Tuesday, March 31, 2009

-Mas daonde é que vem tanta água?

A árvore era grande e desorganizada, ela se abria indecentemente em galhos grandalhões que terminavam em folhas pequenininhas poucas, desapontantes, como se desfalecesse. Seria feia, se árvores conseguissem ser feias. O raio da sua copa era delimitado no chão por bolinhas pequenas que haviam todas caído recentemente.
Verde, cinzas e verde-cinzas, e que ainda caíam, de minuto em minuto. Como se a árvore tentasse com esforço manter um ritmo impossível com aquilo, percutindo no chão de pedra.
-É que eu queria ir pra Austrália.
Eu olho pra baixo pra cara dele e ele continua olhando pro céu. Mesmo sabendo, mesmo tendo já uma casca meio dura, eu quase sempre tenho um meio segundo de tentar entender o sentido e o possível contexto do que ele quer dizer. É ainda sempre mais fácil do que acreditar que não há mesmo contexto, que são sinapses qualqueres que decidiram dar a mão e fazer bagunça. Porque sim.
Eu passo a mão no cabelo dele, devagarinho, concordo.
Minhas mãos são pequenas, pequenas o bastante pra eu não me acostumar com a pequenez delas. Pra toda vez eu olhar e pensar Caramba, como minhas mãos são pequenas. Parecem as mãos de uma outra coisa, de uma boneca. Eu ponho a mão no queixo dele, envolvendo a cara pequena e frágil, sentindo o osso debaixo da pele. Ele não se mexe.
O chão é de alguma pedra que eu não sei o nome, uma pedra áspera e pontiaguda, rachada pelas raízes da árvore, que se pegam à terra num esforço tão bonito. A pedra do chão é também a pedra do banco onde eu estou sentada e ele está deitado. A pontiagudeza quase faz com que o banco descumpra seu propósito de coisa sentável. Ele tem que estar desconfortável, mas eu não sou a mãe dele, né. A pedra está meio fria, mas ainda guarda um calor antigo, que nem o meu corpo, ainda meio acalorado nuns fiozinhos irritantes de suor. Cai outra fruta-bolinha. Eu fico atenta achando que ele vai querer comer uma delas, pronta pra tirá-la da mão dele.
Mas se ele nem come frutas comestíveis, cortadas e dispostas pra ele em cima de um prato.
A maior dificuldade de acreditar que as frases não querem dizer nada é que elas não são realmente aleatórias. Não são. Eu faço frases aleatórias na minha cabeça pra testar, e elas costumam soar tipo: Mas o calor não se faz com tijolos, e De tarde o azul tira as botas. Comida boa é comida morta. Elas são só bestas, às vezes engraçadinhas, no máximo. As dele geralmente parecem tentar querer dizer alguma coisa, parecem ao menos fazer referência a alguma expressividade comum, coisas que ele já deve ter ouvido em algum lugar. Ele é quase um artista dentro da doidice dele. É assim que crescem e se multiplicam as produções das águas, eu penso.
Mas nem tem nada a ver.
Ele tá deitado no meu colo, com a camisa meio feia que ganhou de presente (da silhueta um surfista, e escrito SURF IS MY FREEDOM) e o short preto habitual e tênis de futsal, que ele nem joga. A orelha dele pequena e tão perfeitinha, que eu admiro como se só ele fosse capaz de produzir cartilagem no mundo, e como se isso fosse, de alguma forma, algum mérito dele. O cabelo recatado e curtinho dum corte recente e trabalhoso (ele não aceita as mãos do cabeleireiro, tem horas que eu que tenho que segurar a cabeça dele). Eu olho pro cabelo bonito dele na testa, tão melhor que o meu, o que é injusto de umas três maneiras diferentes. A orelha sujinha e os ombros de garoto, ossudos daquele jeito limpo e infantil, fresco. Seu joelho tá machucado de uma queda qualquer inconseqüente, ralado numa casquinha já desaparecendo. Eu não consigo me lembrar da última vez que tive casquinha, é quase como se seu corpo parasse de produzir, parasse de se importar tanto com algo já tão estragado. Cai outra frutinha, perto dele. Ele treme um tremelique desconcentrado através do corpo todo, quase abstrato. Elas caem rapidamente e estacam no chão com um baque surdo baixinho, quase imperceptível, tão rápido, parece que puxadas.
Isso é porque elas são puxadas, né, imbecil.
Ele geralmente come as casquinhas assim que aparecem, o fato dessa ter ficado tempo o bastante até sumir me lembra da última vez que eu o vi comendo e briguei com ele. Eu penso em sair dali por causa das frutinhas, mas só eu tou dentro do raio da árvore, ele tá fora. Parece covarde sair dali só por causa de uma frutinha, com ele tão confortável e sossegando o meu colo.
Mas os olhos dele não estão quietos, nunca estão. Parecem sempre no meio de alguma coisa.
Embora provavelmente não estejam.
Ele põe o dedo no nariz e eu tiro, gentilmente. Ele sabe que não pode, e não resiste. Cai outra fruta, mais perto de mim. Tem um pássaro bonitinho todo igualmente marrom que fica virando de um lado pro outro toda vez que cai uma frutinha, tentando entender o que se passou. A pose dele é marcadamente inquisitiva, o que é muito massa e nem faz sentido. Eu quero tirar foto dele, mas minha câmera tá dentro da mochila e até eu tirar ele não vai mais estar super legal e inquisitivo, eu sei. Eu sei porque o mundo é sempre assim, sempre te mostrando pássaros legais e te negando fotos deles.
E ainda tem que eu tiro foto mal pra caralho.
Ele faz um barulhinho de quem se espreguiça, sem se espreguiçar de verdade. Às vezes ele faz essas coisas, uns elementos normais soltos e descontextualizados. Eu tenho vinte e dois anos e a única pessoa que não me deixa pesadamente solitária e paralisada de auto-consciência é o meu irmão doidinho. Cai outra frutinha, ou bolinha, ou fruta-bolinha, não consigo me decidir. Eu levanto minha cara pra ver onde está a que caiu e todas estão imóveis, como que assustadas. O raio de bolinhas ainda está determinado meio certinho, quase um círculo, o alcance da oferta daquela árvore, a oferta inútil sobre aquele círculo de pedra.
Eu percebo pela décima vez naquela semana, segunda vez naquele dia, que a minha mania de narrar o que acontece toda hora desse jeito deve ser uma maneira meio desesperada de impor forma e sentido nas coisas. E uma meio infantil.
Ele levanta o torso e o gira em minha direção, meio desajeitado, apressado e com uma expressão inquisitiva bem exagerada, como se eu tivesse acabado de fazer algo ultrajante com ele.
-Daqui a pouco a gente vai, daqui a uns cinco minutos.
Ele parece entender, e faz algo com o queixo que pode perfeitamente ser um gesto de concorde. Gesto de concorde, olhem só para mim, presidente da Academia Brasileira de Letras. Não, obrigado, srta. Fagundes Telles, já comi biscoitos demais.
E ainda por cima meus braços são mais peludos do que o dele. Por altos ângulos eu imagino que meu corpo nem pareça nada com o de uma menina, e as roupas nem ajudam. Nem tampouco me escapa que o meu reconhecimento de que eu tou narrando tudo de uma maneira infantil seja também uma forma enviesada de legitimar o que eu estou fazendo, uma também infantil. Para que daí eu possa continuar sem problemas.
Meio isolado, em volta dessa árvore grandalhona e desajeitada, desfalecente, dois bancos que se encaram e um chão redondo que não serve pra nada. Não dá pra entender tão bem o que era pra ser isso. Os dois prédios visíveis daqui tem a mesma altura e a mesma traseira perfeita inteira de pequenos cobogós vazando luz pra dentro de suas cozinhas. Os dois são paralelos e partilham uma pequena rua curvada bonitinha e retocada de uma calçada nova. Meu irmão olha pra tudo isso e parece tranquilo, parece assentir de alguma forma pequena. Parece,embora dificilmente esteja, concordar com aquilo, aquela arrumação, concordar com a cidade transida de ordem (não, Sr. Sarney, ainda não tive chance de ler o novo livro; é romance?).
Uma das vantagens é que ele não se envergonha, e daí que eu possa me reclinar sobre ele e beijá-lo na testa por tanto tempo.
O céu é gigantesco e auto-importante, cheio de nuvens tremendas e formidáveis, tufos acarneirados e bonitinhos, maduros de chuva. Ele parece ocupar quase todo o meu campo de visão, deixando só uma coisinha de nada pros prédios baixos e as árvores modestas. Cai ainda outra bolinha. Mesmo agnóstica, a única palavra que soa apropriada ao falar do seu irmão era milagre, o que ela nunca havia feito em voz alta. E nem sabe tão bem o que quer dizer com isso, se é que alguma coisa. O que não a impede de usar a palavra mentalmente, e com frequência, assim como não se impede de se sentir principalmente grata, grata a ninguém em particular. A parelha estável de duas das maiores nuvens se move integralmente, com uma rapidez deselegante. Isso de não ter a quem se sentir grata era meio chato, tipo quando o vento derrubava uma manga madurinha bem na sua frente e ela pensava ‘Pô, valeu’. Na verdade, ela se via sem querer tomando parte em todo tipo de breguice ao pensar no irmão, todo tipo de coisa que antes não significava nada. Que a maneira dele de entender o mundo só acontecia lá dentro, e em nenhum outro lugar, que era único. Esse tipo de coisa. Dentro dessa caixinha, desse limite que ela determinava agora com as mãos, na dureza das têmporas. Uma palavra pronunciada uma única vez, hapax alguma coisa, hapax legonãoseioquê. Meu irmão continua levantado ao invés de se deitar de novo, um gesto tradicionalmente visto como um gesto de impaciência. Ele olha pras unhas, suspeito (mas ele dificilmente tinha jamais tido algo parecido com uma inocência, pra agora estar suspeito). Passam um esmalte nele que deixa as unhas amargas, pra ele não roer, e eu nunca entendi exatamente quê que tem roer as unhas, qual o problema. Deixa ele roer, ué. Por cima dele as nuvens rodando, apressadas. As produções das águas. Ele guarda o que ouve e vê e imita, e isso é normal, apenas não é normal que ele o faça tão bem, com uma aparente seleção, hierarquia. Ninguém concorda comigo sobre isso. Ele volteia algo que vai dizer, faz que vai desistir e depois que não. Ele parece tentar reaver algo do fundo da cabeça, na ponta da língua. Quando ele finalmente fala ele tá olhando diretamente pra mim.


(nem revisei de verdade, postar rapidamente aqui antes que passe o RAPTO de FALTA DE VERGONHA)

Saturday, March 07, 2009

o universo, hoje

TIPO CULTURA, ASSIM
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Vendo COISAS desse tipo, parte de mim se assusta genuinamente com o tipo de sofisticação que se desenvolve tão descaradamente em volta de termos tão tímidos, tão finalmente desimportantes. A coisa já se apresenta com toda a complexidade circunstancial de uma Tradição maiúscula, um cânone, com refrações e ecos de segunda e terceira ordem, etc. Como se apenas o fato de nós termos, necessariamente, esse ponto de contato cultural popular tão avassalador, esse cobertor que-tudo-comprende e que nós remete a algum conforto meio quentinho (atualmente: os anos 80, mas vareia, já quase vira os 90) indicasse para muita gente que a recursão e a utilização devidamente esperta dessas referências e subníveis bestas deveriam configurar uma espécie de ato significativo, a articulação de alguma verdade estética, de alguma totalidade, até. É certo que todo o - err - lixo cultural é nosso, e deve ser tratado como nosso, compreendido como nosso vocabulário e paisagem, mas a interação simples desses elementos, re-arranjar de cartas, não tem como dar em nada que seja mais do que engraçado ou curioso. Parece que as pessoas se sentem nas bordas de algo, ao lidar com isso tudo, mas deve ser só uma hipertrofia esquisita, mesmo. É ainda mais deprimente que esse garimpo e revitalização e ressureição de itens e elementos de vinte anos atrás se dê com uma suposta carga negativa e assim-dita irônica. É como se estivéssemos tão profundamente soterrados nos termos desse tipo de cultura que a única sofisticação possível fosse a afirmação negativa de tudo que conseguimos reconhecer como banal e ineficiente, como brega. Todos os acenos de cabeça incessantes. Aquilo que já se considerou tão seriamente O MAL, NA ARTE, agora é a maior área em comum, o ponto de contato imediato, a referência em comum de toda uma geração. Isso tem que ser assustador.

Sunday, March 01, 2009

And the dead kelp like the hair of the drowned
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Parece que romance não-terminado do DFW vai ser editado nalgum ponto. Much rejoicing, tal, mas leiam o troço da New Yorker sobre (bem longo, tem que ter saco) e vejam se não aparece uma porra duma torranja trevosa travando sua garganta. Mesmo se o livro não for metade do sucesso que IJ é (e IJ já tem sua boa dose de falhas e concessões aqui nossas), vai ser uma das pourras mais dolorosas que eu vou ler na vida, eu já sei. E um tema que me parece apropriado, aliás, assim PRO MUNDO. Tédio. Os buracos pra retórica dele fraquejar estão lá, mas isso talvez seja uma coisa boa, quem sabe. Tentar imaginar a dificuldade dele em escrever aquilo, a seriedade dolorosa e incompreensível, o inferno que deve ter sido, as pequenas felicidades em torno dos pontos mais bem-sucedidos, a cabecinha explodedoura dele tentando se agarrar em volta daquelas pessoinhas que ele suou, em volta das realidades tão dolorosamente trazidas. E tentar, ao longo da coisa, toda, ser um leitor merecedor disso tudo, de todo esse esforço.

(esse post não tem links, pois tenho preguiça. quem se importar googla)