Tuesday, August 28, 2007

Generally, even then, I was lonely
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"Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os companheiros de espírito?"
(p'ssoa)

Rapaz, às vezes não há nem boguses o bastante.

Thursday, August 23, 2007

Kierkegaard is seriously unimpressed
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"The self cannot be escaped, but it can be, with ingenuity and hard work, distracted. There are always openings, if you can find them, there is always something to do. "
(Barthelme em Daumier)

O Barthelme fala essas coisas e é bonito e funciona pra caralho, mas seria mais difícil gostar tanto dele se ele não entendesse tão bem as falhas por trás das gracinhas que faz, se o tom não mantivesse espaço pra sentar e falar sério agora.
Como que alguém consegue ser tão irônico e não acabar impotente (até irresponsável) diante das coisas verdadeiramente importantes eu não entendo. Mas oh, rapaz, como consegue.

"Because that is not what I think at all. We have to do here with my own irony. Because of course Kierkegaard was "fair" to Schlegel. In making a statement to the contrary I am attempting to ... I might have several purposes - simply being provocative, for example. But mostly I am trying to annihilate Kierkegaard in order to deal with his disapproval.
Q:Of Schlegel?
A:Of me. "

Essa última frase falada pelo Ed Harris, de barba engraçada e óculos inteligentes, sério como cancro, em um clipe curtinho no telão do teatro Kodak, ao ser anunciada a sua indicação pro Globo de Ouro.

Sunday, August 19, 2007

See The Moon? It Hates us
(em forma de continho)

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Era uma festa (as pessoas até dançavam). Quantidades astronômicas de diversão a serem processadas, quantidades histéricas. Tudo informado por algum exagero, tipo oh, isso é tão divertido, essa música, a maneira como tiro um guardanapo de dentro do plástico, as minhas calças.

Eu, inclusive, dançava, ou fazia o possível nessa direção.

Uma menina particularmente bonita estava no meio de nós, e parecia impossível que houvesse uma menina bonita que eu não conhecesse. Não que eu tenha um conhecimento em especial compreensivo de meninas bonitas, mas os círculos de pessoas nunca se estendem muito além de um terreno reconhecível, quando não sabemos os nomes, sabemos as caras, os perfis na internet, em quantas pessoas nos ligamos até elas, temos já nossas reservas por motivos pequenos, importantes.

Todos nós cantávamos as músicas, escolhidas e aprovadas de uma maneira quase democrática a todo momento.

Eu não tento escolher nenhuma, certo de que todos olhariam para mim Como Você Ousa Escolher Isso, etc.

A menina bonita também cantava, mas cantava diferente. Não imitando a sonoridade, fazendo ao invés questão de enunciar as palavras da letra corretamente. Isso sobre imitar a maneira de quem-quer-que-seja de cantá-las. Com os olhos fechados de quem sente necessidade de enunciá-las, porque importantes. Eu decido que ela é a minha pessoa favorita do mundo.

Eu sou o tipo de retardado que fica percebendo essas coisas, em festas, e as enunciando para mim mesmo. Quando não as percebo, invento. Aquele rapaz finge beber com a mesma intensidade da garota mas quer que ela fique bêbada antes, eu concluo, baseado em porra nenhuma. Melhoro os diálogos que não consigo escutar, daqueles no fundo da sala.

Pessoas caem no chão, reforçando a idéia de que diversão está se dando em intensidade inimaginável. Aqueles caídos entendem, fazem o possível para continuar o seu desempenho. Alguns levantam de forma fantástica, outros continuam caídos indefinidamente, sem saber como sair da situação graciosamente. São pisoteados, e tudo mais.

Os mais talentosos desenvolvem as lógicas internas necessárias dentro dos núcleos dos quais fazem parte, os responsáveis por piadas internas que com esperança poderão ser lembradas no futuro, referências que substituam intimidade.

Eu consigo lograr uma, acho.


-Nunca experimentei bolo, decidi que tinha nojo quando moleque e agora tenho medo de experimentar e estar desistindo de uma parte essencial da minha personalidade, ou algo.
-Mesmo motivo pelo qual você não beija homens?
Ele sorri antes de responder:
-Tipo isso.


A menina continua existindo pra caralho. Estamos todos bem dispostos e aceitando músicas de todo tipo. Eu finjo que gosto de algumas, imponho umas linhas aqui e ali. Para a maioria, qualquer música é aceitável, apenas necessário achar a forma correta de entendê-la. Tento mostrar pra menina que estou dançando ironicamente uma delas, falando alguma coisa retardada, e ela reage da forma mais indefinida possível. Possivelmente está barulhento demais para manutenção de mais de um nível, percebo. Mesmo para níveis desse tipo.

Atrás de um absoluto, executo a dança do robô (gloriosamente, graças a um tutorial do youtube).


Alguém tenta me contar alguma coisa que se demonstra impossivelmente complicada, continuo sorrindo (o tom é de uma anedota engraçada) e olhando para a pessoa até que a história acabe. Em laranjas, em um professor estrangeiro de cálculo e alguma relação inusistada entre os dois. Estou tão longe de entender o que está acontecendo que não preciso me forçar a gargalhar junto com todo mundo.


A maioria delas desempenha tanta coisa e carrega tanta coisa nelas mesmas que é preciso apertar os olhos feito míope, esforçar-se para ver uma pessoa através. Lembrar que ela é provavelmente infeliz.

E no entanto umas não, umas nunca deixam de sê-lo, sem que você precise se esforçar. O são dolorosamente. Você as acompanha durante a noite, triste de não ser possível juntá-las em um grupo só. Notadamente a menina. Sobre quem você calcula tanta coisa. O efeito da piada interna estabelecida, a fertilidade potencial para futuras, infinitas, que tudo expliquem ou pareçam explicar.


Alguém parece contemplativo por um instante, até um flash denunciar ser uma pose para uma foto envolvendo outra pessoa, que em outro plano segurava uma garrafa de cerveja em posição sugestiva. Diversão documentada e prontos para prosseguir.

-Não é isso, eu sei que é palha neguinho morrer. Ainda mais trinta e poucos. Mas eu não sinto, saca? Toda morte parece impossível pra mim.
-Tô ligado.
-Principalmente a minha, né. Eu morrer é tipo o Homer Simpson morrer.
Na primeira vez é engraçado. Aí horas depois você ouve a pessoa repetir aquilo quase palavra-por-palavra. É evidente, e tudo mais, mas é sempre triste quando se evidencia com tanta força, a falta de espontaneidade geral, a impossibilidade de qualquer coisa espontânea.
(E não é como se fosse um crime gravíssimo, você sabe, sabe que provavelmente comete faltas parecidas sem perceber, mas ainda assim, ainda assim bebês e mulheres bonitas desaparecem silenciosamente em algum lugar, coisas perdem o efeito)


Decide-se informalmente que lá fora é onde se dorme, nas cadeiras de plástico. Apesar do frio, da chuva que nunca toma forma de chuva o bastante para que casacos e celulares sejam retirados.

Percebo que a menina juntou-se a nós, aos que dormem ou fingem dormir (eu sendo, até onde sei, o único membro do segundo grupo). Está escuro e longe o bastante para que não seja possível dizê-la acordada ou não, percebendo-me observá-la (e apropriadamente me achando assustador) ou não. A cara dela está escura, inexpressiva. Eu desisto.

Lembro-me de procurar pela lua, mas isso significaria me denunciar acordado, demonstrar-me ridículo, olhar de novo para ela até que me seja perguntado de uma cara no escuro para o que é que estou olhando (imagino isso sobre a garota, mas percebo razoavelmente transferível para a lua. em tudo isso nos desperdiçamos).

O vento dança a toalha devagar demais. Ele gira os copos de plástico sujos em círculos que nunca se formam inteiros, que mudam de direção como se de idéia (eu sei disso tudo apesar dos olhos fechados). Tudo se move como algo quase sendo dito.

Que ao menos a noite acabasse aqui, e não em um elevador, no caminho até o carro, na volta até a minha casa. Que eu já imagino, que eu já prefiguro absolutamente inexequível e que sei que na hora vai se dar do mesmo jeito que tudo se dá. A maneira desimportante e desapercebida que todo instante tem de carregar a si mesmo.