Friday, July 21, 2006

Views Of Thomas Pynchon Weeping
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Thomas Pynchon morre, atropelado por uma carruagem cheia de realistas histéricos que não percebem quem ele é.

Thomas Pynchon entra no elevador e encara o espelho, percebe que ele é Thomas Pynchon. Faz caretas, passa o dedo pelas sobrancelhas. Ri pra caralho.

Thomas Pynchon toma banho e considera a capacidade armazenadora de sua bexiga. Sabe que alguma coisa vai ceder, atravessa uma linha há muito estipulada consigo mesmo por motivos agora insondáveis, mijando no chuveiro.

Thomas Pynchon espera pelo troco na mercearia que frequenta semanalmente, a televisão ligada em um noticiário mostra o presidente. Imagina que seria simpático fazer uma piada infame. Encara o imigrante assustado, estica a mão para apanhar as moedas, sorrindo, a mente branca e muda.

Thomas Pynchon caminha sem rumo esperando pela hora de um almoço com um amigo, percebe-se perto de uma universidade familiar, vai atrás de salas conhecidas de muito tempo. Acabando dando por uma aula sobre literatura do século XX, olha no relógio e se pergunta se há tempo até ele aparecer.

Thomas Pynchon conversa com as mães dos colegas do seu filho, se esforçando para não ser muito descarado ao observar os decotes. Depois de um tempo, decide que não se importa.

Thomas Pynchon observa o seu filho dormir. Sem saber o motivo, dá um beliscão muito fraco na porção descoberta da perna do filho. Ele não reage. Pynchon belisca mais uma vez, e outra, cada vez mais forte.

Thomas Pynchon finge que está amarrando os cadarços para que a mesa esconda sua prospecção por pedaços de comida entre os dentes. Falha miseravelmente, uma criança o observando do outro lado do restaurante com um cara triunfante.

Thomas Pynchon visita o blog mantido sob um pseudônimo e dividido apenas com amigos próximos que também escritores, checa a caixa de comentários, que está vazia. Depois do jantar, checa mais uma vez.

Thomas Pynchon no chão de um banheiro, chorando. As pernas encolhidas de forma desconfortável, sua expressão distorcida no vaso e na pia sem que ele veja. Observando o padrão dos azulejos que se interrompe em umas falhas aqui e ali, pensando em um bando de coisa esquisita.

Thursday, July 13, 2006

Ela com certeza reagiria a uma aranha chamada cthulhu
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No meio de congressos, jantares oficiais e reuniões de cúpula, aulas de todo tipo e coisinhas sociais perfunctórias, todo mundo joga o sapato na parede, ou algo assim, a expressão inalterada e impassível. Beleza, não dá mais, não tá rolando. Acabou. A primeira pergunta que aparece é o que apareceria pra substituir a realidade. E deixam as ruas para governarem a si mesmas, e as televisões lá passando pra ninguém, deputados sem ter o que fazer. Saem pra viajar de carro 'pra qualquer lugar', afetando a espontaneidade de filmes, e sorriem enquanto observam a mulher adormecer no banco de passageiro. A segunda é se eles poderiam comer todo o chocolate que quisessem quando não houvesse realidade. Mostram uns molequinhos andando de bicicleta numa rua deserta, molequinhos andando de bicicleta é sinal de esperança, "Um final triunfante", diriam os resenhistas. Mas nem é, na verdade, depois todo mundo continua agindo como se as coisas ainda existissem, ninguém tem cojones pra desistir de verdade. Foi só mais uma desculpa pra ficar bêbado de manhã cedo. Alguns ainda tentam, umas tentativas de emular musicais espontâneos pelas ruas da realidade sobrevivem. Bancários tentando pular e bater os calcanhares. Todo mundo finge que não vê. Verdadeiramente tocantes foram os casais que acreditaram por muito mais tempo do que todo mundo, que aquelas ruas desertas seriam suas, que nenhuma voz atravessaria as paredes e as portas para acordá-los, a cama desarrumada para sempre. Mas a onda de chatice que investia desde sempre ganhou, algo sempre cede. Aí ficou todo mundo lá twilight zone pra caralho, dizendo com cara séria que sim, esse aí é o mundão de meu deus. Os olhos vazios e acusadores cantando músicas de protesto. E as expressões desalentadas na rua, os olhos se fecham por um instante, mas nem o vento, nada nos abandona. Carcaças semi preenchidas com nada pairando por trás, subindo e descendo escadas e cortando laranjas, defendendo teses. Mas aí um dia todo mundo tá vendo um filme, ou algo assim, e algum político ou sei lá atinge um grau de absurdice verdadeiramente insustentável, até ele começa a rir tal, fala foi mal ae, todo mundo ri pra caralho, vai lá pra fora, põe a mão na cintura e observa o sol se pôr, tomando sorvete de pistache e sorrindo e falando que sempre suspeitaram, relembrando dos trechos mais cretinos. Much rejoicing com a revolta da vacina, com o comunismo, com a história brasileira em geral. Uma candura que se impõe naturalmente, até personagens de Dickens entenderiam Dickens, Acácios ruborizados ririam naturalmente pela primeira vez. José Sarney, enfardado como imortal, quedando silencioso diante da irrealidade do seu próprio bigode. Os extremistas religiosos fazem pantominas imitando a si mesmos, oh, oh, vou fazer uma inquisição aqui rapidão. O outro faz que pilota um avião e cabum, todo mundo aplaude, apesar de mímica de avião ser basicamente a mímica mais fácil que rola, só pra você ver como todos estão bem humorados.
Uma criança arrisca A realidade nem tentava direito, né? Os pais sorriem orgulhosos, não mesmo, filho, cafuné e coisas assim de comercial de banco.
No fundo as coisas caminhavam pro elegante, alguém murmura para si mesmo enquanto calcula o abocanhamento de uma maçã. Pôr-do-sol verdadeiramente triunfante dessa vez, sem que ninguém bata palma, pessoas barulhentas silenciosas pela primeira vez, música ribombando nos morrinhos da realidade, pela primeira vez verdadeiramente floridos. Um momento de compreensão silenciosa absoluta. Chovem filhotes de cachorro. Aí aparece umas imagens do universo. Aí tudo desfalece e cai pra dentro e desmonta deixando ternos despreenchidos com cheiro engraçado. A cara familiar de deus diz olá.
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(err, eu não sou exatamente bom com títulos)