Wednesday, July 29, 2009

Um intervalo auto-indulgente
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Eu juro que não gosto de ser chato, e deus sabe que eu costumo engolir seco os tão freqüentes impulsos (no mínimo diários) de OHMEUDEUS, Someone is wrong on the internet! Mas meu trabalho tá chato e o dia não passa e, olha, hoje vou ME PERMITIR (tipo uma mulher mãe dona de casa executiva comprando um Sundae no Drive-Thru e comendo em três garfadas, ainda no estacionamento).

Tem pelo menos duas coisas erradas com isso aqui.
Primeiro:
Existe já um discurso prontinho, reanimado frequentemente, de que Essas coisas moderna aí são tudo besta, o que importa mesmo é a beleza. Isso costuma significar muito pouco, ou quase nada, e nesse caso não é diferente. Até dá pra conferir algum tipo de validade pro argumento as-modernidades-precisam-sossegar-um-pouco-de-tanta-bagunça, embora ele dificilmente seja de interesse para qualquer um, e seja igualmente articulado por críticos medíocres e a novela das sete, o que não dá pra entender é a parte O que importa é a beleza. Certo. Não dá pra entender se com isso se quer dizer que arte moderna não conseguiu produzir nada de bonito, ou que ela nem sequer está tentando. As duas alternativas são tolas. Ninguém é obrigado a concordar com as premissas engraçadinhas da arte contemporânea, nem da música, nem da literatura, mas achar que existe algum sentido real em simplesmente dizer Mas gente, o que aconteceu com a beleza??? é de uma ingenuidade constrangedora.

Segundo (mais grave):
O autor desqualifica a crítica de o vídeo ser uma propaganda de uma multinacional, tratando o argumento como papo de intelectual. Pelo tom do texto, dá pra supor que ele vê essa crítica como uma imposição meio abstrata, meio teórica, algo que as pessoas se sentem artificialmente na obrigação de sustentar - por estarem imersos num discurso acadêmico, talvez – contra algo que é, assim, simplesmente bonito, e que portanto estaria acima dessas críticas.

O que ele não parece antecipar é o a possibilidade do status publicitário de alguma obra necessariamente atingir qualquer força estética que ela possa ter. Sendo bem didático: publicidade quer alguma coisa de você, quer te vender alguma coisa. Isso compromete qualquer definição sustentável de arte, e compromete a nossa relação direta com boa parte das ferramentas estéticas disponíveis. E, sim, existe algo de particularmente perverso na veiculação casual de publicidade, como é o caso dos virais. Vídeos despretensioso de internet são, afinal de contas, uma produção cultural popular genuína, de um alcance considerável e um impacto até bacana. Pode não ser exatamente Brakhage, mas é um canal verdadeiro de interação, com gente tentando se expressar, e tudo mais. O fato de a publicidade tentar tomar esse mundo pra si torna muito mais difícil que a gente confie neles, torna mais difícil que eles consigam transmitir qualquer coisa*.

Não sou nenhum resmungão do tipo do Gaddis, do Adorno, esse confusão aí *gesticula amplamente* é a minha casa, e eu vivo feliz nela. Já estou um tanto acostumado com o espaço que publicidade ganha como força cultural (prêmio em Cannes, imprensa cultural tratando tudo nos mesmos termos, tudo criatividade, Washington Olivetto na capa da Cult), mas é meio deprimente ver partilhar desse tipo tolo de cegueira a revista que tão altivamente tenta se colocar como contrária à mediocridade nacional, à banalização da cultura. Então tá, então. Depois não me venha falar dos outros.

*Exemplo pessoal e pouco representativo: tem um poema lindo do Frost, dos meus favoritos, que termina Here are your Waters and your watering place / Drink, and be whole again beyond confusion . Quando eu li isso pela primeira vez, me veio à mente um comercial de água, essa frase escrita em comic sans numa garrafa da Evian. Eu sei que isso é muito da minha cabecinha escrota, mas existe um sentido aqui. Ela estava acionando um reflexo condicionado, ela tava tentando, tadinha, não ser enganada.

(e ainda tem o fato do vídeo ser, ele mesmo, propaganda ou não, bem bestinha, bem pouco original, mas isso nem tem graça dizer)

Thursday, July 23, 2009

Notes on awesome (um post horrivelmente grande)
Though I am speaking about sensibility only -- and about a sensibility that, among other things, converts the serious into the frivolous -- these are grave matters.
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Eu tenho até um carinho considerável por toda a cultura de awesomeness (que eu traduzo, meio idioletamente, como cabulosidade), mas me incomoda um pouco a valorização que anda se dando, a confiança deposta nos seus ombros, achando-se que o buraco não tem fundo e a força do negócio pode ir se auto-afetando indefinidamente, cheio das implosões bulbosas, dos Zumbis caubóis e tiranossauros ninjas e piratas chtulhu dirigindo suas motos e seus dirigíveis até o infinito, os termos negociados numa pequena e confusa retomada.

A coisa vai progressivamente ganhando seus carimbos de reconhecimento e legitimidade, vai se consolidando e endurecendo. É um progresso sempre contrito e contraditório para uma sensiblidade, um troço tão fugidio, que progressivamente perde um pouco da sua graça frágil ao ganhar contornos oficiais e se estabelecer melhor.

Dá pra ver um dos lados da coisa progredindo de um jeito bem simples, e feio, no caso do Duro de Matar.

*ahem*

O primeiro filme – talvez até o segundo* - tem uma relação ingênua e direta com seus termos heróicos de masseza absurda, a ligeira subversão de convenções se deve muito ao carisma meio acidental do Bruce Willis.

O filme veio na esteira de um milhão de filmes do tipo, de policiais durões que não seguem as regras e improvavelmente salvam o dia, ao mesmo tempo afirmando e contestando a autoridade das instituições, e tudo mais. Mas ele foi o único filme que manteve uma graça confusamente irônica, do Bruce Willis realizar seus atos implausíveis com uma aparente consciência de cantinho de boca do tanto que estava sendo absurdo e improvável. É um marco do que viria a ser esse tipo de sensibilidade, mas a aparência é de um processo bem acidental e natural, até quase inocente.

Mas aí vem temos o Duro de Matar 4, tão recente, já mil anos depois, com seus produtores e roteiristas presumivelmente crescidos com a assimilação dos primeiros filmes, com tipo sessões bêbadas de VHS do filme em dormitório de faculdade, já processada a aura cultural, a pala já sustentada e coerente, e reproduzida aqui de um jeito não tanto espontâneo e engraçado quanto calculado e frio, e triste. Todo mundo entende, nesse último filme, que o que se passa é ridículo (John Mclane derrubando um caça nas mãos, atirando através de si mesmo para atingir o malvadão, etc), e, perversamente, já se arquiteta o filme com essa retomada, essa segunda qualidade subjacente à qualidade mais imediata. É meio que um motivo já fixo dos tempos: alguma apropriação divertida e razoavelmente genuína de algum item de cultura popular é retomada artificialmente pela própria indústria, com aquele cheirinho de publicitário. Como quando os produtores perceberam a piada que se fazia em torno de Snakes on a Plane e tentaram forçá-la adiante, chamando o Samuel L Jackson (talvez o maior talismã nerd hoje em dia, e embaixador de awesomeness auto-consciente, conseguindo ser ao mesmo tempo um jedi, protagonista do Tarantino, Nick Fury e vilão do Spirit) e ridicularizando o troço. Não funciona. Seria o equivalente a um novo filme do Chuck Norris onde seus recém-adquiridos atributos cabulosos fossem devidamente aplicados, e ele constituísse uma paródia genuína de si mesmo. Os fãs iriam animadões pro cinema e não entenderiam o porquê de tanto desapontamento, da graça se gastando em alguns minutos, a auto-afeção tremenda morrendo ali quando oficial, quando institucionalizada.

Isso de se apreciar justo o ridículo e o improvável dos filmes simplistas e formulaicos de ação não é uma complicação crítica genuína, é só uma autoconsciência formal. É o que acontece depois de décadas de um gênero tão apressadamente reproduzido e pesadamente consumido, são os consumidores se acostumando quase mecanicamente ao reconhecimento dos tropos, e passando – faltando qualquer outro estímulo significativo - a apreciar justamente essa auto-consciência. Hipertrofia, tipo, uma previsível, triste e recorrente em quase todo canto. Não é como se esse suposto espírito crítico quisesse no lugar um realismo decente, que desse conta de alguma versão coerente da realidade. Apenas se quer que as convenções sejam reformuladas de maneira esperta, que dê conta de uma mais potente capacidade de apreender reversões e sacadas narrativas (por exemplo: Bourne). Mas ainda tudo se passa sempre no mesmo nível.

Daí que a curtição de awesomeness parece se contentar com a afirmação - irônica, né? (eu sei, também tou cansado) – dessas convenções meio ridículas de importância e grandeza épica, parece se contentar com uma confirmação delas, e com um certo carinho que se adquire pela sua artificialidade formal e estilizada, pela satisfação tão pequena e previsível das convenções imbecis.

*o 3 não conta muito, porque, que nem que Super Mario 3, é um caso muito evidente de imposição de uma franquia numa estrutura alheia, com uns esforços mínimos pra que a coisa faça algum sentido.

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