Publica o romance “Vidro moído”.

2046: Descobre-se que o seu romance “Vidro moído” é uma versão apenas ligeiramente modificada de “Molloy”, de Samuel Beckett. A crítica retrata seus elogios anteriores, e ele é obrigado a devolver seu prêmio Jabuti. Ele explica, em entrevista, que se tratava de uma “pegadinha literária com a idéia de autoria”.

2055:Depois de uma longa e protelada luta com uma infecção hospitalar, vem a falecer de manhã, sozinho, no Hospital de Base de Brasília. Como era dia do servidor público, uma pequena festinha dos funcionários no seu andar impede que seu falecimento seja descoberto por mais de dezesseis horas, evento estranhamente prefigurado por um de seus contos não-publicados “A sobra do resto”.

2057: Stand (com mesas e fotos) em sua homenagem na XXIII Feira do Livro do Plano Piloto

Saturday, October 17, 2009

esse conto é meio grande, ninguém precisa ler não (ainda mais do jeito que blogger deixa as coisas ruins de ler). e eu tampouco o revisei direito, acabei de acabar. mas hoje é sábado, pédecachimbo, tou aqui super jazzys do bom humor e da verdejante bem-aventurança, então toma, sentaquelávemahistória, tal. aqui não é exatamente a Partisan Review, né.

*tosse, põe fraque, diminui a luz, franze o cenho de preocupação com o peso acachapante de toda a tradição ocidental*

Barulho
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De tarde ela trabalhava, e ele não. O sol se batia em tudo no pequeno apartamento de dois quartos, progredia a iluminar todas as coisas no seu progresso, todos os livros empilhados e revistas amassadas e camisetas esparramadas, propondo diferentes sistemas de sombras na parede, ao longo da tarde. E ele se engastava de todas essas coisas, ganhava uma pequeníssima (mas presente) agonia de todas as suas posições possíveis ali, todas as suas pequenas possibilidades de organização (deitado na cama, deitado no sofá, sentado no sofá, sentado no computador, sentado no pufe, deitado no chão, debruçado na varandinha apertada). Tinha dificuldade de ficar parado, de aceitar qualquer posição como definitiva. De fora chegavam espaçados os barulhos que uma tarde de quadra traz, soltos e descompromissados, indispostos a serem explicados, crianças, porteiros, gente vendendo botijões de gás implausivelmente pesados, naquele calor todo, gente oferecendo para remendar suas cadeiras de vime. Ele pega uma guitarra (das quatro disponíveis ali), a Fender azul-bebê comprada por um preço verdadeiramente absurdo de barato num leilão na internet - recompensa de umas incontáveis tardes consecutivas gastas na procura da melhor oferta possível, da mais irresponsável e inocente oferta, de alguém que não soubesse o que estava vendendo - e começa a rodear bem lentamente a possibilidade de alguma composição, pequeníssimos começos de idéia que andam rondando sua cabeça nas últimas semanas, todas severamente inconclusas. Ele sempre que empaca em algum trecho por muito tempo acaba desviando pralguma música antiga que fica passeando pela sua cabeça, imbecil, geralmente algum sucesso antigo da sua adolescência que ele diz que só gosta em alguma compreensão enviesada, supostamente irônica. Toca Greenday, Shakira, mudando o registro e o tempo, fazendo versões em bolero, ruidosas de distorção, versões tristíssimas para músicas tolas e juvenis e fáceis. Fuma um baseado já feito que ele estranhamente não lembra de ter feito, encontrado meio amassado entre duas revistas, e lê uma tirinha de internet sobre um tiranossauro ninja, vê fotos de meninas lindas e lindamente arrumadas de Oslo, de Paris, de Barcelona. Aprova tudo nas fotos e sente vários tipos sobrepostos de carência e desejo, linhas concorrentes e confusas que culminam num ponto meio insustentável, no qual ele acha melhor fechar tudo e sair do computador (já tendo se masturbado nessa última hora). Percebe, desviando as ambiências mais concretas daquele troço pra um lado mais refletido e rarefeito, que falta ao mundo meninas bonitamente desleixadas, conscientemente desleixadas, envoltas em dobrinhas confortáveis de moletom, com cabelo genuinamente bagunçado, fumando tchose e chegando desavisada na casa dos outros, atravessando a Asa Norte a pé com um cachorro que não é seu. Minas slacker. Sabe que isso é provavelmente porque esse nosso malvado mundo não permite às minas que sejam bonitamente desleixadas, um ethos (ele não sabe se a palavra está correta) reservado e exclusivo aos homens. O mais próximo seriam minas hippies, mas aí ele não gosta. Pensa (apenas mais ou menos sério) no quanto que o mundo ganharia em elegância se estivesse disposto a seguir sua consultoria não-remunerada em diversos campos de empreendimento, sua consultoria tão iluminadas, tão disposta e desinteressada. Ele poderia coordenar tudo daqui mesmo, do sofá, do pufe, do chão, mas não, o mundo preferia insistir teimosamente em todos seus erros. Ele pensa em se levantar, tomar um banho. Seu cabelo parece sujo ao toque, e ele talvez esteja carregando um cheiro desagradável. Ele cheira suas axilas (mais verdadeiramente: ele cheira seus ombros), mas aprendeu a não confiar no próprio olfato pra esse tipo de coisa.
A sua namorada deve estar, naquele momento, lidando com alguma seriedade muito séria, no Itamaraty. Ela é uma dessas pessoas que fazem coisas, que falam com os outros, que se projetam em direção a problemas para solucioná-los, que descobrem que esse é o telefone do cara do negócio (do Itamar lá do cerimonial, por exemplo), e então anotam no caderninho que anda com ela apenas pra lembretes imediatos, e que então liga, assim, de uma vez, para o Itamar, tratando-o educadamente e simpaticamente, sem parecer falsa – provavelmente sem nem ser falsa -, e descobrem, sem que isso lhe seja dito diretamente, descobrem nas sutilezas, que o cerimonial de tal ministro não respondeu porque o ministro tá emburrado que só ele não recebeu os livros do outro ministro. Ela conta essas histórias e ele concorda adiante, não consegue entender de verdade a realidade na qual ela está metida, de ministros e cerimoniais e autoridades que nunca se alcançam diretamente ao telefone, e ele geralmente inventa versões cartunescas que sua imaginação consiga articular com mais facilidade (com cada pessoa ganhando um avatar amigável e ironicamente infantil, como o monstrinho roxo do McDonald’s ou o amigo do Popeye que come hambúrgueres toda hora). Ele ficou chocado de descobrir, por exemplo, que alguns dos prédios da Esplanada tinham anexos subterrâneos. Imagina agora toda atividade burocrática se passando em complexos assustadores e distópicos de túneis interligados, com luz fraquejante piscando, carpete verde escuro mofado, filtro d’água vazio rodeado de copos plásticos e pôsteres da Amazônia na parede (“A NOSSA FORÇA”), quadros esquecidos do Sesquiat e gente de terno transportando papéis pra todo lado em carrinhos antiquados empurrados com displicência. Ele se involuta desse jeito em reação a quase qualquer fenômeno, se encolhe e tenta desconsiderar sua realidade (ou ao menos adiá-la), remontá-lo numa versão animada, nos seus próprios termos, feita para TV. Aos nove anos ele associou essa atividade a de um tatu-bolinha - que se fecha tão rápido numa linda e íntegra bolinha, lisinha ao toque - e ainda mantém a imagem, embora meio fraca e um pouco abstrata (tendo já uns nove anos que ele não vê nenhum tatu-bolinha, embora eles permaneçam igualmente disponíveis, inutilizados, em diversos canteiros e jardins perpassados por ele quase diariamente). Empunha sua guitarra agora com renovada seriedade, e agora senta no chão, para comprovar a mudança de postura, apóia as costas no pufe quadrado e dá pequenos tapinhas nas cordas, com a ponta dos dedos, os mais sutis possíveis, quase surdos. Faz isso por dez minutos.
Ele sabe mais de música do que qualquer pessoa que ele conhece. Música popular, é verdade, e apenas americana e brasileira, é também verdade (e mais americana do que brasileira), mas mesmo assim. Desenvolve há uns meses um texto que nunca mostrou nem deve mostrar pra ninguém, já de uns cinco páginas (Uma altamente crítica e pouquíssimo deslumbrada teoria do Indie, o troço se chama, mas o título ainda é bem provisório). Ele sabe o que é que estão fazendo, sempre, em boa parte dos cantos desse mundão, e entende os motivos e as pertencenças, as origens, sabe traçar mentalmente para cada música que ouve nuvenzinhas de atribuições e influências de uma complexidade impossível de ser traduzida em qualquer mídia que ele conheça. Ele já pensou, até, em desenvolver um software que o faça, mas os planos não passaram de rabiscos emaconhados num caderno que no dia seguinte ele nem chegou perto de entender (e que insistiam em traçar vários diagramas todos parecidos com capacitadores de fluxo). Sabe decompor as influências dos poucos artistas realmente originais, compartilhar sua força de maneira intensamente sofisticada (ele gosta de pensar que entende melhor do que os próprios artistas, até, na maior parte do tempo). E inclusive sabe que sabe disso, enuncia isso pra si mesmo como parte de uma teatral recomposição de si mesmo, auto-irônica e auto-odiosa (geralmente na forma de uma entrevista madura, de final de carreira, com o Jô Soares)
Olha, Jô, acho que é o que mais me define é essa indecisão entre esses dois mundos, da tradição americana e da tradição brasileira. Eu me defino assim nessa falta de definição, entende?Como um objeto ansioso, se me permite.
Agora já meio deitado, com a guitarra ainda em seus braços e sendo bem suavemente tocada, ele tenta com os pés apanhar um isqueiro que havia caído da mesinha do computador e que quase saía do quarto. Com o corpo quase todo deposto no chão, ele percebe que consegue sentir uns pequenos tremores e vibrações no prédio, intercadências de maquinaria distante, do elevador, de eletrodomésticos dos vizinhos, do encanamento, funcionamentos vagos chegando até ele como gestos denunciadores de uma materialidade total inapreensível, daquele prédio como um corpo infinitamente complexo de concreto armado e vidro e aço sabe-se lá o que mais, um bicho rugindo. Ele desiste do que estava tentando e se deita todo no chão, percebe que consegue ouvir uma multitude absurda de coisas abafadas e distantes, um universo distante de significado. Já havia ouvido a Helena falar de como aquele pequeno espaço fechadinho entre as varandas (perto da parede ali mais próxima de sua cabeça) comunicava os sons de todos os apartamentos de cada prumada, mas nunca havia sentido aquilo de verdade, até então. Aquele ponto onde ele estava, de alguma forma, deveria ser onde culminavam aquelas reverberações todas, em tanta nitidez. Ou então - e ele entretia também essa possibilidade com igual atenção - ele estava doidão pra caralho, e aquilo não passava do ruído normal que qualquer um consegue escutar a qualquer momento, se prestar mínima atenção.
Sempre que sob a influência ele sentia essa capacidade de estender indefinidamente a importância e o peso de uma pequena sensação específica, um único dado minúsculo da realidade de alguma forma explodido e tornado total, tornado importante.
Sua guitarra estava ainda no seu peito, repousada com algum conforto, uma extensão carinhosa de si mesmo, infinitamente confortável, e ele não havia parado, durante esse tempo, de tocá-la lentamente nuns acordes espaçados e pouco coerentes, ruidosos de muita e acumulada distorção reunida de quatro pedais distintos. Mas agora ele parou, tirando o cabo, para melhor ouvir o que ele tinha para ouvir, aquele apanhado pontiagudo e disperso que ele pudesse reunir em coerência, explicar, de alguma maneira. Ele conseguia distinguir janelas sendo abertas e fechadas, com vidro correndo estridente e relutante, uma televisão (ou rádio) com canais sendo trocados toda hora por alguém indeciso, uns alarmes eventuais que poderiam ser de bem qualquer coisa, microondas, rádio-relógio, celular, uma música repetitiva que ele decidiu ser de um videogame, embora sem muito motivo, e uma vibração meio uniforme e distribuída que se interrompia e se retomava em intervalos que poderiam muito bem ser os de um elevador.
Ele demorou muito tempo para entender quais daqueles barulhos – aqueles surdos, abafados e meio uniformes que se sobrepunham a todo o resto em ritmos e intervalos próprios e aleatórios – que seriam vozes humanas.
Ele passou a se concentrar nelas, então, tentar entender o que tavam dizendo. As palavras em si pareciam bem impossíveis de serem compreendidas, mas talvez o ritmo e algo da inflexão poderiam ser intuídos, reunidos e explicados (e também o próprio processo de interpretação ele narrava pra si mesmo, com os dedos encadeados no peito, uma recursão que ele precisava frear toda hora para que não o distraísse da primeira e mais importante atividade). Entremetidos a todo o excesso, ele percebeu duas linhas constantes que pareciam compor uma conversa mais sustentada. Uma masculina e outra feminina (aparentemente, na verdade tudo que percebia era que uma era bem mais grave que a outra). Estavam exaltadas, e por isso se destacavam ao resto, na verdade, ele percebeu, elas quase gritavam em resposta uma a outra. Ele não conseguia entender o sentido possível de nada, mas os ritmos eram bem reconhecíveis, se alinhavam numa forma qualquer imediata de briga de casal (no mínimo, certamente uma briga de duas pessoas íntimas). Na verdade, naquelas vozes tão abafadas onde nem a língua portuguesa conseguia se verificar de nenhuma forma definitiva, aquilo se tomava como um modelo meio abstrato de briga-de-casal, ele percebeu, como se estivessem apenas praticando uma forma vazia, ali, preenchendo os gestos sem um conteúdo real, talvez porque praticassem. Com uma pontada de dor súbita de mau jeito na cintura, torcida pro lado ali no chão, ele veio a si por um instante, percebeu que estava há bem uns dez minutos ali ouvindo aquele troço todo, deitado no chão. Ele não estava nem de longe doido o bastante para que isso não se lhe afigurasse como exagerado.
Mas ainda conseguia ouvir as duas vozes, ainda se esbatendo incessantemente, duas linhas que resistiam uma à outra, um imitando a frase anterior do outro, ridicularizando-a, reproduzindo aqueles tons extremos, vociferados.
Ainda discorria a preocupação de que ele estaria talvez fazendo algo imbecil, indultando suas partes mais reprováveis e perdendo mais uma tarde inaudita em algo tão distante e opaco, o dia escorrendo irreversivelmente sua luz pra fora das janelas, prorrompendo em perdas, irrecuperáveis e incompreensíveis perdas, oportunidades imensas desperdiçadas, espatifadas, com uma das vozes na sua cabeça se prontificando a tentar entender o que se passava de alguma maneira um pouco mais objetiva, menos dispersa e doidona. E aí que Os vizinhos do quarto andar. Aquele casal que Helena tão frequentemente dizia esquisito, ele fortão e barrigudo, de cabelo um pouco grisalho, naquele ponto meio estranho entre uns trinta poucos e uns trinta e tantos (estranho pela maneira adolescente que o cara tinha ainda de se vestir, bermudas surfistas e camisetas esportivas, sempre) e ela um tiquinho de gente, moreninha até bonita e minúscula, meio olhuda, ele sempre andando com a mão de orangotango aranhada em volta do pescoço frágil dela, parecendo que ia quebrar, e meio que conduzindo o progresso dela, pra dentro do elevador, pra fora do elevador, pra baixo da escada. Helena ficava puta com tudo aquilo. Ele argumentava com Helena que a mulher não tinha olhos submissos e fracos, na verdade, e que às vezes ela gostava dessa imposição física e mandava no marido em todo o resto. Ele não acreditava particularmente naquela interpretação, mas era possível, e ele se sentia de alguma forma invocado a dispor um ponto contrário ao de Helena, apenas porque parecia assim mais simétrico. Mas agora ali ele começou a se preocupar com a possibilidade daquele barulho ser deles dois brigando (eram o único casal não-aposentado do prédio que não trabalhava, passavam o dia vendo TV e gritando um com o outro, passavam os fins-de-semana todos fora de casa, ele em campeonatos de Rally sobre os quais falava longamente no elevador, inclusive depois de parar no seu andar, segurando sua porta meio como se te desencorajando de sair antes de terminar a história), e começou a temer pela integridade física da mulher. E realmente não sobraria muita coisa se aquele cara decidisse bater nela, em termos de assim ossos. Uma murranca dele devia afundar tudo ali. Ele imaginou a cabeça dela cedendo como metal líquido, cavando pra dentro, o que acabou deslanchando em algumas cenas sustentadas de uma mulher-de-metal-líquido apanhando impunemente de um cara fortão e confuso, gargalhando sua invencibilidade. E como seria legal ser feito de metal líquido, como o T-1000. Mas aí de repente houve um barulho mais forte, ainda difícil de se compreender, soado de mais de uma maneira, com vários tipos de materiais se combinando, um barulho seccionado, e que silenciou as duas vozes por um instante. Ele percebeu que seria bem isso que ele ouviria, provavelmente, se o marido desse uma porrada na mulher. E uma porrada forte, mesmo, já que o barulho não se seguiu de mais gritos raivosos, ou de uma reclamação, ou de alguma espécie (mais simbólica do que qualquer coisa) de revide, ou choro. Havia sido uma porrada definitiva, de algum tipo, ele pensou. Ele possivelmente seria a única pessoa do prédio a entender aquilo. A única a deitar no chão e captar as vibrações todas. Se não estivesse prestando tanta atenção, os barulhos tão teriam se acumulado naquela narrativa que ele conseguiu compor. Mas também, ele sabia, haveria uma chance gigantesca de uns barulhos ligeiramente sugestivos terem sido interpretados doidamente. Às vezes esse último barulho soou claramente longe daqui, fora do prédio, e ele que não conseguiu perceber. E se fosse a primeira opção? Ele não poderia fugir daquilo, da realidade daquela merda, então. Aquilo estava acontecendo de verdade, naquele momento, apenas alguns andares abaixo. Tipo coisas verdadeiras verdadeiramente se combinando de maneira efetiva. Como em filmes, o personagem do marido ainda tentando enrolar suas ferramentas cognitivas em volta da realidade da situação, checando o pulso da mulher, tentando entender se haveria indícios na cena que o incriminassem, sua mão levemente machucada do soco, a quina do armário onde ela bateu a cabeça, tudo insolitamente limpo, sem nem uma gota de sangue. Ele então esperaria a madrugada para descer com o corpo da mulher enrolado em algum material improvisado, talvez cortina do chuveiro, talvez lençol, talvez um tapete, direto para a garagem, evitando as câmeras do prédio (o que não seria fácil de se fazer, como ele vivia comentando com Helena, absurdamente compondo planos fantásticos de assaltos ao prédio). Ou então fatiaria em vários pedaços e dividiria o corpo em diversos sacos plásticos de supermercado (“Alcatra”, ele diria, no elevador). Ou às vezes ela ainda estaria viva, mas o marido estivesse assustado demais, paralisado pela merda que tinha feito, pelo azar de um soquinho de nada ter resultado tão catastrófico, amaldiçoando a fragilidade absurda dela, de bonequinha (que tanto o excitava em situações bem diversas daquela). Talvez ele realmente gostasse dela, em algum nível, e estaria chorando agora copiosamente e calculando as maneiras mais fantásticas de se redimir daquilo (e, embora o marido fosse bem claramente o vilão da história, ele lembrou que era bom e correto lembrar que ele possivelmente cresceu num ambiente imbecil, circunstâncias culturais imbecis, onde tudo potencializava aquela sua masculinidade animalesca e simples, violenta, de mãos de orangotango) incluindo o suicídio imediato, correndo desde a sala até a varanda e pulando fantasticamente, com a propulsão que suas pernas absurdamente fortes deveriam proporcionar (talvez caindo até perto do estacionamento lá embaixo). Se essa opção fosse a correta, ele pensou, certamente se seguiria um barulho mais fantástico de um corpo se espatifando em algum material lá embaixo, seguido, é claro, de exclamações variadas de toda a quadra, comoções várias, articulações decompostas e ramificadas daquele impacto em várias novas vozes e registros (como uma fuga, ele pensou, mas não tinha rigorosamente nada a ver, ele também pensou). Era difícil imaginar como é que soa um corpo batendo em asfalto. Ele pensou naquele barulho comicamente amassado de coisas se espatifando como massinha, em desenho animado, algo como ploft. Ele pensou no tanto que seria incrível se isso realmente acontecesse agora e ele tivesse conseguido antecipá-lo. De como ele poderia explicar aquilo em meses e anos subseqüentes, todo Sherlock Holmes, todo retoricamente diminuindo a importância (“eu consegui entender o que tava rolando, e percebi que ele talvez agora fosse se matar, porque dava pra ver que, apesar de tudo, eles gostavam um do outro, de algum jeito maluco, o que a Helena sempre negou, mas não tive tempo de impedir nada, infelizmente”). E se qualquer daquelas coisas tivessem se passando, como que ele poderia explicar que não tomou nenhuma atitude? Que continuou deitado no chão com uma guitarra no peito e apenas uma das meias no pé, sem ainda ter almoçado, peidando repetidas vezes e julgando estudiosamente o cheiro de seus novos peido em comparação com os anteriores (um juízo que ele meio misticamente relacionava ao seu bem-estar assim espiritual) às três hora da tarde, e não tendo feito nada digno de nota naquele dia todo (embora, sendo justo, o seu dia tivesse começado apenas às onze e meia, e ele tivesse lido quase um terço do jornal e tomado suco de laranja). Que sua garganta agora pudesse ser retraçada por um matizado gosto de cigarro e Passatempo, com pedaços ainda generosos de massa de biscoito sendo resgatados com a língua de buracos entre os dentes na última meia hora. Ele tinha conseguido interpretar o negócio todo de uma maneira genial e não havia tirado nenhum proveito daquilo. Nem sequer se apresentava como possível sua intervenção, qualquer que fosse, ele nem chegava a imaginá-la de verdade. Até parece que ele desceria as escadas e bateria na porta e perguntaria se estava tudo bem. E se tivesse? E se não tivesse? Mesmo se o que tivesse ouvido fosse mais conclusivo, mais óbvio, se não tivesse doidão agora e conseguisse determinar que sim, que certamente havia acabado de escutar um marido dando uma porrada na esposa, ou (quem sabe?, sejamos inclusivos) uma esposa dando uma porrada no marido (fisicamente a coisa parecia improvável, mas há sempre um abajur, um cinzeiro, uma chave-de-fenda ou castiçal que facilitem o trabalho). Ele provavelmente continuaria aqui deitado do mesmo jeito, recebendo esses sons macios e espaçados e abafados como espasmos abstratos de um mundo impossivelmente longe, igualmente composto de concreto e vidro e tinta descascada e vazamentos e vizinhos estranhos e impostos e homem do gás e luz derramada no térreo e ônibus queimados e motoqueiros com urgências e triplos assassinatos e mobilizações da categoria e reformas da previdência, um mundo do qual ele participava apenas formalmente, sem de fato se compreender como imerso dentro de seus funcionamentos e integrante das suas estruturas de participação.
Ele pode tentar, pode tentar ainda refinar a sua interpretação, tentar uma retomada dos barulhos escondidos, uma repetição dos augúrios, das relações compreendidas. Dos ruídos que ele tenta reunir. Suas costas estão inteiras no chão, até incômodas, sua nuca duramente deposta em madeira lisa. Ele vira de lado, recolhe suas pernas, repousa o braço da guitarra no chão. Seus olhos estão fechados, ele não sabe o que fazer. Em algum momento Helena deve chegar, assoviando alguma música brega e romântica, como sempre faz (ontem Claudinho e Buchecha), chamando ele de Guto, de lindinho, perguntar o que ele fez o dia todo. Impedi um assassinato e um suicídio, ele poderia dizer, com as forças do pensamento positivo. A luz recortada da janela se alonga na parede, se estica num losango distorcido que enfraquece, quase se confunde ao cinza do resto do quarto. Ele começa a sentir a consciência fraquejando, as bordas das coisas se misturando, os limites já porosos, sabe que logo-logo vai adormecer. Ele percebe isso com alguma gratidão. Ele deveria, no mínimo, escovar os dentes. Reunir-se a esse tremendo e memorável e necessário feito de higiene e, secundariamente, até saúde, de certa forma. Não pode haver nada de imediatamente reprovável em escovar os dentes, ele acha. Nenhuma culpa se derivaria disso. Ele sente os tremores e os ruídos circundantes todos se embaçando num mesmo pulso, um mesmo excesso indistinto e distante, cinza, que cede, um gesto vago significando nada, ou bem pouco.

Saturday, October 03, 2009

O futebol de júnior baiano
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Nós nos damos o tempo inteiro com uma cultura que não conseguimos ter como nossa diretamente, que não nos diz nada (os modos de expressão mais imediatos estão tomados, cinema é tudo publicidade, etc). Por isso todas essas circunvoluções retóricas quando neguinho quer fazer arte (e com isso não quero dizer só arte maiúscula toda séria, não), todos esses redemunhos confusos. Todo mundo quer encontrar focos de autenticidade, reuni-los, de alguma forma, tentar se apoiar neles. E daí esses focos sempre bem frágeis, equilíbrios geralmente acidentais de forças retóricas grandalhonas como placas se chocando e deslizando uma contra outra, dando em posições e acomodações eventuais bem-sucedidas por motivos geralmente pouco explicáveis

(o post começava assim pra falar de música indie, mas aí eu não fiz isso)

*se exalta*

E daí que eu, pessoalmente, aqui no fundo da minha humildade e pequeneza e perna esquerda torta, de frente a essas fantasmagorias se agitando como se importassem, como se dissessem alguma coisa, me vejo envolvido mais uma vez com o Campeonato Brasileiro. Envolvido. Do tipo saber vários jogadores de times tipo Atlético Paranaense e Vitória, de me revoltar com declarações de jogadores e saber de cabeça pontuações. De ter opinião sobre o futebol de pessoas chamadas Thiago Feltri e Neto Berola e Marquinhos Paraná e Muriqui. Saber nomes de árbitros.

E torcer, ainda, o que é mais maluco. De me importar e ter meu humor alterado por causa de resultado de jogo (eu sou cruzeirense, aliás). E o tempo inteiro com algumas vozes dentro da minha cabeça repetindo o tanto que o negócio é maluco e não faz sentido, chamando a minha atenção pra arbitrariedade, os movimentos constrangidos da grandeza meio tola que tenta se articular, impossível, os fundos corporativos pequenos e feinhos por trás de tudo, com suas tentativas técnicas de maximizar as potências dramáticas e épicas (a Globo e toda sua relação involuta com as torcidas, Galvão, a super-câmera), os impulsos de masculinidade besta, a ingenuidade tremenda e insciente do povo metido ali, as facções de torcidas de um mesmo time ganhando complexidades orientemedianas, as mesas redondas se redobrando sobre si mesmas em análise de umas pequeníssimas coisas.

E ainda torcer em Brasília, onde a coisa nem faz sentido num nível imediato de identidade coletiva local, de ir pro estádio, de ver a cidade minimamente transfigurada pelo resultado da rodada anterior nas bandeiras na janela e motoqueiros uniformizados no dia seguinte. E ainda nem gostando de tirar sarro dos outros, como eu não gosto. Em Brasília a coisa tornada ainda mais abstrata, as denominações heráldicas dos times ainda mais engraçadas e longes, significando apenas a si mesmas (e olhe lá), uns nomes aí antiguinhos hipostasiados e fingidos de identidade, reunidos uns fatos e momentos cuidadosamente selecionados e devidamente protegidos da realidade, contidos com as mãos, pra consagrar uma suposta presença qualquer aí confusa.

A capacidade esquisita que o negócio tem de pretender uma totalidade, com suas infinitas esferas de importância se decorrendo de cada evento, comentadas e subcomentadas, explodindo em tópicos no orkut. E de todas as grandes narrativas aí rolando, de todas as versões do mundo, a mais absurda. Justamente o seu tamanhinho, a sua falta de jeito. E isso sem falar sobre o futebol, em si - o jogo, a coisa tática, os passes bonitos, os golos - porque eu não sei nada de futebol. Leiam o PVC e o Tostão.

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SEGUNDA PARTE DO POST, QUE É DIFERENTE MAS QUE TEM UM POUCO A VER

Ao se acostumar com comentaristas de youtube, com yahoo!respostas, com Barbara Johnson propondo um tríptico de leituras composto de Poe, da leitura do Lacan de Poe e da leitura do Derrida da leitura do Lacan de Poe, com Mezzanine, com todos esses excessos fumosos, uma parte minha vai se afeiçoando a uma impressão de que qualquer coisa no mundo - qualquer item destacável da realidade - pode se desenrolar em infinitas recursões, tudo pode se redobrar infinitamente sobre si mesmo em linhas discursivas progressivamente complicadas.
Como se toda coisinha (todo jogo do Goiás, música do Djavan) se pretendesse, assim meio sem querer, absoluta. Falhando miseravalmente, em seguida, é claro, toda bonitinha.
Nada parece muito negligenciável, tudo parece da maior importância, participando de esferas tipo concêntricas de masseza. O negócio quase ficaria místico, se eu soubesse me explicar. A gente poderia escolher um único item e lhe dedicar o resto da vida, estudando, anotando, revisando, sem chegar a nenhum fim. Um episódio de Sai de Baixo, um andar do Mercure Apartments de Osasco, um mamilo da Taís Araújo.