Sunday, July 20, 2008

troço inacabado e inacabável, que eu posto porque sim.


Direito Administrativo

Vinha vindo machucado, solto, lento, o Direito Administrativo. Passos complicados, esforçados, que se empertigam toda hora, talvez em insegurança. Suas pernas são como dois palitos mal posicionados enfiados em uma maçã. Suas mãos não cabem nos seus bolsos, pombos andam ao longo dos seus ombros. O parque não é bem cuidado, e as irregularidades do chão permitem poças gigantescas que engolem o seu pé e alcançam até a barra de sua calça, sempre molhada. Os suportes para estátuas estão vazios e há pombos em todo lugar, em alguns pontos cobrindo toda a superfície do chão.

O Direito Administrativo senta-se em um banco e é observado por dezesseis turistas orientais que pedem para tirar foto com ele, provavelmente o confundindo com outro gólem, algum mais interessante. Ele se esforça para sorrir e não consegue, forçando uma veia no pescoço.

Ao lado, de repente passa o Balzac de Rodin, envolto em seus trapos, perseguido por dezenas de turistas. Os orientais percebem seu engano e abandonam o Direito Administrativo. A confusão é freqüente. Os dois se diferenciam principalmente em dois aspectos: um bigodinho e três metros de altura. Além da indumentária.

Quando perguntado quem ele é, o Direito Administrativo responde (em alemão):

-Eu sou o conjunto de normas e princípios que, visando sempre ao interesse público, regem as relações jurídicas entre as pessoas e órgãos do Estado e entre este e as coletividades a que devem servir!

Sua inflexão não segue sempre o sentido do que ele está falando, e geralmente acentua pontos quase aleatórios da frase.

Turistas não incomodam muito, não fazem muito além de tirar fotos. O principal problema são escritores e artistas, eruditos. Esses chegam arrogantes invocando os gólens para todo tipo de bobagem desnecessária, e não há muito que a maioria deles possa fazer senão aceitar. No momento, dois poetas magrelos gritam imprecações obscenas enquanto colocam para brigar dois gólens cansados (Wallace Stevens e Cézanne, que o Direito Administrativo não reconhece). Os dois tem mais de seis metros e são dois gólens da Terra, embora de variações bem diferentes, o que torna a luta menos variada e mais longa, arrastada. No caso, a luta claramente saiu do controle de quem os invocou, estes sendo gólens poderosos, e agora parece incontrolável. Derrubam algumas árvores por perto, marcam a areia com o halo de força em volta deles ao voarem daqui pra lá, descrevem rapidamente e redundantemente o que vão fazer em seguida.

Fontes do direito administrativo

São quatro (ele conta com os dedos, virado para os pombos nos seus ombros):

A Lei

A Doutrina

A jurisprudência

O costume

Os gólens mais poderosos dominam setores grandes do parque, e quase ninguém consegue invocá-los com sucesso (embora as tentativas sejam freqüentes). Em volta deles o ar se carrega e tudo se desespera para seguir sua ordem. Pequenos redemoinhos de vento acumulando terra e folhas secas, pessoas distraídas, outros gólens. O próprio Direito Administrativo tem seus poderes modestos, que costuma preservar para alguns estudantes que lhe aparecessem às vezes. Consegue arregimentar pequenas organizações, influências, se se concentrar o bastante. Geralmente seu alvo são os pombos nos seus ombros. Ele é apenas um dos vários gólens de Direito Administrativo, um criado por um estudioso paulista já esquecido há meio século atrás, e agora obsoleto. Sabe que não dura mais muito tempo, que logo se junta aos vários cadáveres que povoam o parque já como paisagem.

Cadáveres que incomodam justamente por nunca morrerem inteiramente, de vez em quando ainda tremendo uma sobrancelha ou fremindo os ombros, murmurando nomes desconexos.

Ver Também:

Tuesday, July 08, 2008

Serious Sans
-
Até o Design, esse trem tão escandinavo e estéril, tem essa agora de ser sério, de ser tipo responsável. Até a Vice inventou de virar política e tirar o bróder que fazia Dos & Don'ts, caramba. Tá na hora de parar de chamar de "unhip earnestness", né, minha gente, no mínimo.

-

Slow Learner é a maior prova de que Pynchon não sabe mesmo escrever ficção, que ele nunca soube. É bonitinho e constrangedor, o que ele admite muito massamente na introdução. Isso só torna o feito que é GR mais impressionante ainda, e esclarece o quanto foi um progresso consciente de um gênio cavando com as mãos um lugar próprio pra sentar. É muito mais radical do que se diz, a retórica narrativa do livro não possui um centro de consciência refletor do que acontece, nem sequer vários dispersos: o centro de consciência do romance é o próprio romance, estranho e familiar, orgânico como a natureza. Sem saber como lidar com as pessoinhas, Pynchon engoliu o mundo, Galactus-like. Aquilo é o mundo narrando a si mesmo, quase como Tolstói. A naturalidade é a mesma, o mundo é que parece vestir calças diferentes e engraçadinhas.

Isso é que a cambada de gentes que sai por aí histérica não parece entender. A reclamação contra realismo histérico do James Wood procede, sim, de uma maneira geral. Ela só não se aplica de verdade a GR*.


*embora se aplique, talvez, a V.