Wednesday, December 17, 2008

Não me parece aceitável que macacos morram todos os dias, e de maneiras evitáveis
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Entre um pastelzinho de Trás-do-Monte e um último gole no café frio que não se deixaria desperdiçar, ele decidiu pelo primeiro, e o engoliu todo de uma vez deixando apenas uma das três pontinhas se pronunciando pra fora do buraco feito redondo da sua boca, e continuou a ler LA PARTICIPACION EM ST THOMAS DE AQUINAS, de um autor cujo nome ele nem lembrava tão bem, e a considerar seriamente cada frase com mãos pensas que se abraçavam e formavam um arco que encimava seu nariz e o fornecia algo parecido com uma moldura incompleta. Do seu lado também estavam os poemas de Robert Browning e os discursos de Rui Barbosa e uma versão fac-símile em catalão de Tirant Lo Blanc (emprestada) e contos chineses coletados em uma versão reconhecidamente antiquada e preconceituosa (que portanto deveria ser lida “com uma pitada de sal”, segundo a orelha) e a correspondência íntima de Chekov e a contracapa de uma nova tradução Da Divina Comédia da qual só se encontrava para vender, por hora, a contracapa, que oferecia um holograma de Dante sendo alternadamente acompanhado à direita por Virgílio e à esquerda por Beatriz, o que nem lhe parecia tão adequado mas que, tendo à mão apenas a contracapa e sua cultura insuficiente, ele nem poderia verificar.
Ele era um pai, um marido, um filho (duplamente, embora um dos vértices esteja hoje falecido), um engenheiro, um eleitor, um amante, um comprador da banca de revistas de sua quadra, um cristão assim meio mais ou menos, um brasileiro, um cidadão brasileiro (olha só), um palmeirense, um heterossexual, etc. Nenhuma dessas coisas era assim evidente no momento, embora ele tentasse assumi-las agora, como sempre, inteiramente nos braços e nos dedinhos, se possível nos cabelos e nas unhas. Ele lembrou-se da morte de Ayrton Senna e chorou copiosamente por quinze segundos, parando apenas para pensar na crise financeira e em suas possíveis conseqüências, nos números da bolsa, concluiu que o negócio era muito sério e muito grave, e em seguida que todas as coisas eram muito sérias e muito graves, toda elas, inclusive o final daquele filme onde a Susan Sarandon morre de câncer. Lembrou de um grupo de crianças de dez anos de idade que estava construindo uma escola ecologicamente sustentável. Sem ajuda do governo ou da sociedade, de fato até sendo atrapalhada por alguns membros, com gente xingando e tentando derrubar as escadas enquanto eles tentavam aplicar as placas de absorção de energia solar no teto que eles fizeram principalmente de papel-machê e cuspe. Eles eram para ele um motivo constante de inspiração, crianças multiétnicas e multiculturais, na verdade possivelmente transétnicas e transculturais, e de estágios avançados e incompreensíveis, potencialmente impossíveis, de complexidade de gênero e afetividade sexual, vendendo biscoitos para arranjar fundos, trabalhando dia e noite, algumas delas vencendo também cânceres de vários tipos e estágios de avanço, e também pais alcoólatras e expectativas heteronormativas - às vezes todos ao mesmo tempo.
Ele pensava nas crianças e se sentia inspirado, mas nada em volta ajudava, nada em volta lhe parecia imediatamente solucionável com seu ânimo. E ele ainda havia abandonado a leitura de LA PARTICIPATION EM ST THOMAS DE AQUINAS há alguns minutos, que era escrito em uma língua ainda (página 47) indeterminável, no meio de um parágrafo interessantíssimo, realmente formidável, claro e provocante, adverbiado corretamente, com subordinações essenciais e fluidas que te carregavam adiante de forma macia e íntima, como os braços meio gordinhos – moderadamente gordinhos e até meio geladinhos - de uma namorada. E ele havia abandonado aquele parágrafo tão bonito, tão esforçado, e agora chorava também por isso, e queria de alguma forma se encontrar com aquele parágrafo e pedir desculpas em forma de um presente pequeno e significativo, um chaveiro do seu time, um livro de máximas chinesas adequadas ao mundo business. Mas nada disso o ajudava de maneira alguma a continuar a leitura, e no entanto tudo continuava a parecer essencial e da maior importância, tudo igualmente chorável por horas longas e dificultosas.
E tampouco haveria alguma maneira clara de provar a existência das crianças, ele percebeu, terminando de engolir o pastelzinho, cujo gosto ele havia finalmente se esquecido de determinar com qualquer precisão apreciável.

Thursday, December 11, 2008

Sabem o Retábulo de Santa Joana Carolina, do Osman Lins? Então, tava eu lá lendo Auerbach falando de outra coisa nadaver, e olha só:

The figures – as on the sarcophagi of late antiquity – are placed side by side paratactically. They no longer have any reality, they have only signification. With respect to the events of this world, a similar tendency prevails: to remove them from their horizontal context, to isolate the individual fragments, to force them into a fixed frame, and within it, to make them impressive gesturally, so that they appear as exemplary, as models, as significant, and to leave all “the rest” in abeyance.

Não explica um tanto? É isso que ele faz com os pequenos capítulos do conto, que ele chama de mistérios Não só a disposição entre cada um deles imita a de quadros não-exatamente-lineares num retábulo, isso é fácil, mas a concretização esquisitinha mesmo de cada mistério é feita com parataxe estranhamente rígida. Não nos lembra imediatamente narrativas antiguinhas por ter vários elementos modernos ali misturados, por não ter um estilo nobre e distinto que mantém cada coisa no seu lugar (e que pareceria paródia, se tentado). Mas é isso: as cenas não tem nenhuma realidade, como disse o Auerbach, elas só tem significação. Elas recriam poses gesturais sem realizar nunca nenhuma atualidade, são fixas e rígidas. É um negócio bem bastante medieval, e isso não é um acidente.

Eu sou bastante simpático ao que parece ser a tentativa central do Osman Lins, de uma centralização concentrada das propriedades cosmogônicas (eia) da ficção nesse mundo de tantas modernidads, tantas internetes. Mas o jeito que ele opera isso me parece sempre ingênuo, descreditando realismo e operando a partir de coordenadas que ele tira de si mesmo e que não fazem nada pra mim, achando que dá pra sair hierofanizando as coisas a partir de estruturas tão evidentes e declaradas, geometrias e palíndromos e etc.

Mas ainda assim, ainda assim, há de se achar massa. Deve ser a única coisa formalmente original em ficção no Brasil desde, sei lá, Graciliano.