Sunday, February 01, 2009

Antes eu sabia dar títulos
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Depois que as dificuldades de expressão artística se incluíram no Bom Gosto de maneira tão definitiva - assim como o desajeito de todos os meios, assim como a própria incomunicabilidade (dum jeito tão lírico-pequeno)- e depois que isso já se tornou reflexo pra gente, netos da coisa toda, é engraçado ver como isso afeta nossa relação com coisas anteriores aos modernismos. De como estátuas gregas semi destruídas e de contexto incompreensível nos são expressivas e naturais, e como estranhezas várias em algum texto podem ser tão-facilmente tomadas por empreitadas à frente do seu tempo. É o que torna mais difícil determinar criticamente a fase tardia do Henry James, além das várias dificuldades que o filho da mãe já sempre ofereceu. Não se concorda sobre muita coisa dela, ele se entrevê numa pureza bem esquisita, untouched by ideas, resoluto a tratar de ficção em termos próprios e bem largamente tirados da própria bunda. O que é evidente é que a vagueza e a entrega tortuosamente indireta são intencionais, são parte inteiramente deliberada da construção dos livros, mas não dá pra se determinar com muita facilidade o que é que ele tava tentando, na maior parte do tempo. Ok, atingir a realização de coisas bem esguias, é certo, esticando metáforas e tornando o ar cruelmente rarefeito, mas ainda assim, ainda assim. Partes do Golden Bowl são mais estranhas, pra mim, do que os Three Poems do John Ashberry, que é tipo um totem pomo desses dos mais óbvios. Estranhas num sentido WTF, mesmo. É sempre bem possível que ele tenha ficado meio doido*. Você pode ser um fã de olhos aquosos e piscantes e conceder tudo, imaginar que ele saiu escrevendo livros indiretos que parecem falar de si mesmos toda hora, da impressão da impressão da impressão, e que isso fazia parte de uma dificuldade séria e deliberada de realização que ele sempre teve, e que se sofisticou tanto no final de carreira que acabou por antecipar – com uma sutileza filhadamãe que não se deixa apanhar facilmente – boa parte das empreitadas do Alto Modernismo que se seguiria. Eu gosto de fazer isso às vezes, e é super divertido**, mas as evidências nem sempre apontam nessa direção.
Você pode ser o Gass e fingir que a arquitetura das frases basta, o dedo apontando pra si mesmo e toldando as águas da visão moral***. Mas isso não passa tanto de viadagem.

*O Leavis acha isso, e cita pra reforçar uma anedota bem engraçada do HJ com a Edith Wharton tentando pedir direções na rua, sem conseguir formular uma frase direta e simples que o bróder da rua entendesse.

**ter fronteiras tão porosas na sua cabeça têm suas vantagens, sabe. Outro dia tava lendo Golden Bowl e folheando Golden Bough, mais ou menos ao mesmo tempo, e eu tava com um baita sono, acabava que se entreviam altas parecenças difusas entre os dois livros, irmandades de algum tipo. Coisas paralelas encontrando nos longes do infinBlogger: altamente derivativo - Criar postagemito. No dia seguinte fui pensar e elas nem existem?

***hahaha, as águas da visão moral.

\\\\\\\\\\ (agora eu uso barrinhas)


Olha que isso aqui é legal, em várias direções. Dá pra olhar pela janela e pensar nos nossos tempos, e tudo. Mas também qualquer coisa dá. Exemplo:

essa imagem e a suas várias reações diante dela certamente são assim desesperadamente eloquentes sobre zeitgeists assim altos. escreva redação de 400 caracteres e mande para andreisp2000@bol.com.br.