Tuesday, February 19, 2008

Fidel Castro, seus extremos e seu legado para o esporte
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Sucesso e consenso tornam as coisas imprestáveis esteticamente. Você só precisa ser minimamente atento para perceber esse tipo de coisa, pra chamar de cliché e desconsiderar por inteiro,animadinho, tratando tudo no mesmo nível. É o que aconteceu com a esquerda. O que se vê é nojinho, antes de tudo. Nunca se acredita que a unanimidade pode estar certa.
O constrangedor é que muita gente, de tanto revirar os olhos corretamente diante de um tratamento tolo dos efeitosdasociedadedeconsumonoindivíduo (por exemplo), passa a revirar os olhos a sério diante da preocupação em si.
É verdade que boa parte faz de brincadeira, achando natural tomar um passo além. Mas isso só torna mais besta.

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Rock depende quase sempre de uns elementos bem particulares e esquisitos que, graças a deus, ninguém me explicou muito bem ainda. É muito satisfatório (num sentido mesquinho) assistir o tanto que algo de aparência tão simples funciona só em condições bem específicas.

Essa é a desgraça da vida do Stephin Merrit. Um dos caras mais espertos tentando consegue ser responsável por alguns dos fracassos mais evidentes.

Pavement é esquisitinho, mas na verdade é dos casos mais compreensíveis, explicáveis. É difícil construir um caso de ser, assim, Grande Arte. Mas ele existe, e é quase interessante. Algum dia ainda eu tento, quando a vergonha toda se for (qualquer dia agora, pelo que parece).

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Monday, February 04, 2008

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Imagino que isso aqui vá ficar um tempo sem muitas atualizações. Então pra não me incomodar tanto vou postar um troço antigo. Tem mais de ano, mas claramente não tem pernas pra ir alugar nenhum.

Além do mais, como falei, faz bem exercitar vergonha.

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Lixando as unhas, ela está lixando as unhas do pé em posição que você julgaria desconfortável. No que talvez seja a primeira vez que você a vê agindo como se não se julgasse observada. Isso nos - o quê? - seis meses em que você a conhece (você já a viu fazer isso antes, mas em uma posição muito mais atraente). A expressão dela é uma de desgosto que contrai a sobrancelha e os cantos da boca, deixando o rosto irreconhecível. Provavelmente com nojo de alguma sujeira inesperada no canto do dedo.

Você não sabe exatamente qual é objetivo por trás de lixar as unhas, além de tê-las lixadas.

Ela não te percebe acordado, você divisa a expressão dela pelo espelho, no cantinho dele, e de resto você a vê de costas, toalha disposta através do corpo sem nenhuma função discernível como aqueles panos em quadros antigos. Ela ignora a televisão ligada no filme que você lutava pra acompanhar antes de dormir, o filme que agora aparentemente está muito avançado, a loirinha chorando e um cara novo ali consolando, o marido dela todo puto com alguma coisa.

Você considera se mexer para que ela perceba que você está acordado, movimenta o braço de um jeito pouco natural e despropositado, sente-se meio besta e desiste. Preguiça de ter algo para dizer, ou de alimentar alguma vontade dela de sair pra fazer alguma coisa. Então.

As costas arqueadas de uma maneira pouco atraente, quase perfeitamente descobertas. As vértebras sendo impressas na pele, desaparecendo de acordo com o movimento. Ela lixando as unhas provoca uma torrente de Paulas indo ao banheiro, tirando sujeira dos dentes, lidando com caixa de banco, sendo impaciente, até grosseira. Tomando parte em atos encerrados ali, os menos atraentes do mundo. Você está disposto a aceitar que protagonize chatices. Você sem-graça indo ao dentista, esperando ser atendido ao telefone, sua senha ser chamada no cartório. Que a sua vida fosse isso a que nos acostumamos quando percebemos primeiro que não vamos comer todo chocolate que quisermos e segundo que não vamos dormir com todas as garotas, essa coisa desajeitada que simplesmente paira lá, esperando você reagir. Mas ela estava incluída numa outra esfera de coisas, sorridente nas fotos que você escolhe para a imagem mental que tem dela, que fica no fundo da cabeça lhe confortando diante de toda sorte de coisa ofensiva que se levanta das fendas abertas ao longo de um dia. E agora as costas delas arqueadas, inconscientes do seu escrutínio, a expressão deformada dela, ela se desfazendo com um gesto desatento do acúmulo de etcéteras ao pé da cama, eles descrevendo um arco vagaroso até o chão ou desaparecendo com o fundo claro dos móveis do hotel, o quarto com sua disposição neutra e não ofensiva, não permitindo que você se prenda com interesse em nada mais.

Desanimado com o filme, tira o prazer que consegue tirar da cama confortável, do abrigo do frio que as cobertas oferecem. Tenta tomar consciência do corpo inteiro, confirmando o conforto em todas as extremidades atrás do pequeno erro que está evitando a volta do sono.

Ela vai percebê-lo acordado, sugerir alguma coisa, virar-se tentando ser charmosa, e vai parecer tão pouco natural. Vai se repetir toda a incompreensão que você já antecipa. Ela ali reclinada de lado, reclinada no cotovelo, dizendo que te ama. Sempre tão simples, as outras pessoas, terminando ali nos seus respectivos joelhos, ali nos ombros e ali na ponta do nariz. Devia ser invenção, isso de querer ver alguma coisa a mais nela, uma harmonia que deveria se revelar ali onde havia um corpo e lençóis, pernas e braços, a curva no quadril. Ou talvez a incompreensão seja em verdade uma compreensão mais profunda, além da linguagem (mas você não acredita nisso de verdade). Dizendo que te ama com o tom que ela julga carinhoso, talvez até com uma expressão que ela julgar sensual.

As pequenas coisas que você admite e nega para si mesmo sem acreditar direito em nada. Que não a ama. Que sim, claro que ama, imbecil. Que você gostaria de articular de alguma forma e trazê-la a admitir que ela também, mas não diz, porque sabe que também estranharia se ela tentasse algo parecido. Reproduzindo então uma série já repetitiva de conclusões que não são exatamente conclusões. Um raciocínio viciado que desempenha funções de culpa e justificativa extremamente cansativas numa procissão previsível mas de alguma forma imperativa que se desenrola até você se perder no andamento dela, até o barulho do ar-condicionado (que não estava lá e de repente está) tomar toda a sua desvanecente atenção e suas conclusões não exibirem mais palavras, sua consciência admitido em um último esforço para para se manter desperto que você está, sim, adormecendo, lutando contra um peso cuja superioridade sobre você já foi provada repetidas vezes.

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Ela se compõe no espelho demoradamente. Não estão juntos há tanto tempo e ela quer evitar o choque de intimidade demais, que ela já conheceu e não recomenda de jeito nenhum. Quer causar uma impressão quando sair do banho, afetar uma beleza despojada e manter a noção que ele deve ter dela. A que ela acredita que montou deliberadamente com tanto esforço.

Medindo os passos ao sair do banheiro, escutando a televisão ligada e ainda enxugando o cabelo, ela dá com ele dormindo, tão indefeso que não consegue se frustrar com a sua incapacidade de colaborar com um procedimento tão simples. Considera ligar o secador por um instante no banheiro e voltar, mas, no que é mais um alívio pra sua insegurança do que qualquer coisa, descarta a possibilidade com um sorriso exagerado.

Livre do exame masculino, ela procede com um diligente arrumar de coisas que certamente nem ocorreria ao rapaz, e que ela não espera que ocorra, tendo aprendido com filmes e seriados desde cedo a maneira masculina de agir, formado uma noção condescendente e maternal da imaturidade que necessariamente perfaz todo exemplar varão da espécie. Resistiu um pouco ao encontrar nele algumas inconsistências com o modelo exaustivo que ela mantém na cabeça, inconsistências que ele parecia decidido a exercer (o namorado tendo também tomado consciência temerosa da idéia que se tem dos homens e esforçando-se para provar quando oportunidades claras dançam à sua vista que ele não é esse tipo de cara, não senhor).

A ausência da atenção do rapaz é - depois de tanto tempo juntos sem interrupção - um tanto libertadora, ela percebe. É ainda cedo para que ela se sinta confortável, as únicas inseguranças e fraquezas que ela permite que ele perceba são as que ele certamente achará graciosas, que ela deixa transparecer afetando vergonha enquanto ele a conforta, magnânimo, de que não, bobinha, não tem problema.

Ela já foi ligeiramente instruída nesse sentido por amigas, e preencheu o resto com o seu bom senso. Sabe como evitar os pequenos problemas que costumam passar por cima dos casais.

As malas esvaziadas, as unhas lixadas e o quarto adaptado ao seu conforto (o vazio dos móveis a incomodava, e por isso havia empreendido uma disposição de pequenas coisas deles por todo canto, fazendo o quarto parecer habitado há dias), ela senta ao pé da cama e ondula os dedos sobre o roupão, que não é tão felpudo quanto deveria ser.

Os olhos passeiam pelo quarto por alguma distração. A roupa que ela havia separado para depois do banho parece tão tola ali sem forma em cima da cadeira. Um silêncio invade o quarto justo quando ela percebe que consegue vê-lo dormir no cantinho do espelho, um silêncio causado pela interrupção repentina de um momento particularmente barulhento do filme que ele deixou ligado. A pequena sincronia a assusta, como se alguém tentasse destacar uma importância qualquer nela perceber ali o rosto dele encarando de volta, sua expressão inconsciente. Ela se vira para a tela e logo uma conversa qualquer irrompe entre os personagens, como se nada tivesse acontecido. Um mundo separado se desenrolando no canto dos olhos.

Suspenso diante dela está o resto do dia, que sabe-se lá quando acaba. As cortinas fechadas de modo que o quarto estranho pareça alheio à qualquer influência externa. A idéia perfeita de um casal em um quarto de hotel. Ela sente um estranhamento assustador de repente por não saber que horas são. Ali em um quarto estranho com um garoto dormindo, sozinha.

Enquanto tenta lembrar nome da atriz no filme, considera se deve acordar o rapaz com planos de qualquer tipo, que seja para criar uma companhia, uma outra presença ali no quarto. Os dois esforços são interrompidos, no entanto, arrefecidos em uma disposição para chorar que não encontra resposta imediata. Os dedos prontos para impedir que qualquer lágrima deixe os seus olhos e a expressão atenta a um aviltamento de suas sobrancelhas sobre o qual ela já foi informada que deve ser evitado a qualquer custo.