Friday, December 21, 2007

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Elton resenhou o livro do ASS, então também vou brincar de literatura contemporânea brasileira. Assim, ó -:>


Eu queria que o Pelizzari fosse bom, queria com força. Percebe-se por alguns detalhes* que ele tem mais noção que quase toda a galera que sai cagando livro por aí, e eu sempre quero encontrar gente boa nesse Brasilzão. Por isso me entristece tanto o Ovelhas que voam se perdem no céu. O troço é bem, bem mais ou menos. Mesmo considerando que primeiro livro, que um livro ainda de moleque, aparentemente.
E não é que ele não tenha alguma capacidade. Ter ele tem uma pinta mínima pra coisa, um estilo simpático, que corre uns riscos respeitáveis e que se alça em alguma altura, por vezes.
A coisa é que me sinto em uma posição infinitamente confortável pra julgá-lo. Impressão de termos uma carga parecida, um mesmo mundinho imediato de referências. Não só no sentido rróque-anglofilia-quadrinhos-e-geekness, porque isso se divide com meio mundo, mas uma afinidade engraçadinha que até me dá impressão de entender com alguma precisão pra onde ele quer ir 90% do tempo. Não só que ponto ele quer carregar nos contos, mas mesmo os motivos pouco explicáveis por trás de detalhes pequenos de estilo, por trás dos nomes que ele escolhe e os adjetivos que usa. E é uma posição ruim pra ele. Fica exposto demais, coitado. Fico em cima de toda frase, chato pacas. E acaba que a prosa dele, que é simpática, me incomoda mais do que agrada.
Acho que lhe faria bem um amigo que desse peteleco na orelha, que cortasse as tentativas dele pela metade (nada desculpa, caralho, publicar um conto narrado em primeira pessoa por um hamster, e um que consegue ser ainda mais retardado do que a idéia supõe).
Os contos são curtinhos, nenhum personagem chega a ganhar braços e pernas, nenhuma idéia se desenvolve muito. O que seria perfeitamente debowa se o autor tivesse a força que acha que tem, se suas idéias e alegorias fossem tão fortes que resistissem a uma exposição tão crua.
Quase toda referência a influência pelo coitado do Kafka é exagerada, mas eu me arrisco, aqui, que ele tenha feito um estrago no Pelizzari. Não que ele tente exatamente sê-lo, mas há lá aquela mesma pinta (principalmente das Narrativas do Espólio). Ele poderia ter tirado a pala estilística de setenta lugares diferentes, mas o Kafka é uma porra dum sinal luminoso (e, olha, sendo o caso do Pelizzari ou não, ninguém deveria nunca tentar ser o Kafka, sério. Não é legal pra ninguém envolvido)
Mas, se pouca coisa funciona, quase nada chega a ser ruim, boa parte fica num nível agradável. Mesma impressão que tive com o Bernardo Carvalho, que me desapontou de um jeito parecido. No final das contas, melhor tê-los por aí do que não tê-los.

(e, aliás, eu estou sempre disposto a dar outras chances, é só alguém me comprar os outros livros dele, os que não estão de graça na internet)


*conheço stumble, lastfm e o caralho do bróder, mesmo tendo um interesse limitado. Ê doença.

Wednesday, December 19, 2007

A melhor música do ano
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se alguém estiver se perguntando.

Tuesday, December 11, 2007

João gilberto é muito massa
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Tanto que deu vontade de falar sobre, até:
É só comigo que ele às vezes dá impressão estranha de profundidade em letras que não tem ninguna? É uma profundidade falsa, você está - como em paradoxos místicos medíocres - basicamente confuso (com a repetição, sei lá, com o encadeamento engraçadinho de sílabas). Mas não deixa de ser legal, de fazer o truque.

(Mais do que isso e incorro em resenhista medíocre da Pitchfork, no Félix bêbado, então paro)

Agora de saída assim rapidinho ainda desejo feliz natal.
(apostando melancolicamente acá um Complete Calvin & Hobbes que o seu natal será certamente menos legal que o meu, assim como, suponho, devem ser a sua família e a sua vida)
Quanto vale o brasileiro?
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Paulista: 1
Capixaba/Amapaense/Acreano/Rondonense/Roraimense: ?
Sulista (fora as gata) : 2
Df:Natiruts
Matogrossense/Goiano/Paranaense/Alagoano/Baiano/Sergipano/Paraibano/Norte-rio-grandense:3
Piauiense/Maranhense/Cearense/Carioca/Amazonense/Paraense: 4
Tocantinense: não sei
Pernambucano: 5
Mineiro: 6

Critérios? vários. os corretos. sulista faz rock afetado, paulista nunca deu em poeta decente.
Você é mineiro? Não.
Isso significa que é válido sacrificar dois goianos por um mineiro, dois sulistas e meio por um pernambucano? Sim.

Sunday, December 02, 2007

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Tudo bem, corinthiano é, discutivelmente, corinthiano.
Agora imagina, faz favor, o que seria daquelas pessoas - pessoas já incrivelmente, irreversivelmente corinthianas - sem o corinthians? Agilulfos, Qliphoths. Cascas de risco profundo nenhum possível em sua vida de marginalidade e toucas de estivador.
Quem viu os marmanjos todos chorando hoje deveria entender. Não da dignidade na derrota, que os imbecis colunistas vão ficar martelando, mas da dignidade ser possível no corinthiano. E enquanto corinthiano. The Center Cannot Hold, eu sei. Estranho e inesperado, mas aquilo ali, aquilo ali era uns paulistas virando gente.
A primeira transmissão da tv digital no Brasil
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butseriouslynowfolks,

A maior força criativa do Borges era de associar citações e idéias alheias, além de pessoas inteiras, da maneira mais bonita possível (e não da mais precisa). Sair catando tudo da cacetada de coisas que leu pra dar jeito no mundo, que dava de cara com ele (imagino) todo argentino e suadinho. Lembrar de César enquanto em em uma conversa besta no elevador, de desertos enquanto em um café mais-ou-menos de Buenos Aires.
E não é um defeito, uma insuficiência, que a maior força dele venha quase sempre diretamente de outro qualquer. Quase ninguém é bicho-de-seda, e fazer o que ele faz requer uma habilidade do caramba. Acaba que das maiores graças que vejo em lê-lo, hoje, é de perceber isso, e imaginar aquele velhinho simpático vivendo através de Cervantes, Stevenson e Chesterton, de tigres imaginários. É uma seriedade inyrface que acho meio impossível em gente sensata da nossa geração, o que é uma pena. Borges devia ensinar algum tipo de reverência nessa garotada toda*.
De certa forma, mesmo sem saber, estamos todos citando Shakespeare e cia. o tempo inteiro, tudo bem. Mas ele parecia viver isso literalmente, perfazer a vida nisso. Chuto que como Carpeaux (ainda que não chegasse a ter a erudição dele), que praticamente guardou a cultura ocidental toda na sua cabeça pra ver se dava em alguma coisa. Um monstro gago tentando desempenhar mentalmente tudo que se conseguiu até agora e que funciona, tentando ser um exercício de tudo no Brasil.
Daria num personagem trágico tremendo. Acho curioso que Borjão não tenha, até onde li, tomado isso como tema diretamente. Acaba sendo a obra inteira dele, o que talvez seja mais legal.


*eu tenho oficialmente setenta e três anos de idade.