Wednesday, August 05, 2009

como ninguém me dá o que fazer no trabalho, eu lhes ofereço outro post enorme, vlw
LIT BR CONT
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Num artigo que eu li uns meses atrás, um bróder chamado José Castello falava de como literatura brasileira contemporânea teria agora uma tendência de reinventar a realidade, e não mais apenas se postar como imitadora banal e obediente, automática (como se fosse possível imitar automaticamente a realidade, como se houvesse um discurso claro disponível a se obedecer), fundar suas ficções com princípios tortos e deliberadamente estranhos, turvos, complicadinhos.
Afora a banalidade maior dessa constatação, da tão pequena tentativa de tentar pegar emprestado uma tendência óbvia e mundial e já velha e tentar dar uma cara ousada e maisoumenos fixa a algo tão informe e despegado de cor como a nossa literatura, a coisa se torna particularmente imprópria quando o cara tenta botar no meio o Cristovão Tezza e o seu filho eterno.
Esse livro, pra quem não sabe, é um romance que fez um sucesso do caramba ano passado, história de um pai tentando lidar com o fato do seu primeiro filho ter síndrome de down, estilão realista tradicional com discurso indireto livre competente e acima da média. O suposto encaixe do Castello estaria no fato do livro de Tezza ter se desenvolvido a partir da tão-ousada decisão do escritor de, não só fundamentá-lo diretamente na sua experiência (já que o autor viveu justamente a história do livro), mas de ainda botar um filtro entre ele e o personagem, e torná-lo um tremendo babaca bestinham que despreza o filho com síndrome de down durante a maior parte do tempo, chegando a desejar sua morte, e tudo mais. A complexidade, segundo o Castello, se encontraria em algum lugar por aí (ele não faz muito mais além de gesticular vagamente). Na tão moderna confusão entre o fictício e o real, é o meu chute. Ele não é o único a achar isso. É impressionante como se insiste em enxergar esse pulinho do Tezza como algo corajoso pra caramba, mesmo depois da recepção tremendamente entusiasmada e rara que o livro ganhou, de quase unânime. Com os prêmios todos, com pilhas de resenhas elogiosas, num lugar tão distraído como esse, deveria de se tornar óbvio que o livro – suas qualidades quais sejam – é uma satisfação bem imediata das expectativas estéticas d’hoje em dia, do gosto desse povo que resenha literatura. Devia se tornar claro que ele não é uma quebra de porra nenhuma.
Pelo que me parece, a dificuldade do Tezza estava em cumprir um ato significativo que não se esbatesse contra uma breguice incontornável de livro de auto-ajuda, com mensagem óbvia Foi Difícil Mas Aprendi A Amar Meu Filho Deficiente Do Jeito Que Ele É E todos Crescemos No Processo. Sem dúvida que isso seria difícil, que seria quase impossível. A solução dele, então, foi extrair qualquer possibilidade de moralismo ou sentimentalismo óbvio, não só compondo o livro a partir de um filho-da-puta como evitando qualquer moralização maior por parte da narrativa (porque nós estamos, é bem claro, muito acima disso tudo), evitando inclusive a segunda opção técnica óbvia: se distanciar mui sutilmente do personagem para criar aquela ironia fácil que o povo tanto adora por aqui, de que o Chico Buarque claramente se serve no Leite Derramado (que eu só folheei). O que ele põe no lugar não é de nenhuma ousadia moral, sofisticada e assustadora, ou de qualquer complicação que possa te perturbar de qualquer maneira. A miopia do autor não chega tão longe. É apenas rasteiro, é apenas uma operação de sinais trocados, de uma neutralidade moral tão simples e covarde quanto a moralidade óbvia e automática de um romance tolo do século XIV, uma resposta automática e igualmente ingênua na sua compreensão de que está, de alguma forma, sendo fiel à complexidade de qualquer versão coerente da realidade.
Isso porque o livro não é opaco, não é que as coisas se passem sem valorização nenhuma, nouveau-roman-like. Isso fica bem claro quando o livro apresenta os frequentes arroubos do personagem diante da opressora falta de sentido da vida. Tecnicamente, o livro se demonstra nesses momentos bem convencional (o que não é um problema), bem direto na sua enunciação retórica. O tom amargo e repetitivo do personagem, de conclusões óbvias, medíocres e inexpressivas, desimportantes, se coloca tão diretamente e tantas vezes que o autor acaba descendo e sujando as mãos, mostrando a cara um pouco e dando tchauzinho. Torna ainda mais evidente que as pinças cagonas com as quais ele trata o seu personagem e a complexidade (real) do seu problema não constituem uma técnica formal sofisticada, mas sim a falta de qualquer visão profunda sobre temas um pouco mais complicados, e o medo de se aventurar por terreno (esteticamente) pedregoso.
Não seria justo esperar de Tezza que ele nos entregasse uma solução moral perfeita e esteticamente agradável de um tema tão complicado, mas tampouco me parece satisfatório aplaudir tão efusivamente o que não passa, no final das contas, de uma realização técnica mínima, que se mantém rente ao chão, de nenhuma coragem ou originalidade expressiva.
E, tocando no tal do José Castello, o que não dá – não dá mesmo – é dizer que qualquer coisa tecnicamente sofisticada esteja se operando aqui, que Tezza tenha se distanciado da realidade para fundar seu próprio mundo de agudeza de significado, de turvamento retórico, um parque colorido de recursões autor-personagem do tipo que o Roth mantém. De fato, não há nada nesse livro que não seja claríssimo, imediatamente apreensível. O seu tom, sua técnica, sua escolha vocabular, suas situações, suas conclusões. Ele é todo pequeno*.
Sim, síndrome de Down é um tema cercado de dificuldades estéticas, minado de clichês. Mas a solução não está – não pode estar – em fingir então que o tema não tem nenhuma importância, em tratá-lo da maneira mais rasteira possível, onde absolutamente nada se arrisca. Os resenhistas parecem se divertir justamente com isso, Estamos evitando tomar julgamentos morais!, estamos contornando posições politicamente corretas e prontas!, isso deve ser grande literatura! Não é.
Os leitores parecem bastante animados com essa via negativa, com esse medo cagão de clichê, além da mera possibilidade de sentirem alguma coisa (que a técnica do Tezza possibilita). Mas o que estamos sentindo é só pena. Do autor.

*O que não é necessariamente um problema. Grandíssima arte já se fez com tudo pequeno (Chekov, Carver). Mas o pequeno do Tezza se quer grande, se quer Coetzee, quer que a raivinha meio existencial meio burguesa meio medíocre do seu personagem tenha a força de Disgrace. Aí não dá.


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Mãos de Cavalo é bacana, sim. Comprem para os seus amigos, seus primos, seus tios, suas namoradas.

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Muito divertido, isso aqui. Os sinais estão corretos e bonitinhos, fluidos e naturais, os pontos de referência (maiores e menores) estão todos firmes, o ímpeto é certo, dever de casa feito. A organização engraçadinha funciona em vários sentidos, ultrapassa o imediatamente gimmicky, e, curioso, dá numa leitura não-linear bem mais fluida do que uma impressa daria, e mais divertida, menos aparatosa.
O truque é simples, até intuitivo, mas a graça é justamente essa. A naturalidade com que a coisa se organiza na nossa cabeça, usando de maneira nova de umas ferramentas que a gente já tem, lá, prontinhas na nossa cabeça. Boas sacações formais funcionam assim.
É verdade, também, que os eventos todos se repassam um pouco de desculpa pra brincadeirinha formal, sem aparecer aquela – me desculpem – LIBERDADE PLÁSTICA, aquela – me desculpem de novo – NEGOCIAÇÃO COM A CONTINGÊNCIA, é verdade que o tom irônico não precisava diminuir quase todos os personagens da mesma maneira facinha. Mas tou sendo chato, não dá pedir tudo de uma vez, também.