Saturday, June 16, 2007

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Nenhuma pessoa sensata consegue achar opiniões parecidas às suas além de um círculo pequeno de amigos. A não ser em uns poucos casos de ofensividade universal e pesada e óbvia, todo mundo sempre entende tudo errado. Mesmo seus amigos falam bobagem, mesmo gente espertinha.
Sempre me incomodou muito. Que não houvesse muita esperança para nada, nãomesmonunca. Imeanchrist, se nunca há mais de cinco pessoas defendendo o lado certo de alguma coisa, se de nada adianta derrubar algo perverso.
Mas eventualmente percebi que deve ser bem mais insuportável realmente acreditar em alguma dessas bandeiras. De estudante, de revista. Acreditar não só na retidão, mas na urgência da parada.
No meu caso eu me frustro aqui e ali, mas sei que a melhor coisa a se fazer é esquecer, sei que não vou jamais conseguir explicar pra mais de quinze pessoas um ponto que não puder ser demonstrado com fantoches. Cotas são uma merda, ok, mas mesmo que derrubemos bonitinho, e aí? Certamente inventariam coisa pior. O Lula não se elege, yayness. Grandes bosta. Grandes bosta Bush sair do poder, o Chávez.
O oposto quase sempre é tão retardado quanto, a realidade dessas coisas se dá inteiramente em mecanismos monstruosos, gente gritando. Não há muito como respeitar qualquer dessas coisas. Só o fato de uma idéia ter uma chance real no mundo lá fora já deveria ser prova o bastante da perversidade dela. Ela provavelmente saiu de um desses espaços democráticos e abertos de discussão. Esses coisos consistem em um bando de gente gritando, segurando faixas. O tempo inteiro.
Eu fico triste, ninguém concorda comigo, ok. Mas eu durmo de noite, eu assisto Pocoyo de tarde, tenho algo mais ou menos parecido com uma vida. Imagina ser um líder estudantil de qualquer tipo. Imagina ser, sei lá, o Mino Carta, o Reinaldo Azevedo.

Monday, June 04, 2007

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Estas coisas estão aqui. Afirmam-se como todo o resto. A luz da lâmpada esquisita projetada na parede, que se parece com tecido morto visto em microscópio. Uma revista semanal antiga com um escândalo intensamente irrelevante. Eu tinha que olhar pra eles e entendê-los.
Era meu trabalho, agora que todos haviam abandonado o seu posto devido (até você). Ninguém mais fazia o que lhe era certo, restando tudo para mim. Era tudo muito cansativo.
Esses exemplos não são muito bons, mas era o que me ofereciam na hora, e eu sou maior honesto. Poderia pegar qualquer outra coisa, como um urso, um senador da república, mas não.
Você dormiu vendo televisão, mas mantinha uma cara preocupada que funcionava junto ao noticiário, tornava-se engraçada quando vinha o comercial, configurando maior urgência à dona de casa e sua mancha seca de ketchup.
Lá fora, cavalos tentam andar nas copas das árvores. O que os deixa mais ou menos na nossa altura, no terceiro (quarto?) andar.
A dificuldade era digna, os passos poucos que logravam em galhos até caírem no chão eram quase elegantes. Talvez seja arte, não me sinto preparado para dizer. É tudo muito cansativo.
Eu queria te acordar para que assistisse os cavalos comigo, mas tinha vergonha de não entender ainda o que aquilo significava, se deveria significar alguma coisa, no caso de você me perguntar. Fuçava a mente atrás de todo o acervo que cavalos e árvores oferecem, mas a tv me distraía, qualquer coisa me distraía.
Escapava uma atençãozinha de vez em quando para os cavalos, já que estavam claramente tentando me impressionar, olhavam de canto pra mim antes de cada tentativa.
Eles eram culpa minha, eu sabia, então como eu poderia não saber o que eles faziam ali?
E no entanto eu continuava não sabendo, eles continuavam relinchando andares abaixo.
Você fez um barulhinho. Agora com alguma auto-consciência, diferente dos anteriores. Barulhinho desperto, imaginei.
Fiquei desanimado, logo você acordaria. Eu teria que te inventar de novo, inventar mais uma vez um dia com você. Já que nem você nem o tempo tentavam mais.
Se eu não fizesse minha parte, tudo afundaria, eu tinha certeza. Seria engolido por uma fenda na terra rapidinho. Até filhotes de cachorro. Até a China.
Bem que podiam aparecer umas laranjas, ou algo assim. Uma montanha delas. Ficassem quietas, sendo perfeitamente as laranjas que são. Ficaríamos lá eu e as laranjas descansando na maior, sem que ninguém pedisse nada de ninguém (como se isso fosse funcionar, em alguns segundos eu inventaria que as laranjas eram a minha alma, ou algo assim, elas iam ficar tristes, ganhar bracinhos e pernas e dançar).
Eu penso em desistir, mas nunca a sério. Sei que logo você acorda, e logo invento as brigas que teremos, o jeito super fera e charmoso deu me redimir e de você me perdoar. Vai passar tal filme, você vai gostar disso, odiar aquilo. Vai acabar o sorvete.
Lá fora um cavalo chama a minha atenção, pulando dessa vez do quinto andar. Tenta um sorriso ao passar pela minha janela e aterrisar fantasticamente, pronto para atravessar a fileira de árvores com sua elegância toda.
Não consegue, claro. É um cavalo.