Monday, April 28, 2008

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Quase todo blog é um acidente de carro, não é? Arrastado, assim, primeiro em câmera lenta e depois em loop. Mesmo os bons. Assim consistente, enquanto ninguém na vidareal é porra de consistente. Internet parece que machuca as pessoas, fica essa coisa tentadinha. E eu não só leio como releio, vários.

(aviso a amigos meus: os de vocês não)

Thursday, April 17, 2008

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it's music
Nunca faço essas coisas, mas aí está. Só músicão aew.

Monday, April 14, 2008

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Tava pensando aqui. Pale Fire é um tanto mais divertido (deve ser um dos livros mais divertidos já escritos), mas Pnin acaba sendo estranhamente mais sofisticado. Como Ivan Ilitch, Seize The Day, é uma coisinha pequena e perfeita nos seus termos. Dá pra tirar toda uma LIÇÃO massa sobre ficção ali, também, que dá vergonha de falar, né. Nabokov provavelmente não levava ele tão a sério, mas e daí?

Saturday, April 12, 2008

uma quebra forçada de auto-importância (a necessary turning of mothers)
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Devem existir argumentos excelentes, excelentes, sobre como peido não é uma coisa universalmente engraçada. De como eu (daí vocês apontam pra mim) acho muito engraçado por causa disso (exhibit A) e disso (exhibit B), aí eu anoto num caderno e entendo e prosseguimos (até onde vocês me explicam porque é que a girafa não fez forcinha com o pescoço para que a filha nascesse com o pescoço maior).
Mas a minha cabeça não enrola bem suas ferramentas engraçadas e mal formadas em volta desse tipo de coisa. Eu não consigo imaginar uma tribo africana (sempre elas) onde o peido é divino, e pessoas peidando e entendendo aquilo como um lembrete da imortalidade da alma. Quem peida dá uma risadinha, a minha compreensão empurra de volta, como se fosse um componente básico do hardware nosso.
O Aristóteles não ria dos próprios peidos, por exemplo? Ele fazia o quê?
Na foto, etc.
Eu ia falar mais, mas ia ficar muito parecido com aqueles caras moderninhos que se acham super legais fazendo tipo crônicas* sobre esse tipo de coisa. Existe, não existe?

*haha, crônicas!


Friday, April 04, 2008

SHRTRVWS!
Atonement: Ian McEwan é bonitinho. Assim literariamente bonitinho. Bill Pullman no final batendo palmas aparece no palco This is what a book looks like, now folks!
Mas manda uns foguinhos, uns James Woods aí agradados ao longo do caminho. Ele é tipo o São Paulo do ano passado.

The Echo Maker:
Também Richard Powers. Coisas tão já prontas de significados tipo Capgras não prestam, não, ow, no máximo pra continhos. Tipo todas as sinopses do Saramago. Mas é bonitinho., cotas se preenchem, etc.

Tuesday, April 01, 2008

Mais um
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Os dois entraram no carro e não falaram nada por um tempo, em silêncio inclusive durante os vários minutos que levaram até sair da vaga apertada, arrastados pela prudência bêbada que nunca se pronunciava adiante por mais de alguns poucos centímetros. No chão do carro algumas poucas notas fiscais de posto de gasolina, sujas e rasgadas.

-Vou ligar pra sua irmã que ela tinha que ouvir.

Ele assentiu em um barulho mínimo, e, logo que o carro alcançou uma via mais movimentada e ganhou alguma velocidade, fechou os olhos em uma expressão séria, o arco dos ombros encurvado e, no entanto, reteso. As mãos rudes fortificadas entre os joelhos. Demorou um tempo para o pai perceber - de boca aberta, os óculos escorregando até metade dos seus olhos, ainda lutando para conseguir ligar no celular com uma só mão enquanto dirigia com a outra.

-Tá bêbado - o quê? Nem bebeu nada, né?

-Dor de cabeça, dor de cabeça que eu tenho sempre no carro. Desde moleque.

-Ah – OI. Oi querida, oi como você ta? Não, ótimo, tou com o seu irmão aqui. É. É. Não a gente jantou com as tias, sabe, que deu certinho liguei falei que tava aqui que o Pedro mora aqui agora, tinha anos que elas não viam ele. E foi assim ótimo tinha uns primos assim mais novos gente boa sabe. Os filhos da Maura.

A voz do outro lado se ouvia baixa e ridícula, com alguns detalhes característicos de inflexão discerníveis, uns altos e baixos óbvios. Ele abriu os olhos tentativamente para a janela e percebeu que não, que ainda não dava.

-Ah mas foi ótimo só te liguei por isso mesmo foi muito bom. E elas falaram tanto de você viram seu negócio no computador o Julinho seu primo mostrou pra elas, elas não entenderam assim muito bem o que era mas ficaram impressionadas, tavam orgulhosas.

O carro parou surpreso em um sinal. Ele abriu os olhos para uma lanchonete pequena e três motoqueiros fumando perto do semáforo, olhando todos para ele. Na lanchonete várias pessoas provavelmente voltando de uma festa a fantasia. Dois turistas e duas enfermeiras, os homens na frente das mulheres e olhando para a televisão diante deles em um suporte na parede. Bom dia, Vietnã, uma cena pouco característica. Suas mãos se aliaram adiante ao reconhecimento, com força, para que ele não tivesse que sorrir.

-Ficaram, assim elas não entendem né não entenderam muito o que era mas acho que a coisa de estar assim no computador como revista né, é como televisão hoje. Ah claro que é filha. E ótimo assim eles todos gentis a casa é linda você lembra dela? A gente visitou uma vez com sua mãe, que a gente achou que ia ficar lá mas não deu. É, com a escadaria.

No sinal verde ele fecha os olhos novamente. O carro corta as ruas vazias e vira abruptamente, fura alguns sinais. A cabeça recostada na janela treme e bate, às vezes com alguma força, aos solavancos desordenados do carro. Não conhecendo bem a cidade, nada daquilo faz sentido, uma violência. Ele se esforça para não ouvir, para não estar lá, mas não consegue. O acolchoado cinza do banco é de um cinza também marrom com retângulos concêntricos roxos, um conjunto que ele diria cansado, que ele diria vexado no cheiro que ele guarda e protege, o cheiro de uma má intenção conservada. O seu carro.

-Não ele tá aqui tá comigo no carro vou me deixar no hotel. Ha ha. Não, o carro dele. Tá aqui quer falar com – Alô, oi. Alô. Alô. A-lô. Alô. Alô.

Ele foi obrigado a notar como cada um deles foi diferente, cada um deles um esforço renovado e recomposto. Depois do último, conformado e como que protocolar, ouviu-se os cuidados separados de fechar o celular e de colocá-lo em seguida no bolso apertado da calça, uma tosse entre os dois que não pareceu necessária.

Alguns minutos se passaram sem mais nada, até que

-Ué.

logo quando a cabeça havia alcançado algum conforto entre o encosto e o teto. Isto seria um convite à sua atenção. Os olhos continuaram fechados, seria necessário mais do que isso. O que se concedeu apenas uns dez segundos depois.

-Você sabe onde que a gente tá?

Em dois segundos ele abriu os olhos e olhou em volta. O carro andava ridiculamente devagar em uma avenida larga de complexos comerciais irrelevantes e baixos, por trás alguns condomínios grandes de um amarelo fraco. Sua voz saiu seca contra aquilo.

-Nunca vi nada disso na vida.

O pai começou a rir, olhando pra ele, os olhos estourados e algumas pretensões brancas de barba na pele que ele tinha escura de férias. A rir muito.

-Eu saí de lá como se – como se eu conhecesse não conheço porra nenhuma dessa cidade. Nunca vi porra nenhuma disso aqui.

A rua era bem iluminada demais e nem pontos de ônibus se encontravam em toda extensão visível dela, em nenhum lugar se dizia um nome, nada escrito. Ele agora parou o carro e começou a gargalhar, olhando todo o tempo pro filho, como que querendo algum sinal que o absolvesse de qualquer aparência de controle da situação. Passou os dedos pela ausência de bigode que havia decidido apenas semana passada, depois de quarenta anos. Olhou mais uma vez pela janela para os mesmos lugares de segundos atrás. Entre fôlegos histéricos longos que se renovavam de alguma forma íntegros, ele finalmente sossegou em um tom próprio para conseguir falar:

-E agora?