Friday, May 22, 2009

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Eu agora estou também aqui, todo multimídia e agitadinho.

Friday, May 15, 2009

Santiago, ou
OH THESE MASTER TROPES OF OUR TIMES! (gritado pelo Will Ferrell)
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(isso aqui é tipo um rascunho de um texto mais organizado que não escreverei, vlw, basicamente porque não vale o esforço)

(JMS é João Moreira Salles)
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Nos anos 60, um cara chamado Joseph Mitchell escreveu na New Yorker o perfil de um boêmio mendigo do Village, Joe Gould, um excêntrico local que era famoso, entre outras coisas, por uma empreitada absurda de escrever uma história oral dos Estados Unidos, uma obra de pretensões Gibbonianas que já teria milhares de página, na época da reportagem.

No meio do perfil, que é bem longo, Mitchell abandona o tom jornalístico mais objetivo para trazer candidamente uma equivalência bem bonitinha entre ele e o objeto do seu relato, uma volta meio inesperada e trazida bem honestamente, sem grandes volteios retóricos ou estilísticos. O texto é tido como um clássico jornalístico, um exemplo de como dá de se fazer Arte a partir do jornalismo. Quando eu li, pensei imediatamente em Santiago, ainda mais sabendo a importância que o JMS dá para o jornalismo literário (que ele, burramente, tem como tão importante quanto a ficção, pra segunda metade do século XX, sóseforhein).

Santiago também tem um autor que traça equivalências pessoais com o seu objeto documentado, tentando formar (ou encontrar) um discurso em comum, um tema meio pronto ali entre os dois. Mas essa equivalência temática dos dois acaba evidenciando o tanto que o tratamento do JMS é um tanto mais sofisticado do que o do Mitchell, né, o tanto que os pressupostos estéticos atuais resultam numa obra bem completamente diferente. O que não é acidental, e acaba por ser eloqüente sobre um bando de coisa (que tentarei explicar).

Santiago é todo complicadinho, todo repleto de camadas e temas diretamente enunciados, quase didaticamente dispostos. O que é engraçado, e que torna o filme distinto, pra mim, é que os temas sejam todos literários. Não só tradicionalmente literários, mas que estejam mesmo dispostos de maneira literária (isso não deve ser tão raro quanto me parece, com os Chris Marker aí e tudo, filmes-ensaios, mas pra mim é curioso). São poucos os recursos do filme que dependem exclusivamente de linguagem cinematográfica (o que quer que isso seja).

Mas seu eu tivesse que escolher um tema central, por mais chatas que sejam essas tentativas, seria a da terrível dificuldade que espreita por trás de qualquer produção de sentido, um certo constrangimento final (tou numa fase de itálicos). Um constrangimento que compreenderia tudo. De todos os vários tropos e recursos e elementos temáticos da obra, eu reconheço esse fio em comum, esse padrão onde tudo se enreda. Isso está na própria figura (quase trágica) do Santiago, ao tentar se colocar como o personagem do documentário que o JMS-de-93 quer fazer, isso está na sua gigantesca e caseira e inútil empreitada de se capturar e listar a nobreza mundial*(que se equivale maisoumenos ao espírito falho e bonito da empreitada também canhestra e excêntrica do Joe Gould), isso está no lirismo-de-memória do filme**, enviesado e típico, de desconfiança amarga-e-doce dos nossas tão-suspeitas faculdades de produção de sentido , etc. Tá em tudo.

Talvez a principal maneira desse fio em comum se manifestar no filme esteja na sua recursividade metaficcional, que é o seu recurso mais imediatamente notável (e mais imediatamente notado, em resenhas e tal). O filme, principalmente ao tratar direto do primeiro corte do documentário, de 93, fala toda hora dos seus movimentos formais, das premissas retóricas de algumas das convenções que ele abandona, além de um certo constrangimento estético e retórico (e finalmente moral) que existe nas tentativas óbvias e ingênuas do primeiro corte.

De se tentar firmar o Santiago como um personagem numa narrativa prontinha e artificiosa, superficial***. O que está em ação aqui, é bom notar, é um tropo já assente, já familiar, do artista candidamente desvelando-se em honestidades, descascando as premissas formais da sua arte para atingir uma suposta autenticidade final, um apuramento infinitamente confiável.

Isso é tão rotineiro que até publicidade (que é como um deserto pra onde recursos e imagens artísticas vão quando morrem) faz. Po-mos americanos já tentaram fazer o que seria o passo lógico seguinte, submetendo a própria prática metafficonal à mesma tentativa de desvelar seus mecanismos e tentar atingir uma autenticidade retórica final. É evidente que o negócio espirala involutamente num progresso engastado, sem nenhum fim previsível. Há sempre um mecanismo retórico a ser revelado e exposto em honestidade (‘eu estou te falando dos mecanismos da ficção pra você confiar em mim, e admitindo isso para que confie mais ainda, etc’). Barthelme tá cheio disso, mas a tentativa mais exagerada que eu conheço nesse sentido é Octet, do DFW (cujo sucesso é bem discutível). É difícil imaginar uma tentativa séria ainda mais extremada do que aquela, acaba funcionando meio como um Ok, já deu, bora desligar a luzinha dos nosso chapéu de minerador e voltar pra superfície.

E no entanto o negócio funciona em Santiago, eu digo. O filme realmente consegue usar de todas essas ferramentas literárias, já meio cansadas, para trazer uma autenticidade pro seu discurso, para se tingir de uma autoridade retórica que não se costuma conferir a muita coisa hoje em dia (além do Obama, a-yo!). E é curioso que funcione, com o filme se apresentando tão imediato de temas relevantes, de recursos familiares, de um clima Senta-que-lá-vem-uma-arte, piano-feeling, p&b. Eu confesso que a minha reação inicial, meio martelinho-no-joelho, foi de desconfiar, de achar tudo muito encaixadinho, como um pássaro mecânico que tenta demais, ou uma cebola de infinitas camadas descascáveis****. Mas o filme me ganhou, de verdade, de com força, talvez principalmente pelo carisma do Santiago, que é um grande dum bróder, e que parece pronto a sair significando adiante em qualquer romance do século XX.

E talvez esses engenhos literários meio artificiosos todos ganhem legitimidade no filme justamente por ser um documentário, e não um trabalho de ficção. Ficção que se meta a recursos formais ou temáticos muito vistosos e evidentes corre sempre o risco de perder parte de sua força, de nos deixar suspeitos quanto a importância ficcional da realidade que se mostra e se constrói, derrubando a suspensão de descrença à procura das intenções por trás das cortinas. A realidade dos eventos de Santiago não deixam que isso jamais aconteça. Apesar do rastro tão pesado dos recursos e temas, nada jamais se diminui.



*Também esse parece, curiosamente, um elemento literário, embora seja, é claro , algo real. e não trazido pelo JMS. Há muito tempo que se considera especificamente o constrangimento da lista enquanto produtora de sentido. Há o exemplo divertidão de Borges, da enciclopédia chinesa, que Foucault cita e que é, por sua vez, citado pelo Gass (risos). Mas o filme foi bem esperto em se centrar naquilo que só um filme poderia trazer, trazendo o constrangimento material da lista, sua tipografia tosca, suas fitinhas fiapadas. É lindão.


**Que seria, segundo não-lembro-quem-mas-juro-que-existe, o principal tema da literatura no século passado. Eu pessoalmente sou meio engastado com ele, com Sebald e parte da galera, leio sempre com reticências automáticas (“Minha memória me trai” -> “Minha memória me trai...”), mas isso é provavelmente bobajada de quem não leu Proust direito.

***Pode-se dizer que o filme faça a mesma coisa no corte atual, só que de uma maneira mais sofisticada. É estranho que o JMS não pareça admitir isso.

***mal aew.

Saturday, May 02, 2009

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UM POST ATUAL
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Gente olha que coisa. O que se traz com a irrupção cabulosa de blogs, de perfil-do-orkut e, agora, do twitter, é a consolidação de toda uma multidão de pessoas cujo, *ahem*, self-fashioning está estritamente conectado com um hábito lingüístico. Acho que ninguém esperava por isso, quinze anos atrás. Já houve tempo onde empreitar uma formação-do-eu a partir da escritura de um texto era vanguarda, era revolução, era coisa tremendamente sofisticada. Montaigne ensaiando a si mesmo, Santo Agostinho se confessando, Rousseau brincando (sei lá como, nunca li) d’o homem moderno. Hypomnemata laboriosa e séria (mesmo no caso tão esguio do Montaigne). As versões atuais são vulgares e pequenas, e principalmente superficiais, mas não se distanciam completamente de uma idéia parecida de uma construção pessoal.
Quem é mais esperto consegue, suponho, se adaptar com mais sofisticação à realidade expressiva do negócio, e presumivelmente deve se criar toda uma cultura agradável e engraçadinha, uma forma de se enxergar as coisas e de se reproduzirem graças e níveis suplentes. Mas os usuários mais clueless (que são, como sempre, quase todos) devem logo deixar essa pequena técnica informar terrivelmente a vida deles. O que é engraçado de qualquer mídia nova e brilhante e pervasiva como essa é que não deve influenciar apenas a capacidade expressiva das pessoas, circunscrevendo a imaginação delas a esse impedimento de 140 caracteres, a um caráter tão específico de publicação, mas - e isso é mais importante - imagino que eventualmente essa forma deve também influenciar o modo de neguinho viver as coisas, tornando a vida delas uma sucessão de oportunidades twittáveis, o mundo averbado em pseudo-eventos reduzíveis a 140 caracteres. *põe dedos nas têmporas* Oooh Shiiit.

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O mundo se reduz a uma antologia ou repertório de pequeníssimas, minúsculas articulações estéticas. Civilizações existiram para completar Age of Empires, Buda existiu pra dar em estatuazinhas gorduchas que nos preenchem de boadisposição genérica e multiculturalismo, vidas ilustres existem para acabar em cinebiografias com estrelas de Hollywood, os anos 50 existiram para que Mad Men, etc.

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A sobrevida laggada de um perfil desativado do Orkut causa um efeito engraçado, com aquele lirismo já empacotado de luz-de-estrelas-mortas. Porque estamos acostumados a enfrentar perfis como extensões da pessoa, uma impressão que se valida não só pelo alto grau de personalização que ocorre em cada elemento do perfil, quanto pelo fato dele poder ser atualizado e modificado a qualquer momento (o que traz um efeito de atualidade, a impressão de uma presença esquisita pairando sobre aquilo). Quando se perde o controle de edição sobre um perfil desativado, ele fica verdadeiramente fora do alcance da pessoa, torna-se uma extensão morta, mas que ainda estamos acostumados a julgar de acordo com os critérios antigos (já bem falsos e confusos). É uma coisa que existe tão pouquinho.